Arquivo da tag: identidade

EDITORIAL: 2016- um ano de conquistas

A edição 170 do Jornal da PUC-Campinas que fecha o ano de 2016 abre oportunidade para retomar e relembrar a quantidade, variedade e importância dos eventos que marcaram este ano, comemorando o Jubileu de Diamante. Trata-se, portanto, de um convite para rever as edições precedentes, que relatam em detalhes os colóquios, palestras, conferências e eventos comemorativos, trazendo para os auditórios da Universidade figuras de destaque do meio acadêmico nacional e internacional, assim como importantes representantes da Igreja, e da sociedade, todos responsáveis por momentos memoráveis de reflexão e troca de conhecimento como cabe ao ambiente universitário.

Dezembro também é tempo de Natal e a qualificação confessional da PUC-Campinas sugere o destaque do tema, que polariza esta edição.

Data maior da cristandade, o Natal marca-se pela celebração de caráter religioso e pela comemoração de perfil social, sobretudo no ambiente familiar, configurando, também, um período de reflexão espiritual.

Focada nesses aspectos, a última edição do ano colocou o Natal em pauta, trazendo artigos que refletem sobre a data, a exemplo do processo de mercantilização que descaracteriza e mesmo confronta a identidade religiosa do 25 de dezembro.

Os modos como a arte e a literatura se envolvem com o Natal também estão presente nas pautas preparadas pela editora Amanda Cotrim, incluindo considerações muito oportunas e apropriadas sobre o cinema inspirado em livros tematizados no Natal.

O espírito de Natal que se expressa em solidariedade é um outro tema com vez e voz  nesta edição, que mostra o envolvimento da comunidade acadêmica em campanhas em favor de parcelas mais fragilizadas da sociedade.

Além do Natal, também a política internacional integra a edição, nas considerações e análises da eleição de Donald Trump, que agradou alguns, desagradou muitos e surpreendeu quase todos, ecoando nas instâncias econômicas, diplomáticas, políticas e até culturais de todo o planeta.

Isso tudo e muito mais estimulam e legitimam a leitura atenta da última edição de 2016 do Jornal da PUC-Campinas, que é, também, portadora dos desejos da equipe editorial e dos colaboradores para que todos os leitores tenham um período feliz e repousante de férias, um ano novo de muita paz e um Natal comungado com amigos, familiares e entes queridos, acrescentando o compromisso de retomar nosso contato em 2017…

Até lá.

Crítica de Cinema: O Homem Elefante

Por Wagner Geribello

Tinha um nome, Joseph Merrick, mas era (e ficou, historicamente falando) mais conhecido como Homem Elefante. A história é real, aconteceu na Inglaterra vitoriana e, em 1980, foi transformada em filme por David Lynch, com John Hurt, Anthony Hopkins, John Gielgud e Anne Babcroft no elenco.

Portador de uma doença degenerativa que deforma 90% do seu corpo, Merrick mastiga o pão que o diabo amassou, exibido em um circo como “a mais degradante forma a que um ser humano poderia chegar”, despertando a curiosidade da massa ignara e rendendo alguns xelins de lucro para o dono do circo.

A vida de Merrick começa a mudar ao atrair a atenção do médico Frederick Treves, interessado em estudar e, na medida do possível, tratar do infortunado senhor.

Na trilha e nos trilhos desse enredo, Lynch compõe uma das melhores peças que o cinema já produziu sobre o preconceito e a maldade social em relação ao diferente, mostrando a facilidade com que as pessoas desprezam e fazem sofrer aqueles que, por uma razão qualquer, no caso a deformidade física extremada, fogem aos padrões sociais vigentes, seja de estética, seja de comportamento.

