Arquivo da tag: jp161-2015

Uma geração comprometida com o trabalho voluntário de causas sociais

O que querem os estudantes de universidades católicas? Alunos e ex-alunos da PUC-Campinas mostram que para ajudar o próximo basta ter vontade

Por Beatriz Meireles

Na PUC-Campinas, os alunos e ex-alunos mobilizam sua energia, recursos e competências em prol de ações solidárias, dedicando parte do seu tempo aos Trabalhos Voluntários. Segundo definição das Nações Unidas, voluntário é o cidadão que, motivado pelos valores de participação e solidariedade, doa seu tempo, trabalho e talento, de maneira espontânea e não remunerada, para causas de interesse social e comunitário.

O ex-aluno da PUC-Campinas, Lucas Avelino Faria de 23 anos, foi voluntário no Centro Interdisciplinar de Atenção à Pessoa com Deficiência (CIAPD), durante um ano, entre 2013 e 2014. O trabalho voluntário reforça a solidariedade e contribui para a construção de uma sociedade mais justa e humana. “Sinto-me útil e prestativo. Às vezes um gesto simples para mim pode ser algo significante para quem recebe”, ressalta o jovem. O CIAPD é um Órgão Complementar da Reitoria, vinculado à Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários da  PUC-Campinas, que desenvolve oficinas de caráter interdisciplinar voltadas à inclusão social e à inclusão no mundo do trabalho de pessoas com deficiência. Lucas conta que estar inserido de corpo e alma na causa faz toda a diferença “Lembro-me quando simulamos que nós (voluntários) tínhamos deficiência visual, colocando uma faixa nos olhos. Assim, tivemos a experiência de uma pessoa com esse tipo de deficiência e, ao mesmo tempo, vivenciamos as dificuldades que essas pessoas podem ter no dia a dia.”

Jovens e adultos que são atendidos pelo CIAPD jogam uma partida de futebol (créditos CIAPD divulgação).
Jovens e adultos que são atendidos pelo CIAPD jogam uma partida de futebol (créditos CIAPD divulgação).

O trabalho voluntário estabelece uma relação humana e uma oportunidade para se fazer novos amigos e aprender. Lucas afirma que o trabalho permitiu uma integração entre os cursos e amizade entre alunos e profissionais, além da bagagem de aprendizado que ele vai levar para a vida acadêmica e pessoal “Aprendi a dar valor para as coisas e acreditar mais nas pessoas”.

Segundo a coordenadora do CIAPD, Profa. Dra. Karina de Carvalho Magalhães, “a experiência da prática do voluntariado visa ascender à necessidade de excitar a sociedade à autocrítica e despertar de suas ações, com o objetivo de alcançar uma sociedade mais humana, capaz de respeitar e valorizar a diversidade”.

O trabalho voluntário está em todo lugar. A aluna do Curso de Direito da PUC-Campinas, Lucimara Gimenez Di Fonzo, por exemplo, faz trabalhos voluntários voltados à sua área. Lucimara presta serviços jurídicos para pessoas de baixa renda e para instituições assistenciais. No caso do escritório em que se encontra, atende a Cidade dos Meninos, um abrigo de menores e Promenor, localizada em Indaiatuba e Barão Geraldo, respectivamente. “A equipe do escritório orienta, elabora defesas, faz a audiência, acompanha os processos judiciais cíveis e trabalhistas da entidade”, explica. Lucimara, apaixonada pela advocacia, conta que aprendeu a conciliar estudo e trabalho e a reservar um pouco de tempo para assistir a quem precisa. “Acredito que é muito gratificante poder colocar meu conhecimento e talento para ajudar aqueles que necessitam e não possuem condições de ter acesso a esses serviços”, afirma. “Passei a dar valor para pequenas coisas da minha vida que, na correria do dia a dia, acabavam passando despercebidas”, reconhece.

Juliana Mie em seu trabalho na Sonhar Acordado/ Crédito: Arquivo Pessoal
Juliana Mie em seu trabalho na Sonhar Acordado/ Crédito: Arquivo Pessoal

A atividade voluntária é uma experiência aberta a todos, sendo necessário ter vontade para contribuir e fazer o bem a alguém. A ex-aluna da PUC-Campinas, graduada em Relações Públicas, Juliana Mie Kobata, realiza trabalho voluntário na ONG Sonhar Acordado, desde 2012. A ONG tem como objetivo formar, educar e ajudar a infância mais necessitada por meio de atividades sociais, culturais, esportivas e recreativas, desenvolvendo valores universais, indispensáveis à boa formação de qualquer indivíduo. Juliana é voluntária fixa no programa Amigos para Sempre, que realiza atividades recreativas em instituições carentes de Campinas.

Apesar de não ter remuneração financeira, esse tipo de trabalho é uma via de mão dupla: se doa e se recebe. Juliana conta sobre essa troca “Na minha vida pessoal e estudantil, o Sonhar fez uma grande diferença. Ensinou-me a ser uma pessoa melhor. Os valores que são passados para as crianças também são aprendidos pelos voluntários. Eu sou uma jovem líder em formação, formando jovens líderes para o futuro”.

Vanessa Dias trabalha como voluntária na feirinha de adoção da ONG Xodó de Bicho/ Crédito: Arquivo Pessoal
Vanessa Dias trabalha como voluntária na feirinha de adoção da ONG Xodó de Bicho/ Crédito: Arquivo Pessoal

 Olhar para o lado e ajudar

As formas de ação voluntária são tão variadas quanto às necessidades da comunidade. Cada necessidade social é uma oportunidade de ação voluntária. Basta olhar em volta e dar o primeiro passo, como fez a ex-aluna Vanessa Dias, 21 anos, engajada em outra causa – não menos importante, – a causa animal. Vanessa faz trabalhos voluntários na ONG protetora dos animais “Xodó de Bicho”, na cidade de Jaguariúna. Ela conta que, comovida com a crueldade humana após ver um caso de um cãozinho que foi encontrado em um terreno baldio com óleo quente sobre o corpo, decidiu ajudar “O caso mexeu tanto comigo que procurei a responsável pela ONG e comecei a fazer alguns trabalhos com eles, como ajudar na limpeza semanal e feirinhas de adoção”, conta.

