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Retrospectiva PUC-Campinas 2016

O ano de 2016 da PUC-Campinas foi de muitas conquistas e comemorações. Em junho, a Universidade celebrou seus 75 anos de fundação, fato que rendeu inúmeras comemorações ao longo do ano. Porém, como não é possível falar sobre tudo que a Universidade promoveu, elencamos os principais acontecimentos que foram notícia

Por Amanda Cotrim

Em maio, a PUC-Campinas realizou o Colóquio Laudato Si’: Por uma Ecologia Integral, que contou com a presença do Magnífico Reitor da PUC-Rio, Prof. Dr. Pe. Josafá Carlos de Siqueira. O tema escolhido foi baseado na Encíclica do Papa Francisco, “Laudato Si’: sobre o cuidado da Casa Comum”, que apresenta texto sobre a ecologia humana; o primeiro documento escrito integralmente pelo Papa Francisco, que buscou inspiração nas meditações de São Francisco de Assis, patrono dos animais e do meio ambiente.

Restauro do Solar do Barão, antigo Campus Central.
Restauro do Solar do Barão, antigo Campus Central.

O ano de 2016 também foi importante, pois a Universidade anunciou o restauro do Solar do Barão, antigo Campus Central. A iniciativa será possível em razão do financiamento coletivo, que se dará tanto por pessoa jurídica e física, quanto por edital de fomento. Diante da responsabilidade cultural que a legislação orienta, a PUC-Campinas observa que a preservação do patrimônio cultural é uma obrigação de toda a sociedade civil.

A Universidade foi destaque no Guia do Estudante de 2016, ficando entre as melhores universidades, segundo a avaliação realizada pelo Guia do Estudante. Ao todo, a Instituição teve 33 cursos estrelados, que constarão na publicação GE Profissões Vestibular 2017. A publicação estará nas bancas a partir do dia 14 de outubro de 2016. A Universidade recebeu 120 estrelas, tendo os cursos de Direito e Pedagogia avaliados com cinco estrelas, considerada a mais alta.  Além destes, 17 cursos, foram estrelados com quatro estrelas.

Nos 75 anos da PUC-Campinas, o Jornal da Universidade também foi especial, pois resgatou vários acontecimentos históricos que marcaram a instituição. A edição comemorativa do Jornal da PUC-Campinas resgatou fatos e pessoas que se destacaram em 75 anos de História, bem como abriu espaço para manifestações diversas sobre o significado dessa História para os tempos presente e futuro da Universidade. Esse movimento reafirmou e confirmou que, nos seus diferentes modos de ser e fazer, com variados recursos, incluindo os mais atuais e modernos, de perfil informatizado, a comunicação destacou-se como preocupação precípua e valor de primeira grandeza da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

A instituição também reconheceu e homenageou os Docentes Pesquisadores da PUC-Campinas, evento que fez parte das Comemorações aos 75 anos de fundação da Universidade.

Semana Monsenhor Salim: Integrando as comemorações dos 75 anos da PUC-Campinas, a Universidade, por meio do Museu Universitário e da Faculdade de História, promoveu a Semana Monsenhor Dr. Emílio José Salim, de 13 a 17 de junho, no Campus I. Em meio a palestras com mediadores e rodas de conversa, que abordaram temas como “Década de 1940: o surgimento das Faculdades Campineiras”, “Monsenhor Dr. Emílio José Salim e o seu tempo (1941 a 1968)”, “Memórias e Convivências”, a PUC-Campinas buscou refletir sobre a conjuntura nacional e internacional, no período de atuação de seu primeiro Reitor, Monsenhor Dr. Emílio José Salim. Corpo e alma da Instituição desde o seu nascedouro, e à época, uma das maiores autoridades de Ensino Superior do País, o Monsenhor Dr. Emílio José Salim foi peça chave da organização da maioria dos cursos superiores da Igreja nas décadas de 40 e 50. Tornou-se o principal esteio do projeto de implantação das Faculdades Campineiras e seu primeiro Reitor, entre os anos de 1958 a 1968.

40 anos de reconhecimento: No ano do Jubileu de Diamante da PUC-Campinas, a Faculdade de Ciências Contábeis comemorou os 40 anos de Reconhecimento do Curso.

Destaque na Extensão: a PUC-Campinas foi destaque no Congresso Brasileiro de Extensão Universitária (CBEU), o maior e principal encontro brasileiro da área de Extensão. Em 2016, em sua sétima edição, o Congresso aconteceu na Universidade Federal de Ouro Preto, no mês de setembro. A Universidade teve destaque no evento ao participar com 12 comunicações orais e 23 pôsteres, totalizando 35 apresentações.

Alunos e professores se destacaram: A Universidade, em 2016, comemorou muitas conquistas junto aos seus alunos, como a Parceria com a CPFL Energia e Dell, a qual possibilitou que os estudantes do curso de Engenharia Elétrica da PUC-Campinas, por meio da disciplina “Práticas de Engenharia”, ministrada pelo Prof. Dr. Marcos Carneiro e pelo Prof. Me. Ralph Robert Heinrich, participam do “Projeto Residência Tecnológica”, considerado um exercício inovador de ensino-aprendizagem.

Ainda na Engenharia Elétrica, o aluno Giordano Muneiro Arantes venceu em primeiro lugar Prêmio Melhor Trabalho de Conclusão de Curso, com o trabalho “Sensores para melhoria na locomoção de pessoas com deficiência visual”. Outro aluno premiado foi o estudante de Jornalismo da PUC-Campinas, Ricardo Domingues da Costa Silva, que venceu o 19º prêmio FEAC de Jornalismo, na categoria Produto Universitário, assim como Jhonatas Henrique Simião, de 22 anos, que ficou em primeiro lugar no 9º Prêmio ABAG/RP de Jornalismo “José Hamilton Ribeiro”.

Em 2016, a Profa. Dra. Maria Cristina da Silva Schicchi, docente do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da PUC-Campinas foi outorgada com o Prêmio ANPARQ 2016, da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, na categoria Artigo em Periódico, pela publicação “The Cultural Heritage of Small and Medium- Size Cities: A New Approach to Metropolitan Transformation in São Paulo-Brazil”, editado na traditional Dwellings and Settlements Review (v. XXVII, p. 41-54, 201).