Muito tempo já passou desde que Treves retirou Merrick do circo e, repito a ressalva, na medida do possível, deu-lhe alguma dignidade, aliviando seu sofrimento, moral e físico (por conta da deformação, Merrick tinha problemas sérios de saúde, que iam da respiração à impossibilidade de deitar-se para dormir, passando por dores no corpo, dificuldade de locomoção e outros). Também já faz algum tempo que o filme foi produzido e exibido no circuito comercial. Todavia, as questões todas existentes na história e levantas por Lynch no filme continuam atualíssimas em uma organização social na qual os indivíduos se estranham por conta das diferenças de cor, aparência, características mentais e/ou cognitivas e até da orientação política, que leva o médico a recusar paciente e entidades representativas da classe endossarem esse tipo de comportamento social de troglodita.

Descontados alguns discursos cá e lá, de modo geral e na sua maior parte, a sociedade qualifica como estorvo e aberração portadores de deficiência e pessoas que, por qualquer razão, desviam do padrão vigente (obesidade, por exemplo). Salvo uns poucos aliados e contra muitos indiferentes e outro tanto de adversários, a aceitação, incorporação e valorização desse pessoal tem acontecido por méritos próprios, quer dizer, pela ação deles mesmos, no sentido de se imporem socialmente, mandando o preconceito para o lugar de onde nunca deveria ter saído… o ostracismo.

Assim, nesses tempos em que a individualidade é exaltada e as pessoas são estimuladas a competir, vendo no outro um concorrente, para qualificar a solidariedade como defeito de fracos ou ingênuos, filmes como o Homem Elefante são recomendados como gatilhos da consciência, para que a gente entenda, de vez por todas, que a única função social da diferença é que ela nos torna todos iguais.

Pesquisa rapidíssima na Rede mostrou dois endereços em que o filme pode ser encontrado (e assistido): aqui e aqui.  Talvez existam outros. Vale a pena ver e divulgar.

Wagner Geribello é Doutor em Educação e Consultor do Jornal da PUC-Campinas.

Inclusão escolar do aluno com deficiência

Por Claudia Gomes

Abordar o tema da inclusão escolar de alunos com deficiências é assumir que especificidades existem, e que devem ser consideradas, porém, é alertar também para a necessidade de elaboração de políticas públicas de acompanhamentos preventivos e interventivos nas diferentes esferas que compõem o desenvolvimento humano.

Segundo o Ministério da Saúde – Política Nacional de Saúde das Pessoas com Deficiência (BRASIL, 2009), não podemos desconsiderar que, dentre as possíveis causas das necessidades especiais, estão presentes as questões hereditárias, mas também as decorrentes da falta e da inadequação da assistência às mulheres durante a gestação e o parto, a desnutrição, as doenças transmissíveis e as crônicas, as perturbações psiquiátricas, os traumas e lesões, eventos esses que podem e devem ser evitados por meio de políticas públicas sociais de saúde.

Já no âmbito escolar, com a promulgação do Decreto n. 6.571 (09/2008), que regulamenta a Política Nacional de Educação Especial na perspectiva Inclusiva (BRASIL, 2008), não podemos desconsiderar que os amparos legais vêm possibilitando gradativamente a inclusão de alunos com deficiências no ensino regular. Entretanto, se por um lado as estatísticas parecem animadoras, por outro, não podemos deixar de considerar que o indicador de inclusão, quando delimitado pela realização da matrícula do aluno, não garante que a permanência e desenvolvimento do aluno, como proclamado pelos diferentes documentosr, de fato está sendo efetivado.

Neste sentido, um dos grandes desafios que cercam o debate da inclusão é a análise do processo na perspectiva do próprio aluno incluído. Ainda evidenciamos que seja pelo desconhecimento das necessidades e potencialidades destes alunos, ou pela supervalorização de suas características, a discussão das ações ainda estão embasadas em uma representação focada no “estereótipo do aluno perfeito”, no qual alunos com deficiência se distanciam por suas características físicas, cognitivas, sensoriais ou relacionais.