Cada um contribui como pode, com aquilo que sabe e quer fazer. Uns têm mais tempo livre, outros só dispõem de algumas poucas horas por semana. Alguns sabem exatamente onde ou com quem querem trabalhar, outros estão prontos a ajudar no que for preciso, onde a necessidade for mais urgente. Mas a construção do trabalho voluntário é e será sempre a mesma: “Toda experiência é importante e realizar trabalho voluntário é mais ainda, pois você está fazendo algo porque quer fazer, sem pensar em lucro e isso torna tudo muito mais enriquecedor. Fazer o bem é motivador”, finaliza Juliana Mie, voluntária na ONG Sonhar Acordado.

(Edição do texto: Amanda Cotrim)

Universidade Católica: entre o amor e o saber

PUC-Campinas celebra os 25 anos da Constituição Apostólica “Ex Corde Ecclesiae”

 Por Eduardo Vella

A PUC-Campinas promoveu nos dias 6 e 7 de maio o Colóquio “A identidade da Universidade Católica: em comemoração aos 25 anos da Constituição Apostólica “Ex Corde Ecclesiae”. O eventou contou com a presença de diversas autoridades eclesiásticas, civis e militares, Diretores de Centro e de Faculdades da PUC-Campinas, além de docentes, alunos e funcionários. O Colóquio marcou o primeiro evento organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da Universidade, que teve na sua abertura a conferência “A identidade da Universidade Católica à luz da Constituição Apostólica “Ex Corde Ecclesiae”, ministrada pelo Prefeito da Congregação para a Educação Católica, sua Eminência Reverendíssima Cardeal Zenon Grocholewski.

O Colóquio marcou o primeiro evento organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da Universidade
O Colóquio marcou o primeiro evento organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da Universidade

De acordo com o Arcebispo Metropolitano de Campinas e Grão-Chanceler da PUC-Campinas Dom Airton José dos Santos, o Colóquio contribui para que “sintamos a presença de Deus”, considerou.  “Confirmo e reforço o sucesso do Colóquio, pois ele é uma oportunidade de buscarmos na Constituição Apostólica “Ex Corde Ecclesiae” a reflexão necessária para nossa missão educacional”, ressaltou a Reitora da PUC-Campinas Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht.

 Identidade

Para delinear a identidade das Universidades Católicas, o Cardeal Zenon Grocholewski levantou uma questão: “Porque a Igreja Católica possui Universidades?”. Respondeu citando o Evangelho. “Ide e fazei com que todos os povos da terra se tornem discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo quanto vos tenho ordenado”. E emendou: “Por isso, a Igreja, por mandato do Divino Pastor, desde as suas origens, vem apascentando e velando sobre a grei do Senhor desde todo ponto de vista”.

Na Foto: A Reitora da PUC-Campinas, Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht, o Cardeal  Zenon Grocholewski e Grão-Chanceler da PUC-Campinas Dom Airton José dos Santos
Na Foto: A Reitora da PUC-Campinas, Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht, o Cardeal Zenon Grocholewski e Grão-Chanceler da PUC-Campinas Dom Airton José dos Santos

O Cardeal Grocholewski esclareceu que quando se fala no dever e no direito de educar da Igreja, não se está referindo unicamente à educação religiosa. “A Igreja participa também da educação nas ciências, por quanto, desde sempre, e ao longo da história, ela se preocupou de formar integralmente à pessoa”, assegurou.

Ele explicou que as Universidades Católicas têm como de contribuir com a sociedade, seja mediante a pesquisa, seja mediante a educação ou a preparação profissional. “Esta contribuição nasce desde o momento que a Universidade compromete-se a ser universitas, ou seja, consagra-se a pesquisa, o ensino e a formação dos estudantes, livremente reunidos com seus docentes, animados todos pelo mesmo amor de saber”, destacou. “Faço votos que esta Pontifícia Universidade Católica siga crescendo”.

A Constituição Apostólica “Ex Corde Ecclesiae”, promulgada pelo Papa João Paulo II em 15 de agosto de 1990, orienta as Universidades Católicas na perspectiva doutrinal e, ao mesmo tempo, pastoral. A Constituição é uma reflexão sobre a importância histórica e atual das Universidades Católicas, a partir de sua identidade e de sua missão de serviço à sociedade, principalmente no diálogo entre fé e ciência, fé e cultura. Deste modo, a Constituição conduz, através de normas gerais, a atuação das Universidades Católicas na sociedade contemporânea.

O Colóquio também refletiu sobre a Relação entre Fé e Ciência na Universidade Católica, com Prof. Dr.Rogério Miranda de Almeida (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) / Prof. Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves (Pontifícia Universidade Católica de Campinas) e a Conferência “ A Presença da Teologia e da Filosofia na Universidade Católica” – Cardeal Zenon Grocholewski.

 

Café Matemático

Projeto da PUC-Campinas quer integrar alunos e professores

Por Amanda Cotrim

Matemática pode ser uma atividade, aparentemente, solitária. Mas é apenas aparência, pelo menos na PUC-Campinas. Em 2015, foi dado o primeiro passo deste que promete ser mais um espaço de intercâmbio, pesquisa, aprendizado e convivência: o Café Matemático. Idealizado em 2014, o projeto tem como objetivo central “cultivar uma cultura acadêmica para além das atividades curriculares regulares”, adianta o Integrador Acadêmico da Faculdade de Matemática da Universidade,  Prof. Dr. Alex Shimabukuro.

