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Crítica de Cinema: O Homem Elefante

Por Wagner Geribello

Tinha um nome, Joseph Merrick, mas era (e ficou, historicamente falando) mais conhecido como Homem Elefante. A história é real, aconteceu na Inglaterra vitoriana e, em 1980, foi transformada em filme por David Lynch, com John Hurt, Anthony Hopkins, John Gielgud e Anne Babcroft no elenco.

Portador de uma doença degenerativa que deforma 90% do seu corpo, Merrick mastiga o pão que o diabo amassou, exibido em um circo como “a mais degradante forma a que um ser humano poderia chegar”, despertando a curiosidade da massa ignara e rendendo alguns xelins de lucro para o dono do circo.

A vida de Merrick começa a mudar ao atrair a atenção do médico Frederick Treves, interessado em estudar e, na medida do possível, tratar do infortunado senhor.

Na trilha e nos trilhos desse enredo, Lynch compõe uma das melhores peças que o cinema já produziu sobre o preconceito e a maldade social em relação ao diferente, mostrando a facilidade com que as pessoas desprezam e fazem sofrer aqueles que, por uma razão qualquer, no caso a deformidade física extremada, fogem aos padrões sociais vigentes, seja de estética, seja de comportamento.

Muito tempo já passou desde que Treves retirou Merrick do circo e, repito a ressalva, na medida do possível, deu-lhe alguma dignidade, aliviando seu sofrimento, moral e físico (por conta da deformação, Merrick tinha problemas sérios de saúde, que iam da respiração à impossibilidade de deitar-se para dormir, passando por dores no corpo, dificuldade de locomoção e outros). Também já faz algum tempo que o filme foi produzido e exibido no circuito comercial. Todavia, as questões todas existentes na história e levantas por Lynch no filme continuam atualíssimas em uma organização social na qual os indivíduos se estranham por conta das diferenças de cor, aparência, características mentais e/ou cognitivas e até da orientação política, que leva o médico a recusar paciente e entidades representativas da classe endossarem esse tipo de comportamento social de troglodita.

Descontados alguns discursos cá e lá, de modo geral e na sua maior parte, a sociedade qualifica como estorvo e aberração portadores de deficiência e pessoas que, por qualquer razão, desviam do padrão vigente (obesidade, por exemplo). Salvo uns poucos aliados e contra muitos indiferentes e outro tanto de adversários, a aceitação, incorporação e valorização desse pessoal tem acontecido por méritos próprios, quer dizer, pela ação deles mesmos, no sentido de se imporem socialmente, mandando o preconceito para o lugar de onde nunca deveria ter saído… o ostracismo.

Assim, nesses tempos em que a individualidade é exaltada e as pessoas são estimuladas a competir, vendo no outro um concorrente, para qualificar a solidariedade como defeito de fracos ou ingênuos, filmes como o Homem Elefante são recomendados como gatilhos da consciência, para que a gente entenda, de vez por todas, que a única função social da diferença é que ela nos torna todos iguais.

Pesquisa rapidíssima na Rede mostrou dois endereços em que o filme pode ser encontrado (e assistido): aqui e aqui.  Talvez existam outros. Vale a pena ver e divulgar.

Wagner Geribello é Doutor em Educação e Consultor do Jornal da PUC-Campinas.

Projeto aborda direitos e inclusão social no Parque Oziel e Monte Cristo

Por Amanda Cotrim

 Mais do que um discurso de inclusão, era necessário possibilitar sua compreensão e possibilidade de transformar o discurso em ação. O Projeto de Extensão ”Comunidades acessíveis: sensibilização para promover a inclusão”, desenvolvido na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Campinas, tinha um objetivo bem claro: mobilizar os alunos e funcionários da EMEF/EJA Oziel Alves Pereira, localizada na região do Parque Oziel e Jardim Monte Cristo, em Campinas, e de maneira indireta, seus familiares. “Queríamos que eles pudessem compreender a importância de conhecer os seus direitos sociais e o que é a inclusão”, conta a docente responsável pelo projeto, Profa. Me. Beatriz H Bueno Brandão.