Abrir novos espaços de correspondência social para esses alunos, para que se identifiquem, é premissa para que venham a alcançar novas formas de representar seu desenvolvimento escolar, o que é ainda é desconsiderado pelas ações e práticas inclusivas nas escolas atualmente, ao focarem em suas ações metodologias conteúdistas e instrucionais, que por um lado privam e excluem a necessária relação humana que deveria caracterizar os processos educacionais e, por outro, ratificam a distinção da representação “de quem ensina e quem aprende”, “dos melhores e dos piores”; “dos eficientes e dos deficientes”.

Segundo Glatt (1991), os papéis atribuídos socialmente aos indivíduos com deficiências têm uma dupla função, servem tanto de ingresso e indicação ao local adequado onde eles devem se sentar, como também determina o script que o indivíduo terá que atuar em suas relações no “Teatro da Vida” (1991: 09).

Para tanto, de acordo com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Inclusão, o processo de inclusão deve propiciar o direito de cada aluno constituir sua própria identidade, ao mesmo tempo em que deve saber reconhecer essa identidade, os direitos de igualdade e respeito às diferenças dos outros (BRASIL, 2008). Efetivar a garantia de acesso, permanência e desenvolvimento de alunos com deficiências nas escolas regulares, possibilita a modernização das práticas pedagógicas, assim como um maior respeito à diferença e à diversidade dos alunos, para além da compreensão da escola como espaço de socialização, ou ainda, de práticas de compensação sociais.

Defender a análise do processo de inclusão na perspectiva do aluno deficiente é alertar para a necessidade de criação de interações pedagógicas, como condição central para repensarmos o processo de desenvolvimento humano, com a consideração dos sujeitos como ativos e construtores, com a devida exploração dos significados e da compreensão interpretativa acerca da alteridade.

Segundo Berger e Luckman (1976), a relação de socialização está intimamente ligada à produção emocional, no entanto, só se pode falar de interiozação, e portanto, socialização de fato, quando o indivíduo absorve os papéis e as atitudes dos outros como suas, quando há, primeiramente, um processo de identificação.

O processo de inclusão escolar deve propiciar um processo dialético entre a identificação do aluno deficiente com o outro e a auto-identificação de suas necessidades, ou seja, um processo tensional entre a identidade atribuída e a identidade apropriada. Neste caso, cabe ressaltar, que a identidade atribuída a alunos com deficiência só pode ser apropriada por este aluno atrelada ao mundo que a formaliza, ou melhor, esta identidade a ser apropriada só é possível em um meio que confirme esta auto-identificação, e a escola é o espaço pleno do desenvolvimento de tais relações humanas.

Claudia Gomes concluiu seu doutorado em Psicologia pela PUC-Campinas, onde pesquisou a posição do sujeito aluno na inclusão escolar. 

 

 

Mundo sem fronteiras? Livro-reportagem reabre debate sobre refugiados

Valeria Graziano se formou em Jornalismo na Universidade, trabalhou na ONU e, hoje, pesquisa questões que envolvem migrações e refúgios. Valeria conversou com o Jornal da PUC-Campinas sobre a imigração forçada, direitos humanos e xenofobia. Segundo ela, pesquisas mostram que o aumento da xenofobia na Europa, por exemplo, acontece justamente em momentos de crescimento econômico. Por isso, segundo Valeria, “a associação direta entre crise econômica e financeira com o aumento da hostilidade é uma falácia”. Confira a entrevista completa.