 O Café Matemático é um momento de encontro, fora da sala de aula, onde alunos e professores se juntam para conversar sobre temas diversificados. “Muitos estudantes não procuram ou fomentam atividades acadêmicas por desconhecerem, não terem vivenciado ainda o ambiente universitário. Por isso, neste momento estamos auxiliando, mostrando possibilidades e, acima de tudo, experimentando juntos o prazer do convívio acadêmico”, destaca Shimabukuro.

: Café Matemático é um momento de encontro fora da sala de aula/ Crédito: Divulgação
: Café Matemático é um momento de encontro fora da sala de aula/ Crédito: Divulgação

O projeto teve inicio em abril de 2015, e já contou com a exibição de filmes- com temática científica- acompanhados de debates. “Não ficamos apenas no filme, mas no que ele sugere. No “café matemático” em que falamos sobre Alan Turing, discutimos sobre preconceito, sobre a Academia, e o mais importante…. conversamos. Um aluno tocou violão e cantamos também”, conta o Integrador Acadêmico.

O projeto foi idealizado pela gestão da Faculdade de Matemática, da PUC-Campinas, para ser administrado em conjunto com o diretório acadêmico do curso. A escolha dos filmes, inicialmente, está se dando por afinidade com o projeto pedagógico do curso, o que não implica em assistir e discutir apenas filmes matemáticos, alerta Shimabukuro: “Como no filme de Turing existe a pessoa Turing, suas angustias, sua vida. O filme sobre Nash, Uma Mente Brilhante, é muito bom também neste sentido. Mas já selecionamos alguns outros que nos trazem temas fundamentais não apenas para o futuro professor, mas para o cidadão, a pessoa que anseia uma sociedade mais humana e humanitária, como, por exemplo, a série Decálogo que traz uma leitura atual sobre os dez mandamentos, colocando questionamentos filosóficos sobre temas que refletem a tensão dialética entre determinismo e crença, a relação entre fé e ciência e conflitos entre princípios éticos”, completa. Essa iniciativa, resume o docente, ressalta o alinhamento com as propostas do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas.

Para acompanhar a Agenda do Café Matemático, acesse aqui. 

 

Estudos indicam que práticas religiosas auxiliam na saúde

A espiritualidade está associada a melhores índices de saúde, maior longevidade, habilidades de enfrentamento e qualidade de vida

Por Amanda Cotrim

A relação entre espiritualidade e saúde existe desde tempos mais remotos. No período medieval, as autoridades religiosas eram responsáveis pelas licenças para a prática da medicina. Entretanto, somente nas últimas décadas, as implicações da espiritualidade e da religiosidade na saúde vêm sendo estudadas e documentadas cientificamente, como explica a docente da Faculdade de Medicina da PUC-Campinas, Professora Doutora Gloria Maria de Almeida Souza Tedrus. Segundo a pesquisadora, “há evidências da relação entre as crenças e práticas religiosas e melhor saúde física, incluindo menor prevalência de doenças coronarianas, menor pressão arterial, melhores funções imune e neuroendócrina, menores prevalências de doenças infecciosas e menor mortalidade”.

Professora Doutora Gloria Maria de Almeida Souza Tedrus/ Crédito: Álvaro Jr.
Professora Doutora Gloria Maria de Almeida Souza Tedrus/ Crédito: Álvaro Jr.

A explicação para isso está no cérebro humano, que, de acordo com a Professora Glória, é “programado” para experiências e explicações de crenças espirituais presentes em todas as culturas desde os tempos pré-históricos. “Todas as experiências humanas são mediadas no cérebro, incluindo a razão científica, dedução matemática, julgamento moral, experiência e comportamento religiosos, emoção e o pensamento. Assim, é inequívoco considerar a espiritualidade e a religiosidade como parte do comportamento humano, localizado no cérebro”, explica.

Os estudos mais recentes buscam entender os impactos de práticas religiosas na saúde mental, como depressão, transtornos ansiosos e enfermidades graves, e na qualidade de vida. As pesquisas apontam que eventos dolorosos, caóticos e imprevisíveis podem ser compreendidos e mais bem aceitos a partir da confirmação de crenças do indivíduo que vivencia tal situação. “A perspectiva do paciente é de grande importância no curso do processo saúde-doença e nesse contexto tem havido evidências crescentes da existência de relações positivas ou negativas entre a espiritualidade/religiosidade e a proteção à saúde”, afirma a pesquisadora.

O Grupo de Pesquisa da PUC-Campinas, Neuropsicofisiologia em cognição e epilepsia, do qual a Professora Glória faz parte, estuda há alguns anos as relações entre doenças neurológicas como a epilepsia e demência com a espiritualidade e a religiosidade. Em epilepsia temos observado que há relação entre os aspectos clínicos da doença, qualidade de vida e a espiritualidade e religiosidade. Observamos, em pacientes com epilepsia, que a dimensão – espiritualidade, religião e crenças pessoais é considerada como fator protetor no processo de adoecimento, de enfrentamento para lidar com os problemas, e desse modo influenciar positivamente a qualidade de vida desses indivíduos, o que sugere uma relação positiva entre espiritualidade e religiosidade e saúde”, considera. De acordo com ela, alguns estudos sugerem que as crenças religiosas podem funcionar, em caso de doença já instalada, como mediadores cognitivos favorecendo a adaptação e o ajustamento das pessoas à nova condição de saúde.

Relação Fé e Ciência:

Capa Estudos indicam que práticas religiosas auxiliam na saúde

Segundo a Pesquisadora, ciência e religião “descobriram” que têm interesses mútuos importantes e contribuições relevantes. “Atualmente, existem centenas de artigos científicos que mobilizam a relação entre espiritualidade/religião. A parede entre medicina e espiritualidade está ruindo, com evidências da importância da prece, da espiritualidade e da participação religiosa na melhora da saúde física e mental”, expõe.

