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EDITORIAL- Criança: responsabilidade de todos

Usando e abusando da imagem infantil, a propaganda costuma estampar rostinhos sorridentes e sadios para alavancar o consumismo, desde a ingestão de hamburger gorduroso, até o automóvel de luxo, cuja posse transforma o pai em herói aos olhos do filho. Todavia, para além da ficção publicitária, a realidade mostra que parte das crianças não frequenta o consumo e todas, sem exceção, precisam mais que bens e serviços para conhecer um tantinho de felicidade.

Protagonista de tantos desvios e contradições da sociedade contemporânea, especialmente nos cantos atrasados em civilidade e primários em civilização, as crianças polarizam esta edição do Jornal da PUC-Campinas, que reúne artigos, entrevista e reportagens sobre a postura da academia e o olhar dos acadêmicos em relação à infância.

No campo da Tecnologia, o jornal trata dos encontros e desencontros da infância com a informação, nesses tempos em que a criança aprende a correr os dedos pela tela do celular antes de conseguir desenvoltura mínima no manejo da colher.

 O CEA colabora com o tema mostrando características e distorções dos liames entre criança e consumo, enquanto a coluna Pensando o Mundo contribui com uma análise muito atualizada do Trabalho Infantil, medievalismo que assola intensamente a cultura e a realidade brasileiras, consequenciando, nos pequenos, a esdruxula distribuição de renda na qual elites e oligarquias insistem em manter o Brasil aprisionado.

Horários, obrigações e responsabilidades que a contemporaneidade impõe à gurizada, já nos primeiros meses de vida, estão na entrevista, cujo tema é tão instigante quanto preocupante: ser criança é o mesmo que ter infância?

Apresentação de Projetos de Extensão e resumo de Dissertação de Mestrado centrados nas crianças, das Faculdades de Fisioterapia e Psicologia são as contribuições do CCV ao assunto do mês, enquanto a CACI mostra as atividades que trazem crianças para a Universidade nos períodos de férias.

Completando, a coluna cinematográfica indica dois filmes que tratam das consequências dolorosas sobre as crianças da militância política em tempos de ditadura.

A leitura disso tudo certamente vai levar a reflexões sobre a responsabilidade de todos nós, adultos e quanto os universitários podem fazer para efetivar a premissa de que o melhor da vida é ser criança.

Boa leitura!

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Criança, consumo e educação financeira

Por Eli Borochovicius

Muito se discute sobre educação financeira para crianças e jovens. Alguns argumentam tratar-se de um processo de adultização, outros de uma necessidade advinda de uma mudança da sociedade, transformada por questões econômicas, políticas, tecnológicas, culturais e sociais.

Quando uma menina calça os sapatos de salto alto da mãe e passa batom, pode ser considerado natural, uma brincadeira, mas quando a criança passa a ter hábitos de adultos, com o seu próprio sapato de salto alto e o seu kit de maquiagem, é que se manifesta o fenômeno de adultização, intimamente relacionado com as ofertas de produtos para o público infantil.

Em função de uma série de eventos históricos que modificaram as relações sociais, as crianças ficaram mais expostas à mídia. Os pais passaram a trabalhar em tempo integral, as mulheres ganharam espaço no mundo do trabalho, as separações ficaram mais comuns, a rua ficou mais violenta, os espaços públicos de convivência foram reduzidos e as crianças passaram a ficar mais tempo confinadas em casa, tendo como grande influenciador, a tecnologia.

O acrônimo KGOY traz como significado Kids Getting Older Younger, em tradução livre para o português, crianças ficam mais velhas mais jovens e sugere que elas estão amadurecendo mais rapidamente em função dos meios de comunicação.

Com o avanço da tecnologia, a televisão passou a receber também transmissão de canais por assinatura e acesso a serviços de streaming de vídeo, os computadores e celulares passaram a fazer parte do cotidiano infanto-juvenil e o contato mais próximo com a vida adulta foi inevitável.

A educação financeira viria então para preencher uma lacuna importante na vida moderna dessas crianças, estimuladas pelo consumismo desenfreado e pelo crédito fácil.

Visando contribuir para o fortalecimento da cidadania com ações que ajudem a população com o conhecimento do mundo das finanças é que surgiu em 2010, a Estratégia Nacional de Educação Financeira.

Sob a coordenação da Associação de Educação Financeira do Brasil foram desenvolvidos programas voltados às crianças a exemplo do Programa de Educação Financeira nas Escolas, cujo objetivo é contribuir para o desenvolvimento da cultura de planejamento, prevenção, poupança, investimento e consumo consciente nas futuras gerações de brasileiros. O programa foi pensado também para proporcionar a melhoria de desempenho dos alunos em Língua Portuguesa e Matemática.

