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Da febre amarela surgiu uma Fénix: a tragédia da febre amarela em Campinas – Século XIX

Por Prof. Dra. Janaína Valéria Pinto Camilo – Diretora da Faculdade de História da PUC-Campinas

Ainda na primeira metade do século XIX, a cidade de Campinas, no embalo da onda positivista, experimentava grandes transformações políticas, econômicas e culturais observadas, sobretudo, nas modificações da urbe. As famílias abastadas enriqueciam com a agricultura cafeeira e a cidade vivia em clima de requinte, tendo sido visitada por D. Pedro II em 1846. No ano de 1889,  Campinas recebeu pavimentação das ruas, calçadas, mercados, jardins, fontes, chafarizes, iluminação pública, rede de águas e esgotos, transportes para novos bairros, estabelecimentos de ensino, associações culturais, artísticas e recreativas, lojas de qualidade de influência francesa, instituições filantrópicas e assistenciais, associações esportivas, núcleos coloniais que se formaram com a vinda dos primeiros imigrantes europeus que substituíram o trabalho africano escravo, indústrias, tipografia, jornais, livrarias…

Acompanhando a onda de modernização, em 1872, Campinas recebeu a estrada ferro da Companhia Paulista, depois substituída pela Mogiana, que ligava a cidade diretamente à São Paulo, sendo o Porto de Santos o destino final, dinamizando, assim, a exportação do café.

Mas este ambiente moderno, rico e próspero foi quebrado pela epidemia de febre amarela. Durante alguns anos imaginava-se que a febre amarela era exclusiva das zonas litorâneas e que a Serra do Mar resguardava as cidades do planalto paulista. Entretanto, no ano de 1889, uma forte epidemia subiu a Serra e foi aparecer em Campinas, considerada então a capital agrícola da província. A partir desse momento a cidade acabou atingida por sucessivas epidemias em 1890, 1892, 1896 e 1897.[1]

No ano de 1889, estudos indicam que três quartos da população de Campinas, na época com aproximadamente vinte mil habitantes, deixou a cidade. Os mais abastados fugiam para outras regiões não atingidas pela epidemia. Outros, com menos posses, procuram se afastar da cidade, indo para a zona rural. A cidade ficou praticamente deserta, no espaço de 45 dias.[2]

Ficou a cargo da Junta Central de Saúde Pública, criada em 1850, arregimentar médicos que pudessem acudir a população de Campinas. Foi quando chegou à cidade Adolpho Lutz, que mesmo tendo ficado apenas dois meses (abril e maio) observou em suas Reminiscências sobre a febre amarela, publicada em 1930, que os mosquitos eram transportados pela estrada de ferro, fato comprovado por seus estudos comparativos dos atendimentos que realizou, em casos esporádicos e isolados, de febre amarela em funcionários do correio e da ferrovia e em pessoas que nunca tinham visitado Campinas.[3]

Estacao Mogiana 1890
Fonte: Campinas Virtual

O ciclo de contágio foi interrompido em 1897, com uma série de intervenções urbanas e obras de saneamento. “As ações afetaram diretamente a vida dos habitantes, não apenas melhorando a salubridade local, mas também criando problemas de ordem prática, como demolições, interdições e milhares de intimações para reformas de casas e prédios. Os cortiços e habitações coletivos foram combatidos tenazmente pela polícia sanitária, tão temida quanto a polícia comum, pois tinha o poder de deixar famílias inteiras desabrigadas”[4].

Ao lado dos hospitais, como a Santa Casa de Misericórdia e das enfermarias criadas pelo Circolo Ilaliano, várias sociedades foram criadas para atender a população pobre. Foi o caso da Sociedade Protetora dos Pobres, criada a 7 de abril de 1889. Em 1890, preocupado com o significativo aumento do número de órfãs das vítimas da febre amarela, o médico Francisco Augusto Pereira Lima fundou o Asilo de Órfãs, ligado à Santa Casa de Misericórdia. Além destas, foi criada em 1897, por iniciativa de Maria Umbelina Alves Couto, esposa do comerciante Antônio Francisco de Andrade Couto, com o apoio do Cônego João Batista Correia Néry e do casal Barão e Baronesa de Resende e de Francisco Bueno de Miranda, uma instituição para abrigar os órfãos da febre amarela.

Após 1897, os anos que se seguiram foram dedicados à recuperação da cidade: “A febre matou a cidade… Felizmente, os trabalhos de saneamento livraram-na do mal e pôde ela ressurgir das próprias cinzas, a repetir a lenda da fênix que, mui de proposito, figura no seu brasão de armas. Mas ressurgimento foi lento”[5]

A tragédia da febre amarela em Campinas, no século XIX, rendeu à cidade o apelido de cidade-fênix – a cidade sobrevivente -, mas que em pleno século XXI, ainda precisa lutar e renascer todos dias diante de uma iminente epidemia de febre amarela.

Largo do Rosario 1885
Fonte: Campinas Virtual

 

[1] http://www.bvsalutz.coc.fiocruz.br/html/pt/static/trajetoria/volta_brasil/campinas.php

[2] Ibidem

[3] http://www.bvsalutz.coc.fiocruz.br/html/pt/static/trajetoria/volta_brasil/campinas.php

[4] Campinas: cidade-laboratório da febre amarela. Blog de HCS-Manguinhos. [viewed 28 July 2015]. Available from: http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/campinas-cidade-laboratorio-da-febre-amarela/

[5] GODOY, João Miguel Teixeira de, MEDRANO, Lilia Inés Zanotti de, TRUJILLO, Maria Salete Zulzke et alii. Arquidiocese de Campinas: subsídios para a sua História. Campinas: Ed. Komedi, 2004, p.  40.

