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Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade

Integrando as comemorações dos 75 anos da PUC-Campinas, a Universidade realizou de 7 a 10 de novembro de 2016 o Colóquio “A Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade”

 

Por Amanda Cotrim

O Colóquio “A Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade” proporcionou um debate importante e cada vez mais necessário para a sociedade: a valorização do ser humano e o papel da Igreja diante desse tema. O evento, organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas, aconteceu no Auditório Cardeal Agnelo Rossi, no Campus I, e contou com conferências e mesas-redondas as quais discutiram temas como História e Conceitos Fundamentais, Justiça e Paz, Ciência, Fé e Transcendência, o Bem Comum e a Dignidade Humana e o Mundo contemporâneo.

A abertura do evento recebeu a Conferência “A Doutrina Social da Igreja: História e Conceitos Fundamentais”, ministrada pelo Bispo da Diocese de Jales, Dom José Reginaldo Andrietta, com mediação do Prof. Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves.

O Bispo de Jales elogiou a iniciativa da PUC-Campinas em discutir o tema da Doutrina Social e ressaltou a importância da aproximação do mundo acadêmico com a realidade social, em todas as suas circunstâncias. Segundo ele, é nesse sentido que sua conferência contribui para pensar o papel da educação e da universidade.

Nos dias que se seguiram, os participantes também puderem acompanhar a Conferência do Arcebispo Metropolitano de Campinas e Grão-Chanceler da PUC-Campinas, Dom Airton José dos Santos, a qual contou com a mediação do Prof. Dr. Peter Panutto, intitulada “A Doutrina Social da Igreja: Justiça e Paz”.

Na oportunidade, Dom Airton enfatizou a importância e a necessidade da universidade católica para o convívio social. “Precisamos pensar qual sociedade estamos construindo, para que ela, sim, seja digna do ser humano e não o contrário, pois todas as nossas ações devem ter em vista o ser humano, uma vez que o pensamento social da Igreja traz o humanismo como alicerce”, defendeu Dom Airton.

O Grão-Chanceler da PUC-Campinas também destacou que a justiça se mostra fundamental na contemporaneidade. Para ele, a justiça se exerce diante de pessoas concretas e não de protocolos. “Só há justiça quando há solidariedade e amor”, justificou.

O público também pode conferir a mesa-redonda “Ciência, Fé e Transcendência”, ministrada pelo Prof. Dr. Ir. Clemente Ivo Juliatto, da PUC-Paraná, e pelo Prof. Dr. Newton Aquiles Von Zuben, da PUC-Campinas, com mediação do Prof. Dr. Glauco Barsalini, da PUC-Campinas.

Colóquio “A Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade”  - Conferência – “A Doutrina Social da Igreja: História e Conceitos Fundamentais” Dom José Reginaldo Andrietta – Bispo da Diocese de Jales
Doutrina Social da Igreja foi o tema do Colóquio da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr. 

O evento, segundo o Coordenador do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião, Prof. Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves, realçou a relação Igreja e Sociedade, mostrando, assim, a tradição eclesial, confirmada no Concílio Vaticano II. “O tema do Colóquio toca em questões pertinentes do ponto de vista mundial, mas também nacional e local, como, por exemplo, o tema da paz, do trabalho, da propriedade privada e da liberdade religiosa. Além disso, o Colóquio teve um caráter interdisciplinar, pois a Doutrina Social da Igreja não se restringe a área da Teologia, mas aborda o Direito, a Economia, as Ciências Sociais, a Filosofia e a Comunicação”, destacou.

Direitos da pessoa humana

O Colóquio “A Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade” trouxe para uma das suas mesas-redondas, um tema atual: a discussão sobre os direitos da pessoa humana no contexto dos processos migratórios internacionais. Para esse debate, a Universidade contou com a mesa-redonda “A Doutrina Social da Igreja: o Bem Comum e a Dignidade Humana”, com o Prof. Me. Paulo Moacir G. Pozzebon, da PUC-Campinas, e com Coordenador do Centro de Estudos Migratórios da Missão Paz e docente da Itesp-SP, Prof. Dr. Pe. Paolo Parise, com mediação do Prof. Dr. Pe. Edvaldo Manoel de Araújo, da PUC-Campinas.

Para o Professor Pozzebon, é preciso que os bens e serviços produzidos mundialmente sejam acessíveis a todos os seres humanos, ressaltando a importância do bem comum e os direitos do homem sobre os quais diz o Papa Francisco.

Na mesma linha, porém numa perspectiva específica da imigração, o Coordenador do Centro de Estudos Migratórios da Missão Paz da Igreja Católica criticou o que ele chamou de “lógica sanguessuga”, em que alguns países “sugam” outros em benefício próprio, fazendo referência à exploração da força de trabalho de imigrantes em todo o mundo. “Não podemos pensar que o imigrante é motivo dos problemas das nações, pois esse pensamento legitima a exploração”, destacou.

A última Conferência do Colóquio aconteceu no dia 9, com o tema “A Doutrina Social da Igreja e o Mundo Contemporâneo”, presidida pelo Prof. Dr. Pe. Marcial Maçaneiro, da PUC-Paraná, com mediação do Prof. Me. José Donizeti de Souza, da PUC-Campinas.

O Colóquio teve encerramento com a Celebração Eucarística, em comemoração aos 75 anos existência da Faculdade de Filosofia, presidida por Dom Airton José dos Santos, na Catedral Metropolitana de Campinas.

Para o Vice-Reitor da Universidade e integrante do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas, Prof. Dr. Germano Rigacci Júnior, o Colóquio “A Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade” conseguiu promover uma reflexão sobre sistemas, se relacionando, segundo ele, com a discussão sobre a Encíclica Ladauto Si’, tema discutido no Colóquio do primeiro semestre de 2016, também na PUC-Campinas

Agnelo Rossi: Generosidade e vocação para ensinar

PUC-Campinas homenageia o Cardeal Dom Agnelo Rossi durante semana comemorativa e dá seu nome ao auditório do CCHSA 

Por Amanda Cotrim

Uma semana comemorativa que poderia ser definida com suas palavras: emoção e admiração. Foram esses sentimentos que guiaram os cinco dias de evento da Semana Cardeal Agnelo Rossi, a qual ocorreu do dia 12 ao dia 16 de setembro, no novo auditório do Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (CCHSA) – que a partir de agora se chamará Auditório Dom Agnelo Rossi – e no Auditório Dom Gilberto, ambos no Campus I.