Programas de educação financeira voltados para escolas privadas também já são oferecidos, com o diferencial de buscarem desenvolver não apenas o conhecimento financeiro, mas o senso de organização, respeito, responsabilidade, empreendedorismo, criatividade e autonomia.

A educação financeira veio para formar cidadãos conscientes, capazes de compreender e transformar a realidade, atuando na superação das desigualdades e do respeito ao ser humano. Se ainda não é contemplada nas grades curriculares das escolas, possivelmente, muito em breve, será necessário.

Prof. Me. Eli Borochovicius leciona Administração Financeira no curso de Administração da PUC-Campinas. 

Uso de Softwares e Aplicativos por Crianças – Benefícios ou Riscos?

Por Sílvia Cristina de Matos Soares

A tecnologia, atualmente, faz parte do cotidiano das pessoas. A sua utilização pode facilitar o processo de construção do conhecimento e o desenvolvimento de habilidades e competências, necessárias para o momento em que vivemos, na chamada Sociedade da Informação.

É por meio da informação que nós, humanos, construímos o nosso conhecimento e realizamos os nossos projetos. Assim, a informação pode ser obtida a partir de diversas fontes. Uma dessas fontes é a tecnologia, mais especificamente os Sistemas de Informação, os Aplicativos e os softwares em geral.

A exploração desse mundo tecnológico pelo ser humano, tem início muito cedo. É fato que os computadores, os tablets e os celulares são utilizados por crianças, até mesmo na primeira infância. Isso faz surgir dúvidas sobre esse uso. É benéfico ou prejudicial à saúde e ao desenvolvimento da criança?

Ainda não existe um consenso sobre o assunto, mas podemos discutir, resumidamente, alguns pontos relacionados a ele para gerar algumas reflexões e possibilitar que os envolvidos com essa situação possam tomar algumas decisões.

Sabemos que os pais e os educadores têm um importante papel na educação e no desenvolvimento da criança, porém qual o nível de conhecimento sobre o mundo tecnológico que eles têm? Eles precisam ser educados sobre o uso dos Sistemas de Informação, dos Aplicativos e dos softwares, para que possam tirar proveito de seu uso e orientar as crianças. É importante definir, claramente, os objetivos para o seu uso e quais são as vantagens, para a criança, em utilizar a tecnologia. Os aspectos relacionados à segurança também precisam ser analisados, como por exemplo, não expor os dados pessoais da criança na internet, observar a criança enquanto ela utiliza a tecnologia, orientá-la para que não converse com estranhos, entre outros.

Por outro lado, os profissionais formados em Engenharia de Software ou Sistemas de Informação, por exemplo, precisam pensar em desenvolvimento de software, de Sistemas de Informação e de Aplicativos considerando os benefícios que podem trazer às crianças.

Alguns exemplos podem ser citados: auxílio no desenvolvimento motor, no processo de alfabetização, na interação em ambientes dinâmicos e colaborativos, na exploração do mundo, das cores, na aproximação entre culturas geograficamente distantes, entre outros. Muitos pesquisadores sobre o assunto acreditam que a tecnologia é mais um instrumento que pode ser utilizado para favorecer a construção efetiva do conhecimento e a realização, por parte das crianças, de seus projetos ao longo da vida.

O fato de as crianças utilizarem a tecnologia pode trazer algumas preocupações, mas os benefícios podem ser muito maiores se os Aplicativos ou Sistemas de Informação forem selecionados apropriadamente à criança e se forem utilizados em paralelo com as experiências concretas, brincadeiras, leituras de livros, atividades em família e não em substituição a elas.

A tecnologia está presente no mundo das crianças desde o momento de seu nascimento. Cabe aos pais e aos educadores orientá-las e educá-las nesse processo de conhecimento e interação que pode proporcionar novas descobertas e novos desenvolvimentos. Como sempre, a educação é o ponto de partida para qualquer evolução.

Profa. Me. Sílvia Cristina de Matos Soares é Diretora dos Cursos de Graduação: Sistemas de Informação, Engenharia de Software e Tecnologia em Gestão da Tecnologia da Informação.

Gagueira na infância

Por Luciana Furtado Seacero Granja

A gagueira, como é conhecida, é um distúrbio na fluência da fala. A incidência é de aproximadamente 10 milhões de pessoas, ou seja, 5% da população do Brasil. São consideradas sintomas as hesitações, repetições, prolongamentos, pausas, bloqueios, além de aumento da transpiração, medo, movimentos de braços e pernas, dentre outros. Estes sintomas acarretam situações para o sujeito que o levam a evitar sua comunicação com o outro. Portanto, acaba interferindo na sua relação pessoal e comprometendo sua qualidade de vida.