PUC-Campinas na década de 90

Por Wagner Geribello

Na última década do Século XX, a PUC-Campinas efetiva uma cifra de relevância especial, registrando 100 mil alunos formados, passando a integrar um grupo muito reduzido entre as Instituições de Ensino Superior do Brasil.

A marca de 100 mil formados, entretanto, não é o único ponto de destaque da História da Universidade registrado nos anos 1990, década lembrada, também, por outras realizações importantes, como a implantação do primeiro Doutorado, consolidando o programa de Pós-Graduação em Psicologia e do Mestrado em Urbanismo. Os anos1990 são lembrados, também, pela chegada aos quadros de colaboradores da PUC-Campinas de um dos mais importantes intelectuais brasileiros, o Professor Paulo Freire, considerado o maior educador do País, que passa a integrar o recém-criado núcleo de extensão em Educação.

O início da implantação da Carreira Docente e a ampliação dos projetos e ações voltados para a Pesquisa caracterizam a década, que, no entanto, começou muito instável no campo da economia, em especial por conta do Plano Collor e suas desastrosas consequências para a estabilidade econômica do País. Foram precisos exercícios ousados e complexos de gestão para contornar o cenário econômico pouco favorável, mas, mesmo antes do final da década, a Instituição volta a investir, por exemplo, na construção de novos ambientes onde se instalam a Faculdade de Serviço Social e o então Instituto de Ciências Exatas (posteriormente denominado Centro de Ciências Exatas, Ambientais e de Tecnologias – CEATEC), registrando-se, ainda, a ampliação das instalações da Faculdade de Educação Física. Do outro lado da cidade, no Campus II, mais investimentos, ampliando a capacidade do Hospital e Maternidade Celso Pierro (HMCP) para 30 mil atendimentos ambulatoriais e mil internações/mês.

PUC-Campinas nos anos 1990- Foto: Acervo do Museu da Imagem e do Som de Campinas
PUC-Campinas nos anos 1990- Foto: Acervo do Museu da Imagem e do Som de Campinas

O pioneirismo que vem marcando a História da Instituição, desde a sua fundação, verifica-se nos anos 1990, com a criação da Universidade da Terceira Idade, a partir de um projeto concebido na própria PUC-Campinas, com identidade e características próprias, até hoje tomado como modelo para implantação de entidades semelhantes.

Em 1º. de fevereiro de 1993, o professor Gilberto Luiz de Moraes Selber assume a Reitoria, focando sua gestão na continuidade da implantação do Projeto Pedagógico, iniciada na gestão anterior e responsável pela elevação dos padrões da Universidade no Ensino, na Pesquisa e na Extensão. A capacitação docente, com a instituição de horas/atividade, responde pela elevação da titulação do Corpo Docente e suas consequências imediatas na consolidação da PUC-Campinas como polo de produção e difusão do conhecimento.

Com a edição do Plano Real e o afrouxamento da inflação, a Universidade adere a novas formas de gestão, incorporando itens fundamentais para navegar com segurança e crescimento no novo cenário econômico, como a democratização da gestão e o planejamento estratégico, fixando metas de médio e longo prazo.

Nos anos 1990 verifica-se, também, aproximação maior da PUC-Campinas com sua irmã, a Universidade Estadual de Campinas, inclusive no plano físico, com a inauguração da Avenida dos Estudantes, unindo o Campus da Unicamp ao Campus I da PUC-Campinas.

Consolidada como Instituição de Ensino Superior de primeira linha e a marca de 100 mil formandos, verificada em 1995, a PUC-Campinas atravessa a década preparando-se para comemorar meio século de existência, pronta e disposta a enfrentar os desafios descortinados pelo Século XXI.

Wagner Geribello foi Professor na Faculdade de Jornalismo. Atualmente é Consultor do Jornal da PUC-Campinas

Resenha: Professores resgatam legado da Imprensa campineira

Por Tereza de Moraes

Em uma produção gráfico-editorial primorosa, a Editora Setembro, de Holambra, São Paulo, disponibiliza ao público a obra “A Imprensa em Campinas: retratos da história”, organizada pelos experientes professores Carlos Gilberto Roldão, Fabiano Ormaneze e Ivete Cardoso do Carmo-Roldão. Tal produção, certamente, atraiu e constantemente arrebatará muitos leitores não somente pela qualidade editorial, mas principalmente pelo tema que aborda com legitimidade e exatidão.

Profa Tereza de Moraes: “Trata-se de um obra de grande relevância”/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa Tereza de Moraes: “Trata-se de um obra de grande relevância”/ Crédito: Álvaro Jr.

Qualquer leitor, conhecedor do assunto ou leigo, encontrará o percurso histórico preciso da Imprensa em Campinas, em toda a sua abrangência, da origem (1858) até os dias atuais. Para tanto, a obra está dividida em doze capítulos, destacando um percurso diacrônico pela Imprensa em Campinas, analisando mais de um século de jornalismo, visitando tanto a Imprensa tradicional quanto a popular. A origem é o Diário do Povo (1912 a 2012), anexado posteriormente ao Correio Popular, fundado em 1927.

Nas competentes mãos de Ivete Cardoso Roldão e Carlos Gilberto Roldão, Marcel Cheida e Cyntia Andretta, três capítulos abordam a história completa da Imprensa tradicional campineira, desde a fundação até o presente momento, passando por todas as dificuldades, superações, bastidores, situações cômicas, culminando
com as transformações tecnológicas e a atual situação da conhecida Rede Anhanguera de Comunicação (RAC).

Já os três capítulos na responsabilidade de Juliana Sangion e Rose Bars, Luiz Roberto Saviani Rey e Paiva Jacobini desvelam com rigorosa precisão a presença na cidade das sucursais de grandes jornais da capital, seu significado, sua importância e sua contribuição.