No campo da pesquisa, a Professora Glória compara que para a ciência há problemas metafísicos que a religião pode ajudar a resolver. A religião, por sua vez, “pode ajudar a decidir entre teorias científicas empiricamente equivalentes, para a aceitação de uma teoria científica, os interesses metafísicos, inclusive os religiosos podem contribuir”, defende a pesquisadora. “A criação do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas é um marco da Instituição e só vai ampliar e qualificar as discussões nessa área”, finalizada.

Religião, ciência e mídia

Por Lindolfo Alexandre de Souza

Há alguns anos o Brasil discutia a licitude e a legalidade do uso de células-tronco embrionárias em pesquisas científicas, época em que o assunto era analisado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). E naquele momento foram muitos os órgãos de imprensa que cumpriram o que se espera de um jornal, mostrando de forma ética e competente as várias versões do debate, a fim de que os leitores pudessem tirar suas próprias conclusões.

É verdade que há religiosos que ainda hoje desprezam os avanços da ciência. Mas isso não significa que todos os religiosos pensem assim./ Crédito: Álvaro Jr.
É verdade que há religiosos que ainda hoje desprezam os avanços da ciência. Mas isso não significa que todos os religiosos pensem assim./ Crédito: Álvaro Jr.

Outros trabalhos jornalísticos, porém, simplesmente prestaram um desserviço. Não porque mentiam ou manipulavam, mas porque apresentavam uma abordagem bastante limitada e, portanto, parcial. A caricatura era recorrente: de um lado, os religiosos presos aos seus dogmas medievais, contrários aos avanços da ciência; de outro, os cientistas, impedidos de avançar em suas pesquisas e, assim, trilhar o caminho que garantiria o bem da humanidade.

Parte da imprensa não percebia, naquele momento, que o conflito não era, necessariamente, entre religião e ciência. Mas a contradição era mais profunda e se apresentava a partir do confronto entre duas maneiras de analisar a questão, cada qual construída a partir de visões de mundo fundamentadas em pressupostos científicos, filosóficos, éticos e, também, religiosos.

Esse exemplo pode contribuir com a reflexão sobre de que forma os meios de comunicação abordam a relação entre religião e ciência. Em outras palavras, é pertinente questionar se a mídia reforça, ou não, um aspecto central neste debate, que é propor religião e ciência como campos inconciliáveis, excludentes e incompatíveis ou, visto por outro ângulo, como experiências diferentes, com identidades e métodos próprios, mas capazes de estabelecer pontes de diálogo.

Duas razões podem ajudar a entender porque parte da mídia aposta na perspectiva da contradição. O primeiro é identificar algumas pinceladas positivistas no surgimento do fenômeno que, atualmente, denominamos como imprensa. Assim, em contraposição à cristandade medieval onde havia uma hegemonia do discurso religioso em relação às descobertas científicas, a modernidade propôs a inversão deste quadro, atribuindo à razão a tarefa de conduzir o ser humano em busca de suas questões mais fundamentais, relegando a experiência religiosa à categoria de experiência privada. Assim, tanto no mundo medieval como no moderno, ciência e religião ocupam lugares opostos.

Outra explicação está no conceito de valor-notícia, que são os critérios usados pela mídia para discernir se um acontecimento ou assunto merece ser transformado em notícia. Entre referências como proximidade, relevância e novidade, acentua-se a presença da controvérsia e do conflito. Ou seja, quando uma pauta é marcada pela contradição, mais chance ela tem de ser vista como possiblidade de produção jornalística. Desta forma, situações conflitivas entre religião e ciência podem render, nessa perspectiva, boas pautas jornalísticas.

Mas gerar boas matérias jornalísticas não significa, necessariamente, contribuir com a consolidação de um processo mais amplo, por meio do qual o ser humano consiga buscar repostas mais consistentes sobre si mesmo, sobre o outro, sobre o mundo e sobre a sociedade. E, nesse sentido, vale a pena questionar a responsabilidade da mídia ao tomar o princípio da contradição como único elemento de análise.

É verdade que há religiosos que ainda hoje, em pleno Século XXI, desprezam os avanços da ciência. Mas isso não significa que todos os religiosos pensem assim. Da mesma forma, é possível encontrar, também no Século XXI, cientistas capazes de afirmar que a ciência dá conta de responder a todas as questões que dizem respeito à vida do ser humano, desvalorizando qualquer perspectiva de espiritualidade ou de abertura à transcendência. Mas existem, também, cientistas que não encontram incompatibilidade entre a prática cientifica e a experiência religiosa.

Um caminho para superar tal questão, talvez, esteja na provocação proposta por São João Paulo II no primeiro parágrafo da encíclica Fides et Ratio, promulgada setembro de 1998. “A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio”.

Lindolfo Alexandre de Souza é diretor da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas e Mestre em Ciências da Religião.

 

A primeira Universidade Católica do mundo

Por Newton Aquiles von Zuben

A humanidade conhece, periodicamente, eventos que se transformam em elementos originários e estruturantes da nossa civilização. No início da era cristã, ocorreu um fato cuja complexidade e caráter insólito o transformaram em ponto axial da nossa história ocidental e fonte perene de questionamento. Trata-se do encontro entre o cristianismo nascente e o pensamento helênico

Valendo-se de toda a arquitetônica conceitual da filosófica grega, o pensamento cristão primitivo construiu sua sistematização e consolidação até a etapa final do medievo. Daquele encontro surgiu a questão da articulação entre fé e razão. Encontramos durante esse longo período de quinze séculos diversas posições sobre essa questão que não será completamente resolvida. A questão recebeu atenção crescente na alta idade média, o período da escolástica e no século XIII com o empenho de vários teólogos. No entanto, foi, sobretudo, Tomas de Aquino que conseguiu apresentar uma síntese original entre fé e razão que permitiu uma racionalização da fé colocando de acordo o pensamento antigo e a doutrina cristã.