Semana Cardeal Agnelo Rossi: Integrando às comemorações dos 75 anos da PUC-Campinas, a Universidade, por meio do Museu Universitário e da Faculdade de História, promoveu a Semana Cardeal Agnelo Rossi, em setembro de 2016. A Instituição reuniu a comunidade universitária e a sociedade em geral e homenageou o Cardeal Agnelo Rossi, que ajudou a consolidar os alicerces da PUC-Campinas.

Outorga do Título Doutor Honoris Causa ao prof Dr José Renato Nalini - Lançamento do livro Cardeal Agnelo Rossi
Outorga do Título Doutor Honoris Causa ao prof Dr José Renato Nalini – Lançamento do livro Cardeal Agnelo Rossi

A PUC-Campinas também viveu dois momentos muito importantes em 2016: outorgou o título de Doutor Honoris Causa ao Professor Doutor José Renato Nalini, formado em Direito pela PUC-Campinas, Mestre e Doutor em Direito Constitucional pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Leciona desde 1969, quando iniciou suas atividades no Instituto de Educação Experimental Jundiaí (atual E.E. Bispo Dom Gabriel Paulino Bueno Couto) dando aula de Sociologia em aperfeiçoamento para professores. Desde então, nunca mais deixou de lecionar.

A Instituição também foi palco da terceira edição do projeto “Palavra Livre – Conscientização Política no Processo Eleitoral”, com sabatina aos candidatos à Prefeitura e à Câmara de Vereadores de Campinas, no mês de setembro. O projeto “Palavra Livre” acontece desde 2005 e promove debates democráticos sobre temas diversificados da atualidade. Em 2008, como parte do projeto, foi realizada a primeira Sabatina com candidatos à Prefeitura de Campinas, o que se repetiu em 2012 e em 2016.

Dom Gilberto participa da Semana em sua homenagem
Dom Gilberto participa da Semana em sua homenagem

Semana Dom Gilberto: Integrando às comemorações dos 75 anos da PUC-Campinas, a Universidade promoveu a Semana Dom Gilberto Pereira Lopes, em outubro, reunindo comunidade universitária e a sociedade em geral, homenageando o Bispo Emérito de Campinas Dom Gilberto Pereira Lopes, que atuou como Arcebispo Metropolitano de Campinas e Grão-Chanceler da Pontifícia Universidade Católica de Campinas no período de 1982 a 2004. A homenagem mostrou o histórico trabalho de Dom Gilberto frente à Arquidiocese de Campinas e à PUC-Campinas e prestou agradecimento pela sua dedicação e amor para com a Universidade e para com o seu povo.

Colóquio “A Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade”: Integrando às comemorações dos 75 anos da PUC-Campinas, a Universidade realiza de 07 a 10 de novembro de 2016 o Colóquio “A Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade”. O evento foi organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura e teve o objetivo de discutir a Doutrina Social da Igreja, por meio de conferências e mesas-redondas.

Resenha: Professores resgatam legado da Imprensa campineira

Por Tereza de Moraes

Em uma produção gráfico-editorial primorosa, a Editora Setembro, de Holambra, São Paulo, disponibiliza ao público a obra “A Imprensa em Campinas: retratos da história”, organizada pelos experientes professores Carlos Gilberto Roldão, Fabiano Ormaneze e Ivete Cardoso do Carmo-Roldão. Tal produção, certamente, atraiu e constantemente arrebatará muitos leitores não somente pela qualidade editorial, mas principalmente pelo tema que aborda com legitimidade e exatidão.

Profa Tereza de Moraes: “Trata-se de um obra de grande relevância”/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa Tereza de Moraes: “Trata-se de um obra de grande relevância”/ Crédito: Álvaro Jr.

Qualquer leitor, conhecedor do assunto ou leigo, encontrará o percurso histórico preciso da Imprensa em Campinas, em toda a sua abrangência, da origem (1858) até os dias atuais. Para tanto, a obra está dividida em doze capítulos, destacando um percurso diacrônico pela Imprensa em Campinas, analisando mais de um século de jornalismo, visitando tanto a Imprensa tradicional quanto a popular. A origem é o Diário do Povo (1912 a 2012), anexado posteriormente ao Correio Popular, fundado em 1927.

Nas competentes mãos de Ivete Cardoso Roldão e Carlos Gilberto Roldão, Marcel Cheida e Cyntia Andretta, três capítulos abordam a história completa da Imprensa tradicional campineira, desde a fundação até o presente momento, passando por todas as dificuldades, superações, bastidores, situações cômicas, culminando
com as transformações tecnológicas e a atual situação da conhecida Rede Anhanguera de Comunicação (RAC).

Já os três capítulos na responsabilidade de Juliana Sangion e Rose Bars, Luiz Roberto Saviani Rey e Paiva Jacobini desvelam com rigorosa precisão a presença na cidade das sucursais de grandes jornais da capital, seu significado, sua importância e sua contribuição.

Dois capítulos são destinados a esclarecer as experiências do Jornal de Hoje (de 1979 a 1981) e do Jornal de Domingo, um semanário que, durante vinte anos (1972 a 1993) chegou gratuitamente às residências dos campineiros. Nessa abordagem, Carlos Alberto Zanotti e Toledo-Vieira informam com dados confiáveis de pesquisa intensa e com muito bom humor a força da concorrência, num contexto histórico propício, entre a Imprensa escrita já consolidada e a inovação da rebeldia.

Molck tem a missão de revelar a imprensa contemporânea e o faz com profundidade e estilo peculiar. Expõe os traços marcantes da imprensa pós-intenet em todos os seus aspectos (linguagem, público, conteúdo…), simplificando ao leitor o contato com as experiências existentes (Metro e Destak). Chiquinho Jr. e Rosa revelam os traços do jornalismo popular existentes em Notícias Já, também um periódico pós-moderno, que justifica a permanência da Imprensa escrita mesmo após o advento das modernas tecnologias.