Todos que participaram das homenagens ao Cardeal, puderam conhecer um acervo inédito das roupas usadas pelo religioso, em uma exposição promovida pelo Museu da PUC-Campinas. Também puderam saber quem foi Dom Agnelo pelos olhos de seu sobrinho, o docente da Faculdade de Direito e desembargador, Francisco Vicente Rossi. “Meu tio foi um homem visionário, um professor generoso”, lembrou. Durante o evento, também se destacou a importância de Dom Agnelo Rossi na vida da PUC-Campinas. “Foi o primeiro Vice-Reitor da Universidade e inaugurou o Campus I, quando a Instituição recebeu o título de Pontifícia e deixou de ser Faculdade Católica”, ressaltou Rossi.

Para o Arcebispo Metropolitano de Campinas e Grão-Chanceler da PUC-Campinas, Dom Airton José dos Santos, “Dom Agnelo Rossi está presente nos espaços da Universidade. Não é possível pensar a PUC-Campinas sem pensar Dom Agnelo”, afirmou. E continuou: “Tudo que ele plantou, estamos colhendo”, referindo-se aos bonfrutos semeados pelo ex-Reitor.

Um dos maiores nomes da Igreja Católica

 Dom Agnelo Rossi foi Presidente da Comissão Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e anunciado Cardeal pelo Papa Paulo VI, em 1965. Recebeu a investidura no dia 25 de fevereiro desse mesmo ano, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, tomando posse desse título na Igreja Grande Mãe de Deus, em Roma, no dia 27 de fevereiro de 1965.

Em virtude de seus acentuados trabalhos episcopais, foi convocado pelo Papa Paulo VI, em outubro de 1970, para fazer parte da Cúria Romana, como Presidente da Congregação da “Propaganda Fide”, hoje conhecida como “Evangelização dos Povos”, um dos mais importantes Dicastérios da Santa Sé, supervisionando todo trabalho missionário da Igreja, em razão do qual percorreu 98 países, em visitas pastorais.

Em abril de 1984, o então Papa João Paulo II o nomeou Presidente da Administração do Patrimônio da Sé Apostólica. Foi nomeado Cardeal-Bispo de Sabina – Poggio – Mirteto, eleito Decano do Sacro Colégio Cardinalício e Cardeal-Bispo da Primeira Diocese de Roma, Ostia Antica. Em 07 de junho de 1993, voltou ao Brasil, fixando sua residência em Helvetia, dedicando-se à escrituração de seus livros. Construiu as Igrejas de Nossa Senhora de Guadalupe e São Miguel Arcanjo no bairro do Matão, em Campinas.

Cardeal de São Paulo participa de homenagem a Dom Agnelo Rossi

Dom Odilo Scherer esteve na PUC-Campinas para homenagear o Cardeal Dom Agnelo Rossi/ Crédito: Álvaro Jr.
Reitora, Dom Odilo Dom Airton e Prof.  Rossi/ Crédito: Álvaro Jr.

Dom Odilo Scherer esteve na PUC-Campinas, no dia 15 de setembro, para homenagear o Cardeal Dom Agnelo Rossi. Na ocasião, Scherer, que foi seu sucessor como Arcebispo de São Paulo, ressaltou os trabalhos do religioso na Congregação de Solidariedade aos Povos, destacando a vocação internacional de Dom Agnelo. O Cardeal de São Paulo também lembrou que Dom Agnelo foi nomeado Bispo com menos de 40 anos de idade, o que é, segundo ele, muito raro nos dias de hoje.

“Ele organizou a Arquidiocese em regiões episcopais, nos anos 1960, uma década de grande expansão demográfica brasileira. Ele foi visionário, pois criou depois as dioceses, em razão desse crescimento urbano”, explicou Scherer.

Após sua participação no evento, o Arcebispo de São Paulo falou ao Jornal da PUC-Campinas. Segundo ele, Dom Agnelo deixou muitas marcas na Igreja e por isso ele deveria ser lembrado, como são os grandes homens. “Fico muito feliz pela oportunidade de estar aqui e ajudar a lembrar de quem foi Dom Agnelo”, opinou.

Núcleo de Fé e Cultura

 A PUC-Campinas inaugurou, em 2015, seu Núcleo de Fé e Cultura, uma prática já adotada pela PUC-São Paulo, em que Dom Odilo é o Grão-Chanceler. Sobre a importância dessa iniciativa, o religioso afirmou que a universidade católica traz a inspiração da doutrina católica e a universidade é o espaço que congrega diversas visões de mundo e até mesmo de religiões. “Houve um tempo em que se dividia Fé e Ciência. Hoje isso não é mais possível. Penso que ambas não se excluem, no entanto, é preciso refletir sobre como uma está em conexão com a outra. São duas abordagens diversas sobre a mesma realidade, que não se contradizem, mas se complementam. O Núcleo de Fé e Cultura tem esse papel de reflexão e é muito importante em uma universidade católica”, concluiu.

 

75 anos de base para os próximos anos

 Para o Arcebispo Metropolitano de Campinas e Grão-Chanceler da PUC-Campinas, Dom Airton José dos Santos, a Universidade forma pessoas que fazem a diferença na sociedade.

Por Amanda Cotrim

O papel da Igreja Católica na educação formal brasileira é histórico, desde a época dos jesuítas. Esse compromisso para com a formação da sociedade se expandiu ao longo dos anos, passando por escolas, faculdades, centros de pesquisa, institutos de ensino e Pontifícias pelo Brasil. A PUC-Campinas é uma dessas instituições de saberes que surgiu para contribuir para o desenvolvimento da Região Metropolitana de Campinas e, hoje, para o país, por meio da produção do conhecimento, de novas perspectivas, análises e soluções, numa sociedade cada vez mais complexa. Segundo o Grão-Chanceler da PUC-Campinas, a presença da Universidade na história é perene. “Nosso objetivo é com o futuro. Esses 75 anos constituem a base dos próximos anos”.

Qual é a importância da participação da Igreja Católica na educação formal brasileira?

 É importante retomarmos os primórdios da Igreja Católica no Brasil, com a vinda dos portugueses. A primeira preocupação dos jesuítas foi trabalhar a formação e a educação da população; então, há mais de 500 anos a Igreja Católica promove a educação, com escolas, centros de pesquisas, faculdades, institutos de ensino e, mais recentemente, as Pontifícias pelo Brasil. Isso denota a responsabilidade que a Igreja tem com a formação das pessoas e com o desenvolvimento da cultura e do conhecimento. A importância da Igreja Católica na educação formal do Brasil é de primeira linha.

Como o senhor avalia esses 75 anos de história da PUC-Campinas?

Nestes 75 anos, a presença da PUC-Campinas tem sido marcante na história da cidade de Campinas e da região. Desde o seu início, na década de 1940, por inspiração do Bispo Dom Barreto (um dos idealizadores da PUC-Campinas) e de Monsenhor Salim (primeiro Reitor da Universidade), a Igreja sempre se preocupou em contribuir com a formação das pessoas e com o desenvolvimento local e regional. A presença da PUC-Campinas na história é perene.