Profa. Beatriz Brandão, responsável pelo projeto de extensão/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Beatriz Brandão, responsável pelo projeto de extensão/ Crédito: Álvaro Jr.

Alunos e professores da escola puderam conhecer e fazer uso de tecnologias assistivas, bem como participar de uma integração com os recursos humanos e materiais disponíveis na PUC-Campinas relacionados aos temas do Projeto de Extensão. Segundo Beatriz, os alunos bolsistas também se beneficiaram ao elaborar as oficinas, o que possibilitou o desenvolvimento da capacidade analítica e crítica desses estudantes de graduação, além de promover uma aproximação com cenários futuros de atuação profissional, fatores que são compartilhados por eles nos trabalhos coletivos realizados na faculdade.

O Projeto de Extensão se desenvolve em 2014/2015 e previu a realização de palestras e oficinas na escola da região do Parque Oziel e Jardim Monte Cristo. “Essa região tem como características a grande densidade demográfica e a insuficiência de infraestrutura básica. O Projeto de Extensão propôs a realização dessas atividades com a finalidade de informar, difundir e sensibilizar os participantes sobre os direitos básicos do homem e do cidadão, bem como sobre os conceitos da Mobilidade Urbana, da Acessibilidade e do Desenho Universal”, explica.

O Projeto de Extensão também foi importante, revela Beatriz, para desenvolver práticas inclusivas, regatar e consolidar o sentimento de pertencimento e cidadania dos envolvidos, introduzi-los em ações de percepção e transformação do ambiente em que vivem, privilegiando a inclusão e o acesso de todos, em acordo com a missão institucional da Universidade. E intenta ainda como contribuição acadêmica estar em consonância com os eixos temáticos propostos pelo MEC para a extensão universitária em relação aos “Desafios das Metrópoles”, tema onde se inserem as questões trabalhadas, além da divulgação em eventos nacionais e internacionais.

Participantes do projeto simulam as sensações de não poderem enxergar. Crédito: Álvaro Jr.
Participantes do projeto simulam as sensações de não poderem enxergar. Crédito: Álvaro Jr.

Beatriz explica que a EMEF Oziel Alves Pereira já era uma escola inclusiva, tida como modelo de atendimento na região. “Entre as atividades vivenciadas houve também a assistência de um vídeo, por audiodescrição, com os olhos vendados. Isso é transformador para que qualquer pessoa possa compreender a importância da inclusão”, avalia.

“Conscientizar quanto aos direitos legais referentes à acessibilidade e mobilidade urbana; sensibilizar e evidenciar para as potencialidades de espaços acessíveis, urbanos e nas edificações, bem como para a convivência e valorização das capacidades e habilidades das pessoas foi o nosso grande objetivo”, finaliza.

 

Esporte Unificado é mais inclusão

Modalidade foi inspirada no Special Olympics, cuja filosofia é promover oportunidades iguais para todos os esportistas

 

Por Amanda Cotrim

A inclusão da pessoa com deficiência no esporte é tema de diversos estudos na Academia. Há quem defenda que o esporte Paraolímpico é inclusivo uma vez que os atletas com deficiência se relacionam. Mas também há quem defenda que ele não é tão inclusivo assim, por se tratar de eventos específicos para pessoas com deficiências, o que acaba por promover a segregação, ainda que este não seja o seu objetivo. “O modo Paralímpico é muito importante no processo de evidenciar as possibilidades de pessoas com deficiência na prática esportiva. Contudo, o modelo trabalha com atletas de alto desempenho, uma vez que estabelece índices. Ao estabelecer índices, acaba excluindo grande parcela dos participantes, em todos os níveis e categorias de competições, inclusive escolar”, defende o docente do Curso de Educação Física da PUC-Campinas e ex-técnico da seleção brasileira de basquete feminino, Professor Vagner Bergamo.

Pensando sobre a importância da inclusão no esporte, o docente elaborou o Projeto de Extensão “Esporte Unificado: o valor social da inclusão”, realizado nos anos de 2014 e 2015, o qual envolveu funcionários com deficiência da PUC-Campinas e os estudantes da Universidade.