Nesse ambiente investigativo do medievo cristão nasceram as escolas episcopais e monacais e, posteriormente, as universidades. Não se pode compreender a carreira de um filósofo e de um teólogo medieval sem conhecer a organização do ensino durante o período da escolástica até o século XIV. O termo universitas designa comunidade. A universitas studiorum – universidade dos estudos – é uma forma de comunidade, autônoma e que se livra das amarras do direito comum. A Universitas não designava, então, como a entendemos hoje, um conjunto de faculdades, mas um conjunto de mestres e alunos que se dedicavam aos estudos das artes, do direito e da teologia. Studium generale ou também universale designava um centro de estudos no qual estudantes de origem diversa poderiam ser recebidos.

Prof. Dr. Newton Aquiles von Zuben é docente da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas.
Prof. Dr. Newton Aquiles von Zuben é docente da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas.

Foi por necessidade de independência que nasceram as primeiras universidades; independência da autoridade eclesiástica: de fato a primeira geração de universidades, as de Bolonha, de Paris e de Oxford dentre outras, se constituíram em reação contra os bispos que governavam as escolas estabelecidas sob o teto de suas catedrais. Essas universidades conseguiram sua independência graças ao apoio papal. A essas universidades seguiram outras durante o século XIII, XIV e XV. Nenhuma delas recebeu, então, a designação de universidade católica.

 Escolhi apresentar brevemente a história e as características de uma universidade que, embora tendo sido instituída no século XV, foi durante sua longa história uma instituição de prestígio. Criada como “Universidade de Louvain” conheceu uma história atribulada, viu passarem por seus muros eminentes personagens, como professores e alunos, que formaram, através dos séculos, a sociedade da região que, à época, incluía a atual Holanda e a atual Bélgica. Esteve sob domínio francês e holandês até a secessão e a formação do reinado da Bélgica, em 1830.

A Universidade de Louvain ou Studium Generale Lovaniense ou Universitas studiorum Lovaniensis, foi fundada, em 1425, por um príncipe francês, Jean de Bourgogne, Jean IV, duque de Brabante (província belga), com o consentimento do papa Martinho V. Nessa época, observava-se uma constante histórica. A fé cristã em lugar de ser individualista, sempre teve a tendência de se incorporar nas instituições, em particular aquelas dedicadas ao ensino. O ensino das artes liberais e outros saberes, como o direito e, sobretudo, a medicina não constituia um fim em si, mas  um meio de se atingir o fim último da existência, a saber a fé que conduz à salvação. Desse modo, as faculdades de teologia se desenvolveram rapidamente no seio das universidades.

Na Universidade de Louvain, em 1432, sete anos após a fundação, foi instalada a Faculdade de Teologia. Engajada nos debates da sociedade desde a origem da Reforma, a Faculdade de Teologia da Universidade de Louvain foi a primeira, em novembro de 1519, a condenar abertamente Martinho Lutero, antes mesmo da bula de excomunhão de Leão X, no ano seguinte. Claro que, atualmente, por conta do espírito ecumênico deve-se questionar o sentido dessa condenação radical. No entanto, à época, não deixava de ser um tipo ousado de engajamento.

A universidade foi fechada oficialmente, em outubro de 1797, em aplicação da lei de 15 de setembro de 1793, que suprimia todos os colégios e universidades da república francesa.

Universidade de Louvain/ Crédito Divulgação
Universidade de Louvain/ Crédito Divulgação

A antiga Universidade de Louvain, que teve como professor e reitor Cornelius Jansen ou na forma latina Jansenius, o defensor da doutrina agustiniana da graça, foi até o fim do antigo regime, justamente o grande centro doutrinal do jansenismo na Europa.

Em 1819, foi reaberta com a designação de Universidade de Estado de Louvain, mas, novamente, fechada em 1883. Em 1835, os bispos belgas reinstituiram a antiga  Universidade de Louvain com a designação de Universidade Católica de Louvain pela carta pontifícia de 13 de dezembro de 1833, de Gregório XVI, no espírito das universidades gregorianas da reconquista católica empreendida por esse papa. A direção da universidade foi colocada sob a autoridade direta dos bispos belgas.

No dia 4 de agosto de 1879, no segundo ano de seu pontificado, o papa Leão XIII publicou a carta encíclica Aeternis Patris, sobre a restauração da filosofia cristã conforme a doutrina de Santo Tomás de Aquino. Na sua primeira carta encíclica, Inscrutabili Dei consilio, de 21 de abril de 1878, ele assinalou a suprema importância da filosofia tradicional para as escolas católicas, do ponto de vista social, do ponto de vista da exposição e da defesa da fé cristã, assim como da perspectiva do progresso de todas as ciências. Entretanto, sendo conveniente reatar com a grande tradição medieval, ponderava como impositivo o discernimento levando-se em conta o progresso das ciências dos tempos modernos e da necessidade de se adaptar às concepções antigas às condições do pensamento atual. Leão XIII conhecia bem a Bélgica, pois havia sido núncio apostólico em Bruxelas, de 1843 a 1846. Na época, a Universidade Católica de Louvain era a única universidade católica completa e essa é a característica que a diferenciou desde então. Leão XIII estava ciente das vantagens incomparáveis que representava, para a renovação das concepções filosóficas medievais, esse meio católico no qual todas as ciências eram ensinadas e na qual especialistas de todos os ramos do saber humano estavam em constante interação no ensino e na pesquisa; e que recebia já estudantes de inúmeros países estrangeiros.