Nosso objetivo é com o futuro. Esses 75 anos constituem a base dos próximos muitos anos que virão. E a PUC-Campinas permanecerá em cada época da história contribuindo de modo significativo para o desenvolvimento da sociedade.

Nesse contexto histórico em que vivemos, a Universidade tem muito a contribuir, com análises, perspectivas e soluções. A realidade está aí para ser enfrentada, com inteligência, competência, e a PUC-Campinas tem tudo para oferecer isso.

O que podemos destacar como excelência da Universidade?

 Em primeiro lugar, destaco a qualidade das atividades de ensino promovidas pela Universidade, em todos os níveis, incluindo o Colégio de Aplicação PIO XII, como o grande diferencial. Essa excelência, constatamos na atuação dos alunos formados nas diferentes áreas de conhecimento oferecidas pela Universidade, como por exemplo, professores, engenheiros, médicos, desembargadores, juízes, que além de demonstrarem a competência profissional, destacam-se pelo comprometimento com a construção de uma sociedade mais justa e solidária, nos vários níveis: municipal, estadual e nacional.

Destaco, ainda, a presença da PUC-Campinas na área da saúde e sua importância para a comunidade, por meio das atividades desenvolvidas pelo Hospital Universitário (Hospital e Maternidade Celso Pierro), que traduz, na prática, a missão da PUC-Campinas. Os profissionais da área da saúde, tanto da Universidade quanto do Hospital, são homens e mulheres de alta competência, que trabalham para produzir o melhor para a sociedade. Eu destaco que o Hospital da PUC-Campinas tem algo que poucos hospitais oferecem: o ambiente propício para profissionais se desenvolverem e, principalmente, o atendimento à população; um atendimento que não enxerga classe. Atendemos as pessoas porque são pessoas. Antes de sermos cuidadores, oferecemos um serviço que anda escasso na sociedade: a caridade. Servimos às pessoas porque elas são feitas à imagem e semelhança de Deus. Finalmente, ressalto que a excelência da Universidade revela-se também no crescimento da Pesquisa e da Iniciação Científica, que levam à produção do conhecimento e, com isso, à criação de novos cursos de Mestrado e Doutorado.

Gostaria que o senhor deixasse uma mensagem para os alunos e professores da PUC-Campinas que lerão esta entrevista.

 Os alunos quando buscam a PUC-Campinas é por algo que vai além de uma escolha circunstancial. Eles já têm no coração alguma expectativa, um chamado, ou porque alguém da família estudou na Universidade ou porque sabe da qualidade da Instituição. Então, a partir disso, gostaria de dizer para os alunos que a PUC-Campinas não é apenas uma instituição educacional, mas uma escola de vida, em que o aluno desenvolve uma visão de mundo, de futuro e recebe uma formação que vai além do conhecimento profissional, porque eles serão pessoas que vão interferir na sociedade, “como gente” e não como um competidor, vão trabalhar para que possamos viver numa sociedade que seja boa para todos.

Para os professores, eu digo: vocês são aqueles que introduzem os alunos ao conhecimento. Por isso, devem acompanhar, subsidiar e dar condições para que os alunos ampliem seus horizontes. O testemunho de um bom mestre não se mede apenas pelo conteúdo estudado, mas pelo cuidado que tem com a aprendizagem do aluno e o seu desenvolvimento como pessoa. O corpo docente da PUC-Campinas tem essa capacidade de apontar caminhos para que os alunos sejam grandes. Se o estudante não superar o seu professor, assumindo o protagonismo da sua formação, esse professor não foi bom. O discípulo deve superar o seu mestre.

Coluna Pensando o Mundo: Campanha da Fraternidade 2016

Por Pe. João Batista Cesário

“Casa Comum, Nossa Responsabilidade” é o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano, animada pelo lema retirado de um versículo da profecia de Amós: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça como riacho que não seca” (Am 5,24). Ecumênica, esta Campanha é organizada pela quarta vez pelas Igrejas que integram o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC -, precedida pelas Campanhas de 2000, 2005 e 2010.

O objetivo geral desta Campanha é garantir o direito ao saneamento básico para todas as pessoas e comprometer os cristãos, à luz da fé, no empenho por “políticas públicas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum” (Texto Base CF-2016, n. 26). Dentre os objetivos específicos destacam-se os propósitos de “unir Igrejas, expressões religiosas e pessoas de boa vontade na promoção da justiça e do direito ao saneamento básico; estimular o conhecimento da realidade local em relação aos serviços de saneamento básico; incentivar o consumo responsável dos dons da natureza, principalmente da água; […] acompanhar a elaboração e a execução dos Planos Municipais de Saneamento Básico; […] [e] desenvolver a compreensão da relação entre ecumenismo, fidelidade à proposta cristã e envolvimento com as necessidades humanas básicas” (Id.).

O debate acerca do saneamento básico, proposto para a sociedade pelas Igrejas cristãs envolvidas nesta Campanha, se justifica porquanto, atualmente, “as preocupações no âmbito do saneamento passam a incorporar não só questões de ordem sanitária, mas também de justiça social e ambiental” (Ibid., n.33). E tudo que interessa à vida humana, de igual forma deve interessar à comunidade cristã. Afinal, como ensina o Concílio Vaticano II, as alegrias, esperanças, tristezas e angústias da humanidade, sobretudo dos pobres e daqueles que sofrem, são também as alegrias, esperanças, tristezas e angústias dos cristãos, de forma que não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no coração da Igreja de Cristo (Cf. Gaudium et Spes, n. 1).

Com efeito, alguns dados acerca das condições de saneamento no Brasil são alarmantes. Senão vejamos: de acordo com levantamento do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento Básico (SNIS), de 2013, mais de 100 milhões de brasileiros ainda não têm coleta de esgotos nos locais em que moram; somente 39% dos esgotos coletados são tratados; e diariamente são despejados na natureza o equivalente a 5 mil piscinas olímpicas sem tratamento – a depender da profundidade, uma piscina olímpica comporta aproximadamente 2.500m3 de água! (Cf. Texto Base CF-2016, n. 40)

Além disso, de acordo com o sistema de informações do Ministério da Saúde, DATASUS, em 2013 foram registradas mais de 340 mil internações no país causadas por infecções gastrointestinais, decorrentes das precárias condições de saneamento a que boa parte da população brasileira está submetida.  Em 2014, de acordo com estudo do Instituto Trata Brasil e do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, cerca de 300 mil pessoas se afastaram do trabalho por conta de diarreias resultantes da baixa qualidade do saneamento básico disponível à população, o que implicou a perda de 900 mil horas de trabalho (Ibid. n. 42.97). As crianças são as maiores vítimas da falta de saneamento, uma vez que “substâncias tóxicas e bactérias provocam alergias respiratórias, nasais, intestinais e de pele que vão permanecer com essa criança por muito tempo. As crianças mais afetadas são aquelas que têm entre 0  e 5  anos” (Ibid. 99).