O Projeto teve como base a filosofia criada pelo Special Olympics, a qual defende o esporte como projeto educativo. Desse modo, o Esporte Unificado “é diferente de tudo o que as pessoas entendem por esporte”, adianta. Na prática, Bergamo explica que o atleta com deficiência tem um parceiro, sem deficiência, e eles jogam juntos. “Além da aproximação entre os esportistas, o Esporte Unificado promove a inclusão, de fato, porque independentemente do nível de habilidade da pessoa, todos podem ganhar”, pois são divididos em grupos equitativos, ressalta o docente.

Professor Vagner Bergamo/ Crédito: Álvaro Jr.
Professor Vagner Bergamo/ Crédito: Álvaro Jr.

No Projeto de Extensão, participaram os funcionários da Universidade que têm deficiência e os estudantes de Educação Física da PUC-Campinas. Essa interação trouxe resultados imediatos. Segundo o docente, os funcionários com deficiência deixaram de se relacionar apenas entre eles – uma característica muito comum como forma de se protegerem de preconceito – para serem incluídos em todas as atividades físicas e culturais que a PUC-Campinas proporciona. “Com o Projeto, esses funcionários entenderam que podem se relacionar com qualquer pessoa, independentemente da deficiência. O Esporte Unificado, nesse aspecto, foi fundamental”, considera Bergan. Ao todo, 12 pessoas participaram do Projeto.

Esporte Unificado: o valor social da inclusão/ Crédito: Álvaro Jr.
Esporte Unificado: o valor social da inclusão/ Crédito: Álvaro Jr.

No Projeto de Extensão, a participação dos alunos do curso de Educação Física, como agente mediador no processo de desenvolvimento dos funcionários com deficiências, trouxe resultados imediatos. Segundo o docente, os funcionários com deficiência deixaram de se relacionar apenas entre eles – uma característica muito comum como forma de se protegerem de preconceito – para serem incluídos em todas as atividades físicas e culturais que a PUC-Campinas proporciona. “Com o Projeto, esses funcionários entenderam que podem se relacionar com qualquer pessoa, independentemente da deficiência. O Esporte Unificado, nesse aspecto, foi fundamental”, considera Bergamo. Ao todo, 12 pessoas participaram do Projeto.

A prática do Esporte Unificado também contou com a participação das pessoas atendidas pelo Centro Interdisciplinar de Atendimento à Pessoa com Deficiência (CIAPD), da PUC-Campinas. Além dessa inclusão, houve outra: a de não haver distinção por gênero, isto é, homens e mulheres jogavam pela mesma equipe.

Projeto de Extensão teve como base a filosofia criada pelo Special Olympics/ Crédito: Álvaro Jr.
Projeto de Extensão teve como base a filosofia criada pelo Special Olympics/ Crédito: Álvaro Jr.

 

 

 

 

 

 O Esporte Unificado: entre o jogo e as regras

Special Olympics, que atualmente congrega 180 países, é considerado o segundo maior evento do mundo, perdendo apenas para as Olimpíadas. Bergamo garante que no Esporte Unificado o sistema de jogo não muda, mas as regras são flexibilizadas. “Em vez de o juiz punir quem comentou a infração, ele orienta o jogador e avisa que aquilo não pode acontecer, apresentando o motivo. Então, mais do que um juiz, ele é um educador. Outro ponto a ser considerado é a tolerância: na modalidade como o basquete tradicional, o jogador não pode ficar mais de três segundos dentro da área restritiva, no Esporte Unificado esse tempo aumenta para cinco, seis segundos. Se o árbitro perceber que o jogador está querendo humilhar seu adversário, ele interfere na jogada e avisa o técnico para tirar aquele jogador. A ideia é fazer com que todos possam entrar no jogo, mesmo que um jogador tenha menor rendimento do que outro. É uma filosofia de chance de igualdade”.

 

Inclusão escolar do aluno com deficiência

Por Claudia Gomes

Abordar o tema da inclusão escolar de alunos com deficiências é assumir que especificidades existem, e que devem ser consideradas, porém, é alertar também para a necessidade de elaboração de políticas públicas de acompanhamentos preventivos e interventivos nas diferentes esferas que compõem o desenvolvimento humano.