Os dois capítulos restantes, se não se encaixam somente nesse percurso diacrônico, nem por isso são menos relevantes. Ao contrário, em mãos de José Roberto Gonçalves e Fabiano Ormanze, fica a incumbência de tratar da polêmica entre Imprensa e discriminação. Gonçalves faz um estudo da imprensa negra (Getulino: 1923 a 1926) e a sua luta contra a discriminação em uma brilhante análise fundamentada nos estudos do discurso, demonstrando que fazer jornalismo é, antes de tudo, fazer política. Já Ormaneze presenteia o leitor com o último capítulo, revelando a participação das mulheres na imprensa, esclarecendo que tal presença começa tímida, através da utilização de pseudônimos, em
função do papel da mulher na sociedade androcêntrica e patriarcal, mas resulta em grandes reportagens.

Trata-se, portanto, de obra de grande relevância, recomendada tanto ao público em geral quanto aos especialistas da área do jornalismo, já que fundamentada em intensas pesquisas e muita reflexão crítica. Importante frisar que a relevância se estende ao fato de que a visão da Imprensa campineira nunca se distancia de uma contextualização mundial, podendo o leitor caminhar pela província sem perder de vista o universal. Nesse sentido, é uma obra para qualquer leitor do mundo, mas, sobretudo, para o leitor campineiro, que faz um verdadeiro ingresso ao túnel do tempo e revisita a Campinas antiga. No dizer machadiano, obra escrita com a pena da sabedoria, da paixão e da saudade.

Tereza de Moraes é Professora da Faculdade de Letras da PUC-Campinas

 

Quando a “deficiência” faz a diferença no mundo jornalístico

Coletânea de depoimentos traz histórias de pessoas com deficiência que escolheram o Jornalismo como profissão e mostraram que um olhar plural só faz bem à profissão

            Por Bárbara Garcia

O livro-reportagem intitulado Sobre limão e linhas tortas – a trajetória de pessoas com deficiência no jornalismo profissional foi produzido como coletânea de depoimentos com nove jornalistas que têm alguma deficiência, seja física, intelectual – como no caso da primeira repórter do mundo com Síndrome de Down, Fernanda Honorato – ou visual.

Bárbara Garcia, autora do livro. Crédito: Álvaro Jr.
Bárbara Garcia, autora do livro. Crédito: Álvaro Jr.

Quanto ao título, é bem provável que você já tenha ouvido os ditados populares: “Se a vida lhe der um limão, faça dele uma limonada” e “Deus escreve certo por linhas tortas”. A intenção foi que o limão representasse as deficiências em si, que são associadas pelo senso comum como sinônimo de incapacidades crônicas, mas que possibilitam que a pessoa com deficiência possa construir um olhar diferenciado da realidade e se destacar no mercado de trabalho jornalístico. Já as linhas tortas representam as barreiras do meio social, enfrentadas cotidianamente por essas pessoas.

Vale ressaltar que a Convenção Internacional dos Direitos da Pessoa Com Deficiência da ONU, ocorrida em 2007, em Nova York, definiu as deficiências como características de ordem física, sensorial ou intelectual, que, em interação com diversas barreiras do meio social, impedem que o indivíduo viva plenamente. Portanto, o impedimento e a desigualdade enfrentados por quem possui alguma deficiência são causados não pelas características pessoais, mas sim pelas barreiras – arquitetônicas, de comunicação, de comportamento e outras – da sociedade.

A escolha de abordar o tema da inclusão no ambiente de trabalho se deu porque eu, ex-aluna da graduação em Jornalismo da PUC-Campinas, formada em 2015, também possuo uma deficiência. Utilizo um andador de três rodas para me locomover, por conta de uma dificuldade de equilíbrio causada por prematuridade no nascimento. Ao longo dos anos da graduação, pude perceber que o espaço destinado na mídia para a discussão dos direitos das pessoas com deficiência, ainda hoje, é pequeno, e muitas vezes a representação dessas pessoas é estigmatizada, associando-as a “coitadas” e “heróicas”, numa situação na qual a pessoa deixa de ser alguém como qualquer outra, com qualidades, defeitos, direitos e deveres.

          Além disso, as dificuldades e inseguranças que precisei enfrentar em meu cotidiano fizeram-me considerar que outras pessoas, com diferentes características e deficiências, poderiam contar boas histórias a respeito de suas experiências no mercado de trabalho. O livro foi produzido como Trabalho de Conclusão de Curso.

 Os entrevistados do Livro-Reportagem são homens e mulheres com idades e deficiências diversas. Uma redatora de rádio, dois repórteres de jornal impresso, uma repórter de TV, dois assessores de comunicação, um estudante de doutorado, uma editora de site de notícias e uma colaboradora de revistas. Para eles, a deficiência se tornou um diferencial, como no caso do ex-repórter do jornal O Estado de S. Paulo, Lucas de Abreu Maia.

Ele entrou no programa de treinamento do jornal em 2009, e em uma das atividades, os participantes foram levados à Praça da Sé, centro da capital paulista, e orientados a produzir uma reportagem sobre o local. Lucas é cego e estava acompanhado da sua cadela-guia. Segundo ele, nessas situações os repórteres costumam fazer matérias a respeito da condição das calçadas, poluição, trânsito e outros assuntos ligados à cidade. Ele começou a pensar: “E agora? O que vou fazer aqui?”. Por conta da falta da visão, ele presta mais atenção aos seus outros sentidos, como a audição. Foi quando começou a ouvir grande quantidade de sabiás cantando no meio da Praça da Sé, algo incomum no Rio de Janeiro, cidade em que se graduou. Ele decidiu, então, perguntar aos pedestres se realmente havia grande quantidade de sabiás no local e como era a relação dessas pessoas com os pássaros. Voltou ao jornal e decidiu procurar um especialista em aves, o qual confirmou a existência de uma superpopulação de sabiás naquela região de São Paulo. A cegueira o fez perceber algo que outros repórteres nem imaginavam. Foi o suficiente para Lucas ter em mãos uma reportagem muito diferente das demais. Ao final do treinamento, foi um dos oito participantes escolhidos para ser contratado diretamente pelo jornal, tornando-se repórter do caderno de Política.