A Palavra de Deus nos ensina que a natureza e todos os elementos criados são dons de Deus e a humanidade é responsável por sua preservação, de forma a garantir o bem comum, a vida abundante para todos. Os profetas bíblicos, como Amós e outros, denunciam a perda da harmonia e do equilíbrio nas relações dos homens com Deus, dos homens entre si e destes com a natureza. Na perspectiva profética, direito e justiça é recolocar as coisas no devido lugar, restaurar a integridade da criação segundo o projeto original de Deus.

Por isso, nesta Campanha, as Igrejas cristãs nela comprometidas, desejam reacender no coração da sociedade o empenho pelo cuidado da criação, como responsabilidade decorrente da fé. Atitudes bem concretas são propostas, como conhecer bem a realidade do saneamento nas cidades em que habitamos; promover educação para a sustentabilidade; conhecer as estruturas legais existentes para poder participar efetivamente do encaminhamento das questões do saneamento; adotar o reuso da água e a utilização da água da chuva; cuidar do manejo dos resíduos sólidos, entre outras.

Enfim, como se canta no Hino da CFE deste ano, “justiça e paz, saúde e amor têm pressa / mas, não te esqueças, há uma condição: / o saneamento de um lugar começa / por sanear o próprio coração”. Trata-se, então, de promover grande mudança de perspectiva na sociedade, de romper com o egoísmo  individualista, para retomar o caminho da solidariedade e do compromisso com o bem comum, do interesse coletivo, da solidariedade comunitária, para garantir direito, justiça e vida para todos!

Pe. João Batista Cesário- Pastoral Universitária

Artigo: O ano da misericórdia

Por Pe. João Batista Cesário

No início do ano, o Papa Francisco anunciou a realização de um Jubileu Extraordinário da Misericórdia, a acontecer de 8 de dezembro de 2015 até 20 de novembro de 2016. “Pensei muitas vezes no modo como a Igreja pode tornar mais evidente a sua missão de ser testemunha da misericórdia” – afirmou o Papa. “Por isso decidi proclamar um Jubileu Extraordinário que tenha no seu centro a misericórdia de Deus. Será um Ano Santo da Misericórdia. Queremos vivê-lo à luz da palavra do Senhor: ‘Sede misericordiosos como o Pai’ (Lc 6,36)”.

Foto Artigo Ano da Misericordia

Na tradição bíblica, a celebração do jubileu estava associada à propriedade da terra e ao perdão das dívidas, de forma que, segundo o Livro do Levítico, a cada 49 ou 50 anos o povo de Deus deveria celebrar um ano sabático, durante o qual a terra não seria cultivada e aqueles que tivessem perdido a sua propriedade deveriam retomá-la nesse ano. No fundo, estava a concepção de que o Senhor é o verdadeiro proprietário das terras, enquanto os israelitas seriam apenas seus usuários. Bem por isso, o monopólio da propriedade da terra era uma das mazelas sociais denunciadas pelos profetas. A tradição cristã católica herdou a prática dos jubileus dos israelitas, mas deu-lhe um significado mais espiritual, todavia, com aplicações bem concretas também.

No texto de convocação do Jubileu, a Bula Misericordiae Vultus (O rosto da misericórdia), o Papa afirma que determinou o dia de seu início no marco do cinquentenário da conclusão do Concílio Ecumênico Vaticano II, encerrado em 8 de dezembro de 1965. Segundo o Papa, a Igreja sente a necessidade de manter vivo esse acontecimento, pois ali começava para ela uma etapa nova de sua história. “A Igreja sentia a responsabilidade de ser, no mundo, o sinal vivo do amor do Pai” (MV, 4) – afirma.

O Ano Santo da Misericórdia ocorre em continuidade às intuições do Concílio, para ajudar a Igreja a redimensionar sua missão a partir da misericórdia. “É determinante para a Igreja – afirma o Papa – e para a credibilidade do seu anúncio que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. A sua linguagem e os seus gestos […] devem irradiar misericórdia […] onde houver cristãos, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia” (MV,12).

“Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai […] com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa, Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus” (MV,1) – diz o Papa. E aponta em várias passagens dos Evangelhos como “em todas as circunstâncias, o que movia Jesus era apenas a misericórdia” (MV,8). Ademais, em toda a Sagrada Escritura, “a misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para conosco. […] A misericórdia de Deus é a sua responsabilidade por nós” (MV,9).

Por isso, a celebração do Jubileu da Misericórdia inclui algumas ações que expressam o comprometimento de quantos desejam mergulhar, de fato, no amor misericordioso de Deus. Assim, a peregrinação, a celebração da reconciliação e a prática de obras de misericórdia corporal e espiritual são algumas das atividades características do Ano Jubilar.

A peregrinação é um ícone do caminho que cada pessoa realiza na sua existência (MV,14). O sacramento da Reconciliação “permite tocar sensivelmente a grandeza da misericórdia” (MV,17), é fonte de paz interior para os penitentes e exigência para os confessores. As obras de misericórdia permitem-nos “abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais” (MV,15) – diz o Papa. Entre as obras de misericórdia corporal estão “dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos” (MV,15). Entre as obras de misericórdia espiritual destacam-se “aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, rezar a Deus pelos vivos e defuntos” (MV,15).

A experiência da misericórdia é tão decisiva que o Papa lança um convite às pessoas que pertencem a grupos criminosos no mundo para que mudem de vida, uma vez que a violência empregada para acumular dinheiro transpira sangue e não garante poder legítimo para ninguém. O mesmo apelo é dirigido às pessoas “fautoras ou cúmplices de corrupção, [pois] esta praga putrefata da sociedade é um pecado que brada aos céus” (MV,19).

Por fim, o Papa recorda que a experiência da misericórdia ultrapassa os limites da Igreja Católica e nos coloca em relação com o Judaísmo, o Islamismo e outras “nobres tradições religiosas”, tornando-nos abertos ao diálogo e capazes de superar o fechamento, o desprezo, a violência e a discriminação (MV,23).

Enfim, a celebração desse Jubileu é um grande desafio para os cristãos e toda a humanidade, pois há inúmeras situações no mundo que precisam ser transformadas à luz da misericórdia de Deus. Em âmbito mundial se destacam o drama das migrações forçadas que transformam milhares de pessoas em refugiados sem pátria e o flagelo do terrorismo praticado por organizações fanáticas e pseudoreligiosas, como o autodenominado ‘Estado Islâmico – EI’, que amam mais a morte do que a vida. Em âmbito local, entre outros dramas, se destacam a situação das vítimas do rompimento das barragens em Mariana-MG; o extermínio cotidiano de milhares de jovens pobres, vítimas de balas perdidas, da violência policial, do consumo de drogas, acidentes de trânsito e outros males; e a persistência de práticas preconceituosas (racismo, machismo, entre outros) que agridem os diferentes e os vulneráveis.

