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Segurança na Internet e a falta de legislação para crimes de espionagem e furto de dados

Por Amanda Cotrim

Na chamada Sociedade do Conhecimento, a informação é apontada por especialistas como o produto mais valioso na rede, seja para grandes empresas ou para usuários comuns. Diante de uma “avalanche” de informação, se faz necessário refletir para onde vão os nossos dados? Quais os interesses por trás das espionagens? Como podemos nos proteger?

Pensando em transformar o conhecimento técnico da linguagem computacional em prova judicial, o ex-aluno da PUC-Campinas, Ricardo Oliveira Marques, realizou seu mestrado na Faculdade de Engenharia Elétrica, com orientação do Prof. Dr. Alexandre Mota, sobre segurança na internet.  Marques também é formado em Ciências da Computação, com Especialização em Redes de Computadores e Perícia Forense, tem diversas certificações técnicas em segurança da informação, já efetuou trabalhos em perícia forense computacional e detém o título com reconhecimento internacional LPT (Licensed Penetration Tester pelo EC-Council). Em seu mestrado, ele propôs mecanismos para efetuar investigações em dispositivos e redes, além de registrar a importância da perícia forense como elemento fundamental num processo de investigação judicial, tratando todos os elementos envolvidos em um processo de investigação, como roteadores, servidores, laptops e telefones celulares, além de propor um modelo para elaboração de laudo pericial.

Para aprofundar o assunto de segurança na internet, o Jornal da PUC-Campinas conversou com o autor da pesquisa, Ricardo Oliveira Marques (R.M) e com a docente no curso de Direito da PUC-Campinas, especializada em crimes digitais e co-autora da obra Crimes no meio ambiente digital, Profa. Me. Christiany Pegorari Conte (C.C).

J.P: No momento em que o usuário acessa uma rede, através de computadores, celulares e etc, ele já é detectado? Ou seja, a senha funciona como uma espécie de RG (registro geral), uma identificação na rede?

R.M: Quando o computador está conectado a uma rede, ele recebe um endereço chamado IP (Internet Protocol ou protocolo de internet), esse endereço é uma fonte preliminar das investigações. No entanto, a fonte vital é o dispositivo, pois todas as informações ficam armazenadas nele. Se esse dispositivo (seja um celular, um computador ou um pen drive) cair nas mãos de criminosos, por exemplo, o prejuízo é muito maior que simplesmente a perda de um RG, pois as senhas podem liberar acessos a diversas informações pessoais e principalmente profissionais.

C.C: O papel da vítima, muitas vezes, é preponderante para a ocorrência de delitos praticados na internet. Um exemplo é quando a pessoa deixa de instalar um antivírus no dispositivo. Isso pode ser levado em consideração pelo juiz quando for aplicada a pena ao agente criminoso. Também vale ressaltar que a identificação do IP não é garantia de identificação da pessoa que praticou a conduta criminosa, porque o IP só identifica a máquina, não a pessoa. Então provar quem foi X que esteve em frente ao computador no momento do crime é mais difícil. A questão da obtenção e preservação das provas nos crimes digitais também é bastante complexa e, a depender de como são feitas, pode levar ao arquivamento da investigação ou ser desconsiderado em uma eventual ação penal.

J.P: O que são considerados dados pessoais num cenário de internet, onde as relações parecem estar cada vez mais estreitas por causa das redes sociais?  

C.C: Existe uma classificação de dados: há os chamados “dados sensíveis” e os “dados públicos”. O primeiro seria os dados que eu não quero divulgar, ou cuja divulgação depende de autorização do seu titular. Já os “dados públicos” são divulgáveis. Mesmo quando o indivíduo classifica informações nas redes sociais como privadas, não existe garantia de que essas informações não serão acessadas ou divulgadas por terceiros. Nesse sentido, a legislação brasileira vem tentando combater esse tipo de violação das informações por meio da Lei n 12.737/12 (que ficou conhecida como Lei Carolina Dieckmann), que acrescentou ao Código Penal o artigo 154-A, a qual trata da invasão de dispositivo informático com o fim de adulterar ou destruir dados ou informações, ou para instalar vulnerabilidades para obter vantagem ilícita, com punição que varia de três meses a um ano e multa. Além disso, temos o Marco Civil da Internet (Lei n. 12.965/14), o qual visa garantir a segurança das informações e o direito à privacidade do usuário de internet.

R.M: Quando há condições de classificar as informações armazenadas em dispositivos como sigilosa ou não, você compreende o que pode e o que não pode cair na rede publicamente. O usuário segregar as informações, e a partir daí passa a pensar nos mecanismos de proteção, principalmente onde e qual o melhor local para armazenamento. No caso de redes sociais, cabe a pessoa que a utiliza estar atenta à política de privacidade dos dados.

C.C: Um dos grandes problemas do direito digital é lidar com as replicações e a perpetuidade das informações na rede, que devem ser levadas em consideração no momento de impor uma pena ao criminoso digital. Uma vez que uma informação está na rede, mesmo que haja ordem judicial determinando a retirada do conteúdo, isso não garante que esse conteúdo nunca mais será acessado. Ainda que tenhamos algumas legislações sobre crimes digitais (como a Lei Carolina Dieckmann e o Marco Civil da Internet, além do Estatuto da Criança e do Adolescente sobre pornografia infantil na rede), estamos aquém do necessário para o efetivo combate às condutas criminosas praticadas na internet. Os crimes digitais são classificados em condutas que se enquadram na legislação já existente- como difamação, injúria, crimes raciais, etc- e que ganharam apenas um novo meio de execução, e em condutas que atentam contra a segurança informática e que ainda demandam melhor regulamentação jurídica.

J.P: Mas e o Marco Civil da Internet?

CC: O Marco Civil não tem natureza criminal. Ele também não prevê a regulamentação da internet de forma tão detalhada. É uma legislação mais de princípios do que regulamentadora. Mas apensar de não configurar, em minha opinião, grande avanço ao que tange uma internet segura, ele trouxe algumas mudanças, como obrigar o provedor a manter as informações do usuário (o que antes gerava um problema de investigação para a polícia). O Marco Civil também regulamentou a responsabilidade do provedor por conteúdo divulgado por terceiros. Atualmente, ainda utilizamos as legislações comuns (Código Penal, Código Civil e Código de Defesa do Consumidor), mais o Marco Civil da Internet, para lidar com as questões relacionadas à rede, no Brasil. O problema é que aquilo que não se enquadra na legislação vigente, a Justiça não consegue punir e novas situações surgem na medida em que as tecnologias evoluem.