            No livro-reportagem, os depoimentos são escritos em primeira pessoa, isto é, o leitor tem a impressão de que é o próprio depoente quem conta a história. O conjunto de depoimentos deixa claro que a deficiência precisa ser encarada como uma das muitas características presentes na personalidade de alguém e que esse olhar diferenciado da realidade pode gerar boas contribuições para a coletividade.

Cada jornalista entrevistado demonstra, a seu modo, como fez limonadas de seus limões. Sem deixar de problematizar a lei de cotas, esses jornalistas com deficiência relembram os momentos mais desafiadores de suas carreiras, expondo seus sonhos e suas frustrações profissionais. Além disso, eles analisam as mudanças que o Jornalismo vem enfrentando, sem que este se esqueça da necessária inclusão de todas as pessoas numa redação de jornal.

Mais do que um conjunto de histórias de vida, o objetivo do livro foi demonstrar o quanto a inclusão das pessoas com deficiência é um assunto de grande importância para a sociedade.  Esse debate é urgente.

 

 

Ciência e Mídia estão na mesma estrutura mercadológica

Por Amanda Cotrim

Depois que o cineasta brasileiro Fernando Meirelles abordou a dificuldade dos cientistas em se comunicarem com o público, durante o Congresso Brasileiro de Unidade de Conservação, em setembro, a relação entre mídia e ciência voltou a ganhar contornos nos debates entre cientistas e jornalistas. Como falar sobre temas tão complexos para o grande público? De quem é a responsabilidade pela divulgação científica?

Edson Rossi: "sem o jornalismo de ciência, é a sociedade que perde". Crédito: Álvaro Jr.
Edson Rossi: “sem o jornalismo de ciência, é a sociedade que perde”. Crédito: Álvaro Jr.

Nessa relação entre cientistas e jornalistas existe uma assimetria de expectativa. O jornalista busca uma coisa e o cientista outra. Essa é a conclusão que chega o professor de Jornalismo da PUC-Campinas, Edson Rossi, que tem mais de 30 anos de experiência no mercado da notícia. “O objetivo do jornalista não é tratar o assunto com a densidade e o espaço que o pesquisador dedica. O profissional de imprensa vai lidar com o assunto, no máximo, por algumas horas. Se o pesquisador não entender minimamente como a imprensa funciona, ele terá dificuldade de lidar e não ficará satisfeito com o resultado final”.

Profa. Dra. Vera Placido, docente no curso de Geografia- Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Dra. Vera Placido, docente no curso de Geografia- Crédito: Álvaro Jr.

A Profa. Dra. Vera Placido, docente no curso de Geografia da PUC-Campinas destaca que, no nosso atual contexto territorial em que as informações chegam de diferentes formas e se utilizam de meios também distintos, é fundamental que a ciência se aproxime da mídia, em especial dos profissionais de jornalismo, para se pronunciar de forma mais imediata e esclarecedora possível. “Eu acredito que é possível uma aproximação em prol de objetivos convergentes, como é o caso de informar corretamente, num primeiro momento e, posteriormente, contribuir com o processo de formação cultural da sociedade como um todo”, considera.

“O objetivo do jornalista não é tratar o assunto com a densidade e o espaço que o pesquisador dedica. O profissional de imprensa vai lidar com o assunto, no máximo, por algumas horas. Se o pesquisador não entender minimamente como a imprensa funciona, ele terá dificuldade de lidar e não ficará satisfeito com o resultado final”

No que tange as questões ambientais, segundo a professora Vera, essa aproximação se torna ainda mais necessária, já que o ambiente envolve a todos e impacta a qualidade de vida. “Divulgar corretamente o que está acontecendo, bem como as medidas que possam ser adotadas no sentido de mitigar os impactos, é função não apenas de uma mídia comprometida, mas da própria ciência que deve contribuir com informação segura sobre os diversos temas, esclarecendo a população sobre o seu papel e sua função”, enfatiza.

Além de uma questão de linguagem, a relação conflituosa e desconexa entre cientistas e jornalistas é resultado da complexa estrutura que começa desde a universidade. Essa é a questão colocada pela Pesquisadora em Comunicação e docente no Centro de Linguagem e Comunicação da PUC-Campinas, Profa. Dra. Márcia Rosa. Para ela, a produção científica e a produção jornalística estão inseridas em universos parecidos e por isso divergem. Ambas as produções são reguladas por uma estrutura mercadológica, segundo ela. “Muitas vezes, o pesquisador não está preocupado e nem tem interesse na divulgação científica do seu trabalho pela mídia. Ao contrário, a divulgação até pode atrapalhar que esse pesquisador consiga novos financiamentos. Então, o cientista está numa estrutura de mercado em que ele também compete com a imprensa. O pesquisador precisa publicar nas revistas científicas, realizar artigos, produzir. Ou seja, os cientistas passam pelas mesmas questões que passam os jornalistas numa redação. Cada um desses profissionais buscará os seus interesses”.

Márcia Rosa- Professora no Centro e Linguagem e Comunicação - Crédito: Álvaro Jr
Márcia Rosa- Professora no Centro e Linguagem e Comunicação – Crédito: Álvaro Jr

Novas formas de comunicar ciência

“Vivemos uma estrutura com paradigmas do século XIX, mas com os jornalistas e cientistas que são do século XX e XXI e isso causa um caos, uma vez que cientistas e jornalistas continuam com hábitos do século XX. Essa estrutura não permite mais que a comunicação se realize de forma passiva entre jornalista e fonte. A relação hoje é dialógica. Em rede. São vários interlocutores e reações”, contextualiza Márcia Rosa.

As redes sociais fazem parte dessa comunicação dialógica e servem como um espaço de embate de versões entre pesquisadores e jornalistas. “Se o jornal disser X, o pesquisador, imediatamente, vai à rede social desmentir o jornal”, avalia o jornalista Edson Rossi.