Nesse contexto marcado por violência, dor e mortes, é oportuno, pertinente e urgente o apelo do Papa para a celebração de um Ano Santo da Misericórdia – tempo favorável para o perdão, a compaixão e a reconciliação. Que neste Ano sejamos todos “misericordiosos como o Pai”.

Pe. João Batista Cesário é Coordenador da Pastoral Universitária

 

“Uma universidade católica se distingue pelo cultivo e promoção dos valores éticos”, afirma Presidente da CNBB

Em entrevista ao Jornal da PUC-Campinas, o Presidente da CNBB, que esteve na Universidade, no dia 21 de setembro, fala sobre o Concílio Vaticano II e a contribuição da universidade católica para a formação humana

Por Amanda Cotrim e Eduardo Vella

Pela primeira vez, o Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e arcebispo de Brasília, D. Sergio da Rocha, veio à PUC-Campinas, no dia 21 de setembro, participar do Colóquio “A Universidade Católica à Luz do Concílio Vaticano II”.  Durante sua passagem pelo Campus I, D. Sérgio, concedeu entrevista exclusiva ao Jornal da PUC-Campinas, na qual ressaltou que a Igreja se faz diálogo e que por isso ela não deve se fechar nela mesma e nem deve ter uma postura de dominação ou controle social, imagem essa que não condiz com a eclesiologia do Vaticano II, e nem seria possível numa sociedade plural e complexa, como é a atual. D. Sérgio também destacou que o diálogo e o serviço da Igreja podem ser efetivados através do recurso das mídias sociais. “Nelas, o respeito à pluralidade não deve implicar em exclusão da perspectiva religiosa ou na negação da identidade católica. É preciso assegurar o direito à liberdade religiosa, o reconhecimento da importância da fé na vida das pessoas e na cultura brasileira”

O Arcebispo é Mestre em Teologia Moral pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (SP) e Doutor pela Academia Alfonsiana da Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma. Dom Sérgio tem como lema episcopal “Omnia in Caritate” – “Tudo na caridade”.

Confira:

Jornal da PUC-Campinas: Neste ano, são comemorados os 50 anos do encerramento do Concílio Vaticano II, um dos eventos mais marcantes da Igreja no século XX.  A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) propôs uma reflexão mais ampla sobre o Concílio, por meio da Campanha da Fraternidade (CF), que tem como tema “Fraternidade: Igreja e sociedade” e o lema “Eu vim para servir” , numa tentativa de aproximar a igreja cada vez mais da sociedade. Gostaria que o senhor refletisse sobre as principais mudanças proporcionadas pelo Vaticano?

D. Sérgio: O Vaticano II propõe uma atitude eclesial de diálogo e de serviço na relação Igreja – sociedade. A Igreja se faz diálogo. A Igreja se faz servidora, a exemplo de Jesus. Na relação Igreja-sociedade, há posturas equivocadas. De um lado, a exclusão da participação na vida social, com a Igreja fechada sobre si, ocupando-se unicamente de questões internas. De outro, a postura de dominação ou controle social, que não condiz com eclesiologia do Vaticano II e nem seria possível numa sociedade plural e complexa, como a atual.

O documento do Concílio sobre a Igreja no mundo, a Gaudium et Spes, propõe o caminho do diálogo com todos, procurando não apenas oferecer ajuda, mas também receber ajuda,  e a atitude de serviço. O discernimento atento dos valores presentes na sociedade é acompanhado da denúncia profética daquilo que não condiz com a Palavra de Deus.

O diálogo e o serviço podem ser efetivados através do recurso às mídias sociais. Nelas, o respeito à pluralidade não deve implicar em exclusão da perspectiva religiosa ou na negação da identidade católica. É preciso assegurar o direito à liberdade religiosa, o reconhecimento da importância da fé na vida das pessoas e na cultura brasileira. O diálogo e o serviço a serem cultivados nas mídias sociais são enriquecidos com a perspectiva cristã. Para tanto, é fundamental a atuação de pessoas e instituições cristãs.

Jornal da PUC-Campinas: Para o senhor, qual é a contribuição da Universidade Católica para a formação da pessoa humana?

D. Sérgio: A Universidade Católica deve contribuir para a formação integral da pessoa humana, para o exercício responsável da cidadania na construção da sociedade, promovendo o diálogo, a solidariedade e a paz. Ela mesma deve ser um espaço privilegiado para o exercício do diálogo e da fraternidade.

Uma universidade católica se distingue pelo cultivo e promoção dos valores éticos, especialmente, por meio de gestos concretos: o respeito, a estima, a solidariedade, a vida fraterna, a paz, nos diversos níveis da comunidade acadêmica. A atitude de diálogo é essencial, seja no interior da comunidade acadêmica, seja com a sociedade. A abertura e o diálogo a serem cultivados numa universidade católica são exigências essenciais de uma comunidade acadêmica e decorrem do proprio dinamismo e caráter dialogal do saber.

A Universidade deve ser lugar de formação para a vida e de aprendizado  conjunto, na troca e circularidade de conhecimentos. A forma monológica de racionalidade, isto é, a racionalidade fechada, empobrece e paralisa qualquer campo do conhecimento ou instituição de ensino.

A forma dialógica de racionalidade enriquece e  estimula a caminhar rumo à atualização e ao aprofundamento. O pensador ensimesmado, isto é, o professor, o pesquisador ou estudante, fechado orgulhosamente sobre si,  não poder existir a não ser em contradição com a própria essência do pensar, por sua natureza aberto ao diálogo. Além disso, não pode faltar a postura profética na missão de uma instituição católica de ensino. Numa sociedade pluralista, o diálogo deve ser acompanhado de uma consciência clara da própria identidade, condição para se oferecer uma contribuição própria e estabelecer parcerias. A Universidade oferece, sobretudo, uma visão antropológica iluminada pela fé cristã, ressaltando a dignidade. o valor inviolável da vida de cada pessoa humana e os seus direitos fundamentais.