Por Amanda Cotrim

O ano era 2006. Valeria Graziano tinha 21 anos e estava no último ano da graduação de Jornalismo, na PUC-Campinas. Preparava-se para a realização do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Embora tenha decidido estudar jornalismo, Valeria sempre gostou das relações internacionais. Pensar questões relacionadas às migrações forçadas, conflitos armados, direitos humanos e globalização, balançava e ainda balança o coração da jornalista. A partir disso, não teve dúvidas: decidiu unir o jornalismo e as relações internacionais. O resultado foi o livro-reportagem “A esperança além da fronteira”, que teve orientação do Prof. Dr. Glauco Cortez. Em seu livro, Valeria contou a história de quatro seres humanos, de quatro países: Congo, Colômbia, Sérvia e Irã. Personagens/vítimas de guerra civil, conflito armado, perseguição étnica e religiosa. “Diferentes origens. Diferentes problemas. Mesmo destino: Brasil. Chegaram aqui sob a condição de refugiados. Ao atravessar a fronteira, os problemas não desapareceram. Apenas transformaram-se”, diz o livro. “Muitas vezes, os imigrantes são alvo de preconceito e intolerância no país que o ‘acolheu’”, denuncia Valeria. Para ela, a falta de acesso a informações sobre guerras e conflitos nessas partes esquecidas do planeta faz com que suas consequências se tornem também desconhecidas.

Valeria Graziano, ex-aluna da PUC-Campinas/ Crédito: Arquivo Pessoal
Valeria Graziano, ex-aluna da PUC-Campinas/ Crédito: ACNUR Brasil/V. Graziano

A relação de Valeria com os direitos humanos não se esvaziou no Trabalho de Conclusão de Curso. Depois de formada, a ex-aluna da PUC-Campinas trabalhou no Departamento de Comunicação da Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados no Brasil – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) e defendeu seu mestrado em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional, pela Universidade de Brasília. Atualmente, estuda Cultura, Política e Identidades na Universidade de São Paulo. Em 2015, quase 10 anos depois de Valeria ter escrito seu livro, o tema continua atual.  Confira a entrevista que o Jornal da PUC-Campinas realizou com a ex-aluna.

Por que esse tema “provocou” você enquanto cursava o último ano de graduação em Jornalismo?

Eu tinha 21 anos, estava no último ano da graduação em Comunicação Social – Jornalismo. Embora tenha decidido estudar jornalismo, sempre gostei muito do campo das relações internacionais e de pensar questões relacionadas às migrações forçadas, conflitos armados, direitos humanos e globalização. Cheguei à conclusão de que poderia unir as duas áreas para desenvolver meu TCC.

Conforme eu pesquisava os conflitos armados contemporâneos, ia descobrindo a realidade extremamente difícil em que vivem milhões de refugiados por todo o mundo, os quais sofrem ameaças permanentes, violências de todo tipo e violações sistemáticas de direitos humanos. E onde estavam esses conflitos e essas histórias na mídia tradicional brasileira? Naquela época, o grupo de refugiados que mais crescia no Brasil era o de colombianos. Apesar disso, a crise humanitária vivida no país vizinho era (e ainda é) invisibilizada pela mídia tradicional brasileira, que continua a comprar grande parte das matérias para seus cadernos internacionais de agências estrangeiras, as quais estão totalmente inseridas na lógica de interesses do capitalismo global. Cheguei à conclusão de que narrar as histórias de vidas de refugiados seria uma forma de dar visibilidade aos milhões de excluídos e vítimas diretas dessa nova ordem internacional, que continua a resultar em aumento de conflitos armados, guerras civis, perseguições a minorias étnicas e religiosas, torturas e massacres pelo mundo, os quais são constantemente ignorados pela mídia brasileira. Essa inexistência de informações sobre tais conflitos e de um debate crítico na mídia tradicional sobre suas causas, responsabilidade dos países desenvolvidos e dos organismos internacionais, bem como as consequências para a população civil, resultam em preconceito, intolerância e violência contra as principais vítimas dessa lógica: os refugiados.

 No livro você conta a história do Abdul*, que tinha 21 anos e nasceu no Irã, da Ana*, da antiga Iugoslava, da Karen*, da Colômbia, que na época tinha 17 anos e do Johnnie*, da República Democrática do Congo. Como foi o processo de apuração e do contato com as fontes? Você já conhecia essas pessoas?

(*) Os nomes dos refugiados das entrevistas foram trocados por questão de segurança.