Segundo o Ministério da Saúde – Política Nacional de Saúde das Pessoas com Deficiência (BRASIL, 2009), não podemos desconsiderar que, dentre as possíveis causas das necessidades especiais, estão presentes as questões hereditárias, mas também as decorrentes da falta e da inadequação da assistência às mulheres durante a gestação e o parto, a desnutrição, as doenças transmissíveis e as crônicas, as perturbações psiquiátricas, os traumas e lesões, eventos esses que podem e devem ser evitados por meio de políticas públicas sociais de saúde.

Já no âmbito escolar, com a promulgação do Decreto n. 6.571 (09/2008), que regulamenta a Política Nacional de Educação Especial na perspectiva Inclusiva (BRASIL, 2008), não podemos desconsiderar que os amparos legais vêm possibilitando gradativamente a inclusão de alunos com deficiências no ensino regular. Entretanto, se por um lado as estatísticas parecem animadoras, por outro, não podemos deixar de considerar que o indicador de inclusão, quando delimitado pela realização da matrícula do aluno, não garante que a permanência e desenvolvimento do aluno, como proclamado pelos diferentes documentosr, de fato está sendo efetivado.

Neste sentido, um dos grandes desafios que cercam o debate da inclusão é a análise do processo na perspectiva do próprio aluno incluído. Ainda evidenciamos que seja pelo desconhecimento das necessidades e potencialidades destes alunos, ou pela supervalorização de suas características, a discussão das ações ainda estão embasadas em uma representação focada no “estereótipo do aluno perfeito”, no qual alunos com deficiência se distanciam por suas características físicas, cognitivas, sensoriais ou relacionais.

Abrir novos espaços de correspondência social para esses alunos, para que se identifiquem, é premissa para que venham a alcançar novas formas de representar seu desenvolvimento escolar, o que é ainda é desconsiderado pelas ações e práticas inclusivas nas escolas atualmente, ao focarem em suas ações metodologias conteúdistas e instrucionais, que por um lado privam e excluem a necessária relação humana que deveria caracterizar os processos educacionais e, por outro, ratificam a distinção da representação “de quem ensina e quem aprende”, “dos melhores e dos piores”; “dos eficientes e dos deficientes”.

Segundo Glatt (1991), os papéis atribuídos socialmente aos indivíduos com deficiências têm uma dupla função, servem tanto de ingresso e indicação ao local adequado onde eles devem se sentar, como também determina o script que o indivíduo terá que atuar em suas relações no “Teatro da Vida” (1991: 09).

Para tanto, de acordo com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Inclusão, o processo de inclusão deve propiciar o direito de cada aluno constituir sua própria identidade, ao mesmo tempo em que deve saber reconhecer essa identidade, os direitos de igualdade e respeito às diferenças dos outros (BRASIL, 2008). Efetivar a garantia de acesso, permanência e desenvolvimento de alunos com deficiências nas escolas regulares, possibilita a modernização das práticas pedagógicas, assim como um maior respeito à diferença e à diversidade dos alunos, para além da compreensão da escola como espaço de socialização, ou ainda, de práticas de compensação sociais.

Defender a análise do processo de inclusão na perspectiva do aluno deficiente é alertar para a necessidade de criação de interações pedagógicas, como condição central para repensarmos o processo de desenvolvimento humano, com a consideração dos sujeitos como ativos e construtores, com a devida exploração dos significados e da compreensão interpretativa acerca da alteridade.

Segundo Berger e Luckman (1976), a relação de socialização está intimamente ligada à produção emocional, no entanto, só se pode falar de interiozação, e portanto, socialização de fato, quando o indivíduo absorve os papéis e as atitudes dos outros como suas, quando há, primeiramente, um processo de identificação.

O processo de inclusão escolar deve propiciar um processo dialético entre a identificação do aluno deficiente com o outro e a auto-identificação de suas necessidades, ou seja, um processo tensional entre a identidade atribuída e a identidade apropriada. Neste caso, cabe ressaltar, que a identidade atribuída a alunos com deficiência só pode ser apropriada por este aluno atrelada ao mundo que a formaliza, ou melhor, esta identidade a ser apropriada só é possível em um meio que confirme esta auto-identificação, e a escola é o espaço pleno do desenvolvimento de tais relações humanas.