No dia 25 de dezembro de 1880, Leão XIII envia uma carta pontifícia ao arcebispo de Malines, o cardeal Deschamps, para lhe solicitar providências no sentido de criar uma cadeira especial de filosofia de Santo Tomás de Aquino na Universidade Católica de Louvain. Em 1889, Leão XIII solicitou aos bispos belgas que criassem cadeiras de filosofia agrupadas em um «Instituto Superior de Filosofia» no seio da Universidade Católica de Louvain. O texto fundador foi a carta pontifícia de 8 de novembro de 1889. Os bispos nomearam como seu primeiro «presidente» Monsenhor Desiré Mercier, que seria mais tarde nomeado cardeal. Desiré Mercier era titular de um curso de «filosofia especial segundo Santo Tomás». Com o auxílio do papa, ele conseguiu obter a criação de um verdadeiro instituto ao qual acrescentou , com anuência  de Leão XIII, a denominação «Escola SantoTomás de Aquino» para bem notar que o novo instituto tinha como objetivo central a renovação do tomismo preconizado por Leão XIII em sua carta encíclica, acima citada. Na mente de Monsenhor Mercier o neo-tomismo deveria constituir uma filosofia original em debate com com os problemas de seu tempo, e, especialmente, com os problemas das ciências da natureza e as ciências humanas.

Desde então, o novo Instituto consolidou sua missão e ampliou sua presença, com disciplinas filosóficas para a Universidade toda. Consolidou sua reputação segundo as diretrizes da encíclica como havia solicitado o papa aos bispos belgas. Sua atuação se deu em quatro direções principais atribuídas progressivamente ao ensino e à pesquisa: o estudo histórico e crítico dos grandes filósofos, reflexão epistemológica sobre as técnicas e métodos das ciências, o questionamento sobre as relações entre a fé cristã e a razão, a interrogação sobre a interação da filosofia com a vida social.

O Instituto Superior de Filosofia ocupou um lugar relevante na Universidade Católica, pela característica de sua implantação, seguindo as diretrizes diretas do papa Leão XIII, e pelos propósitos de sua vocação direcionada ao ensino da Filosofia em atenção à carta encíclica Aeterni Patris, assumindo o compromisso de trabalhar na renovação do pensamento de Tomás de Aquino e de seu pensamento erigido como modelo da formação filosófica para os futuros presbíteros. A seriedade com que tomou para si a relevância do diálogo constante entre a filosofia e as ciências foi amplamente facilitada pelo fato, acima mencionado, de que a Universidade Católica de Louvain foi, desde essa sua implantação, herdeira da antiga Universidade de Louvain, como Universidade Católica, a única universidade católica completa no mundo, abrigando todos os ramos do saber ora existentes.

A Faculdade de Teologia, Sacra Facultas Theologiae, foi erigida no dia 7 de março de 1432, pelo papa Eugênio IV. Os mestres da Faculdade se interessavam, sobretudo, por questões de moral e a faculdade permaneceu, de início, bem impermeável aos progressos do humanismo, abrindo-se, pouco a pouco, posteriormente, às pesquisas de teologia positiva. Foi em Louvain que foi redigida, ao final de 1519, a primeira censura de toda a cristandade contra os escritos de Lutero, tendo a Faculdade de Teologia redigido, à intenção dos dominicanos, um resumo das verdades religiosas atacadas pelo inovador. O teólogo alemão Hubert Jedi, em sua obra História do Concílio de Trento, tomo 1, considera esse documento como a melhor realização da teologia pretridentina.

Creio pertinente afirmar-se da Universidade Católica de Louvain que ela, nos dizeres de João Paulo II, “compartilha com todas as outras universidades aquele gaudium de veritate, tão caro a Santo Agostinho, isto é, a alegria de procurar a verdade, de descobri-la e de comunicá-la em todos os campos do conhecimento” (Ex Corde Ecclesiae  1).

 

A Educação Católica é a busca da verdade

Por Amanda Cotrim

Pela primeira vez na PUC-Campinas, o Prefeito da Congregação para a Educação Católica, Cardeal Zenon Grocholewski, ministrou a palestra “A identidade da Universidade Católica à luz da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae”. Em entrevista ao Jornal da Universidade, o Cardeal falou sobre fé e ciência na constituição do ensino católico e a necessidade de um diálogo permanente entre fé e razão. “O significado da investigação científica e da tecnologia, da convivência social, da cultura, está, profundamente, em causa com o próprio significado do homem”, ressaltou. Confira a entrevista abaixo

Qual é a importância do Colóquio que a PUC-Campinas promoveu sobre a educação católica?

Eu fui muito bem acolhido pela PUC-Campinas e fiquei muito satisfeito com a iniciativa. Senti-me honrado de estar aqui na Universidade compartilhando estes dias de Colóquio sobre um documento tão importante para a missão evangelizadora da Igreja, por meio das universidades católicas. Agradeço o Grão-Chanceler, a Magnífica Reitora e todas as autoridades desta Pontifícia Universidade Católica de Campinas pelo seu convite. Deus as bendiga.

Penso que é muito importante falarmos sobre o ensino católico, pois um dos modelos mais fortes das universidades católicas é unir ciência e religião, seguindo a Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae do Sumo Pontífice, promulgada pelo Papa São João Paulo II, o qual diz que a vida universitária é a procura da verdade  e de sua transmissão abnegada aos jovens e a todos aqueles que aprendem a racionar com rigor, para agir e servir melhor a sociedade .

Prefeito da Congregação para a Educação Católica, Cardeal Zenon Grocholewski/ Crédio Álvaro Jr.
Prefeito da Congregação para a Educação Católica, Cardeal Zenon Grocholewski/ Crédio Álvaro Jr.

Como o senhor avalia a educação universitária católica no Brasil, o maior país católico do mundo? O senhor entende que os alunos das universidades católicas as procuram por alguma filiação com a religião ou por outras razões?

O Brasil é um dos países em que há mais universidades católicas e isso é muito bom. Aqui há um forte ensino universitário católico, o que mostra que estamos praticando o que diz o Papa Francisco: devemos servir as pessoas. As universidades católicas mediam o encontro entre a riqueza da mensagem do Evangelho e a pluralidade dos campos do saber, permitindo um diálogo com todos os homens de qualquer cultura. A Pontifícia Universidade Católica de Campinas está no caminho, promovendo a fecundidade da inteligência cristã no coração de cada cultura.