A fluência é uma habilidade adquirida no desenvolvimento, que envolve mecanismos de produção da fala e da elaboração da linguagem. Para que a criança desenvolva as habilidades da fala e da linguagem, bem como outras necessárias para seu crescimento, deve ser estimulada, conviver em um ambiente que favoreça sua comunicação e, desta forma, ter condições de se comunicar conforme o contexto e a necessidade.

A gagueira, ou gagueira do desenvolvimento, surge antes da puberdade, geralmente entre dois e cinco anos de idade, no período de desenvolvimento da linguagem da criança. Existem diversas linhas teóricas quanto a fatores causais para o surgimento dos sintomas. O que podemos concluir é que a gagueira tem causas multifatoriais. Outras formas de gagueira, como de origem neurológica, gagueiras neurogênicas, podem surgir após lesões cerebrais. As gagueiras de origem psicogênica também podem surgir após um evento emocional marcante. As gagueiras adquiridas têm suas causas pontuais, e seu desenvolvimento e tratamento são mais direcionados conforme suas especificidades.

Geralmente, a gagueira do desenvolvimento pode ser encontrada em outros membros da família. Os sintomas são variados, podendo aparecer em momentos diferentes, com severidade de sintomas e frequência muito variados. Em algumas situações, a fala pode apresentar vários episódios de quebra da fluência, outras vezes, a fala pode apresentar pouca quebra da fluência.

Para o melhor desenvolvimento da fala e da linguagem, é importante que a criança ou qualquer pessoa que apresente os sintomas sejam encaminhados para avaliação e, se necessário, tratamento fonoaudiológico o mais precocemente possível. Desta forma, a pessoa receberá o atendimento necessário e os sintomas poderão diminuir ou desaparecer, conforme o caso.

As crianças, quando encaminhadas precocemente, têm a chance de não apresentar mais sintomas. O tempo que as alterações da fluência tiveram início, bem como a severidade dos mesmos, irá direcionar o trabalho do fonoaudiólogo. Quanto mais cedo o tratamento começar, maior a chance de melhora e remissão total dos sintomas.

Profa. Me. Luciana Furtado Seacero Granja, Diretora da Faculdade de
Fonoaudiologia – CCV – Centro de Ciências da Vida

Coluna Pensando o Mundo: Trabalho infantil

Por Cristina Reginato Hoffmann e Miguel Augusto Nassif Travençolo

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) ocupa-se, desde 1998, com o propósito de efetiva abolição do trabalho infantil, para a promoção do trabalho decente, sendo a proteção da infância um dos fundamentos para a sua criação, em 1919. Já dentre as primeiras normas internacionais da OIT aparece a proibição do trabalho para menores de 14 anos nas indústrias, adotada no Brasil no final de 1935.

Antes disso, em 1891, houve a primeira norma no Brasil proibindo o trabalho para os menores de 12 anos nas fábricas da capital, salvo na condição de aprendiz, a partir dos 8 anos. A Constituição brasileira de 1934, primeira a regulamentar o trabalho, proibiu o trabalho para o menor de 14 anos.

A atual Constituição brasileira, de 1988, inicialmente proibia o trabalho para o menor de 14 anos, salvo na condição de aprendiz, texto alterado em 1998, passando a proibir o trabalho para o menor de 16 anos, salvo na condição de aprendiz, a partir dos 14 anos.

Nos anos de 2001 e 2002 foram adotadas, no Brasil, normas internacionais da OIT impondo a adoção de medidas que garantam a proibição e a eliminação das piores formas de trabalho infantil e o compromisso de seguir uma política nacional que assegure a efetiva abolição do trabalho infantil. Tais ações estão contidas no Plano Nacional de Emprego e Trabalho Decente, como parte da Agenda Nacional de Trabalho Decente, lançada em nosso país em 2006.

O trabalho infantil pode ser considerado um fenômeno de múltiplas causas e consequências, decorrente de um grave problema social. Produz efeitos nefastos e possui uma estreita ligação com a condição econômica das famílias. Muitos dos meninos e meninas que se encontram realizando alguma forma de trabalho infantil estão fora da escola, e suas famílias estão em situação de vulnerabilidade econômica e social.