Dois capítulos são destinados a esclarecer as experiências do Jornal de Hoje (de 1979 a 1981) e do Jornal de Domingo, um semanário que, durante vinte anos (1972 a 1993) chegou gratuitamente às residências dos campineiros. Nessa abordagem, Carlos Alberto Zanotti e Toledo-Vieira informam com dados confiáveis de pesquisa intensa e com muito bom humor a força da concorrência, num contexto histórico propício, entre a Imprensa escrita já consolidada e a inovação da rebeldia.

Molck tem a missão de revelar a imprensa contemporânea e o faz com profundidade e estilo peculiar. Expõe os traços marcantes da imprensa pós-intenet em todos os seus aspectos (linguagem, público, conteúdo…), simplificando ao leitor o contato com as experiências existentes (Metro e Destak). Chiquinho Jr. e Rosa revelam os traços do jornalismo popular existentes em Notícias Já, também um periódico pós-moderno, que justifica a permanência da Imprensa escrita mesmo após o advento das modernas tecnologias.

Os dois capítulos restantes, se não se encaixam somente nesse percurso diacrônico, nem por isso são menos relevantes. Ao contrário, em mãos de José Roberto Gonçalves e Fabiano Ormanze, fica a incumbência de tratar da polêmica entre Imprensa e discriminação. Gonçalves faz um estudo da imprensa negra (Getulino: 1923 a 1926) e a sua luta contra a discriminação em uma brilhante análise fundamentada nos estudos do discurso, demonstrando que fazer jornalismo é, antes de tudo, fazer política. Já Ormaneze presenteia o leitor com o último capítulo, revelando a participação das mulheres na imprensa, esclarecendo que tal presença começa tímida, através da utilização de pseudônimos, em
função do papel da mulher na sociedade androcêntrica e patriarcal, mas resulta em grandes reportagens.

Trata-se, portanto, de obra de grande relevância, recomendada tanto ao público em geral quanto aos especialistas da área do jornalismo, já que fundamentada em intensas pesquisas e muita reflexão crítica. Importante frisar que a relevância se estende ao fato de que a visão da Imprensa campineira nunca se distancia de uma contextualização mundial, podendo o leitor caminhar pela província sem perder de vista o universal. Nesse sentido, é uma obra para qualquer leitor do mundo, mas, sobretudo, para o leitor campineiro, que faz um verdadeiro ingresso ao túnel do tempo e revisita a Campinas antiga. No dizer machadiano, obra escrita com a pena da sabedoria, da paixão e da saudade.

Tereza de Moraes é Professora da Faculdade de Letras da PUC-Campinas

 

“Música é Deus na Terra”, diz Maestro que fundou Orquestra e Coral Universitário

Oswaldo Antônio Urban graduou-se em Filosofia, Direito e Orientação Educacional pela PUC-Campinas. Lecionou por 18 anos na Universidade e ajudou a fundar, nas décadas de 60 de 70, a Orquestra e o Coral Universitário. O Maestro regeu o Coral por 68 anos.

Por Eduardo Vella

“Só mesmo uma coisa tão maravilhosa como a música, que faz chegar até o homem a bondade e a divindade de Deus. Música é Deus na Terra”. É desse modo que o Maestro Oswaldo Antônio Urban define os seus 83 anos de vida dedicados às partituras e composições.

Aos 97 anos de idade, 68 deles devotados à regência do Coral PIO XI, o que lhe dá o título de “regente há mais tempo à frente de um mesmo coral”, outorgado pelo Ranking Brasil, Urban teve importante passagem pela academia, estudando e lecionando na PUC-Campinas. “Entrei na Instituição em 1949, no curso de Filosofia. Vim estudar na Universidade, pois tinha boa fama. Fiz também os cursos de Pedagogia e Orientação Educacional. Começou aí a minha vida de aluno dentro da PUC-Campinas”.

Maestro Urban esteve por 68 à frente do Coral Universitário/ Crédito: Álvaro Jr.
Maestro Urban esteve por 68 à frente do Coral Universitário/ Crédito: Álvaro Jr.

O Maestro exerceu o Magistério na Universidade de 1965 a 1983, quando se aposentou. À época, era Assessor da Reitoria e Diretor do Instituto de Arte e Comunicação, atual Centro de Linguagem e Comunicação (CLC).

Convidado pelo Arcebispo de Campinas e Reitor da Universidade Monsenhor Salim, Urban passou a dirigir a Faculdade de Música, que tempos depois integrou o Instituto de Arte e Comunicação, também coordenado pelo Maestro.

Urban nasceu em 1919 na cidade de Leme, cerca de 90 km de Campinas. Seus pais eram músicos e passaram para toda família essa paixão. Ele estudou também no Conservatório Musical Maestro Julião, em São Paulo e fez curso de música em Nápoles, na Itália. “Quando tinha 14 anos, o Maestro Salvador Bove, me colocou a batuta na mão e me fez dirigir o Coral que existia no Seminário. São 83 anos em que a música é a minha vida”, emociona-se.

Maestro Urban esteve por 68 à frente do Coral Universitário/ Crédito: Álvaro Jr.
Maestro Urban esteve por 68 à frente do Coral Universitário/ Crédito: Álvaro Jr.

Orquestra Sinfônica Universitária

Em 1960, associou-se ao Professor Luiz di Tullio, também convidado pelo Reitor, para formar uma Orquestra Sinfônica na Universidade. Seus alunos, que cultivavam a música clássica, constituíram grande parte dos primeiros e segundos violinos da orquestra. Eram chamados de “Os violinistas do Luizinho”.

Com a chegada do Maestro Benito Juarez à Orquestra Sinfônica de Campinas, que em 1974 passou às mãos da Prefeitura de Campinas, ocorreu uma dissidência de alguns músicos de grande projeção da Sinfônica e esses elementos foram integrar a Orquestra Universitária. “Um grupo ficou com o Juarez formando a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas e outro veio para a PUC-Campinas a meu convite para “engrossar” a Orquestra Universitária. Ela cresceu muito com isso”, orgulha-se.

“Fizemos em diversas oportunidades a PUC-Campinas brilhar com a Orquestra e o Coral Universitário, que eu fundei em 1965. Eles participavam das formaturas, da Aula Magna de início do ano letivo, do encerramento do ano letivo, no Teatro Central, na Rua Marechal Deodoro, e no Campus I”, ressalta o Maestro Oswaldo Antônio Urban.

A Orquestra Universitária teve fim com o falecimento do Maestro Luiz di Tullio durante um ensaio da Orquestra e do Coral para a formatura da turma de Engenharia, em 1977.

A fundação do Coral Universitário

O Coral era composto de alunos voluntários das várias Faculdades que compunham a PUC-Campinas. Ele foi fundado pela natureza da Faculdade de Música, com os alunos que estavam estudando. Mas isso se estendeu para os outros os cursos. “Assim se formou um Coral com mais de 50 elementos”, relembra.

 O Maestro busca no coração o dia da solenidade de inauguração do Campus I, em 1973. “Nessa data estavam vários Bispos, representando as autoridades eclesiásticas, principalmente Dom Antônio Maria Alves de Siqueira, o Bispo da época, o Reitor Prof. Dr. Benedito José Barreto Fonseca, que levou avante a construção do Campus”, salienta.

 Urban orgulha-se de ter composto para a ocasião o hino para da inauguração do Campus I – Música e Letra – executados pelo Coral e pela Orquestra Universitária.

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 O Maestro, personagem importante na história da Universidade deseja “que a PUC-Campinas continue resplandecendo pela Fé e pela Ciência, segundo os dizeres de seu brasão: Fide Splendet et Scientia.

Atualmente, a PUC-Campinas possui o Coral Universitário do Centro de Cultura e Arte (CCA) que realiza significativo trabalho de formação e divulgação cultural dentro e fora na Universidade. Esse importante canal de expressão artística, de busca do aperfeiçoamento musical e do desenvolvimento cultural de seus membros é um dos grandes legados do Maestro Oswaldo Antônio Urban, que plantou essa semente nos anos 1960.

Reportagem da TV PUC-Campinas

 

Editorial: Comunicação e História

Em 2005, dos seis mil calouros que entraram na PUC-Campinas, 52% vinham de outras cidades e boa parte deles se preparava para viver a experiência de morar fora da casa dos pais, incluindo a “república” como alternativa de residência. Enquanto isso, os veteranos, representados pelo Diretório Central de Estudantes, DCE, expunham críticas e reparos à Reforma Universitária, à época item de pauta do meio acadêmico brasileiro.

Quase 60 anos antes disso, em 1946 o casal italiano Pietro Maria Bardi e Lina Bo Bardi chegavam ao Brasil, iniciando uma jornada dedicada às artes, cujo ápice foi a criação do MASP (Museu de Arte de São Paulo). O tema foi tratado na tese de doutorado da professora da Faculdade de Arquitetura da PUC-Campinas, Vera Santana Luz, defendida em 2004.

Rememorando os anos de 1930, o neto adotivo do Barão de Itapura resgatou reminiscências do tempo em que morou no palacete que, na década seguinte, seria o primeiro campus universitário de Campinas.

Apesar de datas diferentes e temas diversos, os parágrafos acima têm um elemento comum: foram extraídos de matérias publicadas no Jornal da PUC-Campinas, que nesta edição dedica todo seu espaço às comemorações do Jubileu de Diamante da Universidade.

O Jornal é só um exemplo do compromisso de transparência e diálogo que a Instituição mantém com sua comunidade e com a sociedade em geral, mantendo, desde sua fundação, processos e recursos de comunicação, expondo fatos, ideias e posicionamentos nascidos no meio universitário ou de interesse da comunidade acadêmica.

Assim, no mais amplo sentido do termo, incluindo aspectos jornalísticos, comunicação é um item que se agrega com relevância a tantos outros que a Universidade cultiva e faz florescer desde sua fundação.

Em 75 anos, a comunicação na Universidade, voltada à comunidade acadêmica, alunos em especial e da Universidade, voltada à comunidade externa, acompanhou e divulgou os passos mais importantes e significativos dessa caminhada, como também abriu espaço para o cotidiano e as temáticas rotineiras, mostrando-se abrangente e permanente na missão de informar, sem nunca deixar de promover a interação entre os diversos componentes da comunidade acadêmica e desta com a sociedade.

A edição comemorativa o Jornal da PUC-Campinas resgata fatos e pessoas que se destacaram em75 anos de História, bem como abre espaço para manifestações diversas sobre o significado dessa História para os tempos presente e futuro da Universidade. Esse movimento reafirma e confirma que, nos seus diferentes modos de ser e fazer, com variados recursos, incluindo os mais atuais e modernos, de perfil informatizado, a comunicação destaca-se como preocupação precípua e valor de primeira grandeza da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Campinas anos 70, a era do concreto e do automóvel

Por Luiz Roberto Saviani Rey

Este artigo é o terceiro da série sobre os 75 anos da Universidade.

O início dos anos 1970 e todo o período que se estende até 1980 são marcados por uma revolução inédita no campo urbanístico e viário em Campinas, como também por inovações no processo político-administrativo, consubstanciadas pela transferência da sede de governo do Palácio dos Azulejos – o solar do Barão de Itatiba, do rico período cafeeiro -, para o moderno edifício da Avenida Anchieta, o Palácio dos Jequitibás.

Dos modestos alargamentos de ruas e avenidas centrais da década anterior, da construção do Viaduto Miguel Cury como grande obra, a cidade salta para rasgos de dimensões bem maiores e calcados no concreto, fazendo surgir extensas e rápidas vias expressas, pontes e viadutos que a dimensionam para seu destino de cidade do automóvel.

Consolidada como polo de investimentos nos diversos setores àquela altura, e em pleno desenvolvimento, sua administração resgata o Plano de Melhoramentos Urbanos de Campinas, desenvolvido pelo engenheiro Prestes Maia, entre 1934 e 1938, e instituído pelo Ato 118, de 1938, chancelado pelo então prefeito João Alves dos Santos. Um plano ousado destinado à construção de uma metrópole, ao tempo em que a cidade detinha estrutura acanhada e arcaica.

Prestes Maia, posteriormente prefeito de São Paulo, mostrou-se visionário e profético quanto às potencialidades de Campinas. Suas réguas e esquadros vislumbraram uma futura megametrópole e, sobre a planta daquela cidade ainda quase rural e modesta, havia ele lançando as bases do traçado urbano atual, preparando a urbe para a “Era do Automóvel”.

Comércio em Campinas na década de 1970/ Acervo do Museu da Imagem e do Som- Luiz Granzotto
Comércio em Campinas na década de 1970/ Acervo do Museu da Imagem e do Som- Luiz Granzotto

Seu plano apresentava um aspecto vinculado ao urbanismo funcionalista e higienista, com enfoque em conceitos de estética urbana e valorização da paisagem. Previa largas e extensas avenidas contemplando áreas futuras de ocupação urbana e promovendo interligações entre os quatro pontos cardeais. Um plano radio-concêntrico.

Com isso, e com uma nova visão administrativa imprimida nos governos Orestes Quércia e Lauro Péricles, são construídas, com vertiginoso vigor e em tempo recorde, obras viárias de porte e de alto custo, baseadas no concreto e em estruturas portentosas.

Construção do Hospital Mario Gatti em Campinas/ Acervo do Museu da Imagem e do Som - Luiz Granzotto
Construção do Hospital Mario Gatti em Campinas/ Acervo do Museu da Imagem e do Som – Luiz Granzotto

Surgem como elemento renovador a Via Expressa Suleste e sua dimensão de rodovia longa e de extenso viaduto (hoje a Via Lix da Cunha), ligando a Via Anhanguera ao Centro da cidade; surge a Via Norte-Sul, interligando a região do Taquaral, toda a Zona Norte, aos bairros da região do Proença.

O Viaduto São Paulo, conhecido como Laurão, entre o Centro e a região Leste, cobre uma extensão de mais de 350 metros na Avenida Moraes Salles, sobre a depressão formada pelo leito do córrego Proença. Obras que passam a integrar áreas e bairros distantes, anteriormente ligados por ruas estreitas, convencionais.

As vias abertas favorecem a expansão industrial/comercial e atraem o setor de serviços que se multiplica velozmente, fortalecendo o setor bancário e financeiro. Campinas expande seus limites para além da Via Anhanguera em vasta área residencial e comercial e ganha um Distrito Industrial de grandes dimensões, planejado em terreno próximo ao Aeroporto de Viracopos. Uma área com infraestrutura para abrigar dezenas de empresas de grande e médio portes. O Distrito atrai indústrias como a Mercedes Benz e a região ganha uma nova rodovia, a Bandeirantes.

Colocação de mastros na Caravela, na Lagoa do Taquaral / Acervo do Museu da Imagem e do Som-  Luiz Granzotto
Colocação de mastros na Caravela, na Lagoa do Taquaral / Acervo do Museu da Imagem e do Som- Luiz Granzotto

Na extensão dessas reformas revolucionárias, a revitalização do Parque Portugal, no entorno da Lagoa do Taquaral, revela uma cidade moderna e humana, e a construção do Centro de Convivência Cultural, com seu Teatro de Arena – na busca pela substituição do Teatro Municipal Carlos Gomes, demolido em 1965 -, faz reviver e coloca em ebulição a cultura campineira, com o acréscimo da Orquestra Sinfônica.

Feitos e efeitos de uma Campinas renovada e contemporânea em um período rico, em que a Pontifícia Universidade Católica de Campinas, a PUC-Campinas, recebe a bênção papal e ganha dimensão de universidade nacional!

Luiz Roberto Saviani Rey é Professor do Curso de Jornalismo da PUC-Campinas e autor dos livros: A maldição dos eternos domingos sem derby (romance de costumes); O retiro antes da Laguna – Taunay em Campinas (romance histórico); O menino herói da Guerra Paulista – O bombardeio de Campinas (romance histórico) e A crônica é jornalística e brasileira (didático).

75 anos: Décadas velozes de crescimento e transformações em Campinas

Por Luiz Roberto Saviani Rey

Duas décadas, dois marcos exponenciais na história de Campinas. Os anos 1950 e 1960 guardam em seus anais termos de expansão e de explosão urbanística e demográfica, de progresso sem limites, como nunca experimentados anteriormente. Um período de obras grandiosas para a acanhada ex-capital do café, de rasgos extensivos em suas estreitas vias centrais, a transfiguração positiva de uma urbe, agora berço a embalar uma metrópole gigantesca em breve futuro. Uma cidade com seu tecido social consolidado e resguardado pelo trabalho e o convívio de grandes empresários, negociantes, pequenos comerciantes, que a tornaram agradável e próspera.

Avenida Campos Salles/ Cartão Postal- Acervo Fotográfico-MIS-Campinas
Avenida Campos Salles/ Cartão Postal- Acervo Fotográfico-MIS-Campinas

Contudo, com o registro de duas perdas inestimáveis para seu acervo predial, perdas lamentadas pela imensa comunidade católica e pela população em geral: o desaparecimento de construções icônicas em sua malha urbana original: a consagrada Igreja do Rosário, na Avenida Francisco Glicério; a demolição do Teatro Municipal Carlos Gomes, entre as ruas Treze de Maio e Dr. Costa Aguiar, erigido em terreno ao fundo da Catedral Metropolitana.

A atividade cafeeira que constitui Campinas em uma espécie de capital econômica do País entra em colapso a partir de 1929, com a crise mundial produzida pela quebra da Bolsa de Nova York. Assim, a expansão da agroindústria algodoeira, reunindo capitais nacionais e estrangeiros, logo a seguir, permite a instalação de indústrias na cidade, e em 1950 estão presentes nos ramos mecânico, de materiais elétricos, químicos, de borracha e papelão.

Cartão Postal do ano de 1969- Acervo Fotográfico do MIS-Campinas
Cartão Postal do ano de 1969- Acervo Fotográfico do MIS-Campinas

Essa forte industrialização, associada ao lastro de riquezas deixado pelo rico período cafeeiro, torna Campinas um pólo extremamente atrativo à sedimentação de novas indústrias, de comércio variado e de serviços, amparados por um promissor entroncamento rodoferroviário, que aos poucos adensam sua demografia e tornam necessárias intervenções do poder público na construção de obras como o alargamento das ruas Campos Sales e Francisco Glicério.

O Viaduto Miguel Vicente Cury é uma das maiores obras viárias de Campinas

Na transição dos anos 1950 e 1960, já com intensa movimentação de automóveis particulares, de bondes e com o acréscimo de ônibus do transporte coletivo em bases contemporâneas para a época, Campinas se vê ante o dilema de demolir ou reter o crescimento. Desse dilema surge uma de suas maiores obras viárias: o Viaduto Miguel Vicente Cury, em forma circular, ligando o acesso pela Via Anhanguera e bairros da região Oeste ao Centro.

Nesse meio termo, desaparece em 1956 a Igreja do Rosário, construída em 1817, e que por muitos anos, no período imperial, fora a Matriz da cidade – enquanto a Velha Matriz, a histórica Igreja do Carmo, deteriorava e requeria reformas, e a Catedral Metropolitana, consagrada a Nossa Senhora da Conceição, ainda era erigida. Demolida para alargar as avenidas do progresso e reconstruída em seus moldes originais no bairro do Castelo.

Vista aérea do Centro/ Crédito: Balan- Acervo Fotográfico-MIS-Campinas
Vista aérea do Centro/ Crédito: Balan- Acervo Fotográfico-MIS-Campinas

Em conjunto com a construção do Viaduto Cury, Campinas ganha o Aeroporto de Viracopos, inaugurado em 19 de junho de 1960 com pista de 3.240m x 45m, construída para receber com segurança os modernos e suntuosos quadrimotores a jato de primeira geração: Dado interessante é que na mesma data Viracopos foi elevado à categoria de Aeroporto Internacional, por meio da Portaria Ministerial n.º 756, e homologado para aeronaves a jato puro.

O fim do Teatro Municipal Carlos Gomes

Mas é em 1965 que a cidade perde o Teatro Municipal Carlos Gomes, construído em 1930, um dos maiores do interior do País, com capacidade para 1.300 lugares. O prédio, em estilo eclético, supostamente sofrera abalos em sua estrutura e é demolido, deixando lacunas e incertezas na vida cultural da cidade por anos. Três anos depois, os bondes são retirados de circulação. Em contrapartida, o governo Estadual inaugura a Unicamp a partir de 1966.

É nesse contexto socioeconômico e cultural que Campinas abandona de vez suas feições coloniaisimperiais e veste sua indumentária moderna, uma cidade que pulsa e atrai seus primeiros fluxos migratórios, saltando de 70 a 80 mil habitantes para perto de 200 mil, do final dos anos 1960 para a década seguinte. Um crescimento demográfico inédito que irá a saltos mais velozes rumo à casa do um milhão de habitantes nas décadas subseqüentes. Nesse contexto, a Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) ganha impulso e alicerça de maneira sólida seu marcante futuro!

Prof. Luiz Saviani/ Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Luiz Saviani/ Crédito: Álvaro Jr.

Luiz Roberto Saviani Rey é Professor do curso de Jornalismo da PUC-Campinas e autor dos livros: A maldição dos eternos domingos sem derby (romance de costumes); O retiro antes da Laguna – Taunay em Campinas (romance histórico); O menino herói da Guerra Paulista – O bombardeio de Campinas (romance histórico) e A crônica é jornalística e brasileira (didático).

 

75 ANOS: História da PUC-CAMPINAS – anos 1960

Por Wagner Geribello

Extremos…

Talvez seja essa a palavra mais adequada para definir a década de 1960.

Internacionalmente, o período é marcado pela busca de ideais libertários e positivos, como a eliminação definitiva de qualquer forma de legislação racista, a valorização igualitária de gênero e a exaltação unilateral da paz. No extremo oposto, ocorrências como a polarização política e o começo de uma década de guerra e horror no Vietnã começam a cobrar um preço alto à toda sociedade.

Biblioteca Central em 1966/ Crédito: Museu da PUC-Campinas
Biblioteca Central em 1966/ Crédito: Museu da PUC-Campinas

Ao mesmo tempo e por consequência, perspectivas de estabilização democrática, almejada e esperada no início da década, evaporam na efervescência do radicalismo, trazendo, entre outros males, tortura, terrorismo e censura ao cotidiano nacional.

 Nesse período, a história da Universidade também conhece extremos, que vão da euforia de importantes conquistas, a perdas lamentáveis e momentos de insegurança.