Como a Igreja Católica consegue difundir sua doutrina na educação católica do mundo, uma vez que cada país tem sua particularidade?

A universidade católica tem uma missão e vive por essa missão, que é evangelizar, segundo sua identidade, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demoras, sem medo. A alegria do Evangelho é para todo o povo, sem excluir ninguém. A universidade católica precisa manter os olhos permanentemente abertos, já que “fechar os olhos ante o próximo converte-nos também em cegos ante Deus”, como disse o Papa São João Paulo II. Por exemplo em Taiwan, na China, temos belas universidades católicas onde os católicas são 1% do País e na Universidade Católica tem 2% de estudantes católicos, que corresponde a três universidades católicas. É necessário que a universidade católica viva sua missão evangelizando, segundo sua identidade, em todos os lugares. A alegria do Evangelho é para todo o povo, não pode excluir a ninguém. Na Coréia (do Norte) apenas 1% eram católicos, agora são 10%, algo como 5 milhões de pessoas e oito universidades católicas.

palestra “A identidade da Universidade Católica à luz da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae”. Crédito: Álvaro Jr.
palestra “A identidade da Universidade Católica à luz da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae”. Crédito: Álvaro Jr.

Todas as universidades católicas recebe a proteção da Santa Sé?

Normalmente, não é imediatamente que uma universidade católica nasce que a Santa Sé a reconhece. É preciso que a universidade demonstre um certo nível, um certo prestígio, um certo ensinamento, para que a Santa Sé coloque essa universidade sob sua própria proteção, como é o caso da Pontifícia Universidade Católica de Campinas e as outras seis Pontifícias no Brasil.

A campanha da Fraternidade 2015 tem como tema a Igreja e a Sociedade. Pensando nesse tema, qual é a importância da educação no desenvolvimento social?

Como nos ensinou o Papa São João Paulo II, o significado da investigação científica e da tecnologia, da convivência social, da cultura, está, profundamente, em causa com o próprio significado do homem. As universidades católicas, mediante a investigação e o ensino, ajudam-na a encontrar de maneira adequada aos tempos modernos os tesouros antigos e novos da cultura.

Numa universidade católica, a investigação compreende necessariamente: perseguir uma integração do conhecimento, o diálogo entre a fé e a razão, uma preocupação ética, e uma perspectiva teológica. A universidade católica deve empenhar-se mais especificamente no diálogo entre fé e razão, de modo a poder ver mais profundamente como fé e razão se encontram na única verdade. A preocupação das implicações éticas e morais, ínsitas tanto nos seus métodos como nas suas descobertas.

Coluna Pensando o Mundo: OSCAR ROMERO: SERVO DE DEUS, ARAUTO DA PAZ

Por Wagner Geribello

“Peço, suplico, ordeno: cessem a repressão”

Essas palavras, ditas de modo contundente e direto, endereçadas aos grupos de extermínio e ao governo salvadorenho, estavam na homilia pronunciada por Oscar Romero, em 23 de março de 1980. No dia seguinte, um atirador de elite do exército interrompia a vida e a missão humanitária do arcebispo de El Salvador, que combateu o bom combate em favor da paz, levando ao extremo a opção cristã pelos oprimidos.

El Salvador, palco da tragédia em que o assassinato de Oscar Arnulfo Romero Galdámez foi o capítulo mais traumático, mas não o único, integra a lista das nações exploradas e atormentadas pelas consequências perversas dos modelos econômicos contemporâneos: concentração de renda, pobreza extrema, violência, brutalidade e o ostracismo ao qual o mundo “evoluído” condena os desvelados.

Monsenhor Oscar Romero/ Crédito: divulgação
Monsenhor Oscar Romero/ Crédito: divulgação

Apesar do dedo no gatilho creditado a um militar da Guarda Nacional salvadorenha, o tiro que matou o arcebispo foi disparado muito antes, no final do Século XIX, quando, por decreto, o governo expropriou as “tierras comunales”, entregues à oligarquia rural, consolidando a monocultura cafeeira de exportação (principalmente para os Estados Unidos) que transformou o campesino em assalariado de baixo ingresso. Daí para frente, a história salvadorenha só fez ampliar a desigualdade, gerando uma elite abastada e poderosa, que não ultrapassa 2% da população e detém 80% da propriedade de terras, ficando, na outra ponta, o grosso da população, a serviço da oligarquia, enquanto mão de obra barata. Em dezembro e janeiro, por exemplo, as aulas são interrompidas, para concentrar o maior volume de braços na colheita do café. Quando a colheita acaba, os trabalhadores são dispensados e o pagamento de salários interrompido, até a próxima safra.

O cenário polarizado, com distribuição de renda próximo de zero, gerou a sucessão de levantes populares e repressão das oligarquias que fazem a história do país. O desespero da pobreza, de um lado, e o apego inegociável ao poder, de outro, formam o caldo de cultura que alimenta e faz crescer a violência. Estimativas referentes à guerra civil, por volta de 1990, apontam números como 80 mil mortos, dos quais 30 mil assassinados, além de qualquer coisa próxima de 10 mil desaparecidos, para um contingente de seis milhões de habitantes. Aliciamento e recrutamento de crianças, ação de milícias e tropas paramilitares orientadas exclusivamente pela violência, destruição de vilarejos inteiros, impunidade dos organismos repressores governamentais e total ausência da justiça são apenas algumas linhas que tecem a trama da violência salvadorenha.