Dentre as tarefas mais comuns que consideramos trabalho infantil destacamos o doméstico, a venda de doces, bolos e derivados nas esquinas e semáforos, bem como o recolhimento de latas, lixos e papelões, muitas vezes com produtos tóxicos, perigosos e cortantes, armazenados em locais públicos para despejo de lixos. No campo, o trabalho infantil continua acontecendo em lavouras, pecuária, agricultura, mineração e, inclusive, em carvoarias.

Os efeitos prejudiciais causados às crianças pela prática do trabalho infantil podem ser físicos, quando as crianças ficam expostas a risco de lesões físicas e doenças, e também psicológicos, podendo apresentar ao longo da vida dificuldades para estabelecer vínculos afetivos e sociais, afastando-se de pessoas de sua idade, e aumentando as chances de abandono escolar.

A OIT diz que para uma vida bem-sucedida o trabalho precoce nunca foi estágio necessário para a criança. Qualquer que seja o tipo de trabalho que a criança exerça, rotineiro ou não, as tarefas adequadas à sua idade serão prejudicadas, tal como explorar o mundo, apropriar-se de conhecimentos e exercer seu direito de desenvolver-se com dignidade, de ser criança.

Profa. Dra. Cristina Reginato Hoffmann é docente na Faculdade de Direito

Miguel Augusto Nassif Travençolo é aluno do 5o ano de Direito da PUC-Campinas

A Foto que ilustra esse artigo é de Marcello Casal Jr, da Agência Brasil.Brasil

“Adultização” da infância é reflexo de classe social

Para pesquisadora, crianças com agenda de empresário, como classifica, é mais comum em famílias de renda média e alta

Por Amanda Cotrim

É cada vez mais comum as crianças terem sua rotina consumida pelas tarefas, como ir à escola, fazer um curso de idioma, aprender um esporte. Tudo, no mesmo dia. Muitos compromissos, muitos deveres, muitas expectativas dos pais. Um cenário propício para que sentimentos de ansiedade, depressão e frustração apareçam e repercutam nas crianças. Essa é a avaliação da Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação e Docente da Faculdade de Psicologia da PUC-Campinas, Profa. Dra. Silvia Rocha. De acordo com ela, não há problema crianças terem compromissos, a questão, para a pesquisadora, é o tipo de compromisso.

“A criança está sendo preparada para ser uma entre alguns. As classes mais pobres fazem o mesmo: preparam seus filhos para o possível, para o melhor, dentro de suas condições”, afirma. Ela, no entanto, alerta para o perigo em se criar um ideal de infância e produzir uma contraposição entre o passado e o presente, ou a verdadeira infância e a falsa infância. “Não quer dizer que estejamos melhores. Estamos diferentes. Com ganhos e prejuízos”.

Confira a entrevista na íntegra:

É possível definir o que é infância?

O conceito de infância não é universal e nem sempre existiu. Aliás, continua não existindo para determinados grupos socioculturais.  A ideia de infância, e da criança que precisa ser protegida e precisa ter um conjunto de atividades específicas para ela, apareceu no final da Idade Média. O conceito de infância é uma construção histórica.

Do mesmo modo que nem sempre existiu o que chamamos de infância, é possível que para determinados segmentos da sociedade estejamos presenciando o fim da infância que se produz com as brincadeiras de rua. Atividades que traziam características de desenvolvimento diferente da infância do século 21.

O ideal é não ter um ideal de infância?

 Não tem como não ter. Sempre vamos projetar um modelo, na expectativa de que esse modelo será o melhor.  .

As crianças que brincam na rua tendem a ter, por exemplo, uma habilidade motora global melhor do que a criança que não brinca, assim como as crianças que têm muitas atividades com certos vídeo games tendem a ter melhor raciocínio verbal e lógico-matemático.

Muito se discute, nos dias de hoje, que algumas crianças, principalmente de classe média e classe média alta, estão com uma rotina muito parecida com a de um adulto: escola, natação, aulas de inglês, computação, balé, entre outras atividades. Qual a sua avaliação sobre o que vem sendo chamado de “adultização” das crianças.

É importante localizar, conforme pontuado na pergunta, sobre qual criança está se falando. Nesse cenário apontado, os compromissos das crianças são os traços do sucesso. Porque uma criança de uma classe menos favorecida também pode ter compromissos, como jogar bola.  A questão que parece ser fundamental é pensar o tipo de compromisso.

A criança que sai da escola, vai para o curso de inglês, sai do curso de inglês, vai para a natação, sai da natação e vai para o curso de informática, ela está sendo preparada para pertencer a uma elite. Os pais, por sua vez, investem expectativas e dinheiro nessa criança. Portanto, a maior diferença entre as classes sociais é o tipo de compromisso que terá a criança.