Claudia Gomes concluiu seu doutorado em Psicologia pela PUC-Campinas, onde pesquisou a posição do sujeito aluno na inclusão escolar. 

 

 

“Nos ligam a um estereótipo e não compreendem o significado da nossa deficiência”

“Quando vou comprar uma roupa, me reporto ao vendedor. Mas ele pergunta para o meu acompanhante se eu vou gostar, como se eu não estivesse ali”

Por Amanda Cotrim

Nessa entrevista, a ex-aluna do curso de Psicologia, da PUC-Campinas, Fabiana Bonilha, defende que a maior dificuldade para a pessoa com deficiência, e em especial a que tem deficiência visual, são as atitudes de uma sociedade que caminha a passos lentos quando o assunto é a superação do preconceito. “As barreiras atitudinais são o grande empecilho no dia-a-dia”.

Mas além dessas, Fabiana elenca ações objetivas que precisam mudar logo, para que haja a real inclusão, como a socialização da tecnologia assistiva. “Isso interessa porque é um fator de equiparação”. A ex-aluna da PUC-Campinas, que trabalha no Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, afirma que a tecnologia gera condições iguais entre as pessoas.

Para Fabiana, a inclusão da pessoa com deficiência na vida de pessoas que não tem deficiência e vice-versa é fundamental para que as crianças de hoje se tornem adultos sem essas “barreiras atitudinais” de amanhã. “A pessoa com deficiência precisa estar nos espaços como qualquer outra pessoa. Ela não pode ficar em escolas especiais e especificas. Elas precisam ocupar os espaços regulares e comuns a todos”.

Confira o bate papo que o Jornal da PUC-Campinas teve com a Fabiana:

Gostaria que você se apresentasse, contasse um pouco sobre você: onde nasceu, o que estudou e com o que você trabalha atualmente?

Meu nome é Fabiana Bonilha, eu nasci em Campinas e atualmente eu trabalho no CTI (Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer), onde sou servidora pública, como técnica em Tecnologia Assistiva.

A minha deficiência visual é desde o nascimento e ela ocorreu porque eu nasci prematura. Eu tive Retinopatia da prematuridade, que causa a deficiência visual. Tenho cegueira total e congênita. Desde os primeiros anos de vida eu fiz reabilitação tátil e a alfabetização em braille. Paralelamente, sempre estudei em escola regular.

Durante o meu período escolar, eu iniciei o estudo da música (piano) aos sete anos. Após concluir o Ensino Médio, ingressei na faculdade de Música e me formei pela UNICAMP e, concomitantemente, em Psicologia pela PUC-Campinas.  Por causa de a música ser muito importante para mim, eu sempre tive contato com a partitura em braille (musicografia braille). Mas não era muito comum na época, então minha primeira professora de piano teve que se esforçar muito para conseguir essas partituras. Essa foi a razão pela qual eu desenvolvi pesquisas no mestrado e doutorado com o tema do ensino da musicografia braille, cujo objetivo é que as pessoas cegas sejam plenamente incluídas. As pessoas com deficiência visual precisam ter acesso ao mesmo conhecimento que os outros estudantes têm, por isso é importante a alfabetização em braille, mas há poucos professores que têm essa dedicação e esforço de ir atrás desses materiais. O braille é um código pouco disseminado.

Nós nos comunicamos por e-mail para marcarmos essa entrevista. Eu gostaria de saber se você utiliza software de leitura de voz para acessar o computador e o celular?

Eu uso software de voz para o computador e para o celular. Ele lê as informações que estão na tela. Há opções para computador que são gratuitas, como o NVDA. Mas também existem outros, que são comerciais.  O NVDA é bem desenvolvido, com muitas funções. Ele é quase equivalente aos softwares comerciais. No celular também há opções de leitor de telas, que nos permite acesso a todos as funções: redes sociais, e-mail, WhatsApp e etc. Se você não soubesse que eu tenho deficiência visual, não teria diferença. E isso é interessante, porque é um fator de equiparação. É um grande ponto positivo da tecnologia; ela gera uma condição igual entre as pessoas. E isso impacta a minha vida profissional, porque eu faço praticamente o que todos fazem.