Não, eu não conhecia nenhum deles. Aliás, até então, nunca tinha tido contato com nenhuma pessoa na condição de refúgio. Entrei em contato com a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, que é uma das organizações não governamentais que trabalha em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) no Brasil para prestar assistência humanitária e apoiar no processo de integração dos refugiados que chegam ao país. Estive diversas vezes no Centro de Acolhida para Refugiados mantido pela Cáritas, na cidade de São Paulo, em que pude conversar com os funcionários e também com refugiados que chegavam ao local. No processo de definição das histórias que contaria no livro, considerei importante abordar histórias de refugiados que chegavam de diferentes regiões e que fugiam por motivos diversos. Conto no livro a história de um refugiado da República Democrática do Congo, que fugiu da guerra civil que assolava o país na virada do século; de uma refugiada da Colômbia, país que vive uma situação de conflito armado e violência generalizada; de uma refugiada da Sérvia, que sofreu perseguição étnica durante o conflito nos Balcãs, na década de 1990; e de um refugiado do Irã, que foi vítima de perseguição religiosa em seu país, na década de 1980.

Foi muito importante durante esse processo o contato com o escritório do ACNUR, em Brasília, para que eu pudesse entender as questões jurídicas, ou seja, os tratados internacionais e legislações nacionais relativas ao tema, a ter acesso às estatísticas oficiais sobre refúgio no mundo e no Brasil, e a entender melhor como funciona o trabalho desenvolvido pelo ACNUR e a articulação com as instituições nacionais – governamentais e não governamentais – envolvidas no processo de acolhida, reconhecimento do status de refugiado e no processo de integração local.

Qual foi o maior desafio na realização do livro reportagem?

Realizar as entrevistas e fazer com os refugiados contassem em detalhes suas histórias com certeza foi o maior desafio, especialmente com relação àqueles que estavam a menos tempo nessa condição de refúgio, já que era muito difícil para eles relembrar todo o sofrimento vivido, a perda de familiares e amigos, as violências de que foram vítimas, tudo que deixaram para trás.

O que mais tocou você?

Todas as histórias me tocaram muito, não tem como não se sentir chocada diante de tanta injustiça, violência, violação de direitos básicos, e indignada ao lembrar que os responsáveis pelas decisões políticas nacionais e internacionais que geraram tais situações de violência generalizada ou perseguições individuais em sua maioria seguem impunes.

Ainda tem contato com as personagens/vítimas?

Não. Logo depois que terminei a graduação, me mudei para Brasília e acabei perdendo o contato com eles.

Precisamos de uma democracia que seja verdadeiramente intercultural/ Crédito: Arquivo Pessoal
Precisamos de uma democracia que seja verdadeiramente intercultural/ Crédito: ACNUR BRASIL/ V. Graziano

Apesar de o seu livro ter sido escrito em 2006 (há quase 10 anos), o tema ainda é bem atual.

Infelizmente, ainda é muito atual. Naquele ano em que escrevi o livro (2006), o total da população de preocupação do ACNUR (refugiados, solicitantes de refúgio, deslocados internos, apátridas) chegava a 19 milhões – incluindo 9,2 milhões de refugiados reconhecidos pela ONU e 5,6 milhões de deslocados internos, que são aquelas pessoas que são obrigadas a fugir pelos mesmos motivos que os refugiados, mas que não chegam a atravessar fronteiras internacionais, ou seja, fogem para outras regiões dentro do seu próprio país. De acordo com os últimos dados, esse total ultrapassa atualmente 42 milhões pessoas. No dia 20 de junho, quando é celebrado o Dia Mundial do Refugiado, o ACNUR lançou seu relatório anual e apresentou números ainda maiores. O que chamou minha atenção ao comparar os números de 2006 com os atuais é o impressionante crescimento no número de deslocados internos, o que revela não apenas mudanças nas características dos conflitos, mas também as consequências das políticas migratórias cada vez mais rígidas nos países desenvolvidos e o aumento da intolerância e da xenofobia em todo o mundo na última década. E, ainda, o contínuo crescimento da população total de preocupação do ACNUR demonstra o grande fracasso da resposta da comunidade internacional diante do aumento das situações de conflito armado e de crises humanitárias nas últimas décadas. Embora tenham crescido em número e tipos as operações de paz e humanitárias da ONU em todo o mundo, a população civil continua a ser a principal vítima desses conflitos.