J.P: O que pode acontecer se alguma empresa ou o próprio governo usa os dados do usuário sem o seu consentimento? Caracteriza-se como roubo?

C.C: Temos grandes discussões sobre o furto de informações na rede. Nem todas as situações de furto de informações podem ser enquadradas tão facilmente na legislação que temos. Imaginemos que um indivíduo/empresa invada um dispositivo informático e copie informações pessoais e sigilosas. Isso pode configurar furto? Os dados possuem valor econômico? Há efetiva subtração, uma vez que o agente fez cópias dos dados? Antes da Lei Carolina Dieckmann, não era possível punir tal situação. Numa outra hipótese, a subtração de valores de conta bancária pela internet, corresponde a furto ou estelionato? Além de outros debates sobre o enquadramento prático da conduta na legislação, tais como as relacionadas aos crimes contra a propriedade intelectual e o direito autoral. A legislação que se aplica ao território físico nem sempre se enquadra ao território digital. Não podemos dizer que não existem conseqüências jurídicas pela utilização indevida de imagem e informação na internet, mas são procedimentos da legislação comum.

J.P: A prática da espionagem existe há muito tempo, pelo menos no século XX tivemos muitos casos. Isso mostra que a prática não surgiu com a internet. Gostaria que vocês comentassem o caso no qual os EUA espionaram a presidente do Brasil e a chanceler da Alemanha.

Ricardo Oliveira Marques é especialista em segurança de rede- Crédito: Raquel Cristina
Ricardo Oliveira Marques é especialista em segurança de rede- Crédito: Raquel Cristina

R.M: Em minha opinião, a Internet criou novos caminhos para a exploração e a espionagem. A mídia tem enaltecido muitos os casos envolvidos nesse tema, mas, dificilmente é discutido o valor que uma determinada informação pode ter, pensando em produto.

C.C: Em âmbito internacional, a espionagem que aconteceu dos EUA em relação ao Brasil e a Alemanha envolvem questões diplomáticas e a impossibilidade de coagir àquele que teve acesso as informações naquele país. Não há como fazer isso criminalmente. Não existe nenhum mecanismo que puna os EUA por espionar o Brasil, no âmbito do direito. É possível um estremecimento nas relações diplomáticas e eventuais intervenções econômicas. Mas a punição, efetivamente, não existe. Dependendo da situação, o ato de espionar pode configurar crime contra a segurança nacional.

R.M: Na espionagem dos EUA, eu avalio que o melhor caminho seria a ampliação de acordos de cooperação internacionais no que tange à internet, violação de dados, sigilo e casos envolvendo espionagem na rede. A respeito do caso de espionagem de e-mails e informações envolvendo o nome da Presidente Dilma, imagina-se que se o Brasil tivesse acesso as informações do Presidente dos Estados Unidos, talvez a história não teria o mesmo fim. Por isso a cooperação tem que ser fundamental. No momento em que a Presidente Dilma lida com a espionagem praticada pelos EUA como algo “aceitável”, ela coloca em risco o próprio país, preocupando não só o governo mas também para empresas instaladas no Brasil.

Tecnicamente, tecnologias denominadas (sniffers), ou farejadores de rede, com equipamentos e um arcabouço de software, podem ter sido utilizados na espionagem contra o governo federal Brasileiro. Ainda que hospedados diretamente nas redes de telecomunicações ou até mesmo na rede do próprio Palácio do Planalto, é pouco provável, e tecnicamente complexo, descobrir informações a respeito de um computador em uma rede que contém o mínimo de segurança sistêmica. Nesse caso, a maior vulnerabilidade está efetivamente no comportamento de acesso à rede das pessoas.

J.P Se o Governo Federal, neste caso envolvendo a Presidente Dilma, quisesse investigar a fundo, encontraria os responsáveis?

 R.M: Sim. Com investigação, o Governo consegue saber a procedência da espionagem do começo ao fim. Nosso pais tem capital intelectual, infraestrutura tecnológica e capacidade, mas o meio político venceu e as informações das investigações acabaram não seguindo adiante.

J.P Na opinião de vocês, quando a espionagem é legitima?

C.C: Para mim, a espionagem não é legítima em nenhuma circunstância. Existem outros caminhos para obtenção de informações, como a cooperação jurídica entre os países. Na nossa legislação, a espionagem que consiste em quebra de sigilo telefônico ou telemático, demanda ordem judicial, do contrário, será ilegal.

R.M: Acredito que a espionagem não é legítima, é preciso se questionar por que e para que estão querendo determinadas informações e principalmente se está devidamente amparada pela justiça.

J.P: Qual é a relação entre o poder político/econômico e o poder tecnológico?

C.C: Geralmente, os países com maior desenvolvimento tecnológico têm poder político e econômico. O segundo ponto é que as pessoas precisam compreender, o quanto antes, que a internet não é um lugar neutro.

R.M: O poder político no Brasil não prioriza as questões de segurança tecnológica. Em minha visão, o Marco Civil e a Lei de interceptação ilegal de comunicações são iniciativas que demonstram a necessidade de preocupação do poder político com o tecnológico. O problema é que todo o poder político que o Brasil tem para desenvolver leis que garantam proteção, não é explorado. Então, as empresas criam ilhas de segurança, mas que não se comunicam entre si. Essas empresas poderiam criar grupos de força-tarefa para neutralizar a invasão de intrusos que queiram subtrair informações. Dentro do Brasil são poucos os grupos que se dedicam a entender o ambiente digital e buscam proteger suas informações, sem depender do poder público.

C.C: As tecnologias de proteção não são desenvolvidas no Brasil, então ficamos vulneráveis no acesso a essas tecnologias. Ficamos vinculados a uma segurança importada.

J.P: Gostaria que vocês explicassem sobre os armazenamentos em nuvens, a exemplo do Windows 10, e a vulnerabilidade da segurança com esse tipo de mobilidade.

R.M: Diversas empresas como Microsoft, Apple e o próprio Google, trabalham com o conceito de armazenamento em nuvem. Uma série de informações do usuário pode ficar armazenada, desde arquivos pessoais, fotos, senhas, até documentos eletrônicos. Como exemplo posso citar um caso de uma pessoa com apenas um dispositivo eletrônico e suas contas e dados configurados neste equipamento, em caso de extravio o prejuízo pode até ser calculado, contudo, se esta mesma pessoa tiver muitos dispositivos o risco aumenta à medida que o número de acessos é “concedido”. Em teoria, cabe informar que a mobilidade em grande parte anda em uma via diferente da segurança; quanto mais segurança a pessoa ou empresa necessita, menos mobilidade.

J.P: Então a inclusão digital vai muito além de saber criar uma conta nas redes sociais? Por que ao mesmo tempo em que a gente deposita a responsabilidade no individuo, esse sujeito não aprendeu a usar a internet e não faz idéia, muitas vezes, do risco que ele corre na rede.

Profa. Me. Christiany Pegorari Conte, especialista em crimes de internet- Crédito: Raquel
Profa. Me. Christiany Pegorari Conte, especialista em crimes de internet- Crédito: Raquel

C.C: O que falta é educação digital. Não adianta fornecer meios de acesso,  é urgente educar o cidadão sobre o que ele pode e não divulgar na rede, como o sistema funciona, o que ele precisa saber para se proteger. Nada disso é veiculado. Precisamos de uma política pública para uma inclusão digital verdadeira. O usuário precisa ler as políticas de privacidade e se atentar ao que está concordando quando pratica determinado ato na rede, desde o uso do internet banking, passando pelas compras na internet e, principalmente, as redes sociais.

J.P: Como as pessoas podem se proteger no dia-a-dia?

R.M: O antivírus é o procedimento mais comum, mas mesmo sabendo que ele é obrigatório, existem pessoas que não o levam a sério. Contudo, não adianta achar que o antivírus resolve, ele é uma espécie de remédio, que tem prazo de validade. São cerca de 400 ameaças lançadas por hora no mundo. Um segundo passo muito importante é a garantia da atualização dos equipamentos e dos softwares. A checagem de atualização do Windows ou outro sistema operacional deve ter uma periodicidade pelo menos semanal.

Depois é preciso investir nos filtros, pois são eles que bloqueiam efetivamente o trafego de informações que podem entrar e sair do equipamento, o mais recomendável é o Firewall. É uma tecnologia que pode ser adquirida com a mesma ferramenta de antivírus; ele analisará o tráfego de rede para determinar quais operações de transmissão ou recepção de dados podem ser executadas.

Num quarto momento, o usuário pode se proteger usando a criptografia, um conjunto de técnicas que embaralha os dados e os torna inelegíveis; a permissão de acesso é somente mediante a uma senha forte, com caracteres maiúsculos, minúsculos e símbolos.

E por fim, as pessoas devem usar os serviços em nuvem que tenham proteções, além das senhas, exigidas de forma convencional. Um modelo mais eficiente culmina no uso de senhas e contra-senhas enviadas através do provedor para telefones celulares por SMS. Para que este serviço seja utilizado a pessoa necessita cadastrar o seu número de celular como meio de acesso. Este é um modelo que vem demonstrando blindagem apropriada para acesso às informações hospedadas em nuvem. Cabe registrar que este modelo é altamente recomendado para uso em computadores não pessoais e de uso esporádico, pois elimina riscos de armazenamento acidental de senhas.

C.C: Se eventualmente o usuário for vítima de um crime praticado pela internet, ele deve procurar uma delegacia para registrar o boletim de ocorrência e iniciar uma investigação. É importante lembrar que, apesar de poucas, existem delegacias especializadas em crimes de internet. Mas qualquer delegacia está apta a receber ocorrências desse tipo de crime.

 

Jornalismo de Dados: Métodos empíricos de investigação social

Por Rosemary Bars Mendez

Para muitos estudantes de Jornalismo, a escolha pela área acontece em função da ausência da matemática, senso comum para explicar que a atividade profissional fala de pessoas, conta histórias, relata fatos e acontecimentos sociais. Nesses textos, o número não entraria. Ledo engano.

A quantidade de informação disponibilizada hoje, potencialmente na internet, gera um olhar diferente para os números e para o ‘relacionamento’ que o profissional deve ter ao planejar a produção da reportagem, focada em dados decodificados para se ter informações precisas e exatas, com rigor metodológico que garante a cientificidade do material jornalístico.

Philip Meyer, que atuou como professor na North Carolina University, é apontado por estudiosos como o responsável por propor uma metodologia científica de investigação social para o que chamou de jornalismo de precisão, nos livros Precision jornalism: a reporter´s introduction to social science methods e The new precision jornalism, publicados em 1973 e 1991. Segundo Meyer, os jornais americanos nos anos 80 fundamentavam suas notícias e reportagens em pesquisas próprias, por desacreditarem nos números passados pelos políticos. Nessa época, as redações começavam a ter acesso a computadores e a organizar bases de dados. Porém, as primeiras metodologias foram desenvolvidas nos anos 60, num curso que Meyer fez em Havard University sobre métodos empíricos de investigação social.

Essa postura profissional já foi disseminada no Brasil. O jornal O Estado de S.Paulo foi selecionado como finalista no prêmio Data Journalism Awards 2015, organizado pela Global Editors Network, com o projeto Atlas Político, com ferramentas interativas para analisar as eleições de 2014 e o cenário político nacional. A ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), organiza desde 2002 cursos de Reportagem Avançada por Computador (RAC). Muitos de seus filiados já passaram pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, da The University of Texas at Austin, que organizou entre agosto e setembro um curso virtual de Jornalismo de Dados para 1.483 jornalistas (professores e alunos), cinco deles professores da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas. Foram semanas de intensas discussões e exercícios com uma variedade de softwares e ferramentas web. Um processo de aprendizado que exige uma nova postura dos profissionais da área e que deve permear os bancos das Faculdades de Jornalismo no Brasil.

O jornalista Paul Bradshaw, professor visitante de Jornalismo na City University London, no texto A pirâmide invertida do jornalismo de dados, aponta que “O jornalismo de dados começa de um desses dois modos: ou você tem uma pergunta que requer o uso de dados ou você tem uma base de dados que precisa ser interrogada”. Para as duas questões a resposta é a mesma: copilar os dados disponibilizados, limpar, fazer raspagem e converter os documentos (relatórios, pesquisas, dados estatísticos etc.) em informação que possa ser compreensível ao receptor. Para isso, é necessário domínio de ferramentas básicas (e gratuitas) disponíveis como Excel, Google Docs, Google Refine, mapas, gráficos, sistemas de nuvens para armazenamento dos dados coletados.

Saber ler os dados (números) significa que o jornalista consegue sim encontrar uma boa história para contar, apoiado na qualidade do processo de apuração e sistematização. O Instituto Nacional de Reportagem, Assistida por Computador (NICAR, como é conhecido por sua sigla em inglês )organiza vários cursos de Jornalismo de Dados, capacitando profissionais no mundo todo. Os primeiros passos foram dados em 1975 na discussão sobre como partilhar e compartilhar informações, preocupações que hoje permeiam as redações em busca de dados que revelem a realidade de um país, de uma cidade, de um grupo social.

Esse é o futuro do jornalismo, com profissionais que se dedicam a usar ferramentas digitais para processar dados eletrônicos e a se desdobrarem a manusear ferramentas de código livre e aberto. É o momento para se compartilhar informações, aprimorar habilidades e conhecimentos sobre práticas de investigação jornalística.

Rosemary Bars Mendez é Professora de Jornalismo e coordenadora da Central de Estágio da PUC-Campinas

 

 

 

O poder da imagem na era digital

A Morte de Aylan:  a fotografia revela o que as palavras não são capazes de transmitir

Por Nelson Chinalia

No início de setembro de 2015, uma fotografia chocou o mundo e colocou em pauta novamente a força perturbadora da imagem.  A rapidez da circulação de notícias gera, inevitavelmente, opiniões divergentes e coloca em cheque o papel e a responsabilidade da mídia ao difundir uma fotografia que retrata de forma crua a interrupção da inocência e da infância em forma de violência.

A divulgação da imagem da criança morta, seja por veículos de mídia, com diferentes linhas editoriais, seja por usuários de redes sociais, ocorreu em meio a debates sobre a necessidade de expor a imagem tão agressiva. Uma semana antes da divulgação da foto de Aylan, foi encontrado um caminhão com setenta e um corpos em decomposição de refugiados na fronteira da Hungria com a Áustria, provavelmente todos sírios. Nenhuma foto foi divulgada, devido à natureza perturbadora da imagem. Os setenta e um corpos viraram estatística em relatórios oficiais. As imagens destes corpos existem anexadas aos relatórios policiais. São chocantes demais para sair na mídia.

Discussões como essa compreensivelmente resultam num resgate histórico, que compreende não só o papel e a importância do fotojornalismo, mas também evoca memórias semelhantes. Uma criança morta na praia, evidentemente, é uma imagem terrível. Mostra o horror da fuga fatal e inútil da Síria devastada pela guerra.

O choque e a imediata relação nas redes sociais, neste mundo cada vez mais conectado, suscitam a pergunta: Publicar ou não? Devemos, podemos, temos que mostrá-la?

Muitos veículos de comunicação no mundo encontraram motivos convincentes e dignos de consideração para não divulgar esta fotografia. É uma questão de respeito, de consideração à dignidade da criança, da família da vítima, de cuidado da mídia que, não raro, encara embates complexos entre a obrigação de expor e o limite ético.

Nós decidimos mostrá-la. Não por sensacionalismo, não para obter quantidade de cliques, não para aumentar nosso alcance na TV. Nós a divulgamos porque oferece um símbolo à tragédia dos refugiados: o da criança inocente, pela qual os pais decidiram seguir um perigoso caminho, arriscando a vida para dar-lhe um futuro humano melhor, que terminou de forma fatal no mar.

Nós a divulgamos porque ela nos abalou e nos deixou mudos e pensativos em nossa reunião de pauta, tocados pelo sofrimento e pela morte. Nós a mostramos, porque nos fez sofrer e, no meio da agitação de nosso cotidiano jornalístico, nos levou a um instante de reflexão. Diante desta imagem os editores responsáveis por seus veículos tiveram que optar pela força da comunicação que a fotografia revela o que as palavras não capazes transmitir: nossa condição de impotência diante da dor daquela família. Os editores decidiram pela publicação no limite da responsabilidade e do senso ético e em meio a muita indignação.

Quantas leituras estas imagens dos refugiados podem nos proporcionar? De imediato, causa indignação, tristeza, repulsa e até mesmo a crença no fim da humanidade. O pano de fundo destas guerras e conflitos, a fome, as mortes e a violência são resultados da dinâmica capitalista que se nutre de vidas, da desigualdade e do sofrimento. As fotografias desnudam a triste realidade que nos cerca, a imagem do garoto Aylan é a síntese de tudo. Lembro-me do trabalho de Sebastião Salgado, tão sensível e profundo que remete à frase “é preciso mudar a sociedade para que estas imagens não mais existam”.

Seja a imagem de Aylan, a foto-ícone da menina de nove anos fugindo nua, após bombardeio na guerra do Vietnã, ou a foto de Kevin Carter, que fotografou um menino desnutrido com um abutre postado às suas costas, são imagens que nos perturbam e comovem porque individualizam a tragédia. Colocam sobre os ombros frágeis de um personagem a representação de todos que foram vítimas do mesmo infortúnio.

Foto de Nick Ut, que tornou-se ícone da Guerra do Vietnã
Foto de Nick Ut, que tornou-se ícone da Guerra do Vietnã

A Europa mudou após a publicação da Imagem de Aylan: governantes agiram rápido, países europeus já discutem aceitar cotas de refugiados.

Kevin Carter foi perseguido e condenado por sua “frieza”, pagando com a própria vida/ Reprodução
Kevin Carter foi perseguido e condenado por sua “frieza”, pagando com a própria vida/ Reprodução

Talvez por isso a imagem de Aylan possa ser matriz de um movimento, enfim, mais humano em direção aos refugiados que desertam de uma indignidade e deparam com outra. O garotinho de três anos, que só conheceu a fuga e a rejeição como modo de vida, já inspirou alemães e finlandeses a oferecer suas casas a refugiados. Aylan não foi salvo, mas seu sacrifício e o registro em imagens de seu fim podem salvar muitas vidas.

A era digital se estabelece na mídia e o papel da imprensa de uma maneira geral volta a ser discutida. Antes, a informação precisava ter um suporte físico (papel, frequências eletromagnéticas, celuloide etc.), mas agora ela é imaterial (e bits bytes), o que a torna fluida, fácil de ser copiada e transmitida em fração de segundo para milhões de pessoas.

Não temos mais simplesmente leitores, ou espectadores passivos, agora são usuários, com habilidades de comunicação e domínio das ferramentas e plataformas, interagindo com os veículos de comunicação, seja compartilhando conteúdo ou estabelecendo diálogo com o mesmo. Com a grande rede mundial, as pessoas reagem de pronto. Rápida como a imagem símbolo de Aylan, que agora vive na nossa memória como a imagem da imensa massa em fuga de mais uma guerra insana.

Nelson Chinalia é professor de Fotografia e Fotojornalismo da Puc-Campinas, foi editor de fotografia do Correio Popular, ganhou o Prêmio Vladmir Herzog em 1995 com a fotografia “Violência Nua”. Pesquisador Grupo de Pesquisa Memória e Fotografia (GPMeF) da UNICAMP.

 

Universalização do acesso à internet: o longo caminho a conquistar

Por Camila Massaro

Embora os direitos fundamentais do ser humano remontem aos ideais de “liberdade, igualdade e fraternidade” erguidos pela Revolução Francesa, é somente com a criação da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1945, e a promulgação da Declaração Universal dos Direitos do Homem, em 1948, que tais direitos passam a ser referendados pelas nações signatárias, incluindo a liberdade de expressão como direito fundamental.

De lá para cá, o desenvolvimento das sociedades levou a ONU a incorporar novas questões. Com a expansão da internet e das tecnologias de informação e comunicação na década de 1990, a perspectiva era da propagação do acesso à informação, ao conhecimento e aos novos meios de comunicação numa velocidade nunca vista.

Infelizmente, a difusão dessa revolução não ocorreu de forma global, levando a ONU a declarar, em 2011, o acesso à internet como direito básico.

Embora o acesso à internet venha crescendo nos últimos anos, ainda há milhares de cidadãos desconectados mundo afora. Dados da União Internacional das Telecomunicações (UIT – agência da ONU para tecnologias da comunicação e informação) mostram que no início de 2015, dos mais de sete bilhões de habitantes do nosso planeta, pouco mais de três bilhões acessavam a internet.

Além da obtenção de informação e conhecimento, o acesso à internet se configura como meio de exercício da livre manifestação de pensamento e expressão que, no caso brasileiro é garantido pela Constituição Federal. Na atualidade, é também pela internet que vários cidadãos passaram não só a se comunicar, mas também a se organizar a partir de diversas demandas, como nas manifestações de junho de 2013.

Em consonância com o contexto mundial, embora dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontem um aumento de 25,6% de habitantes que acessavam a internet entre 2005 e 2011 no Brasil (passando de 20,9% para 45,6%), mais da metade da população estava desconectada. Além disso, apesar do crescimento nacional, é notória a discrepância regional, tendo o norte e o nordeste com 1/3 de sua população conectada, versus mais de 54% do sudeste em 2011.

Uma tentativa do governo brasileiro de garantir o acesso à internet como direito básico está na promulgação do Marco Civil da Internet em abril de 2014. Fundamentado no respeito à liberdade de expressão, também dispõe sobre as responsabilidades do poder público quanto aos investimentos para assegurar o acesso e uso das tecnologias no país, visando reduzir as desigualdades regionais.

No mesmo ano da publicação do Marco Civil, dados da UIT apontavam 57,6% da população brasileira conectada, deixando o país na 80ª posição no mundo. Embora em comparação a países mais pobres esse percentual seja elevado (em muitos países da África não passa de 2%), não podemos perder de vista que dada a importância da internet nos dias atuais, deixar mais de 42% da população desconectada mostra o quanto ainda é longo o caminho a se conquistar.

 Profª Drª Camilla Marcondes Massaro – Professora do curso de Ciências Sociais da PUC-Campinas.

 

 

“Uma universidade católica se distingue pelo cultivo e promoção dos valores éticos”, afirma Presidente da CNBB

Em entrevista ao Jornal da PUC-Campinas, o Presidente da CNBB, que esteve na Universidade, no dia 21 de setembro, fala sobre o Concílio Vaticano II e a contribuição da universidade católica para a formação humana

Por Amanda Cotrim e Eduardo Vella

Pela primeira vez, o Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e arcebispo de Brasília, D. Sergio da Rocha, veio à PUC-Campinas, no dia 21 de setembro, participar do Colóquio “A Universidade Católica à Luz do Concílio Vaticano II”.  Durante sua passagem pelo Campus I, D. Sérgio, concedeu entrevista exclusiva ao Jornal da PUC-Campinas, na qual ressaltou que a Igreja se faz diálogo e que por isso ela não deve se fechar nela mesma e nem deve ter uma postura de dominação ou controle social, imagem essa que não condiz com a eclesiologia do Vaticano II, e nem seria possível numa sociedade plural e complexa, como é a atual. D. Sérgio também destacou que o diálogo e o serviço da Igreja podem ser efetivados através do recurso das mídias sociais. “Nelas, o respeito à pluralidade não deve implicar em exclusão da perspectiva religiosa ou na negação da identidade católica. É preciso assegurar o direito à liberdade religiosa, o reconhecimento da importância da fé na vida das pessoas e na cultura brasileira”

O Arcebispo é Mestre em Teologia Moral pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (SP) e Doutor pela Academia Alfonsiana da Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma. Dom Sérgio tem como lema episcopal “Omnia in Caritate” – “Tudo na caridade”.

Confira:

Jornal da PUC-Campinas: Neste ano, são comemorados os 50 anos do encerramento do Concílio Vaticano II, um dos eventos mais marcantes da Igreja no século XX.  A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) propôs uma reflexão mais ampla sobre o Concílio, por meio da Campanha da Fraternidade (CF), que tem como tema “Fraternidade: Igreja e sociedade” e o lema “Eu vim para servir” , numa tentativa de aproximar a igreja cada vez mais da sociedade. Gostaria que o senhor refletisse sobre as principais mudanças proporcionadas pelo Vaticano?

D. Sérgio: O Vaticano II propõe uma atitude eclesial de diálogo e de serviço na relação Igreja – sociedade. A Igreja se faz diálogo. A Igreja se faz servidora, a exemplo de Jesus. Na relação Igreja-sociedade, há posturas equivocadas. De um lado, a exclusão da participação na vida social, com a Igreja fechada sobre si, ocupando-se unicamente de questões internas. De outro, a postura de dominação ou controle social, que não condiz com eclesiologia do Vaticano II e nem seria possível numa sociedade plural e complexa, como a atual.

O documento do Concílio sobre a Igreja no mundo, a Gaudium et Spes, propõe o caminho do diálogo com todos, procurando não apenas oferecer ajuda, mas também receber ajuda,  e a atitude de serviço. O discernimento atento dos valores presentes na sociedade é acompanhado da denúncia profética daquilo que não condiz com a Palavra de Deus.

O diálogo e o serviço podem ser efetivados através do recurso às mídias sociais. Nelas, o respeito à pluralidade não deve implicar em exclusão da perspectiva religiosa ou na negação da identidade católica. É preciso assegurar o direito à liberdade religiosa, o reconhecimento da importância da fé na vida das pessoas e na cultura brasileira. O diálogo e o serviço a serem cultivados nas mídias sociais são enriquecidos com a perspectiva cristã. Para tanto, é fundamental a atuação de pessoas e instituições cristãs.

Jornal da PUC-Campinas: Para o senhor, qual é a contribuição da Universidade Católica para a formação da pessoa humana?

D. Sérgio: A Universidade Católica deve contribuir para a formação integral da pessoa humana, para o exercício responsável da cidadania na construção da sociedade, promovendo o diálogo, a solidariedade e a paz. Ela mesma deve ser um espaço privilegiado para o exercício do diálogo e da fraternidade.

Uma universidade católica se distingue pelo cultivo e promoção dos valores éticos, especialmente, por meio de gestos concretos: o respeito, a estima, a solidariedade, a vida fraterna, a paz, nos diversos níveis da comunidade acadêmica. A atitude de diálogo é essencial, seja no interior da comunidade acadêmica, seja com a sociedade. A abertura e o diálogo a serem cultivados numa universidade católica são exigências essenciais de uma comunidade acadêmica e decorrem do proprio dinamismo e caráter dialogal do saber.

A Universidade deve ser lugar de formação para a vida e de aprendizado  conjunto, na troca e circularidade de conhecimentos. A forma monológica de racionalidade, isto é, a racionalidade fechada, empobrece e paralisa qualquer campo do conhecimento ou instituição de ensino.

A forma dialógica de racionalidade enriquece e  estimula a caminhar rumo à atualização e ao aprofundamento. O pensador ensimesmado, isto é, o professor, o pesquisador ou estudante, fechado orgulhosamente sobre si,  não poder existir a não ser em contradição com a própria essência do pensar, por sua natureza aberto ao diálogo. Além disso, não pode faltar a postura profética na missão de uma instituição católica de ensino. Numa sociedade pluralista, o diálogo deve ser acompanhado de uma consciência clara da própria identidade, condição para se oferecer uma contribuição própria e estabelecer parcerias. A Universidade oferece, sobretudo, uma visão antropológica iluminada pela fé cristã, ressaltando a dignidade. o valor inviolável da vida de cada pessoa humana e os seus direitos fundamentais.

Concílio Vaticano II: seu significado e sua recepção

Prof Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves

O Concílio Vaticano II (162-1965) é um dos eventos mais importantes da Igreja Católica na era contemporânea. Anunciado em 1959 e convocado em 1961 pelo papa João XXIII, esse Concílio significou o encerramento do Concílio Vaticano I (1869-1870) que havia sido suspenso pelo papa Pio IX em função da guerra franco-prussiana e assumindo a perspectiva teológico-pastoral, recepcionou e levou a cabo um processo de renovação interna da Igreja e de seu modo de relacionar-se com o mundo contemporâneo. Abraçou uma postura de renovação interna da Igreja em suas estruturas para que se constituíssem em espaços de comunhão e de fraternidade, de diálogo com o mundo contemporâneo, sentindo “as alegrias e as esperanças, as tristezas e angústias da humanidade de hoje” (cf. Gaudium et Spes n. 1), para promover o aggiornamento, sendo a luz de Cristo para todos os povos, sacramento universal de salvação mediante o ecumenismo, o diálogo interreligioso, a contribuição profunda com a unidade dos povos e com a emergência do novo ser humano, constituído de espírito de alegria, de justiça, de bondade, de paz e de amor.

Quando o Concílio Vaticano II foi encerrado aos 08 de dezembro de 1965, um grande entusiasmo tomou conta de cristãos e de outras pessoas de boa vontade. O desafio emergente era a recepção, compreendida como o modo de sua atualização nas diferentes realidades do mundo contemporâneo. Nesta perspectiva, os bispos fortaleceram suas estruturas de colegialidade episcopal mediante a efetividade das Conferências Episcopais, das Assembléias Gerais do Episcopado – como exemplo têm-se as Assembléias do Episcopado Latino-americano realizadas em Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007) –, a recuperação dos Sínodos e a apresentação do Papa como o bispo de Roma que, na caridade, preside o colégio episcopal. Os bispos foram fortalecidos em suas Igrejas particulares e locais, efetivando a comunhão nas instâncias de colegialidade episcopal, principalmente as Conferências Episcopais, nas instâncias diocesanas com o respectivo Presbitério e Laicato, levando a cabo a concepção da Igreja como Povo de Deus, fundamentalmente ministerial, servidor e munido da esperança escatológica. Estruturas eclesiais de comunhão e participação foram criadas tanto no âmbito mundial quanto nacional, regional, diocesano e paroquial. Assim, devem ser entendidos os conselhos pastorais e administrativos das diferentes instâncias eclesiais.

Emergiram e consolidaram-se realidades eclesiais comprometidas com a evangelização do mundo contemporâneo, tanto em termos de anúncio explícito de Jesus Cristo através da catequese, da homilia e da teologia pastoral, como em termos sociais mediante o impulso e a realização de movimentos históricos de transformação social, política, econômica e social. Neste sentido, compreende-se a concepção de “Igreja dos Pobres” proferida pelo papa João XXIII aos 11/09/1962 e levado a cabo nas formas de Comunidades Eclesiais de Base, de atividades pastorais sociais diversas e práticas pessoais comprometidas com a dignidade humana, a justiça e a paz.

No âmbito da theologia mundi, preocupada com a relação entre Deus e mundo, surgiram as teologias contextuais – teologia da libertação latino-americana, teologia asiática, teologias africanas –, teologias da cultura – pós-moderna, negra e indígena –, teologias do genitivo – teologia da mulher, teologia feminista, teologia do feminino –, teologias das religiões, teologia ecológica. Essas teologias respondem à pergunta: como falar de Deus a partir das diversas realidades – aqui se trata da concepção clássica de loci theologici – compreendidas em sua especificidade vital, sem perder a universalidade própria da revelação cristã? Para isso, a inteligência da fé, que é própria da teologia, tem na filosofia sua companheira – partner – que lhe possibilita compreender o ser humano e o mundo em sua totalidade e nas ciências os elementos constitutivos para a compreensão das realidades específicas. Todas essas teologias possuem um espírito de diálogo e de apresentação das possibilidades de eficácia da fé cristã.

É também constatável que não tem faltado tensões de diversas ordens na recepção do Concílio, porém é verdade que a Igreja está imbuída de um espírito dialógico, ecumênico e de comprometimento com a emergência do homem novo e com a nova criação, porque a Igreja tem consciência de sua missão: ser sacramento de salvação para todos os povos, zelando e cuidando da humanidade com confiança e com amor, para que esta possa resplender o rosto do Cristo, o filho do Deus, que é Amor e que ama a todos os seres humanos e a todas as criaturas desde a eternidade.

Prof Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves- Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião – CCHSA

 

Renomada Filósofa Italiana, Angela Ales Bello, visita a PUC-Campinas

Pesquisadora do pensamento de Edith Stein analisa o ensino em ciências da religião e o papel da mulher no mundo acadêmico

Por Eduardo Vella

A Profa. Dra. Ângela Ales Bello, docente da Pontificia Università Lateranense di Roma – Itália – esteve na PUC-Campinas, no início do mês setembro, a convite do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião.

A Profa. Angela Ales Bello é italiana, filósofa contemporânea, fundadora e diretora do Centro Italiano di Ricerche Fenomenologiche, com sede em Roma, e Professora Emérita de História da Filosofia Contemporânea da Faculdade de Filosofia da Pontifícia Università Lateranense. É especialista na Fenomenologia de Edmund Husserl (1859-1938) e uma das mais renomadas pesquisadoras do pensamento de Edith Stein (1891-1941). Editou pela Città Nuova, em língua italiana, as Obras Completas de Edith Stein.

Edith Stein reforça a igualdade, no que diz respeito a dignidade humana. Crédito: Álvaro Jr
Edith Stein reforça a igualdade, no que diz respeito a dignidade humana. Crédito: Álvaro Jr

O Jornal da PUC-Campinas conversou com a Pesquisadora que falou sobre sua visita à Universidade, a qualidade do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião da PUC-Campinas, Ensino de Ciências da Religião e Teologia no Brasil e o papel da mulher na vida acadêmica e dentro do estudo da religião.

 Jornal da PUC-Campinas: Qual a motivação de sua visita ao Brasil, especialmente à PUC-Campinas?

Profa. Dra. Ângela Ales Bello: Fui convidada pela PUC-Campinas, em especial pelo Coordenador do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião da PUC-Campinas Prof. Dr. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves e pela Pró-Reitora de Extensão e Assuntos Comunitários, Profa. Dra. Vera Engler Cury para que pudesse falar de minha experiência filosófica, em especial da Fenomenologia, dentro da disciplina “Tópicos Especiais em Ciências da Religião” e também para estabelecer um relacionamento com a PUC-Campinas, através da Pontificia Università Lateranense di Roma, instituição da qual faço parte.

 Jornal da PUC-Campinas: Qual sua impressão do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião da PUC-Campinas?

 Profa. Dra. Ângela Ales Bello: Tive uma impressão ótima. Os alunos estavam muito bem preparados e motivados para participar de minhas aulas, compreendendo e participando de forma muito ativa. Foi uma experiência muito interessante.

 Jornal da PUC-Campinas: Faça uma análise sobre o ensino e pesquisa de Ciências da Religião e Teologia no Brasil.

 Profa. Dra. Ângela Ales Bello: Essa área de Pesquisa existente no Brasil é particularmente importante, pois não é ligada somente a uma religião, como a Católica, que caracteriza, por exemplo, a nossa Pontifícia Universidade. Através de outras experiências ligadas ao ponto de vista filosófico, teológico e histórico, o ensino e pesquisa de Ciências da Religião e Teologia permite uma preparação muito ampla e adequada ao mundo contemporâneo. Talvez pudesse, ainda interiormente, aprofundar a questão histórica, não só de nossa cultura ocidental, como também de outras religiões.

Profa. Dra. Ângela Ales Bello, docente da Pontificia Università Lateranense di Roma – Itália- Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Dra. Ângela Ales Bello, docente da Pontificia Università Lateranense di Roma – Itália- Crédito: Álvaro Jr.

 Jornal da PUC-Campinas: A Senhora é uma das mais renomadas pesquisadoras do pensamento de Edith Stein. Qual sua visão sobre a participação da mulher na vida acadêmica e dentro do estudo da religião?

Profa. Dra. Ângela Ales Bello: Edith Stein nos ajuda de uma forma muito intensa a valorizar a presença da mulher nesse campo. Em todas as profissões, em qualquer trabalho que um ser humano pode fazer, sobretudo do ponto de vista intelectual, sabemos que nas décadas passadas, também em nossa cultura, não se pensava ser possível que a mulher pudesse produzir algo. Havia dúvidas de que as mulheres fossem capazes. Edith Stein mostra em seus escritos e comprova que a mulher pode fazer e tem sua maneira própria de atuar. Ela destaca as diferenças entre o homem e a mulher, porém reforça a igualdade, no que diz respeito a dignidade humana. Aqui na PUC-Campinas podemos constatar isso, já que a Reitora, Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht, e duas Pró-Reitoras são mulheres.

 

Coluna Pensando o Mundo: Rui Campos, da Geografia

Por Juleusa Maria Theodoro Turra

Despojamento e rigor; estas palavras procuram relembrar, ou apresentar, a pessoa e o professor Rui Ribeiro de Campos ( 1948-2015).

Nascido em Piquete, Vale do Paraíba paulista, chegou a Campinas para estudar, cursando Filosofia nesta PUC-Campinas entre os anos de 1967 e 1970.

Ao relatar este período, em depoimento à Revista Série Acadêmica, número 21, Especial Licenciaturas , Rui Campos nos contou :

Nos tempos de estudante, pelo horário do curso superior que fazia (era vespertino), era difícil arranjar emprego, exceto algumas aulas. Com a minha situação econômica apertadíssima, apareceram aulas de Geografia em um curso supletivo. Aliás, poderiam ser aulas de História, Português ou outra disciplina. Na situação em que me encontrava tentaria qualquer uma.

A chegada à Geografia foi uma circunstância, mas o tema da ‘aula-teste’ foi uma escolha: Subdesenvolvimento.  Entre 1973 e 1976 está Rui Campos cursando Licenciatura em Geografia, na turbulenta passagem do curso de Estudos Sociais (Licenciatura Curta) para a Licenciatura Plena.

A situação econômica apertadíssima não foi esquecida: o despojamento, como o desapossar-se, marcou sua trajetória: sempre o mínimo necessário, sem consumismos, sem modismos.

Não viajou de avião, tampouco compareceu a eventos enquanto os filhos eram novos: evitava despesas e a possibilidade de se acidentar. Protegia os filhos e os criava para o mundo.

O rigor.  Rigorosamente prepara as aulas, as revia, trabalhava o texto e produzia um material para estudo dos alunos; não perdia a pontualidade e não permitia que outros o fizessem. Algumas destas aulas geraram capítulos de sua dissertação de Mestrado (cursado na Educação da PUC-Campinas entre 1993 e 1997) e da tese de Doutorado (Unesp entre 1999 e 2004). Mais recentemente geraram ou inspiraram capítulos de seus livros.

Sobre as aulas, manifestou-se no depoimento já mencionado:

 […] elaborar o material trabalhado em sala de aula e me realizar na principal tarefa da atividade de ensino: proporcionar o pensar a partir do conteúdo proposto […]

 Proporcionar o pensar. Para tanto, Rui que adorava as palavras, o que o fazia adorar letras de músicas. Recuperava expressões, substituía outras expressões e procurava surpreender. Seus ex-alunos souberam sobre os conflitos na Ásia Ocidental, ouviram e anotaram exemplos das intervenções dos estadunidenses na América Central e Caribe.  Puderam compreender a exploração de recursos naturais. Também receberam ensinamentos de Potamologia.

Com igual persistência procurou conhecer, minuciosamente, autores que não tinham grande circulação e que, por esta razão, ofereciam possibilidades para pensar sobre suas vidas e produções, pensar a geografia e a liberdade.  Em Angra dos Reis, na Universidade Federal Fluminense, pode desenvolver as suas disciplinas de forma autoral, retomando seus temas e autores queridos. Lá faleceu e conhecemos o quão foi cativante, sendo nome do Centro Acadêmico.

A persistência, até mesmo a intransigência, foram condições de, com suas armas – a palavra e o exemplo pessoal – levar em frente o que foi quase uma missão: proporcionar e provocar o pensar e não deixar ao esquecimento o que foi a ditadura, que marcou o início de sua vida adulta e o impediu de estudar tudo o que queria ou necessitava.

Um pouco disto está na dedicatória do seu livro Breve História do Pensamento Geográfico Brasileiro, lançado em 2011: a todos os que resistiram, não importando a maneira,  nas ditaduras e ainda perseguem seu  ideal por uma sociedade mais justa.

Prof. Dra. Juleusa Maria Theodoro Turra, docente no curso de Geografia, Turismo e Engenharia Civil

PUC-CAMPINAS INFORMA

PUC-Campinas recebe 133 estrelas no Guia do Estudante

A PUC-Campinas está entre as melhores universidades, segundo a avaliação realizada pelo Guia do Estudante. Ao todo, a Instituição teve 34 cursos  estrelados, que constarão na publicação GE Profissões Vestibular 2016. A publicação estará nas bancas a partir do dia 09 de outubro de 2015.

A Universidade recebeu 133 estrelas, tendo os cursos de Administração, Direito, Pedagogia e Sistemas da Informação avaliados com cinco estrelas, considerada a mais alta.  Além destes, 23 cursos – dois a mais do que no ano passado – foram estrelados com quatro estrelas.

O resultado demonstra a qualidade dos cursos oferecidos pela PUC-Campinas e coloca a Universidade como uma das melhores do País.

VESTIBULAR 2016

No dia 30 de outubro (sexta-feira), no período das 14h às 18h, será aplicada a Prova Específica, destinada aos candidatos dos cursos de Arquitetura e Urbanismo e Direito, em 1ª opção.

No dia 31 de outubro (sábado), os candidatos de todos os cursos oferecidos pela PUC-Campinas, incluindo os candidatos dos cursos acima citados, farão a Prova Geral, no período das 9h às 13h.

No dia 21 de novembro (sábado), os candidatos ao curso de Medicina convocados, farão a Prova Específica, no período das 9h às 13h.

Resultados

A divulgação da lista dos candidatos convocados para todos os cursos, exceto os do curso de Medicina, ocorrerá no dia 13 de novembro.

A divulgação da lista dos candidatos convocados ao curso de Medicina ocorrerá no dia 14 de dezembro.

Outras informações, acesse aqui.

ESPAÇO PRÓ-REITORIA DE GRADUAÇÃO

Universidade se apóia em ensino, pesquisa e extensão

Em setembro de 2015 aconteceram três eventos muito importantes na PUC-Campinas, o V Encontro Anual de Extensão Universitária, o XX Encontro de Iniciação Científica e o V Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico, momentos que envolveram professores pesquisadores, extensionistas e  alunos dos diversos cursos de graduação da Universidade,  que têm a oportunidade de apresentar os novos projetos e os resultados alcançados no ano  anterior.

Uma Universidade, para ter essa denominação, tem que se apoiar em atividades de Ensino, Pesquisa e Extensão e o envolvimento dos alunos em projetos de Pesquisa e Extensão, sem dúvida alguma qualifica o ensino de graduação, além de abrir caminho para que os discentes sigam a carreira acadêmica, por meio da realização de cursos de Pós Graduação Stricto Sensu (mestrado e/ou doutorado),  ou se envolvam com projetos sociais e cheguem a resultados que possam contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população.

Esses são mais alguns exemplos de atividades que ocorrem fora da sala de aula e que contribuem para a formação integral da pessoa humana, um diferencial dessa Universidade expresso na sua Missão.