Você utiliza áudio descrição para ter assistir televisão e quando vai ao cinema?

Embora exista a áudio-descrição, pela qual as imagens são descritas, existe pouco material disponível. No cinema geralmente não há. Na televisão, apenas duas horas de programação por semana são dedicadas a áudio-descrição. Então o recurso existe, mas não existem tantos incentivos para que ele seja implantado de forma efetiva. Assistir a um filme sem áudio-descrição é perder todas as informações passadas pelas imagens. É como a pessoa que enxerga assistir a um filme de olhos fechados (risos). Com o teatro é a mesma coisa: há pouquíssimas peças com áudio-descrição.

Fabiana Bonilha- Crédito: Álvaro Jr.
Fabiana Bonilha no Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer – Crédito: Álvaro Jr.

 

Você se formou em Psicologia pela PUC-Campinas e em Música pela Unicamp. São combinações interessantes. O que te motivou a fazer esses dois cursos? 

Eu ingressei nos dois cursos em 1997. Formei-me em Psicologia em 2001 e em Musica em 2003. A Música era um caminho natural, porque desde os meus sete anos eu estudo música e me apaixonei por essa área. No caso da Psicologia, é uma área que eu sempre gostei. Fiz orientação profissional no ensino médio, e ele era ministrado por uma psicóloga, então eu comecei a me aprofundar sobre a carreira, o que acabou me motivando a fazer o curso.

Em que medida o curso de Psicologia te auxiliou a ser quem você é e a chegar aonde você chegou, profissionalmente?

O curso de Psicologia da PUC-Campinas é muito completo e aborda muitas frentes na área. Avalio que eu tive uma boa formação. Foi uma graduação que me deu muita base para depois eu fazer o Mestrado e Doutorado, além de ter contribuído muito para a minha visão de mundo e a minha atuação profissional aqui no CTI.

Quais foram as maiores dificuldades que você considera ter enfrentado para fazer as duas graduações?

Eu fiz as duas faculdades em um período no qual não se falava muito de inclusão da pessoa com deficiência na universidade e eram poucas as universidades que pensavam em acessibilidade. Então de certo modo, eu tive que “desbravar” esses caminhos. Hoje em dia, as universidades estão melhor equipadas, com uma infraestrutura e serviços de acessibilidade, como é o caso da PUC-Campinas com o PROACESS (Programa de Acessibilidade), e do Laboratório de Acessibilidade da UNICAMP.

Quando a gente tem que desbravar os caminhos, enfrenta algumas dificuldades. No caso da pessoa com deficiência visual a maior dificuldade é o acesso ao material; não existiam livros em formato braille e nem em formato digital. No início das duas graduações, eu tive que contar com a minha família para escanear todos os livros para que eu pudesse ler. Minha mãe precisou datilografar todo o material em braille.

Outra dificuldade é as barreiras atitudinais, as barreiras que existem nos pensamentos das pessoas em relação ao modo como elas imaginam a pessoa com deficiência. Nem sempre as pessoas percebem que nós podemos trabalhar, estudar e fazer qualquer coisa.

Conte um pouco como é a sua rotina hoje e como você avalia a sua autonomia em relação ao seu dia-a-dia e ao acesso à cidade?

Eu trabalho  no CTI e geralmente conto com alguém que me traz e me busca. Eu não tenho autonomia para vir trabalhar de ônibus porque eu acho que não é fácil o acesso ao transporte público por duas razões: ele não é seguro e ele não é acessível. Além de trabalhar, eu também me dedico ao estudo do piano, então eu procuro me desenvolver nessa área de performance e de formação de repertorio. Para isso, mantenho um estudo de, no mínimo, duas horas por dia durante a semana e de três a quatro horas no final de semana.