Com pouco espaço para as notícias de ciência, quem perde é a sociedade, defende Rossi. “Por mais que os conflitos existam, o fato de cotidianamente se falar sobre ciência no jornal, inevitavelmente se formará um público no assunto. Às vezes o pesquisador não quer divulgar nos veículos de massa, apenas revista cientifica segmentada”, constata.

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Para Rossi, “o pesquisador que abre mão do grande veículo de imprensa para se comunicar, pode achar que isso não fará diferença do ponto de vista da pesquisa, mas o que ele pesquisou (o que não deveria ser em causa própria) deixará de ser dividido com as pessoas. O cientista também está deixando de contribuir para a educação científica. É a sociedade que perde”, conclui.

Jornalismo de Dados: Métodos empíricos de investigação social

Por Rosemary Bars Mendez

Para muitos estudantes de Jornalismo, a escolha pela área acontece em função da ausência da matemática, senso comum para explicar que a atividade profissional fala de pessoas, conta histórias, relata fatos e acontecimentos sociais. Nesses textos, o número não entraria. Ledo engano.

A quantidade de informação disponibilizada hoje, potencialmente na internet, gera um olhar diferente para os números e para o ‘relacionamento’ que o profissional deve ter ao planejar a produção da reportagem, focada em dados decodificados para se ter informações precisas e exatas, com rigor metodológico que garante a cientificidade do material jornalístico.

Philip Meyer, que atuou como professor na North Carolina University, é apontado por estudiosos como o responsável por propor uma metodologia científica de investigação social para o que chamou de jornalismo de precisão, nos livros Precision jornalism: a reporter´s introduction to social science methods e The new precision jornalism, publicados em 1973 e 1991. Segundo Meyer, os jornais americanos nos anos 80 fundamentavam suas notícias e reportagens em pesquisas próprias, por desacreditarem nos números passados pelos políticos. Nessa época, as redações começavam a ter acesso a computadores e a organizar bases de dados. Porém, as primeiras metodologias foram desenvolvidas nos anos 60, num curso que Meyer fez em Havard University sobre métodos empíricos de investigação social.

Essa postura profissional já foi disseminada no Brasil. O jornal O Estado de S.Paulo foi selecionado como finalista no prêmio Data Journalism Awards 2015, organizado pela Global Editors Network, com o projeto Atlas Político, com ferramentas interativas para analisar as eleições de 2014 e o cenário político nacional. A ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), organiza desde 2002 cursos de Reportagem Avançada por Computador (RAC). Muitos de seus filiados já passaram pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, da The University of Texas at Austin, que organizou entre agosto e setembro um curso virtual de Jornalismo de Dados para 1.483 jornalistas (professores e alunos), cinco deles professores da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas. Foram semanas de intensas discussões e exercícios com uma variedade de softwares e ferramentas web. Um processo de aprendizado que exige uma nova postura dos profissionais da área e que deve permear os bancos das Faculdades de Jornalismo no Brasil.

O jornalista Paul Bradshaw, professor visitante de Jornalismo na City University London, no texto A pirâmide invertida do jornalismo de dados, aponta que “O jornalismo de dados começa de um desses dois modos: ou você tem uma pergunta que requer o uso de dados ou você tem uma base de dados que precisa ser interrogada”. Para as duas questões a resposta é a mesma: copilar os dados disponibilizados, limpar, fazer raspagem e converter os documentos (relatórios, pesquisas, dados estatísticos etc.) em informação que possa ser compreensível ao receptor. Para isso, é necessário domínio de ferramentas básicas (e gratuitas) disponíveis como Excel, Google Docs, Google Refine, mapas, gráficos, sistemas de nuvens para armazenamento dos dados coletados.

Saber ler os dados (números) significa que o jornalista consegue sim encontrar uma boa história para contar, apoiado na qualidade do processo de apuração e sistematização. O Instituto Nacional de Reportagem, Assistida por Computador (NICAR, como é conhecido por sua sigla em inglês )organiza vários cursos de Jornalismo de Dados, capacitando profissionais no mundo todo. Os primeiros passos foram dados em 1975 na discussão sobre como partilhar e compartilhar informações, preocupações que hoje permeiam as redações em busca de dados que revelem a realidade de um país, de uma cidade, de um grupo social.

Esse é o futuro do jornalismo, com profissionais que se dedicam a usar ferramentas digitais para processar dados eletrônicos e a se desdobrarem a manusear ferramentas de código livre e aberto. É o momento para se compartilhar informações, aprimorar habilidades e conhecimentos sobre práticas de investigação jornalística.

Rosemary Bars Mendez é Professora de Jornalismo e coordenadora da Central de Estágio da PUC-Campinas

 

 

 

O poder da imagem na era digital

A Morte de Aylan:  a fotografia revela o que as palavras não são capazes de transmitir

Por Nelson Chinalia

No início de setembro de 2015, uma fotografia chocou o mundo e colocou em pauta novamente a força perturbadora da imagem.  A rapidez da circulação de notícias gera, inevitavelmente, opiniões divergentes e coloca em cheque o papel e a responsabilidade da mídia ao difundir uma fotografia que retrata de forma crua a interrupção da inocência e da infância em forma de violência.

A divulgação da imagem da criança morta, seja por veículos de mídia, com diferentes linhas editoriais, seja por usuários de redes sociais, ocorreu em meio a debates sobre a necessidade de expor a imagem tão agressiva. Uma semana antes da divulgação da foto de Aylan, foi encontrado um caminhão com setenta e um corpos em decomposição de refugiados na fronteira da Hungria com a Áustria, provavelmente todos sírios. Nenhuma foto foi divulgada, devido à natureza perturbadora da imagem. Os setenta e um corpos viraram estatística em relatórios oficiais. As imagens destes corpos existem anexadas aos relatórios policiais. São chocantes demais para sair na mídia.

Discussões como essa compreensivelmente resultam num resgate histórico, que compreende não só o papel e a importância do fotojornalismo, mas também evoca memórias semelhantes. Uma criança morta na praia, evidentemente, é uma imagem terrível. Mostra o horror da fuga fatal e inútil da Síria devastada pela guerra.