A primeira Universidade Católica do mundo

Por Newton Aquiles von Zuben

A humanidade conhece, periodicamente, eventos que se transformam em elementos originários e estruturantes da nossa civilização. No início da era cristã, ocorreu um fato cuja complexidade e caráter insólito o transformaram em ponto axial da nossa história ocidental e fonte perene de questionamento. Trata-se do encontro entre o cristianismo nascente e o pensamento helênico

Valendo-se de toda a arquitetônica conceitual da filosófica grega, o pensamento cristão primitivo construiu sua sistematização e consolidação até a etapa final do medievo. Daquele encontro surgiu a questão da articulação entre fé e razão. Encontramos durante esse longo período de quinze séculos diversas posições sobre essa questão que não será completamente resolvida. A questão recebeu atenção crescente na alta idade média, o período da escolástica e no século XIII com o empenho de vários teólogos. No entanto, foi, sobretudo, Tomas de Aquino que conseguiu apresentar uma síntese original entre fé e razão que permitiu uma racionalização da fé colocando de acordo o pensamento antigo e a doutrina cristã.

Nesse ambiente investigativo do medievo cristão nasceram as escolas episcopais e monacais e, posteriormente, as universidades. Não se pode compreender a carreira de um filósofo e de um teólogo medieval sem conhecer a organização do ensino durante o período da escolástica até o século XIV. O termo universitas designa comunidade. A universitas studiorum – universidade dos estudos – é uma forma de comunidade, autônoma e que se livra das amarras do direito comum. A Universitas não designava, então, como a entendemos hoje, um conjunto de faculdades, mas um conjunto de mestres e alunos que se dedicavam aos estudos das artes, do direito e da teologia. Studium generale ou também universale designava um centro de estudos no qual estudantes de origem diversa poderiam ser recebidos.

Prof. Dr. Newton Aquiles von Zuben é docente da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas.
Prof. Dr. Newton Aquiles von Zuben é docente da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas.

Foi por necessidade de independência que nasceram as primeiras universidades; independência da autoridade eclesiástica: de fato a primeira geração de universidades, as de Bolonha, de Paris e de Oxford dentre outras, se constituíram em reação contra os bispos que governavam as escolas estabelecidas sob o teto de suas catedrais. Essas universidades conseguiram sua independência graças ao apoio papal. A essas universidades seguiram outras durante o século XIII, XIV e XV. Nenhuma delas recebeu, então, a designação de universidade católica.

 Escolhi apresentar brevemente a história e as características de uma universidade que, embora tendo sido instituída no século XV, foi durante sua longa história uma instituição de prestígio. Criada como “Universidade de Louvain” conheceu uma história atribulada, viu passarem por seus muros eminentes personagens, como professores e alunos, que formaram, através dos séculos, a sociedade da região que, à época, incluía a atual Holanda e a atual Bélgica. Esteve sob domínio francês e holandês até a secessão e a formação do reinado da Bélgica, em 1830.

A Universidade de Louvain ou Studium Generale Lovaniense ou Universitas studiorum Lovaniensis, foi fundada, em 1425, por um príncipe francês, Jean de Bourgogne, Jean IV, duque de Brabante (província belga), com o consentimento do papa Martinho V. Nessa época, observava-se uma constante histórica. A fé cristã em lugar de ser individualista, sempre teve a tendência de se incorporar nas instituições, em particular aquelas dedicadas ao ensino. O ensino das artes liberais e outros saberes, como o direito e, sobretudo, a medicina não constituia um fim em si, mas  um meio de se atingir o fim último da existência, a saber a fé que conduz à salvação. Desse modo, as faculdades de teologia se desenvolveram rapidamente no seio das universidades.

Na Universidade de Louvain, em 1432, sete anos após a fundação, foi instalada a Faculdade de Teologia. Engajada nos debates da sociedade desde a origem da Reforma, a Faculdade de Teologia da Universidade de Louvain foi a primeira, em novembro de 1519, a condenar abertamente Martinho Lutero, antes mesmo da bula de excomunhão de Leão X, no ano seguinte. Claro que, atualmente, por conta do espírito ecumênico deve-se questionar o sentido dessa condenação radical. No entanto, à época, não deixava de ser um tipo ousado de engajamento.

A universidade foi fechada oficialmente, em outubro de 1797, em aplicação da lei de 15 de setembro de 1793, que suprimia todos os colégios e universidades da república francesa.

Universidade de Louvain/ Crédito Divulgação
Universidade de Louvain/ Crédito Divulgação

A antiga Universidade de Louvain, que teve como professor e reitor Cornelius Jansen ou na forma latina Jansenius, o defensor da doutrina agustiniana da graça, foi até o fim do antigo regime, justamente o grande centro doutrinal do jansenismo na Europa.

Em 1819, foi reaberta com a designação de Universidade de Estado de Louvain, mas, novamente, fechada em 1883. Em 1835, os bispos belgas reinstituiram a antiga  Universidade de Louvain com a designação de Universidade Católica de Louvain pela carta pontifícia de 13 de dezembro de 1833, de Gregório XVI, no espírito das universidades gregorianas da reconquista católica empreendida por esse papa. A direção da universidade foi colocada sob a autoridade direta dos bispos belgas.

No dia 4 de agosto de 1879, no segundo ano de seu pontificado, o papa Leão XIII publicou a carta encíclica Aeternis Patris, sobre a restauração da filosofia cristã conforme a doutrina de Santo Tomás de Aquino. Na sua primeira carta encíclica, Inscrutabili Dei consilio, de 21 de abril de 1878, ele assinalou a suprema importância da filosofia tradicional para as escolas católicas, do ponto de vista social, do ponto de vista da exposição e da defesa da fé cristã, assim como da perspectiva do progresso de todas as ciências. Entretanto, sendo conveniente reatar com a grande tradição medieval, ponderava como impositivo o discernimento levando-se em conta o progresso das ciências dos tempos modernos e da necessidade de se adaptar às concepções antigas às condições do pensamento atual. Leão XIII conhecia bem a Bélgica, pois havia sido núncio apostólico em Bruxelas, de 1843 a 1846. Na época, a Universidade Católica de Louvain era a única universidade católica completa e essa é a característica que a diferenciou desde então. Leão XIII estava ciente das vantagens incomparáveis que representava, para a renovação das concepções filosóficas medievais, esse meio católico no qual todas as ciências eram ensinadas e na qual especialistas de todos os ramos do saber humano estavam em constante interação no ensino e na pesquisa; e que recebia já estudantes de inúmeros países estrangeiros.