Interessado na manutenção do feudo econômico e sob a desculpa da contenção do comunismo internacional, os Estados Unidos, durante os governos Carter, Reagan e Bush, injetaram cerca de sete bilhões de dólares para armar e pagar militares e paramilitares, levando alguns deles para a Escola das Américas, centro de doutrinação e treinamento de agentes da repressão, militares e policiais de nações latino-americanas, instruídos em tortura, atentados, assassinatos e outras perversidades, com direito a diploma e atestado de “bom aproveitamento”. Há indícios de que o assassino de Romero passou pela famosa e famigerada escola.

Por sua vez, a esquerda, alinhada com as classes populares, também aliciou, doutrinou e recrutou, organizando grupos armados e financiados a partir do exterior, como a Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional.

Assim polarizado, El Salvador chegou à segunda metade do Século XX mergulhado em conflitos sangrentos, que motivaram Romero, como inspirador pacifista, a erguer a voz pelo fim da violência.

A resposta foi o atentado de 24 de março de 1980, na Capela do Hospital Divina Providência, em San Salvador, durante a celebração eucarística por intenção de Sara Meardi Del Pinto, mãe do jornalista Jorge Pinto. Disparado para calar um chamado à paz, o tiro interrompeu a missa e pôs fim à vida de Oscar Romero, aos 63 anos.

Oficialmente, autoria (disparo) e responsabilidade (mandantes) pela morte do arcebispo não foram elucidadas e, portanto, os responsáveis não pagaram pelo crime. Apesar dos acordos de Chapultepec, que marcaram o fim da guerra civil, as condições sociais, políticas e econômicas em El Salvador continuam as mesmas e a violência extremada faz parte do cotidiano nacional.

A voz de Romero, entretanto, não foi calada. Da ONU ao Vaticano, passando por entidades governamentais e não governamentais, algumas religiosas, outras não, nos quatro cantos do planeta o magnicídio é constantemente relembrado e a mensagem cristã de Romero – beatificado pelo Papa Francisco no começo deste ano – volta a ecoar, pedindo, suplicando, ordenando o fim da violência, da injustiça e da desigualdade, em El Salvador, assim como em todos os lugares, entre os seres humanos, todos.

“A PUC-Campinas desenvolve competências e promove reflexões que contrapõem os valores do pragmatismo e consumismo”, afirma Vice-Reitor

 

Da Redação

O Colóquio A identidade da Universidade Católica: em comemoração aos 25 anos da Constituição Apostólica “Ex Corde Ecclesiae” foi a primeira atividade promovida pelo Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas, coordenado pelo Vice-Reitor Prof. Dr. Germano Rigacci Jr., que recebeu o Jornal da PUC-Campinas para analisar a atuação do Núcleo e as lições deixadas pelas discussões e reflexões realizadas durante o evento.

Integrantes do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas com o Cardeal Zenon Grocholewski/ Crédito: Álvaro Jr.
Integrantes do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas com o Cardeal Zenon Grocholewski/ Crédito: Álvaro Jr.

Jornal da PUC-Campinas – Quando o estudante escolhe para sua formação uma instituição católica, em que ela poderá contribuir para seu crescimento como cidadão?

Prof. Dr. Germano Rigacci Jr. – A Pontifícia Universidade Católica de Campinas é uma instituição educacional, de natureza confessional católica, fundada em 1941 por Dom Francisco de Campos Barreto, instituída canonicamente, em 1956, pela Santa Sé Universidade Católica de Campinas e, em 1972, Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Ao longo destes 74 anos, a Universidade tem se destacado na graduação de 160 mil alunos, que durante o período de formação na Instituição, desenvolvem competências técnico-científicas, aprimoram os valores ético-cristãos, e com isso, estão aptos a promover atitudes e reflexões que contrapõem os valores que norteiam a sociedade contemporânea, marcada pelo pragmatismo e consumismo.

A PUC-Campinas promove e cultiva, por meio do Ensino, da Pesquisa e da Extensão, todas as formas de conhecimento, produzindo-as, sistematizando-as e difundindo-as, sempre comprometida com a ética e a solidariedade que priorizam a dignidade da vida.

Jornal da PUC-Campinas – Qual a contribuição que o Colóquio “A identidade da Universidade Católica” trouxe para a comunidade acadêmica?

Prof. Dr. Germano Rigacci Jr. – O Colóquio proporcionou à comunidade acadêmica um momento de grande reflexão sobre a identidade católica, a partir da “Ex Corde Ecclesiae”, considerada a carta magna para a condução, através de normas gerais, da atuação das Universidades Católicas, principalmente no diálogo entre fé, ciência e cultura.

Os temas abordados visaram discutir as questões que envolvem o Ensino e a Pesquisa articulados à ética cristã. Por meio das conferências ministradas por sua Eminência Reverendíssima Cardeal Zenon Grocholewski e das exposições feitas por professores nas mesas redondas, os participantes puderam aprofundar a reflexão  sobre a identidade católica da universidade  e a importância da Filosofia e da Teologia para a formação dos nossos estudantes como pessoas humanas.

Como ressaltou o Cardeal Grocholewski em uma de suas apresentações: “A Teologia e a Filosofia ensinadas devem ser aquelas que procuram a integridade do saber, que fomentam o diálogo entre fé e razão, que exijam a promoção da pessoa humana mediante uma preocupação ética e que defendam a perspectiva teológica de toda a realidade”.

Jornal da PUC-Campinas – Quais as expectativas sobre o Núcleo de Fé e Cultura da Universidade?

Prof. Dr. Germano Rigacci Jr. – O Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas, junto com a Comunidade Universitária, a partir do Colóquio, possui o compromisso ainda maior de fomentar o diálogo da fé cristã com a cultura em suas diversas dimensões, repercutindo nas atividades de Ensino, Pesquisa e Extensão da Universidade. Devemos contribuir com a formação integral dos estudantes, na boa convivência da comunidade universitária, no aperfeiçoamento da relação da PUC-Campinas com a sociedade e na orientação da Ciência a serviço da defesa e da promoção da vida.

(Com informações de Eduardo Vella)