O choque e a imediata relação nas redes sociais, neste mundo cada vez mais conectado, suscitam a pergunta: Publicar ou não? Devemos, podemos, temos que mostrá-la?

Muitos veículos de comunicação no mundo encontraram motivos convincentes e dignos de consideração para não divulgar esta fotografia. É uma questão de respeito, de consideração à dignidade da criança, da família da vítima, de cuidado da mídia que, não raro, encara embates complexos entre a obrigação de expor e o limite ético.

Nós decidimos mostrá-la. Não por sensacionalismo, não para obter quantidade de cliques, não para aumentar nosso alcance na TV. Nós a divulgamos porque oferece um símbolo à tragédia dos refugiados: o da criança inocente, pela qual os pais decidiram seguir um perigoso caminho, arriscando a vida para dar-lhe um futuro humano melhor, que terminou de forma fatal no mar.

Nós a divulgamos porque ela nos abalou e nos deixou mudos e pensativos em nossa reunião de pauta, tocados pelo sofrimento e pela morte. Nós a mostramos, porque nos fez sofrer e, no meio da agitação de nosso cotidiano jornalístico, nos levou a um instante de reflexão. Diante desta imagem os editores responsáveis por seus veículos tiveram que optar pela força da comunicação que a fotografia revela o que as palavras não capazes transmitir: nossa condição de impotência diante da dor daquela família. Os editores decidiram pela publicação no limite da responsabilidade e do senso ético e em meio a muita indignação.

Quantas leituras estas imagens dos refugiados podem nos proporcionar? De imediato, causa indignação, tristeza, repulsa e até mesmo a crença no fim da humanidade. O pano de fundo destas guerras e conflitos, a fome, as mortes e a violência são resultados da dinâmica capitalista que se nutre de vidas, da desigualdade e do sofrimento. As fotografias desnudam a triste realidade que nos cerca, a imagem do garoto Aylan é a síntese de tudo. Lembro-me do trabalho de Sebastião Salgado, tão sensível e profundo que remete à frase “é preciso mudar a sociedade para que estas imagens não mais existam”.

Seja a imagem de Aylan, a foto-ícone da menina de nove anos fugindo nua, após bombardeio na guerra do Vietnã, ou a foto de Kevin Carter, que fotografou um menino desnutrido com um abutre postado às suas costas, são imagens que nos perturbam e comovem porque individualizam a tragédia. Colocam sobre os ombros frágeis de um personagem a representação de todos que foram vítimas do mesmo infortúnio.

Foto de Nick Ut, que tornou-se ícone da Guerra do Vietnã
Foto de Nick Ut, que tornou-se ícone da Guerra do Vietnã

A Europa mudou após a publicação da Imagem de Aylan: governantes agiram rápido, países europeus já discutem aceitar cotas de refugiados.

Kevin Carter foi perseguido e condenado por sua “frieza”, pagando com a própria vida/ Reprodução
Kevin Carter foi perseguido e condenado por sua “frieza”, pagando com a própria vida/ Reprodução

Talvez por isso a imagem de Aylan possa ser matriz de um movimento, enfim, mais humano em direção aos refugiados que desertam de uma indignidade e deparam com outra. O garotinho de três anos, que só conheceu a fuga e a rejeição como modo de vida, já inspirou alemães e finlandeses a oferecer suas casas a refugiados. Aylan não foi salvo, mas seu sacrifício e o registro em imagens de seu fim podem salvar muitas vidas.

A era digital se estabelece na mídia e o papel da imprensa de uma maneira geral volta a ser discutida. Antes, a informação precisava ter um suporte físico (papel, frequências eletromagnéticas, celuloide etc.), mas agora ela é imaterial (e bits bytes), o que a torna fluida, fácil de ser copiada e transmitida em fração de segundo para milhões de pessoas.

Não temos mais simplesmente leitores, ou espectadores passivos, agora são usuários, com habilidades de comunicação e domínio das ferramentas e plataformas, interagindo com os veículos de comunicação, seja compartilhando conteúdo ou estabelecendo diálogo com o mesmo. Com a grande rede mundial, as pessoas reagem de pronto. Rápida como a imagem símbolo de Aylan, que agora vive na nossa memória como a imagem da imensa massa em fuga de mais uma guerra insana.

Nelson Chinalia é professor de Fotografia e Fotojornalismo da Puc-Campinas, foi editor de fotografia do Correio Popular, ganhou o Prêmio Vladmir Herzog em 1995 com a fotografia “Violência Nua”. Pesquisador Grupo de Pesquisa Memória e Fotografia (GPMeF) da UNICAMP.

 

Religião, ciência e mídia

Por Lindolfo Alexandre de Souza

Há alguns anos o Brasil discutia a licitude e a legalidade do uso de células-tronco embrionárias em pesquisas científicas, época em que o assunto era analisado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). E naquele momento foram muitos os órgãos de imprensa que cumpriram o que se espera de um jornal, mostrando de forma ética e competente as várias versões do debate, a fim de que os leitores pudessem tirar suas próprias conclusões.

É verdade que há religiosos que ainda hoje desprezam os avanços da ciência. Mas isso não significa que todos os religiosos pensem assim./ Crédito: Álvaro Jr.
É verdade que há religiosos que ainda hoje desprezam os avanços da ciência. Mas isso não significa que todos os religiosos pensem assim./ Crédito: Álvaro Jr.

Outros trabalhos jornalísticos, porém, simplesmente prestaram um desserviço. Não porque mentiam ou manipulavam, mas porque apresentavam uma abordagem bastante limitada e, portanto, parcial. A caricatura era recorrente: de um lado, os religiosos presos aos seus dogmas medievais, contrários aos avanços da ciência; de outro, os cientistas, impedidos de avançar em suas pesquisas e, assim, trilhar o caminho que garantiria o bem da humanidade.

Parte da imprensa não percebia, naquele momento, que o conflito não era, necessariamente, entre religião e ciência. Mas a contradição era mais profunda e se apresentava a partir do confronto entre duas maneiras de analisar a questão, cada qual construída a partir de visões de mundo fundamentadas em pressupostos científicos, filosóficos, éticos e, também, religiosos.