Esse cenário produz outra questão importante, que é a competição entre as crianças, como a escola de inglês de mais prestígio. A “adultização” repercute em ansiedade, depressão e, principalmente, frustração.

Para pesquisadora da PUC-Campinas, o diálogo é uma ferramenta educacional de grande importância/ Crédito: Álvaro Jr.
Para pesquisadora da PUC-Campinas, o diálogo é uma ferramenta educacional de grande importância/ Crédito: Álvaro Jr.

A escola se adapta a esse aluno competitivo?

 A escola faz parte dessa competição. É só repararmos a nossa volta, os outdoors, a propaganda na televisão: “primeiro lugar no vestibular”. Ou seja, a criança desde cedo percebe qual é a regra do jogo: que ela tem que se distinguir entre tantas para que os pais sejam convencidos que precisam pagar uma mensalidade cara para o seu filho.

As escolas públicas não têm essa estratégia de marketing tão agressiva e explícita, mas existem hierarquias entre essas escolas. E as crianças são afetadas por essas comparações.

A escola da criança atarefada, ela própria assume esse projeto e oferece atividades complementares para essa criança de elite, que a coloca à frente dos outros que vão competir com ela no mercado de trabalho. Portanto, a escola está afinada com esse discurso.

As crianças passaram a ter uma agenda que parece a de um empresário. Só que isso é mais ou menos consciente, mais ou menos explícito. É reproduzido aquilo que é dito que é o melhor, ou aquilo que deve ser feito.  É uma dinâmica complexa.

Tem relatos de crianças que ficam com vergonha de dizer que foram nas férias para o sítio da avó, porque se sabe, rapidamente, que isso não tem prestígio como tem, por exemplo, uma viagem internacional.

A tecnologia ajuda ou atrapalha o desenvolvimento infantil? Por que as crianças mais ricas estão com o tablet, as mais pobres estão nas lan houses ou assistindo à televisão. Muito se fala que a mídia passou a ocupar um espaço educativo, uma vez que os responsáveis estariam cada vez mais ausentes, em razão do trabalho.

A desconfiança em relação à tecnologia sempre existiu. Há uma “romantização” da infância referente aos modelos do passodo, e de que a infância contemporânea seria pior. Mas na época em que surgiu o Rádio, alguns estudos alertaram sobre o seu perigo. Toda a nova tecnologia assusta e levanta temores.

A minha avaliação é que a tecnologia é espetacular. Nada em si é bom ou ruim. Todas as circunstâncias têm aspectos positivos e negativos. De modo geral, o grande problema é o excesso. Jogar videogame por 18 horas, assistir à televisão por 10 horas, ficar lendo o dia inteiro é ruim, porque impede outras oportunidades de desenvolvimento e aprendizado.

No final do século 19, a mãe estava presente, mas a relação entre a criança com os pais melhorou muito nos últimos anos. Antes, as crianças não podiam opinar, não podiam escolher. Hoje, as crianças se posicionam, questionam, reivindicam, às vezes exageram, mas tudo isso é muito mais legal.

Não quer dizer que estejamos melhores. Estamos diferentes. Com ganhos e prejuízos. O equilíbrio do acesso a diversas produções culturais seria o ideal.

E o diálogo entre pais e filhos. Até que ponto ele funciona?

O diálogo é prioritário. É a melhor ferramenta para criar os novos sujeitos como seres pensantes, que se sintam seguros e respeitados. É essencial querer ouvir a opinião da criança e fundamentar para ela o motivo pelo qual seu desejo não poderá ser atendido. Claro que é um longo processo necessário para que a criança consiga decidir certas coisas. Tem algumas questões em que cabe ao adulto dizer sim ou não. De preferência, deve explicar, mas, às vezes, não no momento em que a criança está com raiva por ter seu desejo negado.  A criança precisa obedecer porque compreendeu e não por medo.

Como lidar com a frustração da criança?

A frustração faz parte do desenvolvimento dos sujeitos, desde que ela não seja violenta, porque quem está na zona de conforto, não cresce. A frustração é inevitável e educacional. Mas é preciso saber conduzir isso. Quanto menos o adulto mobilizar a raiva da criança, melhor.  .

Claro que a raiva é inevitável, mas saber o que faremos com ela é outro passo. O uso da punição física é um exemplo de que o adulto perdeu essa batalha.

Vamos colocar nessa discussão o Estado como agente importante na construção da infância contemporânea. Como estão as políticas públicas para as crianças?

O Estado passou a fazer convênios ou a se utilizar da bolsa creche, oferecendo para o responsável pela criança dinheiro para que ele possa matricular a criança na escolinha do bairro, uma vez que não há vagas nas escolas públicas.