Em 1962 é criado o Colégio de Aplicação Pio XII, para atender demandas da, então, nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que incorpora, paradoxalmente, propostas liberais e conservadoras, em parte descortinando horizontes positivos para a Universidade e, em outra, cerceando os espaços do livre desenvolvimento da atividade acadêmica.

Ativa e participativa, a juventude do período é inquieta, questionadora e muito curiosa, ensejando a prática do debate cultural, político, social, filosófico e científico no ambiente acadêmico.

Nessa época, multiplicam-se as ofertas de formação superior. Entre 1964 e 1966 são implantados os Cursos de Psicologia, Música e Ciências Administrativas, ao mesmo tempo em que são aprovados os Cursos de Biologia e Educação Física, bem como aqueles que formarão a espinha dorsal da área de Comunicação Social, atualmente integrada ao Centro de Linguagem e Comunicação.

Alunos do Curso de Geografia- Década de 1960/ Crédito: Museu da PUC-Campinas
Alunos do Curso de Geografia- Década de 1960/ Crédito: Museu da PUC-Campinas

 

Mas foi, também, nos anos 1960 que a Universidade perdeu seu primeiro reitor, com a morte de Monsenhor Salim, em 1968. Dois anos depois morreu Dom Paulo de Tarso Campos, ampliando a perda de pessoas chaves na história da Universidade em uma única década.

O modo mais indicado de reverenciar a perda dos seus fundadores foi a incorporação do espírito combativo e empreendedor daquelas pessoas, que dinamiza e consolida a Instituição.

A Universidade chega ao final dos anos 1960 com volume de alunos e multiplicidade de Cursos que já não são suportados pelas instalações físicas e estrutura administrativa e funcional existentes, de modo que a década, ao seu término, se faz incubadora das mudanças e do crescimento que teriam lugar nos anos 1970.

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Wagner Geribello é Doutor em Educação e Consultor do Jornal da PUC-Campinas

 

PUC-Campinas na década de 1950

Por Wagner Geribello

Os anos dourados do pós-guerra…

Assim ficou conhecido o período compreendido pelo segundo lustro dos anos 1940 e a década seguinte, marcado pela desmobilização militar e grandes transformações sociais, políticas, culturais e econômicas, como a consolidação da produção e comercialização de bens de consumo.

Nessa época, progresso e desenvolvimento também estão na ordem do dia, com o proporcional aumento da requisição de pessoal capacitado a atender as demandas da nova organização social, marcada, entre outras características, pelo desenvolvimento e consumo de tecnologia, que passa a integrar o cotidiano das pessoas.

O desenho social desse período reflete diretamente nas Faculdades Campineiras, que entram na juventude da sua história, vivendo tempos de crescimento, vigor e uma saudável ousadia à moda dos jovens, aceitando, enfrentando e vencendo desafios. Nessa época, a Instituição criada por Dom Francisco de Campos Barreto deixa para trás o acanhamento da infância, divisando novos e amplos horizontes.

PUC-Campinas na década e 1950- Acervo Museu da PUC-Campinas
PUC-Campinas na década e 1950- Acervo Museu da PUC-Campinas

Já contando com Cursos em áreas diferentes, como Letras, Filosofia, Biblioteconomia e Química, entre outros, as Faculdades Campineiras agregam a área da Saúde aos Cursos oferecidos, incluindo uma Escola de Enfermeiras (incorporada em 1955) e a Faculdade de Odontologia, criada em 1949. Nos anos subsequentes, um afã de obras ergue as instalações para o pleno funcionamento do Curso de Odontologia, incluindo laboratórios e ambientes para aulas práticas.

Em meados dos anos 1950, mesmo sem o título, a Instituição já tinha contornos de Universidade, incentivando os gestores, capitaneados por Monsenhor Salim, a intensificar contatos, negociações e muita argumentação para que a cidade de Campinas tivesse sua Universidade.

A crônica histórica da PUC-Campinas classifica Monsenhor Salim, em especial pela sua atuação nesse período, como verdadeiro “globe-trotter”, entre Campinas e Roma, levando solicitações e informações à cúpula da Igreja sobre as Faculdades Campineiras.

Em 1951, a comemoração de dez anos é feita em grande estilo, com a criação da Faculdade de Direito e, quatro anos depois, a cidade recebe a visita do Núncio Apostólico Dom Armando Lombardi. Discursando no salão nobre das Faculdades Campineiras, o representante da Santa Sé menciona a posição favorável de Roma à criação da Universidade Católica de Campinas.

O processo de elevação de um conjunto de faculdades à condição de Universidade Católica não é simples, carecendo do concurso de duas Instituições, o Governo Brasileiro, em especial o Ministério da Educação e a cúpula da Igreja Católica, em Roma. Por isso, a titulação não acontece em um único dia, mas resulta de diversos passos que vão consolidando a oficialização da Universidade, deixando o registro de diversas datas significativas no decorrer do processo.

Em 15 de agosto de 1955, Roma concede o título de Universidade, mas o reconhecimento canônico só acontece no ano seguinte quando, então, institui-se, oficialmente, a denominação de Universidade Católica de Campinas, que iria perdurar por quase duas décadas, até 1972, quando recebe sua denominação atual, Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Se a elevação à condição de Universidade foi o grande acontecimento daquela década, o período ainda registrou eventos importantes, como a visita do Ministro da Educação, Clóvis Salgado, em 1956, o registro de 1.500 alunos matriculados, nesse mesmo ano, e a integração à Federação Internacional das Universidades Católicas, em 1958.

Marcado, sobretudo, pelo desempenho de Monsenhor Salim, primeiro reitor da então recém-nascida Universidade, o período polarizado pelos anos 1950 consolida institucionalmente a Católica de Campinas e compõe um feixe de anos dourados da sua história.