Esse exemplo pode contribuir com a reflexão sobre de que forma os meios de comunicação abordam a relação entre religião e ciência. Em outras palavras, é pertinente questionar se a mídia reforça, ou não, um aspecto central neste debate, que é propor religião e ciência como campos inconciliáveis, excludentes e incompatíveis ou, visto por outro ângulo, como experiências diferentes, com identidades e métodos próprios, mas capazes de estabelecer pontes de diálogo.

Duas razões podem ajudar a entender porque parte da mídia aposta na perspectiva da contradição. O primeiro é identificar algumas pinceladas positivistas no surgimento do fenômeno que, atualmente, denominamos como imprensa. Assim, em contraposição à cristandade medieval onde havia uma hegemonia do discurso religioso em relação às descobertas científicas, a modernidade propôs a inversão deste quadro, atribuindo à razão a tarefa de conduzir o ser humano em busca de suas questões mais fundamentais, relegando a experiência religiosa à categoria de experiência privada. Assim, tanto no mundo medieval como no moderno, ciência e religião ocupam lugares opostos.

Outra explicação está no conceito de valor-notícia, que são os critérios usados pela mídia para discernir se um acontecimento ou assunto merece ser transformado em notícia. Entre referências como proximidade, relevância e novidade, acentua-se a presença da controvérsia e do conflito. Ou seja, quando uma pauta é marcada pela contradição, mais chance ela tem de ser vista como possiblidade de produção jornalística. Desta forma, situações conflitivas entre religião e ciência podem render, nessa perspectiva, boas pautas jornalísticas.

Mas gerar boas matérias jornalísticas não significa, necessariamente, contribuir com a consolidação de um processo mais amplo, por meio do qual o ser humano consiga buscar repostas mais consistentes sobre si mesmo, sobre o outro, sobre o mundo e sobre a sociedade. E, nesse sentido, vale a pena questionar a responsabilidade da mídia ao tomar o princípio da contradição como único elemento de análise.

É verdade que há religiosos que ainda hoje, em pleno Século XXI, desprezam os avanços da ciência. Mas isso não significa que todos os religiosos pensem assim. Da mesma forma, é possível encontrar, também no Século XXI, cientistas capazes de afirmar que a ciência dá conta de responder a todas as questões que dizem respeito à vida do ser humano, desvalorizando qualquer perspectiva de espiritualidade ou de abertura à transcendência. Mas existem, também, cientistas que não encontram incompatibilidade entre a prática cientifica e a experiência religiosa.

Um caminho para superar tal questão, talvez, esteja na provocação proposta por São João Paulo II no primeiro parágrafo da encíclica Fides et Ratio, promulgada setembro de 1998. “A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio”.

Lindolfo Alexandre de Souza é diretor da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas e Mestre em Ciências da Religião.

 

Documentário “Direito de Permanecer Calado”

Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo reflete sobre a relação entre a população pobre e a Polícia Militar

 

Por Amanda Cotrim

Em trabalho de pesquisa, ex-alunos de jornalismo da PUC-Campinas mostraram que moradores de ocupações urbanas, em Campinas, não se sentem seguros diante da Polícia. Por meio do estudo de campo, ouvindo moradores da região do Parque Oziel, na área sul da cidade, os estudantes detectaram o descrédito da população em relação à instituição policial, mostrado em videodocumentário realizado como projeto experimental, em 2014. “A sensação de insegurança dessa população, em relação à Polícia Militar (PM), nos impulsionou e o estudo mostra que a PM gera medo nos moradores daquela região”, afirma o estudante Douglas Moraes

Gravação do documentário no Parque Oziel, em Campinas/ Crédito: Arquivo
Gravação do documentário no Parque Oziel, em Campinas/ Crédito: Arquivo

Em 2013, o Índice de Confiança na Justiça Brasileira (ICJBrasil), realizado pela Escola de Direito de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), apontou que 70,1% da população brasileira não confia nas polícias.

Para realizar a pesquisa e o videodocumentário “Direito em permanecer calado”, os ex-estudantes participaram de uma imersão na região do Parque Oziel, localizado a seis quilômetros do centro de Campinas. O local já foi considerado a maior ocupação urbana na América Latina. Os bairros Parque Oziel, Jardim Monte Cristo e Gleba B ocupam uma área de um milhão e quinhentos mil metros quadrados, com três mil famílias, num total de 30 mil moradores. O videodocumentário entrevistou moradores dos bairros Gleba B, Parque Oziel, Jardim Monte Cristo, São José, Telesp e Jardim das Bandeiras I e II, durante quatro meses (junho a outubro de 2014), além de membros da Policia Militar de Campinas. Um dos aspectos abordados é o que os, agora, ex-alunos de Jornalismo chamaram de tolhimento à liberdade de expressão, como a desarticulação de um baile  funk na região, com o argumento de que havia a presença de menores e de drogas.

Da esquerda para direita: Orientador Prof. Me. Marcel Cheida, e os ex-alunos Douglas Moraes e Mayara Yamaguti/ Crédito: Álvaro Jr.
Da esquerda para direita: Orientador Prof. Me. Marcel Cheida, e os ex-alunos Douglas Moraes e Mayara Yamaguti/ Crédito: Álvaro Jr.

Durante o estudo, os realizadores do vídeodocumentário também se valeram de bibliografia e entrevistas com especialistas, que refletiram sobre os motivos que levam a população pobre e que mora na periferia a ter medo da polícia. “Durante o trabalho, entrevistamos especialistas em Ciência Política, Ciência Social e em Direitos Humanos, que discutem sobre os preconceitos sociais penetrados na própria PM contra determinada classe social”, explicou Moraes. Os ex-estudantes também destacaram que há um imaginário social que faz com que o policial ao ver um rapaz jovem, negro e na periferia pense que ele, necessariamente, cometeu um crime.

Para o trabalho, os estudantes entrevistaram a Doutora em Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), Thais Battibugli, que explicou que “a gestão da segurança pública ainda permanece no cunho autoritário e violento”. A causa disso, segundo o mestre em direitos humanos pela USP e Tenente Coronel da Polícia Militar de São Paulo, Adilson Paes de Souza, é que a segurança pública ainda está sob a ordem “da doutrina da segurança nacional, idealizado pelos EUA após a Segunda Guerra Mundial e difundida na América Latina”, explicou.