A partir da sua experiência na área profissional e acadêmica, como você avalia o clima de hostilidade que os brasileiros vêm promovendo em relação aos imigrantes, principalmente os oriundos de países ditos mais pobres, como Haiti e da África? Por que isso ocorre e o que deve ser feito para combater a intolerância e o preconceito em relação aos imigrantes?

Em primeiro lugar, é importante ressaltar que esse aumento da hostilidade com relação ao estrangeiro, o aumento da xenofobia e da violência contra o imigrante ou refugiado, infelizmente é percebido atualmente não apenas no Brasil, mas em muitas partes do mundo, especialmente após os atentados terroristas no início do século nos Estados Unidos (2001), Madri (2004) e Londres (2005). Esses atentados legitimaram e deram força aos discursos mais conservadores e que têm resultado em políticas migratórias mais rígidas, bem como na criminalização e na securitização da questão da imigração. As correntes políticas anti-imigratórias passam a articular terrorismo, crimes transnacionais e imigração irregular, e a noção de ameaça iminente e a necessidade de proteger o Estado contra essas ameaças fazem com que esses discursos se proliferem. Assim, passam a fazer associar “islamismo” e “terrorismo”, por exemplo, e chegam a resgatar o discurso da “pureza racial europeia”, o qual num passado bastante recente resultou em grandes tragédias para toda a humanidade. É importante ressaltar, ainda, que algumas pesquisas mostram que o aumento da xenofobia na Europa, por exemplo, acontece justamente em momentos de crescimento econômico, por isso a associação direta entre crise econômica e financeira com o aumento da hostilidade é uma falácia, a questão é muito mais complexa. Não são as lógicas econômicas e financeiras diretamente que geram essa hostilidade – aliás, os trabalhos realizados por imigrantes têm sido fundamentais para o crescimento econômico em muitos países desenvolvidos -, mas as decisões políticas nacionais e no âmbito dos organismos multilaterais, as quais resultam em processos de exclusão social, étnica e cultural. Por isso entendo que o aumento da xenofobia é um problema político, social e cultural, e não apenas econômico, embora todas essas lógicas estejam intrinsicamente relacionadas.

Falando especificamente do Brasil, o que existe é um grande desconhecimento com relação aos conflitos contemporâneos e às situações que resultam em crises humanitárias, violência generalizada e perseguições. Esses conflitos e crises são ignorados pela mídia tradicional do país e, quando aparecem nas notícias são tratados a partir das informações oficiais produzidas por governos ou pelas agências internacionais, o que resulta em uma postura pouco ou nada crítica por parte da mídia e no tratamento superficial dessas questões. Como consequência, existe também um grande desconhecimento sobre o que é ser refugiado. E o desconhecimento, somado ao crescimento dos discursos políticos anti-imigratórios que associam a imigração irregular com o terrorismo e com crimes transnacionais, resulta em medo, preconceito, violência, xenofobia.

Por isso é tão importante e urgente o debate sobre a regulação da mídia no Brasil. É preciso repensar o papel e a responsabilidade dos veículos de comunicação. É fundamental também o investimento em políticas públicas nas mais diversas áreas que promovam a educação intercultural, políticas públicas que não apenas incluam a diferença de maneira formal e burocrática, mas que promovam a valorização e a inclusão dessa diferença nas estruturas do Estado e da sociedade. Os discursos oficiais sobre diversidade ou multiculturalismo revelam-se insuficientes e continuam restritos aos âmbitos da educação e da cultura. É preciso pensar essa questão da diferença de maneira mais ampla, com vistas a construir uma democracia que seja verdadeiramente intercultural.