No dia 25 de dezembro de 1880, Leão XIII envia uma carta pontifícia ao arcebispo de Malines, o cardeal Deschamps, para lhe solicitar providências no sentido de criar uma cadeira especial de filosofia de Santo Tomás de Aquino na Universidade Católica de Louvain. Em 1889, Leão XIII solicitou aos bispos belgas que criassem cadeiras de filosofia agrupadas em um «Instituto Superior de Filosofia» no seio da Universidade Católica de Louvain. O texto fundador foi a carta pontifícia de 8 de novembro de 1889. Os bispos nomearam como seu primeiro «presidente» Monsenhor Desiré Mercier, que seria mais tarde nomeado cardeal. Desiré Mercier era titular de um curso de «filosofia especial segundo Santo Tomás». Com o auxílio do papa, ele conseguiu obter a criação de um verdadeiro instituto ao qual acrescentou , com anuência  de Leão XIII, a denominação «Escola SantoTomás de Aquino» para bem notar que o novo instituto tinha como objetivo central a renovação do tomismo preconizado por Leão XIII em sua carta encíclica, acima citada. Na mente de Monsenhor Mercier o neo-tomismo deveria constituir uma filosofia original em debate com com os problemas de seu tempo, e, especialmente, com os problemas das ciências da natureza e as ciências humanas.

Desde então, o novo Instituto consolidou sua missão e ampliou sua presença, com disciplinas filosóficas para a Universidade toda. Consolidou sua reputação segundo as diretrizes da encíclica como havia solicitado o papa aos bispos belgas. Sua atuação se deu em quatro direções principais atribuídas progressivamente ao ensino e à pesquisa: o estudo histórico e crítico dos grandes filósofos, reflexão epistemológica sobre as técnicas e métodos das ciências, o questionamento sobre as relações entre a fé cristã e a razão, a interrogação sobre a interação da filosofia com a vida social.

O Instituto Superior de Filosofia ocupou um lugar relevante na Universidade Católica, pela característica de sua implantação, seguindo as diretrizes diretas do papa Leão XIII, e pelos propósitos de sua vocação direcionada ao ensino da Filosofia em atenção à carta encíclica Aeterni Patris, assumindo o compromisso de trabalhar na renovação do pensamento de Tomás de Aquino e de seu pensamento erigido como modelo da formação filosófica para os futuros presbíteros. A seriedade com que tomou para si a relevância do diálogo constante entre a filosofia e as ciências foi amplamente facilitada pelo fato, acima mencionado, de que a Universidade Católica de Louvain foi, desde essa sua implantação, herdeira da antiga Universidade de Louvain, como Universidade Católica, a única universidade católica completa no mundo, abrigando todos os ramos do saber ora existentes.

A Faculdade de Teologia, Sacra Facultas Theologiae, foi erigida no dia 7 de março de 1432, pelo papa Eugênio IV. Os mestres da Faculdade se interessavam, sobretudo, por questões de moral e a faculdade permaneceu, de início, bem impermeável aos progressos do humanismo, abrindo-se, pouco a pouco, posteriormente, às pesquisas de teologia positiva. Foi em Louvain que foi redigida, ao final de 1519, a primeira censura de toda a cristandade contra os escritos de Lutero, tendo a Faculdade de Teologia redigido, à intenção dos dominicanos, um resumo das verdades religiosas atacadas pelo inovador. O teólogo alemão Hubert Jedi, em sua obra História do Concílio de Trento, tomo 1, considera esse documento como a melhor realização da teologia pretridentina.

Creio pertinente afirmar-se da Universidade Católica de Louvain que ela, nos dizeres de João Paulo II, “compartilha com todas as outras universidades aquele gaudium de veritate, tão caro a Santo Agostinho, isto é, a alegria de procurar a verdade, de descobri-la e de comunicá-la em todos os campos do conhecimento” (Ex Corde Ecclesiae  1).

 

Espaço Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários

Apesar de existir uma indicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para que toda paróquia católica do país tenha uma equipe de Pastoral da Comunicação, essa meta ainda está longe de ser alcançada. Uma das principais dificuldades, segundo especialistas, é que para agir nessa área não é suficiente boa vontade e trabalho voluntário. Assim, além da disponibilidade dos agentes de pastoral é importante um conhecimento mais especializado – tanto técnico quanto teórico – na área da Comunicação.

Esse é o objetivo do projeto de extensão “Comunicação e Ação Pastoral: elaboração de Plano de Comunicação Institucional junto às paróquias da Forania São João XXIII, da Arquidiocese de Campinas”, desenvolvido pelo Prof. Lindolfo Alexandre de Souza, da Faculdade de Jornalismo, e que conta com dois alunos bolsistas. Na primeira etapa do projeto foram realizadas oficinas de capacitação para que os agentes de pastoral pudessem elaborar um Plano de Comunicação Institucional para cada uma das sete paróquias da Forania. E um plano que levasse em consideração a realidade de cada paróquia, com suas possibilidades, recursos disponíveis, cronograma e prioridades.

Após os planos elaborados, os agentes de pastoral estão participando de oficinas de capacitação para o aperfeiçoamento da comunicação paroquial, ao mesmo tempo em que são acompanhados na implementação das ações previstas nos planos de comunicação. Entre os temas das oficinas estão técnicas para produzir jornais e boletins paroquiais impressos, uso da internet para a evangelização, organização do quadro de avisos e dicas para o uso adequado do microfone, entre outras.

O projeto iniciou em agosto de 2014 e tem previsão de término em dezembro de 2015. Após a intervenção, o objetivo é que as equipes paroquiais de Pastoral da Comunicação estejam organizadas e capacitadas para a continuidade das ações, sem a necessidade de acompanhamento do docente nem dos alunos extensionistas.

A Educação Católica é a busca da verdade

Por Amanda Cotrim

Pela primeira vez na PUC-Campinas, o Prefeito da Congregação para a Educação Católica, Cardeal Zenon Grocholewski, ministrou a palestra “A identidade da Universidade Católica à luz da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae”. Em entrevista ao Jornal da Universidade, o Cardeal falou sobre fé e ciência na constituição do ensino católico e a necessidade de um diálogo permanente entre fé e razão. “O significado da investigação científica e da tecnologia, da convivência social, da cultura, está, profundamente, em causa com o próprio significado do homem”, ressaltou. Confira a entrevista abaixo

Qual é a importância do Colóquio que a PUC-Campinas promoveu sobre a educação católica?

Eu fui muito bem acolhido pela PUC-Campinas e fiquei muito satisfeito com a iniciativa. Senti-me honrado de estar aqui na Universidade compartilhando estes dias de Colóquio sobre um documento tão importante para a missão evangelizadora da Igreja, por meio das universidades católicas. Agradeço o Grão-Chanceler, a Magnífica Reitora e todas as autoridades desta Pontifícia Universidade Católica de Campinas pelo seu convite. Deus as bendiga.

Penso que é muito importante falarmos sobre o ensino católico, pois um dos modelos mais fortes das universidades católicas é unir ciência e religião, seguindo a Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae do Sumo Pontífice, promulgada pelo Papa São João Paulo II, o qual diz que a vida universitária é a procura da verdade  e de sua transmissão abnegada aos jovens e a todos aqueles que aprendem a racionar com rigor, para agir e servir melhor a sociedade .