A questão é: como se garante uma boa educação formal e pública, se o Estado, que é o responsável, não está gerenciando o procedimento pedagógico daquela escola e a formação dos professores?

Os pais, se não encontram vaga para o filho, vão até o Juiz, que obriga a escola aceitar a criança. Há, nesse conflito, uma má compreensão por parte do responsável sobre a educação infantil, uma vez que ele não está se atentando às condições pedagógicas que a criança terá se frequentar uma turma superlotada.

Nesse momento, é urgente encontrar a melhor forma de argumentar com a população, mostrando que as condições de trabalho dos professores e monitores da Educação Infantil são fundamentais para o desenvolvimento da criança.

Profa. Dra. Silvia Rocha é pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação e Docente da Faculdade de Psicologia da PUC-Campinas.

Afetividade como porta de entrada do aprendizado infantil

Projeto de Extensão da PUC-Campinas incentiva tomada de posição afetiva do professor em sala de aula e colhe bons resultados

 Por Amanda Cotrim

Não é preciso ter só competência para entrar em uma sala de aula e ensinar crianças de 7 a 12 anos de idade. É preciso compreender o lugar do professor, da criança e da escola; ou seja, é necessário olhar para o contexto social e saber quem é o aluno. As escolas públicas, localizadas em bairros com pouca ou nenhuma infraestrutura social, são as mais penalizadas pelo abandono do poder público e o trabalho do professor é afetado diretamente.

Coordenadora dos anos iniciais da Escola Estadual Gloria Aparecida Rosa Viana, Ana Julia Fernandes Silva. /Álvaro Jr.
Coordenadora dos anos iniciais da Escola Estadual Gloria Aparecida Rosa Viana, Ana Julia Fernandes Silva. /Álvaro Jr.

Como acessar esse aluno, que chega à escola e necessita de um ensino de qualidade, mas também de atenção? Como saber o limite entre ser professor e ser amigo? Essas perguntas motivaram a criação do Projeto de Extensão “Processos afetivos e relações interpessoais no contexto da educação infantil”, que tem como responsável a Profa. Dra. Rita Maria Manjaterra Khater, da Faculdade de Psicologia da PUC-Campinas.

O objetivo inicial do projeto era desenvolver atividades com os professores de escolas da rede pública estadual de Campinas. “A perspectiva teórica passa pelo entendimento da relação entre eu e o outro, onde a afetividade é considerada um elemento essencial para o processo de desenvolvimento humano; como uma porta de entrada para o aprendizado”, destaca a professora Rita.

As escolas públicas que participam do projeto foram escolhidas pela Diretoria de Ensino de Campinas Oeste/Álvaro Jr.
As escolas públicas que participam do projeto foram escolhidas pela Diretoria de Ensino de Campinas Oeste/Álvaro Jr.

As escolas públicas que participam do projeto foram escolhidas pela Diretoria de Ensino de Campinas Oeste, órgão responsável pela supervisão das escolas de maior índice de vulnerabilidade social. Os professores participantes lecionam para os anos iniciais (1ª a 5ª série) e os anos finais (6ª a 9ª série), além do Ensino Médio. Os encontros com a equipe do projeto de Extensão da PUC-Campinas são quinzenais e ocorrem na Escola Estadual Gloria Aparecida Rosa Viana, no Satélite Iris II, e na Escola Estadual Prof. Élcio Antonio Selmi, no Residencial Cosmos, ambas na região Noroeste de Campinas.

“Esse projeto está sendo essencial, pois nele discutimos situações que muitas vezes o professor passa na sala de aula, mas não divide com ninguém. A afetividade é uma construção, então, é fundamental que o professor seja carinhoso com o aluno, porque na casa da criança muitas vezes é o oposto, é uma vida de violência, e a escola é o lugar onde se pode fazer a diferença”, opina a Coordenadora dos anos iniciais da Escola Estadual Gloria Aparecida rosa Viana, Ana Julia Fernandes Silva.

“No momento em que escolhemos trabalhar com crianças, temos que ter consciência de que a relação afetuosa será construída no cotidiano e que a afetividade em sala de aula é uma ferramenta para o ensino. As crianças precisam da gente”, defende Graziele de Oliveira, professora da 1ª a 5ª série. Sua colega de trabalho, Vanizi Maria Marçal, compartilha desse sentimento: “Com o projeto da PUC-Campinas, podemos falar sobre as nossas vivências em sala de aula e trabalharmos juntos para aprimorar a nossa postura diante da criança”, considera.

Professores precisam ser ouvidos

Projeto: "Processos afetivos e relações interpessoais no contexto da educação infantil"/ Álvaro Jr.
Projeto: “Processos afetivos e relações interpessoais no contexto da educação infantil”/ Álvaro Jr.

Para o Coordenador dos anos finais (6ª a 9ª série), da Escola Estadual Prof. Élcio Antonio Selmi, Manuel Gondim, o projeto de extensão da Universidade se diferencia porque tem como foco o professor. Segundo ele, nos últimos anos, a escola em que Gondim trabalha registrou conflitos na relação professor x aluno ao que tange, principalmente, a indisciplina e ao desrespeito. “Esse projeto veio num momento muito importante. Era preciso ouvir o professor. Muitos projetos visam os alunos, o que é fundamental, mas quase não enxergam esse profissional que é essencial para a qualidade do ensino”, observa.

Gondim relata que no início das reuniões com os seus colegas professores e com a responsável pelo Projeto de Extensão da PUC-Campinas, Profa. Rita, surgiram algumas dúvidas, como, por exemplo, o limite do ser professor e ser amigo. “Nos encontros, discutimos muito isso, porque é uma dúvida geral. E o limite é justamente até onde vai o pedagógico”, ressalta.

Uma relação dialógica e dialética

Para a aluna bolsista do Projeto de Extensão da PUC-Campinas, Pamela de Oliveira, que está no 4º ano de Psicologia, “foi fundamental ter essa vivência com os professores e perceber o docente por outro ponto de vista. Ele, muitas vezes, é fragilizado por esse sistema de educação, o que o impossibilita de exercer a afetividade. E esse é o desafio do nosso projeto”, afirmou a estudante.

“Levamos sempre atividades lúdicas para motivar a reflexão durante os encontros junto aos professores e também porque acreditamos que essas atividades ajudam a construir a afetividade”, complementa o aluno bolsista do Projeto de Extensão, Romulo Lopes, de 20 anos, aluno do segundo ano de Psicologia.

Para a responsável pelo projeto de Extensão, Professora Rita, o entendimento do papel da dimensão afetiva para o desenvolvimento humano é uma importante contribuição da psicologia para a prática pedagógica. “Possibilitar para o professor oportunidade de discutir práticas facilitadoras da construção de uma boa relação entre professor e aluno permeada por segurança e aconchego emocional, solidariedade entre pares e com proximidade nos relacionamentos humanos, contribui para que a aprendizagem ocorra com maior eficiência. Este projeto de extensão espera colaborar na formação dos professores no que se refere ao aprimoramento dos processos afetivos do  cotidiano dessas escolas”, considera.

 

 

 

 

Novas propostas para a educação infantil carregam antigas concepções

Pesquisa de mestrado defende que crianças de 0 a 6 anos precisam frequentar a escola

Por Amanda Cotrim

No século XXI, um discurso educacional ganhou forças no cenário da educação infantil. Passou-se a valorizar as “práticas espontâneas”, ou seja, adaptação do ensino às atividades de interesse do aluno, colocando o professor como um “estimulador” do conhecimento. Esse discurso carrega a concepção de que pouco se pode fazer na educação infantil, e que, por isso, não é possível avançar para além dos cuidados básicos com as crianças. É tentando compreender essa concepção sobre educação infantil que surge a pesquisa de mestrado da ex-aluna da Pós-Graduação em Educação da PUC-Campinas, Bárbara Carvalho Marques Toledo Lima, intitulada: “Proposta pedagógica para a educação infantil: educação escolar ou compensatória?”, cuja orientação foi da Profa. Dra. Heloisa Helena Oliveira de Azevedo

A ex-aluna pesquisou a proposta de educação infantil de uma das Naves-Mãe, implementadas em 2005, em Campinas. Além de abranger crianças de zero a cinco anos e 11 meses, as Naves-Mãe também se configuravam como um projeto inovador. “Do ponto de vista da estrutura física e da manutenção da vida das crianças que residem em bairros de alta vulnerabilidade social, a Nave-Mãe representa um grande avanço para Campinas. Mas do ponto de vista pedagógico, a instituição tem descaracterizado o que chamamos de escola, dentro da concepção histórico-crítica da educação. O que há de mais tecnológico, moderno, sofisticado, mantém a essência de concepções antigas da educação”, afirma Bárbara.

Para pesquisadora, o discurso atual coloca a educação a favor das exigências da sociedade capitalista

Para a pesquisadora, muitas das novas propostas que vêm surgindo para a educação infantil estão pautadas em um ensino que busca atender às necessidades da criança e ao desenvolvimento das potencialidades. Isso, para a pesquisadora, configura um discurso que coloca a educação a favor das exigências da sociedade capitalista atual. “Valoriza-se cada vez mais aquilo que é espontâneo no aluno, preocupando-se cada vez menos com o ensino e com a formação dos professores”, constata. Para ela, esse discurso desqualifica a escola de educação infantil e exige-se cada vez menos formação aos professores para trabalhar com as crianças, pois “para apenas estimular a criança, não precisa de nenhum sujeito formado; os programas para atender os alunos se simplificam e se tornam cada vez menos complexos, pois basta trazer o lúdico e as brincadeiras espontâneas como eixo norteador do trabalho”, considera Bárbara.

Ex-aluna defendeu a dissertação “Proposta pedagógica para a educação infantil: educação escolar ou compensatória?”

“Os discursos atendem, portanto, os interesses da classe dominante, uma vez que, para proporcionar uma educação infantil escolar pública, de qualidade e gratuita para toda a população é preciso de um investimento financeiro muito alto”, constata a pesquisadora. Segundo ela, exigir um professor graduado para ensinar os alunos de 0 a 6 anos é investir em um salário que seja condizente à sua formação, assim também como trazer segurança para as crianças exige tanto investimentos no espaço físico quanto um número reduzido de alunos por sala de aula. “A educação infantil tem custos altíssimos e parece mais viável desqualificar cada vez mais este segmento enquanto escola, porque sustentar um “espaço” é evidentemente mais barato”, defende.

Bárbara ressalta que o fato de uma instituição estar instalada em uma comunidade carente não significa que as crianças precisam apenas ter boa alimentação, espaço e materiais. “Independentemente da condição social em que a família da criança se encontra, além desses recursos, ela deve ter o direito à educação pública e de qualidade, tem direito à escola e não somente ao espaço, tem direito ao ensino e não somente à convivência, tem direito de ter professores qualificadamente formados e não educadores que fazem o papel da família”.

“A pesquisa questiona até quando a educação no Brasil ficará à mercê das exigências da sociedade atual, uma vez que deveria ser justamente o meio pelo qual viríamos a superar a realidade social capitalista vigente”, finaliza.

 

Cinema: Criança e Política

Por Wagner Geribello

A esteira de consequências nefastas deixada pela política não é pequena e vai das mais brandas, como indispor pessoas de orientações ideológicas diferentes, até eventos mais graves, como enfrentamentos, prisão, tortura e morte, envolvendo tanto aqueles que militam e atuam politicamente, mas também respingando em inocentes, que pagam pelo que não fizeram.

Crianças estão na ponta da lista de inocentes em cujas contas são debitadas cobranças geradas pelos descaminhos da política. O cinema já tratou do assunto diversas vezes, incluindo o cinema latino-americano que, no início deste século, colocou duas excelentes produções sobre o tema: uma brasileira, dirigida por Cao Hamburguer, e outra argentina, assinada por Marcelo Pineyro.

O filme nacional, O ano em que meus pais saíram de férias, foi lançado no ano 2000 e o argentino, Kamtchatka, três anos depois, focando a personagem central: o garoto brasileiro, Mauro, na faixa dos dez anos e Harry, o garoto argentino, mais ou menos da mesma idade, ambos filhos de militantes de esquerda, perseguidos pelas ditaduras que infestaram este subcontinente, por quase trinta anos.

Nas duas produções, a intenção é mostrar que, apesar do distanciamento consequente do desconhecimento inocente, crianças sofrem muito quando o exercício da política escapa dos contornos mínimos de civilidade para mergulhar no universo da violência.

Nos filmes em comentário, Mauro e Harry sofrem a dor da separação, medo, angústia e incerteza, sem saber exatamente o motivo, porque a lógica do confronto político-ideológico não cabe na interpretação orientada pela inocência (leia-se pureza) infantil.

Assim, além de delatar o confronto político por conta do seu saldo de violência, os diretores mostram como a lógica infantil supera a racionalidade adulta, deixando transparecer que melhor seria a sociedade nortear-se por aquela, em vez de conduzir-se por esta.

Vale conferir as duas produções, lembrando, ainda, duas curiosidades: uma sobre o título do filme argentino, relacionado com o jogo War, e a outra, sobre o filme brasileiro, que teve locações externas em Campinas, mais exatamente na confluência das ruas General Marcondes Salgado e Luzitana, uma quadra além da Casa de Saúde de Campinas, escolhido pelo perfil de época da arquitetura das construções ali existentes.

Professor Doutor Wagner Geribello é Doutor em Educação e crítico de cinema.