O aumento da xenofobia é percebido não apenas no Brasil/ Crédito: Arquivo Pessoal
O aumento da xenofobia é percebido não apenas no Brasil/ Crédito: ACNUR BRASIL/ V. Graziano

Em sua opinião, por que o Brasil é uma escolha para esses imigrantes?

Temos que diferenciar as migrações da condição de refúgio. Embora a imigração também seja em geral forçada, ou seja, as pessoas se sentem pressionadas pelas condições econômicas e sociais a abandonar seus lares para tentar construir uma nova vida em outros países, ainda assim é uma condição diferente do refúgio. No caso do refúgio, a pessoa não tem escolha, ou ela foge, ou vai morrer, seja por um contexto de violência generalizada, ocasionada por um conflito armado, por exemplo, seja por uma perseguição individual devido à sua religião, etnia, orientação sexual, etc. No caso do refúgio é muito difícil que a pessoa consiga escolher o país de destino. Ela está vivendo uma situação de ameaça, de perigo iminente, e foge para onde consegue. Na década de 1980, cresceu significativamente o número de refugiados angolanos no Brasil, os quais fugiam da guerra civil e chegavam ao país pela proximidade linguística e cultural. Chegam também refugiados de diversos outros países africanos, muitos deles vêm escondidos em porões de navios e descobrem que estão no Brasil somente ao desembarcar. No caso da Colômbia e do Haiti, a proximidade geográfica contribuiu para a vinda de uma significativa população para o país. Além disso, muitos outros refugiados chegam ao Brasil por meio do programa de reassentamento do ACNUR, ou seja, chegam como refugiados em países e por algum motivo não podem continuar nele – seja porque esses países não reconhecem seu status de refugiado ou porque continuam a sofrer ameaças -, eles são reassentados pelo ACNUR em um terceiro país, e o Brasil faz parte desse programa de reassentamento.

Numa situação como essa, percebemos que o mundo não é tão sem fronteiras assim…

Não mesmo. Tenho pesquisado bastante sobre essas contradições inerentes à globalização – ou melhor, globalizações, no plural – e, em especial, à sua fase mais recente, marcada pelo capitalismo global. Embora esses processos mais recentes relacionados ao fenômeno da globalização tenham criado um fluxo de capitais e mercados sem precedentes, as fronteiras se fecham cada vez mais para os seres humanos. É preciso lembrar que a globalização é um processo bastante desigual, assimétrico. Enquanto uma minoria, especialmente em países desenvolvidos, se beneficia das facilidades promovidas pela globalização, por outro lado, as fronteiras têm se tornado muito mais rígidas para as populações mais pobres do planeta, as quais deixam para trás suas famílias para tentar construir uma nova vida em outro país, mas que acabam barradas pelas políticas migratórias. As barreiras são cada vez mais altas e fortes especialmente naqueles países responsáveis pelas decisões políticas e econômicas tomadas no âmbito dos organismos internacionais e que resultam em intervenções e conflitos internos. E, quando as vítimas desses conflitos conseguem atravessar uma fronteira internacional, as barreiras permanecem não mais como um muro de concreto, mas a partir da criminalização de sua condição e de sua identificação como imigrante ilegal e, de maneira mais profunda e complexa, na forma de barreiras simbólicas, ou seja, os imigrantes e refugiados continuam a sofrer com as políticas migratórias rígidas, que dificultam a integração, a busca por um trabalho, com a violência do Estado, e também com a xenofobia e o preconceito das populações locais. As fronteiras simbólicas estão ali, presentes no dia a dia de um migrante ou refugiado. Estamos muito longe da possibilidade de construção de uma cidadania universal, embora os entusiastas da globalização falem em desaparecimentos de todas as fronteiras.

SERVIÇO:

O livro A Esperança além da Fronteira, de Valeria Graziano, está disponível para consulta na biblioteca da PUC-Campinas, no Campus I da Universidade.

Informações em: (19) 3343-7058