O outro lado:

O Tenente Coronel do 35º Batalhão da Polícia Militar de Campinas, Marci Elber Rezende, também entrevistado no documentário, não avalia que exista preconceito na abordagem policial e diz que os policiais são hostilizados e reagem.  “A polícia não age de forma violenta. Ela reage às ações violentas. A polícia é preparada para realizar abordagem a pessoas suspeitas, a partir do feeling do policial”, relatou.

O Jornalismo precisa olhar para a realidade

Para o orientador do trabalho e docente da Faculdade de Jornalismo, Prof. Me. Marcel Cheida, o trabalho dos ex-alunos reforça a necessidade de o jornalismo se voltar para as questões sociais. “É preciso que o jornalista olhe para a realidade”, ressalta. O Projeto Experimental foi uma realização dos ex-alunos Arthur Menicucci, Douglas Moraes, Gabriela Aguiar e Mayara Yamaguti. A orientação foi do Prof. Me. Marcel Cheida. O trabalho foi avaliado com nota 9,5.

 

 

 

Tome Ciência

Com o tema “O Valor da Ciência”, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) vai realizar nos dias 4, 5 e 6 de maio sua Reunião Magna, que envolve a Cerimônia de Posse dos Novos Acadêmicos e uma conferência multidisciplinar que visa  atrair cientistas com experiência e jovens promissores.  Serão discutidos temas relacionados ao valor intrínseco de atividade científica – fazer ciência pela ciência – como também ressaltar o valor fundamental da Ciência para o desenvolvimento socioeconômico brasileiro.

Para mais informações, clique aqui.

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O curso “Estado de Jornalismo Econômico” abre inscrições de 02 à 27 de março de 2015. Podem se inscrever para o Curso Estado jornalistas formados até dois anos antes da realização do programa ou alunos do último semestre das escolas de jornalismo de todo o Brasil. Para mais informações, acesse o site dos cursos Focas do Estadão. Acompanhe também pelo facebook. 

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Com a temática “Didática e Avaliação”, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) promove, nos dias 29 e 30 de junho, IVColóquio Internacional Educação, Cidadania e Exclusão (IV CEDUCE). O objetivo é reunir pesquisadores, docentes, discentes e profissionais da área de Ciências Humanas do Brasil e do exterior, para uma trocas de experiências sobre a temática a partir da investigação qualitativa.   As inscrições podem ser feitas até 05 de junho através do site, com data limite para submissão de trabalhos o dia 05 de maio.

O caso Escola Base

20 anos de uma história e de um jornalismo trágicos

Nos últimos 20 anos, os jornais sofreram vertiginosa transformação. Há pouco mais de duas décadas, porém, o modelo convencional de jornalismo cometeu uma das maiores “barrigas”, com efeitos trágicos sobre a vida dos personagens envolvidos. Barriga é jargão entre jornalistas. Significa erro, falha, informação improcedente, uma mentira publicada, enfim.

Em março de 1994, os brasileiros tomaram conhecimento, pelos jornais diários, revistas, emissoras de rádio e televisão que havia uma grave denúncia contra professores e funcionários de uma escola para crianças, no bairro da Aclimação, zona sul de São Paulo. Eles eram acusados da prática de abuso sexual contra os menores.

As manchetes, taxativas. Na Escola de Educação Infantil Base, as crianças seriam vítimas de abusos em orgias gravadas em fitas que depois eram exibidas nos aparelhos de videocassete. As reportagens foram elaboradas a partir das informações colhidas com fontes autorizadas, delegados de polícia, investigadores e mães de pelo menos quatro crianças.

A “escolinha do sexo” virou palco da vingança e da tragédia. Funcionários foram torturados por policiais. O local, pichado, depredado. Os proprietários presos. O inferno chegara após avisá-los pelos jornais.

A irresponsabilidade originada das denúncias validadas pela autoridade policial contaminou jornais e jornalistas. O caso realçou o “fontismo”, termo que indica a dependência do jornalista pelas declarações das fontes de informação, sem que o contraditório seja apurado, investigado.

Mais tarde, constatou-se que nenhuma prova fora produzida contra os acusados. Eram inocentes.

Uma cadeia de erros foi construída. Entre os grandes jornais paulistas, somente o Diário Popular, com uma tiragem acima dos 200 mil exemplares/dia, recusou-se a se contaminar pelo engano. E publicou apenas uma nota, nas páginas internas da edição da terça-feira, 29 de março daquele ano. Mas, a parcimônia e o cuidado dos jornalistas do Diário Popular não foram critérios para os concorrentes. Todos os outros foram conduzidos pelo estado emocional das mães que acusavam a escola de ser palco das orgias com seus filhos e pelas declarações do delegado responsável pelo inquérito.

Crédito: Divulgação Jornal da época repercute o desdobramento do caso
Crédito: Divulgação
Jornal da época repercute o desdobramento do caso

Os proprietários, Icushiro Shimada e a esposa, Maria Aparecida Shimada, ingressaram com ações cíveis contra os jornais. Editora Abril, Folha de São Paulo, Rede Globo, SBT, entre outras empresas, foram sentenciadas a indenizá-los, como ao motorista Maurício Alvarenga. Icushiro e Maria Aparecida morreram sem ter recebido as indenizações. Ele, de infarto no miocárdio em abril deste ano. Ela, de câncer, em 2007.

A verdade no jornalismo é provisória. E depende dos processos nos quais informações e contrainformações bem apuradas se debatem por um lugar nas páginas impressas, nas telas digitais ou na edição audiovisual. Desrespeitar tais fundamentos é arriscar repetir o caso Escola de Base e aprofundar o grau de descrédito sobre um jornalismo rasteiro, apressado e descompromissado com os fatos. Inverter essa equação é desafio para jornais, jornalistas e sociedade.

Marcel J. Cheida, Professor da Faculdade de Jornalismo PUC- Campinas