Prefeito da Congregação para a Educação Católica, Cardeal Zenon Grocholewski/ Crédio Álvaro Jr.
Prefeito da Congregação para a Educação Católica, Cardeal Zenon Grocholewski/ Crédio Álvaro Jr.

Como o senhor avalia a educação universitária católica no Brasil, o maior país católico do mundo? O senhor entende que os alunos das universidades católicas as procuram por alguma filiação com a religião ou por outras razões?

O Brasil é um dos países em que há mais universidades católicas e isso é muito bom. Aqui há um forte ensino universitário católico, o que mostra que estamos praticando o que diz o Papa Francisco: devemos servir as pessoas. As universidades católicas mediam o encontro entre a riqueza da mensagem do Evangelho e a pluralidade dos campos do saber, permitindo um diálogo com todos os homens de qualquer cultura. A Pontifícia Universidade Católica de Campinas está no caminho, promovendo a fecundidade da inteligência cristã no coração de cada cultura.

Como a Igreja Católica consegue difundir sua doutrina na educação católica do mundo, uma vez que cada país tem sua particularidade?

A universidade católica tem uma missão e vive por essa missão, que é evangelizar, segundo sua identidade, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demoras, sem medo. A alegria do Evangelho é para todo o povo, sem excluir ninguém. A universidade católica precisa manter os olhos permanentemente abertos, já que “fechar os olhos ante o próximo converte-nos também em cegos ante Deus”, como disse o Papa São João Paulo II. Por exemplo em Taiwan, na China, temos belas universidades católicas onde os católicas são 1% do País e na Universidade Católica tem 2% de estudantes católicos, que corresponde a três universidades católicas. É necessário que a universidade católica viva sua missão evangelizando, segundo sua identidade, em todos os lugares. A alegria do Evangelho é para todo o povo, não pode excluir a ninguém. Na Coréia (do Norte) apenas 1% eram católicos, agora são 10%, algo como 5 milhões de pessoas e oito universidades católicas.

palestra “A identidade da Universidade Católica à luz da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae”. Crédito: Álvaro Jr.
palestra “A identidade da Universidade Católica à luz da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae”. Crédito: Álvaro Jr.

Todas as universidades católicas recebe a proteção da Santa Sé?

Normalmente, não é imediatamente que uma universidade católica nasce que a Santa Sé a reconhece. É preciso que a universidade demonstre um certo nível, um certo prestígio, um certo ensinamento, para que a Santa Sé coloque essa universidade sob sua própria proteção, como é o caso da Pontifícia Universidade Católica de Campinas e as outras seis Pontifícias no Brasil.

A campanha da Fraternidade 2015 tem como tema a Igreja e a Sociedade. Pensando nesse tema, qual é a importância da educação no desenvolvimento social?

Como nos ensinou o Papa São João Paulo II, o significado da investigação científica e da tecnologia, da convivência social, da cultura, está, profundamente, em causa com o próprio significado do homem. As universidades católicas, mediante a investigação e o ensino, ajudam-na a encontrar de maneira adequada aos tempos modernos os tesouros antigos e novos da cultura.

Numa universidade católica, a investigação compreende necessariamente: perseguir uma integração do conhecimento, o diálogo entre a fé e a razão, uma preocupação ética, e uma perspectiva teológica. A universidade católica deve empenhar-se mais especificamente no diálogo entre fé e razão, de modo a poder ver mais profundamente como fé e razão se encontram na única verdade. A preocupação das implicações éticas e morais, ínsitas tanto nos seus métodos como nas suas descobertas.

REFLEXÃO INCESSANTE, CONHECIMENTO CRESCENTE

Na parte inicial da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae, o Papa João Paulo II faz saber que, à luz da fé, a reflexão incessante sobre o tesouro crescente do conhecimento humano constitui característica essencial das Instituições Católicas de Ensino Superior.

Ao associar essa característica à própria identidade da Universidade Católica, o Papa recorre a dois adjetivos para lembrar, também, a condição de organismo vivo e dinâmico da Academia, na qual a reflexão há que ser incessante, porque o tesouro do conhecimento humano é crescente.

Católica e Pontifícia, nossa Universidade entende e atende as orientações daquela Constituição, à medida que estimula a comunidade acadêmica a refletir incessantemente sobre as contribuições que tornam o conhecimento humano sempre maior do que foi no passado.

Ao cotidiano intenso e dinâmico verificado nos campi, envolvendo, fundamentalmente, aula, pesquisa e investigação, a PUC-Campinas agrega um robusto calendário de eventos, cujo cerne aponta para as vanguardas do conhecimento humano, buscando atualização permanente e visando o exercício constante da reflexão.

Decorrido um quarto de século da promulgação da Ex Corde Ecclesiae, a PUC-Campinas entendeu oportuno e apropriado trazer o próprio documento à reflexão, organizando o Colóquio que polarizou nosso calendário de atividades no mês de maio.

A presença do Prefeito da Congregação para a Educação Católica, cardeal Zenon Grocholewski, bem como o conjunto de professores e teólogos participantes dimensionaram o evento, tanto quanto o fizeram o teor e os temas da programação.

Em si mesmo, o Colóquio mostrou-se suficiente para confirmar quanto e como a PUC-Campinas identifica-se como Universidade Católica e se ajusta ao perfil sugerido para esse modelo de Instituição. Entretanto, no que se refere ao compromisso com a dinâmica, ainda há mais, quando lembramos que o agente responsável pela organização do evento, o Núcleo de Fé e Cultura desta Universidade, tem, ele mesmo, tempo curto de existência – exatos sete meses – e, no entanto, já se mostra à altura de ousar e levar a bom termo realizações como esta, com dimensão internacional e potencial para repercutir enfaticamente na ampliação do conhecimento, em especial aquele focado nas relações entre religião e ciência no âmbito das Instituições Católicas de Ensino Superior.

Marcado por um ritmo intenso de atividades, sintetizadas em conferências e mesas-redondas, o Colóquio extrapolou o tempo e o espaço de ocorrência, à medida que os debates repercutiram em diversos setores da Universidade, abarcaram parcelas mais amplas da comunidade acadêmica, bem como transbordaram para outras instituições e segmentos da sociedade.

Feliz e honrada pela presença das pessoas ilustres que atenderam o convite para atuar no Colóquio, agradecida pelo empenho de todos quanto se envolveram com sua realização e particularmente entusiasmada com o volume e o perfil do público participante, espero que o sucesso seja, também, estímulo para outras realizações capazes de confirmar que a PUC-Campinas está empenhada e envolvida no crescimento constante do tesouro do conhecimento humano e no exercício incessante da reflexão, firmando-se como Pontifícia Universidade Católica que nasceu do Coração da Igreja.

Reitora da PUC-Campinas, Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht