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Editorial: O Meio Ambiente não é exterior às pessoas

Na edição 165 do Jornal da PUC-Campinas, reservamos espaço para debater o tema do Meio Ambiente por meio de artigos, reportagens e entrevista. Nesse sentido, o jornal da Universidade vai ao encontro do tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016: “Casa Comum, Nossa Responsabilidade” cujo lema é “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca”, tratando principalmente o Saneamento Básico. A Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016 coloca a questão ambiental no centro do debate e o acesso à informação é um bom caminho para que esse debate seja qualificado.

A Universidade, enquanto instituição de Ensino, Pesquisa e Extensão, está comprometida com a questão do Meio Ambiente dentro dos Campi I e II e do Colégio de Aplicação PIO XII, mas, também, fora desses lugares, porque o conhecimento e as ações concretas para uma mudança de consciência e de hábitos não enxerga barreiras. É preciso cuidar da Casa Comum, do nosso quintal, apartamento, casa, do nosso mundo. Do micro ao macro.

Entre os objetivos da Campanha da Fraternidade Ecumênica, que o Jornal da PUC-Campinas aborda, está o debate sobre o dever do Estado na questão do Saneamento Básico, as políticas públicas, o mosquito Aedes Aegypti, a participação da população e a sociedade do consumo. Precisamos pensar o Meio Ambiente não como algo exterior a nós, mas como a própria condição para que os seres vivos sejam constituídos. PUC-Campinas.

PUC-Campinas Informa

Pesquisadora Lucia Santaella realiza aula inaugural do Mestrado em Linguagens, Arte e Mídia

Aula Inaugural PPG Limiar: Linguagens, Mídia e Arte - "A relevância da interdisciplinaridade" com profª Lucia Santaella
Aula Inaugural PPG Limiar: Linguagens, Mídia e Arte – “A relevância da interdisciplinaridade” com profª Lucia Santaella

O Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Linguagens, Mídia e Arte recebeu a palestra da Vice-Coordenadora do PPG Interdisciplinar Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC-São Paulo, Profa. Dra. Lucia Santaella, no dia 1º de março de 2016.

Durante a aula inaugural, Santaella abordou sua trajetória na pesquisa, indicando que a interdisciplinaridade sempre esteve presente em seus estudos. A pesquisadora ressaltou a importância de um campo teórico que conglomere várias áreas do saber. “O mundo está muito complexo. Não é possível observá-lo apenas por um ponto de vista”, defendeu.

O Mestrado em Linguagens, Mídia e Arte tem como objetivo qualificar seus alunos para a pesquisa, a docência e para inovação em sua prática profissional.

Lucia Santaella possui 41 livros publicados, dentre os quais seis são em coautoria e dois sobre estudos críticos. Organizou, ainda, a edição de 15 livros. Além dos livros, Lucia Santaella tem mais de 300 artigos publicados em periódicos científicos no Brasil e no Exterior. Suas áreas mais recentes de pesquisa são: Comunicação, Semiótica Cognitiva e Computacional, Estéticas Tecnológicas e Filosofia e Metodologia da Ciência.

Engenharia Ambiental: Ação solidária na Mata de Santa Genebra

A Área de Relevante Interesse Ecológico Mata de Santa Genebra, em Barão Geraldo, recebeu no dia 8 de março, os alunos ingressantes do curso de Engenharia Ambiental da PUC-Campinas para o “Trote da Sustentabilidade”. Cada aluno plantou uma muda de árvore nativa no local, podendo acompanhar o seu desenvolvimento.

Os calouros tiveram orientação de equipes especializadas em reflorestamento. As mudas recebem um cadastro com a identificação digital por QR Code. Além do plantio, houve uma palestra sobre os temas: fragmentação florestal, unidade de conservação, manejo e recuperação florestal, ministrada por colaboradores da Mata Atlântica de Santa Genebra.

O Trote da Sustentabilidade é um projeto do Banco de Áreas Verdes (BAV) da Secretaria Municipal do Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SVDS) que, com o apoio da Fundação José Pedro Oliveira (FJPO) e da PUC-Campinas, teve por objetivo envolver a comunidade acadêmica no trabalho de recomposição da área verde do município.

A ação marcou o início da restauração dos 23 hectares da Mata de Santa Genebra que foram consumidos por incêndios no passado. As espécies a serem plantadas foram indicadas pela Fundação José Pedro de Oliveira, que administra a área.

PUC-Campinas lança aplicativo para alunos

Foto 3 PUC Campinas Informa

A PUC-Campinas, no início do semestre letivo de 2016, lançou o App Aluno PUC-Campinas. A nova ferramenta possibilita maior interação, facilitando o acesso dos estudantes a informações acadêmicas, tais como, grade da semana, disciplinas cursadas e dados pessoais.

Com ele, o aluno poderá consultar em que salas ocorrerão as aulas de seu curso, a frequência e as notas, quando ambas já estiverem liberadas pelo docente da disciplina.

Desenvolvido pelo Núcleo de Tecnologia da Informação e Comunicação (NTIC) da PUC-Campinas, o aplicativo também promove notificações quando ocorre troca de sala de aula, sobre a frequência do mês e quando o aluno realiza mudança de grade durante o semestre.

A intenção da Universidade é ampliar o aplicativo com novas funções.

O aplicativo está disponível no Google Play, para Android e nos próximos dias na Apple Store, para iOS.

Sugestões e mais informações pelo e-mail contato.apps@puc-campinas.edu.br

Espaço Pró-Reitoria de Graduação

O Planejamento Acadêmico-Pedagógico da PUC-Campinas está sendo aprimorado, a cada ano, com o objetivo de capacitar os docentes com metodologias inovadoras, para que os alunos possam interagir e buscar a competência, como ressaltou o palestrante do Planejamento Acadêmico-Pedagógico 1o semestre de 2016, Prof. Dr. Pedro Demo: “o aluno deve ser autor do seu conhecimento”.

Nessa perspectiva, a Pró-Reitoria de Graduação (PROGRAD), por meio dos Grupos de Trabalho (GT), dará continuidade às atividades durante o 1o semestre de 2016, com os projetos nas áreas de: Estágio e TCC, PPCP Docentes, Atividades Complementares, Avaliação do Ensino, Integração Graduação x Sociedade e Estratégias de Aprendizagens Inovadoras.

PUC-Campinas na década de 1950

Por Wagner Geribello

Os anos dourados do pós-guerra…

Assim ficou conhecido o período compreendido pelo segundo lustro dos anos 1940 e a década seguinte, marcado pela desmobilização militar e grandes transformações sociais, políticas, culturais e econômicas, como a consolidação da produção e comercialização de bens de consumo.

Nessa época, progresso e desenvolvimento também estão na ordem do dia, com o proporcional aumento da requisição de pessoal capacitado a atender as demandas da nova organização social, marcada, entre outras características, pelo desenvolvimento e consumo de tecnologia, que passa a integrar o cotidiano das pessoas.

O desenho social desse período reflete diretamente nas Faculdades Campineiras, que entram na juventude da sua história, vivendo tempos de crescimento, vigor e uma saudável ousadia à moda dos jovens, aceitando, enfrentando e vencendo desafios. Nessa época, a Instituição criada por Dom Francisco de Campos Barreto deixa para trás o acanhamento da infância, divisando novos e amplos horizontes.

PUC-Campinas na década e 1950- Acervo Museu da PUC-Campinas
PUC-Campinas na década e 1950- Acervo Museu da PUC-Campinas

Já contando com Cursos em áreas diferentes, como Letras, Filosofia, Biblioteconomia e Química, entre outros, as Faculdades Campineiras agregam a área da Saúde aos Cursos oferecidos, incluindo uma Escola de Enfermeiras (incorporada em 1955) e a Faculdade de Odontologia, criada em 1949. Nos anos subsequentes, um afã de obras ergue as instalações para o pleno funcionamento do Curso de Odontologia, incluindo laboratórios e ambientes para aulas práticas.

Em meados dos anos 1950, mesmo sem o título, a Instituição já tinha contornos de Universidade, incentivando os gestores, capitaneados por Monsenhor Salim, a intensificar contatos, negociações e muita argumentação para que a cidade de Campinas tivesse sua Universidade.

A crônica histórica da PUC-Campinas classifica Monsenhor Salim, em especial pela sua atuação nesse período, como verdadeiro “globe-trotter”, entre Campinas e Roma, levando solicitações e informações à cúpula da Igreja sobre as Faculdades Campineiras.

Em 1951, a comemoração de dez anos é feita em grande estilo, com a criação da Faculdade de Direito e, quatro anos depois, a cidade recebe a visita do Núncio Apostólico Dom Armando Lombardi. Discursando no salão nobre das Faculdades Campineiras, o representante da Santa Sé menciona a posição favorável de Roma à criação da Universidade Católica de Campinas.

O processo de elevação de um conjunto de faculdades à condição de Universidade Católica não é simples, carecendo do concurso de duas Instituições, o Governo Brasileiro, em especial o Ministério da Educação e a cúpula da Igreja Católica, em Roma. Por isso, a titulação não acontece em um único dia, mas resulta de diversos passos que vão consolidando a oficialização da Universidade, deixando o registro de diversas datas significativas no decorrer do processo.

Em 15 de agosto de 1955, Roma concede o título de Universidade, mas o reconhecimento canônico só acontece no ano seguinte quando, então, institui-se, oficialmente, a denominação de Universidade Católica de Campinas, que iria perdurar por quase duas décadas, até 1972, quando recebe sua denominação atual, Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Se a elevação à condição de Universidade foi o grande acontecimento daquela década, o período ainda registrou eventos importantes, como a visita do Ministro da Educação, Clóvis Salgado, em 1956, o registro de 1.500 alunos matriculados, nesse mesmo ano, e a integração à Federação Internacional das Universidades Católicas, em 1958.

Marcado, sobretudo, pelo desempenho de Monsenhor Salim, primeiro reitor da então recém-nascida Universidade, o período polarizado pelos anos 1950 consolida institucionalmente a Católica de Campinas e compõe um feixe de anos dourados da sua história.

Wagner Geribello é Consultor do Jornal da PUC-Campinas

Um destino pujante no Caminho de Goiazes

Por Luiz Roberto Saviani Rey

A cronologia histórica de Campinas, seus elementos de rápida progressão social, material e urbana, permite vislumbrar os cenários de sua rica evolução, os quais a conduziram ao portentoso núcleo metropolitano da atualidade, um município-sede regional com 1,2 milhão de habitantes e polo de alta tecnologia, concentrando universidades de elevado nível, como a PUC-Campinas, centros de pesquisas de excelência, além de institutos da área médica de causar inveja a países mais avançados.

Na realidade, o destino dessa Campinas pujante – uma Suíça em forma de cidade -, parece ter se desenhado desde o momento em que se rasgou a trilha de Goiazes, o caminho desde São Paulo que conduziu bandeirantes e tropeiros ao coração do Brasil, em busca de ouro e de riquezas. Desde os primórdios da Freguesia, de 1774, passando pela Vila de São Carlos, de 1797, até a elevação à categoria de cidade, em 1842, surgiu um modelo de desenvolvimento e de sociedade autônomo, progressista e voltado ao labor intenso.

Rapidamente, a região dos três campinhos – os descampados límpidos e amenos, cortados por córregos e cursos d’água, entre a vasta floresta de Mato Grosso – foi se transformando de pouso de tropeiros em um local propício ao progresso. Suas terras passam a ser exploradas intensamente, primeiramente pela cana-de-açúcar e, já a partir de 1842, pela cafeicultura.

É esse panorama de expansão rural e urbana que vai assombrar uma das figuras mais importantes do Império. Em abril de 1865, na qualidade de tenente-engenheiro e aos 22 anos, Alfredo Maria d’Escragnolle-Taunay, o Visconde de Taunay, aporta em Campinas com as tropas da Guerra do Paraguai, destinadas a lutar na Laguna. Logo, encanta-se com os progressos e proclama, entusiasmado, ante os imponentes solares, os cafés, e as vitrines de lojas da Rua Direita, ostentando rica indumentária e objetos europeus: “Mas que coisa afrancesada!”.

Prof. Me. Luiz Roberto Saviani/ Crédito Álvaro Jr.
Prof. Me. Luiz Roberto Saviani/ Crédito Álvaro Jr.

Uma exclamação qualitativa que se amplifica quando Taunay ingressa, assombrado, na Catedral em construção. Ele escreve 22 cartas ao pai, amigo de Dom Pedro II, pedindo apoio do imperador para a conclusão das obras. Na sua antevisão, o templo erigido com a fé dos campineiros, seria o mais imponente de todo Império.

Da passagem de Taunay à construção da ferrovia, em 1972, para escoar a produção cafeeira, e ao expirar do século XIX, Campinas torna-se a capital econômica do Brasil. Sob a égide do café pode influir na política nacional. Sua pujança atrai fazendeiros. Seus filhos, advogados, carregam os ideais republicanos, tornando-se figuras de destaque, como Bernardino de Campos que aqui se estabelece, Francisco Glicério e Manuel Ferraz de Campos Sales, entre outros. Campos Sales torna-se o terceiro presidente do estado de São Paulo, de 1896 a 1897 e o quarto presidente da República, entre 1898 e 1902.

A transição do século XIX para o século XX marca a ruptura com as condições coloniais ainda predominantes e estabelece novos contornos e modelos, trazendo configuração de uma cidade moderna, com novos estabelecimentos de ensino e com princípios de industrialização e de oferta de serviços do comércio. Com Orosimbo Maia na Prefeitura, de 1908 a 1910 e entre 1926 e 1932, Campinas terá o impulso que trará novas indústrias de base, cervejarias, empresas do setor imobiliário e a abertura de bairros como Botafogo, Guanabara e Castelo.

A Revolução de 1930, a tomada do Poder por Getúlio Vargas, desafia os barões do café. Em 1932, com bombardeios pelos aviões Vermelhinhos, a cidade é colocada no centro da Revolução Constitucionalista. Mais de dois mil voluntários lutam e são derrotados na Batalha de Eleutério, nas proximidades de Itapira, na divisa entre São Paulo e Minas.

Superados os traumas dos bombardeios, a cidade, retoma seu caminho de pujança e floresce, como nunca, como um importante entroncamento rodoferroviário a integrar a capital paulista ao interior do País. Nesse cenário, é fundada, em 1941, a Sociedade Campineira de Educação e Instrução, a nossa PUC-Campinas da atualidade, que tem, em 1942, a abertura solene de seus cursos, no Teatro Municipal Carlos Gomes. A implantação da PUC-Campinas é marco exponencial em um período auspicioso, em que dois novos prédios do Instituto Agronômico são inaugurados, bem como o edifício do jornal Correio Popular, além do Hospital Vera Cruz e do Cine Voga.

É uma década de acontecimentos marcantes. Em 1944, um incêndio destrói o Cine República, e, em 1946, a Biblioteca Municipal inicia suas atividades, ano em que é publicado o jornal A Defesa. Em 1948 é fundado o Coral Pio XI e a Orquestra Filarmônica de Campinas realiza seu primeiro concerto. É inaugurado o Estádio Moisés Lucarelli, o Edifício dos Correios e Telégrafos e a Via Anhanguera. Em 1949, institui-se a Semana Carlos Gomes e o Agronômico sedia a primeira reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). São efemérides que coroam a história e ajudam a solidificar uma Campinas rica e progressista.

Luiz Roberto Saviani Rey é Professor do curso de Jornalismo da PUC-Campinas e autor dos livros: A maldição dos eternos domingos sem derby (romance de costumes); O retiro antes da Laguna – Taunay em Campinas (romance histórico); O menino herói da Guerra Paulista – O bombardeio de Campinas (romance histórico) e A crônica é jornalística e brasileira (didático).

Casa comum: “Precisamos nos dar as mãos e trabalharmos juntos”

O Arcebispo Metropolitano de Campinas e Grão-Chanceler da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Dom Airton José dos Santos, participou da cerimônia que oficializou a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016, na Câmara Municipal de Valinhos, em fevereiro. Neste ano, a Campanha traz uma reflexão sobre o Meio Ambiente.

O evento contou com autoridades políticas e religiosas e com a palestra de Dom Airton José, que discursou sobre o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano: “Casa Comum, Nossa Responsabilidade”.

“Esse tema é bastante pertinente para esta época e, de modo especial, neste momento em que vivemos, pois quase somos agredidos por essas doenças novas que estão surgindo e que vão se transformando em epidemia. Cuidar do Meio Ambiente, cuidar da Casa Comum, é pensar também que nós podemos vencer as epidemias e as doenças. Mas, para isso, precisamos dar as mãos e trabalharmos juntos”, disse Dom Airton José à TV Câmara de Valinhos.

Para conferir o discurso na íntegra do Grão-Chanceler da PUC-Campinas sobre a Campanha da Fraternidade 2016, ouça abaixo:

 

Coluna Pensando o Mundo: Campanha da Fraternidade 2016

Por Pe. João Batista Cesário

“Casa Comum, Nossa Responsabilidade” é o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano, animada pelo lema retirado de um versículo da profecia de Amós: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça como riacho que não seca” (Am 5,24). Ecumênica, esta Campanha é organizada pela quarta vez pelas Igrejas que integram o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC -, precedida pelas Campanhas de 2000, 2005 e 2010.

O objetivo geral desta Campanha é garantir o direito ao saneamento básico para todas as pessoas e comprometer os cristãos, à luz da fé, no empenho por “políticas públicas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum” (Texto Base CF-2016, n. 26). Dentre os objetivos específicos destacam-se os propósitos de “unir Igrejas, expressões religiosas e pessoas de boa vontade na promoção da justiça e do direito ao saneamento básico; estimular o conhecimento da realidade local em relação aos serviços de saneamento básico; incentivar o consumo responsável dos dons da natureza, principalmente da água; […] acompanhar a elaboração e a execução dos Planos Municipais de Saneamento Básico; […] [e] desenvolver a compreensão da relação entre ecumenismo, fidelidade à proposta cristã e envolvimento com as necessidades humanas básicas” (Id.).

O debate acerca do saneamento básico, proposto para a sociedade pelas Igrejas cristãs envolvidas nesta Campanha, se justifica porquanto, atualmente, “as preocupações no âmbito do saneamento passam a incorporar não só questões de ordem sanitária, mas também de justiça social e ambiental” (Ibid., n.33). E tudo que interessa à vida humana, de igual forma deve interessar à comunidade cristã. Afinal, como ensina o Concílio Vaticano II, as alegrias, esperanças, tristezas e angústias da humanidade, sobretudo dos pobres e daqueles que sofrem, são também as alegrias, esperanças, tristezas e angústias dos cristãos, de forma que não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no coração da Igreja de Cristo (Cf. Gaudium et Spes, n. 1).

Com efeito, alguns dados acerca das condições de saneamento no Brasil são alarmantes. Senão vejamos: de acordo com levantamento do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento Básico (SNIS), de 2013, mais de 100 milhões de brasileiros ainda não têm coleta de esgotos nos locais em que moram; somente 39% dos esgotos coletados são tratados; e diariamente são despejados na natureza o equivalente a 5 mil piscinas olímpicas sem tratamento – a depender da profundidade, uma piscina olímpica comporta aproximadamente 2.500m3 de água! (Cf. Texto Base CF-2016, n. 40)

Além disso, de acordo com o sistema de informações do Ministério da Saúde, DATASUS, em 2013 foram registradas mais de 340 mil internações no país causadas por infecções gastrointestinais, decorrentes das precárias condições de saneamento a que boa parte da população brasileira está submetida.  Em 2014, de acordo com estudo do Instituto Trata Brasil e do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, cerca de 300 mil pessoas se afastaram do trabalho por conta de diarreias resultantes da baixa qualidade do saneamento básico disponível à população, o que implicou a perda de 900 mil horas de trabalho (Ibid. n. 42.97). As crianças são as maiores vítimas da falta de saneamento, uma vez que “substâncias tóxicas e bactérias provocam alergias respiratórias, nasais, intestinais e de pele que vão permanecer com essa criança por muito tempo. As crianças mais afetadas são aquelas que têm entre 0  e 5  anos” (Ibid. 99).

A Palavra de Deus nos ensina que a natureza e todos os elementos criados são dons de Deus e a humanidade é responsável por sua preservação, de forma a garantir o bem comum, a vida abundante para todos. Os profetas bíblicos, como Amós e outros, denunciam a perda da harmonia e do equilíbrio nas relações dos homens com Deus, dos homens entre si e destes com a natureza. Na perspectiva profética, direito e justiça é recolocar as coisas no devido lugar, restaurar a integridade da criação segundo o projeto original de Deus.

Por isso, nesta Campanha, as Igrejas cristãs nela comprometidas, desejam reacender no coração da sociedade o empenho pelo cuidado da criação, como responsabilidade decorrente da fé. Atitudes bem concretas são propostas, como conhecer bem a realidade do saneamento nas cidades em que habitamos; promover educação para a sustentabilidade; conhecer as estruturas legais existentes para poder participar efetivamente do encaminhamento das questões do saneamento; adotar o reuso da água e a utilização da água da chuva; cuidar do manejo dos resíduos sólidos, entre outras.

Enfim, como se canta no Hino da CFE deste ano, “justiça e paz, saúde e amor têm pressa / mas, não te esqueças, há uma condição: / o saneamento de um lugar começa / por sanear o próprio coração”. Trata-se, então, de promover grande mudança de perspectiva na sociedade, de romper com o egoísmo  individualista, para retomar o caminho da solidariedade e do compromisso com o bem comum, do interesse coletivo, da solidariedade comunitária, para garantir direito, justiça e vida para todos!

Pe. João Batista Cesário- Pastoral Universitária

Aedes Aegypti, Dengue e Zika Vírus

Por Luciane Kern Junqueira e Maria Magali Stelato

O mosquito Aedes aegypti é um inseto doméstico, pois ocorre em domicílios, estabelecimentos comerciais e escolas, associado a presença humana. Esse mosquito é originário do Egito (aegypti significa egípcio) e a dispersão pelo mundo ocorreu a partir da África (da costa leste do continente para as Américas e da costa oeste para a Ásia). Os hábitos das fêmeas (somente a fêmea pica o homem) são  preferencialmente diurnos, alimentando–se de sangue humano ao amanhecer e ao entardecer, no entanto, essa espécie apresenta hábito oportunista, podendo também picar à noite.

O acasalamento dos indivíduos ocorre no início da vida adulta, logo após que o adulto emerge da água do criadouro. Após o acasalamento, a fêmea deposita os ovos em novos criadouros com água limpa e parada. Os ovos ficam grudados às paredes do recipiente, próximo à superfície da água, não diretamente sobre o líquido. Uma fêmea pode colocar aproximadamente 1500 ovos durante a vida e um ovo pode resistir mais de um ano no ambiente sem a presença de água, até que chuvas ou o próximo verão propiciem as condições favoráveis à eclosão. O tempo do ciclo de vida do mosquito (de ovo, larva, pupa até a fase de adulto) está relacionado com as condições climáticas e alimento disponível, sendo, geralmente de 8 a 12 dias. Se a fêmea estiver infectada pelo vírus da dengue quando realizar a postura de ovos, há a possibilidade de as larvas já se formarem com o vírus, denominada transmissão vertical

Esse mosquito transmite muitos arbovírus, entre eles os gêneros Flavivirus e Alphavirus. O gênero Flavivirus é o causador da Dengue, da Zika e da Febre Amarela. Já o gênero Alphavirus é causador da Chikungunya.

Em 1981, ocorreu a primeira epidemia de Dengue (DENV 1 e 4) em Boa Vista (Roraima) e, em 1986, o DENV 1 se disseminou pelo Brasil. Segundo boletim nº8 – 2016 do Ministério da Saúde, em 2016, foram registrados 170.103 casos prováveis de Dengue no país (3/1/2015 a 6/2/2016). A região Sudeste registrou o maior número de casos prováveis (56,8%), seguida das regiões Nordeste (15,1%), Centro-Oeste (14,8%), Sul (7,9%) e Norte (5,3%).

O período de incubação da Dengue é em média 5 a 6 dias. Os sintomas na forma clássica são frequentemente febre alta (39° a 40°C), que aparece de forma súbita ou após alguns sintomas como mal-estar, calafrios e dor de cabeça. A febre geralmente permanece por 2 a 7 dias, acompanhada de dor de cabeça, dores no corpo e articulações, prostração, fraqueza, dor no fundo dos olhos, erupção e coceira na pele que pode aparecer no terceiro ou quarto dia da doença, durando de 1 a 3 dias. Os linfonodos apresentam-se frequentemente aumentados e também podem ser observados outros sintomas como perda de peso, náuseas, vômitos e diarreia.

Luciane Kern Junqueira e Magali Stelato / Crédito: Álvaro Jr.
Luciane Kern Junqueira e Maria Magali Stelato / Crédito: Álvaro Jr.

A forma grave da doença (febre hemorrágica) pode ocorrer, com mais frequência, na segunda infecção com outro sorotipo do vírus. Os sintomas iniciais são semelhantes aos da forma clássica e, o período crítico é na transição da fase febril para a sem febre (3º dia da doença), em que ocorrem hemorragias e diminuição do número de plaquetas, podendo causar hipotensão e choque.

A Organização Mundial da Saúde (2009) classificou a Dengue em: a) Dengue sem sinais; b) Dengue com sinais de alerta (dor abdominal, vômito persistente, acúmulo de líquidos, sangramento das mucosas, letargia, hepatomegalias, e aumento de hematócrito com diminuição de plaquetas) e c) Dengue grave (com extravasamento de plasma, sangramento ou falência dos órgãos).

A ANVISA aprovou a primeira vacina contra a Dengue (publicação no Diário Oficial da União no dia 28/12/2015) e deve ser comercializada no primeiro semestre de 2016, que será aplicada em 3 doses, uma a cada 6 meses.  Essa vacina foi desenvolvida no laboratório francês Sanofi Pasteur e contém o “esqueleto” do vírus da febre amarela com fragmentos do Denguevirus. A proteção geral contra a doença é de 66%, no entanto, tem eficácia de 93% em casos graves e diminui em 80% os casos de internação.

O Instituto Butantan em parceria com o National Institute of Health (USA) também estão trabalhando com uma vacina tetravalente, em que os vírus foram atenuados (geneticamente modificados), que imunizará contra os quatro vírus ao mesmo tempo. A previsão é que essa vacina esteja disponível no segundo semestre deste ano.

Em 2016, foi confirmada autoctonia do vírus CHIKV em três municípios do Ceará, totalizando 14 Unidades da Federação com transmissão autóctone desde a introdução do vírus no país. De 2014 a 10/02/2016 foram registrados 26.952 casos. O Nordeste é a região com maior número de casos (24.599).

A Febre Chikungunya é uma doença transmitida pelos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus. Chikungunya significa “aqueles que se dobram” e, refere-se à aparência curvada dos pacientes que foram atendidos na primeira epidemia documentada na Tanzânia, localizada no leste da África, entre 1952 e 1953. Esse vírus foi identificado no Brasil em 2014.

O período de incubação é de 2 a 12 dias e a infecção pode ser assintomática (cerca de 30%) e raramente fatal. Os principais sintomas são febre alta (acima de 38,5ºC), que permanece por até duas semanas, de início repentino, dores intensas nas articulações dos pés e mãos, além de dedos, tornozelos e pulsos (2 a 5 dias após o início da febre). Pode ocorrer, ainda, dor de cabeça, dores nos músculos, manchas vermelhas na pele, náuseas e vômito. A doença pode ficar crônica com duração de semanas a meses. Depois de infectada, a pessoa fica imune pelo resto da vida.

Foi confirmada transmissão autóctone Zikavirus no Brasil a partir de abril de 2015. Até 10/02/2016, 22 Unidades da Federação confirmaram laboratorialmente autoctonia da doença. Também foram confirmados laboratorialmente dois óbitos pelo vírus no país: em São Luís/MA e em Benevides/PA. O chefe de doenças transmissíveis da Organização Pan-Americana de Saúde, Marcos Espinal, calcula que o Zikavirus pode infectar de 3 a 4 milhões de pessoas nas Américas, dos quais  1,5 milhão no Brasil.

O Zikavirus recebeu a denominação do local de origem de sua identificação em 1947, após detecção em macacos utilizados no monitoramento da febre amarela, na floresta Zika, em Uganda. O período de incubação é de quatro dias e, em cerca de 80% das pessoas infectadas a doença é assintomática. Os principais sintomas são dor de cabeça, febre baixa, dores leves nas articulações, manchas vermelhas na pele, coceira e vermelhidão nos olhos (conjuntivite). Outros sintomas menos frequentes são inchaço no corpo, dor de garganta, tosse e vômitos. No geral, a evolução da doença é benigna e os sintomas desaparecem espontaneamente após 3 a 7 dias. No entanto, a dor nas articulações pode persistir por aproximadamente um mês. Formas graves e atípicas são raras, mas quando ocorrem podem, excepcionalmente, evoluir para óbito, como identificado no mês de novembro de 2015.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) constatou a presença do Zikavirus ativo em amostras de saliva e de urina de pacientes, mas isso não é suficiente para afirmar que é possível transmitir o vírus pela saliva; serão necessários outros estudos para comprovar se tem capacidade de infectar as pessoas. A recomendação é de evitar compartilhar objetos de uso pessoal (escovas de dente e copos) e lavar as mãos.

A Síndrome de Guillain-Barré é uma doença rara, que pode ser provocada por vírus e bactérias, e, o Zikavirus também pode estar relacionado a essa síndrome. É uma doença do sistema nervoso, provavelmente de caráter autoimune, em que a resposta imunológica é mais intensa contra o agente infeccioso e ataca também a bainha de mielina que reveste os nervos periféricos da pessoa, causando inflamação dos nervos e fraqueza muscular. Os sintomas começam pelas pernas, podendo, em seguida, irradiar para o tronco, braços e face. A síndrome pode ser leve, com fraqueza muscular em alguns pacientes, ou grave, com paralisia total dos quatro membros. O principal risco provocado por essa síndrome é quando ocorre o acometimento dos músculos respiratórios, devido a dificuldade para respirar e, pode levar à morte, caso não sejam adotadas as medidas de suporte respiratório.

A microcefalia é uma malformação congênita, em que o cérebro não se desenvolve de maneira adequada, o perímetro cefálico do cérebro dos bebês é menor que 33 cm, pode ser causada por agentes químicos, infecciosos (bactérias, vírus) e também radiação). O Ministério da Saúde confirmou a relação entre o Zikavirus e a microcefalia. O Instituto Evandro Chagas, órgão do ministério em Belém (PA), encaminhou o resultado de exames realizados em um bebê, nascida no Ceará, com microcefalia e outras malformações congênitas. Foi identificada a presença desse vírus em amostras de sangue e tecidos.

Não existe tratamento específico para Dengue, Chikungunya e Zika. O tratamento é feito para aliviar os sintomas. Quando aparecerem os sintomas é importante procurar o serviço de saúde mais próximo, fazer repouso e ingerir bastante líquido.

 

Plano Nacional de Saneamento Básico é um dos maiores avanços do Brasil

Para o docente da PUC-Campinas na área de Saneamento Ambiental, apesar da conquista da lei de diretrizes de saneamento básico nacional, em 2007, e a política nacional de resíduos sólidos, de 2010, os maiores déficits do País ainda são os de coleta e tratamento de esgoto e a disposição adequada dos resíduos sólidos

Por Amanda Cotrim

A questão do Saneamento Básico é uma das preocupações da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016. O objetivo é que os municípios possam elaborar e executar o seu Plano de Saneamento Básico, acompanhar a elaboração e a execução dos Planos Municipais e desenvolver a consciência sobre as políticas públicas. Convidamos o docente da Faculdade de Engenharia Ambiental da PUC-Campinas, Professor João Paulo Coelho, para conversar sobre as conquistas e os desafios do Brasil e do Estado de São Paulo sobre o saneamento básico.

  • Explique, conceitualmente, qual é a diferença entre Saneamento Básico (SB) e Saneamento Ambiental (SA).

 Existe diferença. O Saneamento Básico está voltado mais às questões sanitária e de prevenção de doenças ao que tange o abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto, coleta de resíduos sólidos e a drenagem urbana (prevenção de enchentes). Já o Saneamento Ambiental, de terminologia recente, está preocupado com a salubridade do ambiente, questão de ruído, qualidade do ar e ocupação do solo. Em suma, o SA está mais voltado aos aspectos socioeconômicos.

  • Quais são os aspectos mais urgentes de serem abordados quando se discute Saneamento Básico no Brasil? 

Podemos dizer que o abastecimento de água sempre foi a maior preocupação do Saneamento Básico. Mas quando falamos sobre coleta e tratamento de esgoto como também da disposição de resíduos sólidos, esses são, com certeza, os grandes déficits que o Brasil enfrenta.

Estação de Tratamento de Esgoto Anhumas/ Crédito: Álvaro Jr.
Estação de Tratamento de Esgoto Anhumas/ Crédito: Álvaro Jr.
  • E a questão das enchentes?

Todos são de suma importância, mas quando falamos de enchentes, essas são em períodos determinados no ano e em locais pontuais. Os aspectos pontuados acima são mais urgentes, pois acabam afetando cotidianamente a população urbana.

  • Como você avalia as políticas públicas de Saneamento Básico?

Temos a Política Nacional de Resíduos Sólidos, de 2010, e a Política Nacional de Saneamento Básico, caracterizando um marco regulatório importantíssimo para a sociedade. Com ela, todos os municípios brasileiros necessitam apresentar suas metas ao que tange as diretrizes do Saneamento Básico, a saber: universalizar o abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto, diminuição das enchentes e disposição correta dos resíduos sólidos.

Professor no curso de Engenharia Ambiental da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.
Professor no curso de Engenharia Ambiental da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.

  • Quais são as diferenças entre o Saneamento Básico em áreas urbanas e rurais?

Nas áreas urbanas temos uma densidade maior de habitantes se comparada à área rural. Por ser uma área espaçada e com uma densidade populacional bem menor, fica mais complexo para disponibilizar redes de água para abastecimento, ficando quase inviável fazer também a coleta de esgoto. Por isso as áreas rurais tomam soluções alternativas, como o abastecimento de água por poços e as fossas sépticas. O abastecimento sanitário atende áreas rurais, mas ainda não em sua maioria.

  • Os lixões são o grande desafio?

Temos um Sistema de Informação do Saneamento Básico no Brasil que nos apresenta alguns dados: até 2013, apenas 40% dos municípios brasileiros destinavam seu resíduos em aterros sanitários. A partir da Política Nacional de Resíduos Sólidos, esses dados mudaram, porque ou o município se adequava a essa nova realidade, ou ele não receberia mais recursos do governo. No estado de São Paulo, a última avaliação realizada em 2014, constatou que 4,2% dos municípios (27 cidades) não estavam adequados na disposição de aterros. Ou seja, 95% se adequaram.

Eu avalio que o Brasil teve uma evolução de 2011 para 2014. O que acontece é que temos um problema: não conseguimos fazer a reciclagem de resíduos. Aproximadamente 5% de todo o material produzido é reciclado. Precisamos avançar e muito na coleta seletiva, conscientizar a população, mas, também, dispor de mecanismos eficazes, dentre eles, com educação ambiental para as pessoas e para as empresas que realizam a coleta de resíduos. Muitos lugares não têm a coleta pública desse resíduo ou quando tem, demora uma semana. As centrais de triagem precisam ser reformuladas: é preciso um caminhão correto e exclusivo para a coleta seletiva.

“Se investíssemos R$ 1,00 em saneamento, deixaríamos de gastar R$ 4,00 com a saúde”/ Crédito: Álvaro Jr.
“Se investíssemos R$ 1,00 em saneamento, deixaríamos de gastar R$ 4,00 com a saúde”/ Crédito: Álvaro Jr.
  • Como você avalia a coleta seletiva em Campinas?

É um dos pontos que Campinas já percebeu que precisa melhorar. Na atualidade, a cidade recicla 2,4% do que ela coleta. Existe um indicador de Cidades Sustentáveis e lá temos todos esses dados.

  • Por que a coleta e o tratamento do esgoto são sempre os pontos mais críticos? Quais são as dificuldades de avançar nesses aspectos?

É um grande desafio melhorar a rede coletora de esgoto. As áreas que foram ocupadas sem planejamento e infraestrutura precisam de um sistema de coleta novo e em alguns casos o esgoto a ser coletado não foi previsto para quantidade de vazão para a estação de tratamento que existe na região, necessitando de novas interferências. É preciso construir mais redes coletoras e estações de tratamento de esgoto para poder suprir a demanda. Nesse aspecto, Campinas é uma exceção no Brasil. A cidade possui altos índices de abastecimento e coleta de esgoto.

  • É possível estimar a quantidade de esgoto que é despejada em rios brasileiros e não é tratada? Quais são os rios mais afetados?

Sim. O Brasil consome 10 bilhões e 150 milhões de litros de água potável. Desse número, coletamos a metade e tratamos menos da metade. 60% de todo esgoto gerado no Brasil não é tratado. Os rios mais afetados no estado de São Paulo são os rios dos grandes centros urbanos, como o rio Tietê e o rio Pinheiros. Há municípios que não tratam 70% do seu esgoto, no entanto, o volume de esgoto é pequeno e quando este cai em um rio, ocorre o processo de natural de autodepuração a partir de certa distância do ponto de descarga, se restabelecendo futuramente em algumas dezenas de quilômetros.

No entanto, quando falamos da cidade de São Paulo, estamos dizendo que o rio Tietê e o rio Pinheiros são esgotos a céu aberto. O município trata em média 50%, mas ele só vai se recuperar em Barra Bonita, distante 230 km da capital.

A região Norte trata 15% de todo esgoto gerado, porém, a população é bem menor em relação ao Sudeste e em relação à região metropolitana de São Paulo. Os rios na região Norte são largos e a quantidade de água é maior do que a quantidade de esgoto, enquanto em São Paulo isso não acontece, pois a cidade joga mais esgoto e o rio não tem “tempo” de fazer sua autodepuração, porque na cidade seguinte ele recebe mais esgoto. Ainda que o estado de São Paulo seja o que mais trata esgoto, ele também é o que mais gera. Se pensarmos em volume de esgoto jogado nos rios e em volume tratado, podermos afirmar que a região Sudeste (e mais ainda o estado de São Paulo) é a que mais impacta os rios.

  • Quais são as regiões do estado de São Paulo em que as condições de Saneamento Básico são mais precárias?

Certamente são as regiões metropolitanas: mais populosas, com mais geração de resíduos e de esgoto.

  • Por que o Saneamento Básico é um desafio?

Porque recuperar anos sem infraestrutura de uma área urbanizada é imensamente complexo e trabalhoso. Somente agora, com a política nacional de Saneamento Básico, começamos a perceber a real importância do Saneamento Básico.

  • Quais são as implicações ambientais da falta de saneamento?

A qualidade de vida das pessoas é prejudicada. O Saneamento Básico é forma de intervenção destinada à preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental, a fim de assegurar a saúde e a dignidade da vida humana. É de conhecimento que a falta de saneamento reflete diretamente na saúde da população, aumentando os casos de doenças de veiculação hídrica, como diarreia, leptospirose, entre outras. Se investíssemos R$ 1,00 em saneamento, deixaríamos de gastar R$ 4,00 com a saúde

  • Por que as pessoas mais pobres são sempre as mais prejudicadas com a falta de saneamento?

Devido ao crescimento populacional e a demanda de moradias próximas aos centros urbanos, aumentaram os valores dos imóveis, pressionando, assim, a população de baixa renda a residir em assentamentos habitacionais desordenados, em que o processo de construção das moradias gerou espaços precários à vida urbana em geral. Nesses locais não existe um planejamento para execução de infraestrutura básica e, assim, o esgoto não é coletado e nem há distribuição de água potável. Com isso, a população acaba vivendo diariamente em contato com vetores de doenças, além de lidarem com a degradação do meio ambiente em que vivem.

  • Qual é a importância do Saneamento estar sob a responsabilidade do Estado e não de uma empresa privada?

Estamos falando de privatizar serviços primordiais para a sobrevivência humana. Se a sociedade permite que uma empresa privada diga qual região será abastecida por água, é essa empresa que delegará quem vai receber o mínimo necessário para a sobrevivência. É a empresa que vai escolher quem “merece” receber água, detendo o maior bem comum do ser humano. O Estado tem que gerir o Saneamento Básico. A empresa privada está preocupada com o lucro e não, necessariamente, com a qualidade do serviço. Já o Estado tem de distribuir água com qualidade para todos.

  • Como a população pode se apropriar dessa pauta?  Como pode haver controle social sobre as políticas de saneamento?

Na realidade, o Saneamento Básico é visto como vilão. As pessoas não gostam muito de falar sobre esgoto, mas precisamos aprofundar o conhecimento. As pessoas precisam saber se no município em que elas vivem possuem metas e quais são elas.  São Paulo, por exemplo, apresentou um projeto de revitalização do rio Tiete e abriu participação para a população. O cidadão tem de verificar o que está sendo feito, cobrar, participar. Não podemos esperar que o Estado faça algo para nós sem que peçamos. Temos de ser mais ativos em algo tão importante quanto o Saneamento Básico. E a mídia precisa mostrar mais quais são as metas, as conquistas e as dificuldades.

Consumo, logo existo

Por Arnaldo Lemos

Um dos objetivos específicos da Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE), neste ano, que tem como lema “Nossa Casa, Nossa Responsabilidade”, é “incentivar o consumo responsável dos dons da natureza, principalmente da água”.

Segundo o documento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a combinação do acesso à água potável e ao esgoto sanitário é condição para se obter resultados satisfatórios também na luta para a erradicação da pobreza e da fome, para a redução da mortalidade infantil e para a sustentabilidade ambiental. Há de se ter em mente que “justiça ambiental” é parte integrante da “justiça social”.

O objetivo da CFE nos leva a refletir sobre a sociedade de consumo e sua aparência. A sociedade de consumo surge mais forte com a Revolução Industrial e se caracteriza, antes de tudo, pela aquisição “do supérfluo”, do excedente, do luxo.

Isso traz, como consequência, a constante insatisfação, a insaciabilidade em que o final do ato consumista é o próprio desejo de consumo. Dalai Lama afirma que, quanto mais você ganha, mais você cria necessidade que antes não existia.

A afirmação de Descartes, “penso, logo existo”, marcou a razão humana como única forma de existência. Por meio da dúvida, segundo o filósofo, você chegaria à conclusão de que você pensa (cogito) e, se você pensa, você existe.

O capitalismo alterou o cogito cartesiano “penso, logo existo” para “consumo, logo existo”. Para existir, precisamos consumir o tempo todo. Telefones celulares, computadores, aparelhos de televisão, câmeras fotográficas caem em desuso e são descartados com uma velocidade assustadora. Mészáros diz que vivemos na sociedade descartável que se baseia na “taxa de uso decrescente dos bens e serviços produzidos”, ou seja, o capitalismo não quer a produção de bens duráveis e reutilizáveis. Bauman conclui que vivemos numa “economia de engano”, pois o capitalismo, ao não querer a produção de bens duráveis e reutilizáveis, utiliza-se da publicidade para convencer o consumidor da necessidade de produtos supérfluos.

Já no século XIX, Karl Marx dizia que o capitalismo nada mais é do que um grande depósito de mercadorias. E o trabalho humano se torna também uma mercadoria, pois se toda mercadoria é produto do trabalho, ao trocar mercadorias, o homem compara trabalho humano. A mercadoria expressa, pois, relações sociais e aparece como uma coisa dotada de valor de uso e de valor de troca. A mercadoria 500,00 se relaciona com a mercadoria menino-que-faz-pacotes. A mercadoria 50,00 se relaciona com uma aula de um professor. A mercadoria 150,00 se relaciona com um dia de trabalho de uma faxineira. Um apartamento estilo “mediterrâneo” é um modo de viver. Uma calça jeans griffe X é uma vida jovem. Tudo vira mercadoria.

E a mercadoria, conclui Marx, torna-se um fetiche assim como o dinheiro também é um fetiche. A mercadoria é um fetiche no sentido religioso da palavra: uma coisa que existe por si e em si. Ela é produzida pelo trabalho humano, mas tal como o fetiche, se desgarra dele e tem poder sobre eles e os domina. E os homens constroem templos de adoração, os shopping-centers, em que vão adorar as mercadorias nas vitrines, como objetos de desejo.

‘O consumo de bens e serviços, muitas vezes supérfluos, tem um significado simbólico. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Não se compra uma calça, compra-se uma ‘Calvin Klein’; não se adquire um carro, e sim uma ‘Ferrari’; não se adquire uma bolsa, mas uma ‘Louis Vitton’. Somos dominados pelo fetiche, subordinados e cada vez mais dependentes dele, tal como os crentes diante do sagrado.

Vale a pena lembrar o famoso “passeio socrático”. Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como nós, respondia: ‘Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz’.

Professor Arnaldo Lemos é licenciado em Filosofia, Mestre em Ciências Sociais e docente nos cursos do Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (CCHSA) da PUC-Campinas