Wagner Geribello é Consultor do Jornal da PUC-Campinas

Um destino pujante no Caminho de Goiazes

Por Luiz Roberto Saviani Rey

A cronologia histórica de Campinas, seus elementos de rápida progressão social, material e urbana, permite vislumbrar os cenários de sua rica evolução, os quais a conduziram ao portentoso núcleo metropolitano da atualidade, um município-sede regional com 1,2 milhão de habitantes e polo de alta tecnologia, concentrando universidades de elevado nível, como a PUC-Campinas, centros de pesquisas de excelência, além de institutos da área médica de causar inveja a países mais avançados.

Na realidade, o destino dessa Campinas pujante – uma Suíça em forma de cidade -, parece ter se desenhado desde o momento em que se rasgou a trilha de Goiazes, o caminho desde São Paulo que conduziu bandeirantes e tropeiros ao coração do Brasil, em busca de ouro e de riquezas. Desde os primórdios da Freguesia, de 1774, passando pela Vila de São Carlos, de 1797, até a elevação à categoria de cidade, em 1842, surgiu um modelo de desenvolvimento e de sociedade autônomo, progressista e voltado ao labor intenso.

Rapidamente, a região dos três campinhos – os descampados límpidos e amenos, cortados por córregos e cursos d’água, entre a vasta floresta de Mato Grosso – foi se transformando de pouso de tropeiros em um local propício ao progresso. Suas terras passam a ser exploradas intensamente, primeiramente pela cana-de-açúcar e, já a partir de 1842, pela cafeicultura.

É esse panorama de expansão rural e urbana que vai assombrar uma das figuras mais importantes do Império. Em abril de 1865, na qualidade de tenente-engenheiro e aos 22 anos, Alfredo Maria d’Escragnolle-Taunay, o Visconde de Taunay, aporta em Campinas com as tropas da Guerra do Paraguai, destinadas a lutar na Laguna. Logo, encanta-se com os progressos e proclama, entusiasmado, ante os imponentes solares, os cafés, e as vitrines de lojas da Rua Direita, ostentando rica indumentária e objetos europeus: “Mas que coisa afrancesada!”.

Prof. Me. Luiz Roberto Saviani/ Crédito Álvaro Jr.
Prof. Me. Luiz Roberto Saviani/ Crédito Álvaro Jr.

Uma exclamação qualitativa que se amplifica quando Taunay ingressa, assombrado, na Catedral em construção. Ele escreve 22 cartas ao pai, amigo de Dom Pedro II, pedindo apoio do imperador para a conclusão das obras. Na sua antevisão, o templo erigido com a fé dos campineiros, seria o mais imponente de todo Império.

Da passagem de Taunay à construção da ferrovia, em 1972, para escoar a produção cafeeira, e ao expirar do século XIX, Campinas torna-se a capital econômica do Brasil. Sob a égide do café pode influir na política nacional. Sua pujança atrai fazendeiros. Seus filhos, advogados, carregam os ideais republicanos, tornando-se figuras de destaque, como Bernardino de Campos que aqui se estabelece, Francisco Glicério e Manuel Ferraz de Campos Sales, entre outros. Campos Sales torna-se o terceiro presidente do estado de São Paulo, de 1896 a 1897 e o quarto presidente da República, entre 1898 e 1902.

A transição do século XIX para o século XX marca a ruptura com as condições coloniais ainda predominantes e estabelece novos contornos e modelos, trazendo configuração de uma cidade moderna, com novos estabelecimentos de ensino e com princípios de industrialização e de oferta de serviços do comércio. Com Orosimbo Maia na Prefeitura, de 1908 a 1910 e entre 1926 e 1932, Campinas terá o impulso que trará novas indústrias de base, cervejarias, empresas do setor imobiliário e a abertura de bairros como Botafogo, Guanabara e Castelo.

A Revolução de 1930, a tomada do Poder por Getúlio Vargas, desafia os barões do café. Em 1932, com bombardeios pelos aviões Vermelhinhos, a cidade é colocada no centro da Revolução Constitucionalista. Mais de dois mil voluntários lutam e são derrotados na Batalha de Eleutério, nas proximidades de Itapira, na divisa entre São Paulo e Minas.

Superados os traumas dos bombardeios, a cidade, retoma seu caminho de pujança e floresce, como nunca, como um importante entroncamento rodoferroviário a integrar a capital paulista ao interior do País. Nesse cenário, é fundada, em 1941, a Sociedade Campineira de Educação e Instrução, a nossa PUC-Campinas da atualidade, que tem, em 1942, a abertura solene de seus cursos, no Teatro Municipal Carlos Gomes. A implantação da PUC-Campinas é marco exponencial em um período auspicioso, em que dois novos prédios do Instituto Agronômico são inaugurados, bem como o edifício do jornal Correio Popular, além do Hospital Vera Cruz e do Cine Voga.

É uma década de acontecimentos marcantes. Em 1944, um incêndio destrói o Cine República, e, em 1946, a Biblioteca Municipal inicia suas atividades, ano em que é publicado o jornal A Defesa. Em 1948 é fundado o Coral Pio XI e a Orquestra Filarmônica de Campinas realiza seu primeiro concerto. É inaugurado o Estádio Moisés Lucarelli, o Edifício dos Correios e Telégrafos e a Via Anhanguera. Em 1949, institui-se a Semana Carlos Gomes e o Agronômico sedia a primeira reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). São efemérides que coroam a história e ajudam a solidificar uma Campinas rica e progressista.

Luiz Roberto Saviani Rey é Professor do curso de Jornalismo da PUC-Campinas e autor dos livros: A maldição dos eternos domingos sem derby (romance de costumes); O retiro antes da Laguna – Taunay em Campinas (romance histórico); O menino herói da Guerra Paulista – O bombardeio de Campinas (romance histórico) e A crônica é jornalística e brasileira (didático).