A minha pesquisa em relação à musicografia braille é outro aspecto que faz parte do meu projeto de vida. Porque eu ainda vejo que temos muito a avançar para deixar esse material acessível. A pesquisa é o meu instrumento para lutar por isso, principalmente nos dias de hoje em que o braille está passando por uma crise em razão das novas tecnologias. Tem muita gente dizendo que o software de voz, por exemplo, já é o suficiente para a pessoa que tem deficiência visual e que, portanto, o braille não é mais necessário. E eu digo não. O braile é o código de leitura escrita para uso de pessoas cegas por excelência. Não tem como ela não ser alfabetizada. A pessoa cega pode até utilizar outras tecnologias, mas ela não pode prescindir da alfabetização em braile. O toque das palavras é a nossa memória visual, então a gente precisa lutar para que o braile se mantenha vivo e para que se aumente a produção de materiais (livros) em braile.

Como você avalia as políticas públicas para as pessoas com deficiência visual, no Brasil?

Esse campo evoluiu muito. Em 2011, por exemplo, foi lançado o programa Viver Sem Limites. Então a questão da deficiência passou a ser colocada em foco, inclusive por meio de pesquisas científicas na área de tecnologia assistiva. No entanto, uma dificuldade que ainda existe é que nem sempre essa tecnologia chega para o usuário que precisa dela. Ainda temos uma realidade que os produtos são importados, tem um custo alto e, muito embora eles existam, não chegam para quem precisa. Esse déficit favorece que muitas barreiras continuem sem ser quebradas.

Você falou sobre as barreiras atitudinais. Você sofre preconceito? Como lida com o preconceito das pessoas no dia a dia?

Eu acho que o preconceito existe e ele se manifesta nessas barreiras atitudinais, ou seja, nas atitudes das pessoas, que nos ligam a um estereótipo e não compreendem o significado da nossa deficiência. Uma situação que sempre acontece comigo é quando eu vou a uma loja de roupas com uma amiga e o atendente se dirige a pessoa que está comigo e não a mim. Ainda que eu aborde o vendedor, dizendo o que eu procuro, ele se reporta à pessoa que está comigo: “Essa roupa aqui será que ela vai gostar?” (risos). Como seu eu não estivesse ali. Eu me pergunto: Por que ele fez isso, se eu mesma tinha me comunicado com ele? Essa situação mostra o que é uma barreira atitudinal.

Falta compreensão em relação aos próprios limites de uma pessoa com deficiência. Uma pessoa cega só não enxerga, não precisa falar alto com ela e explicar tudo nos mínimos detalhes (risos).

Há também o preconceito no sentido mais estrito. Muitas vezes as pessoas com deficiência são inseridas no mundo do trabalho via programas específicos de inclusão. Mas por que elas não podem ser inseridas como qualquer outra pessoa? A inserção das pessoas com deficiência no mundo do trabalho ou na escola precisa ser natural. No entanto, ainda não chegamos nesse momento, por isso é preciso ações afirmativas para reverter esse atraso.

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Você conseguiria descrever quando e como você se percebeu cega? Ou seja, quando você compreendeu isso?

Eu nasci com a deficiência visual, então essa condição sempre foi muito natural para mim. Eu soube que eu não enxergava pelas outras pessoas, porque para mim era tudo normal, natural. Como eu não vivi uma perda da visão, então para mim, o esperado era assim. Outras pessoas começaram a me contar que o que algumas pessoas tinham de diferente de mim era- que elas enxergavam e eu não. Então o meu referencial foi na relação com o outro. Na escola, como crianças são muito curiosas, eu fui percebendo que havia alguma coisa que acontecia comigo e não acontecia com outras pessoas.

É verdade que as pessoas cegas percebem as  cores pelas sensações e que os outros sentidos são mais aguçados?  Isso acontece com você?

A gente conhece as cores por analogia em relação à temperatura e à textura. Mas não há a ideia de uma ultra sensibilidade, quase sobrenatural que faz com que a gente “veja” sem enxergar. Claro que a ausência de algum sentido faz com que as pessoas cegas desenvolvam outros referenciais, como a audição. Mas isso é um trabalho subjetivo de cada um; não é natural. Cada pessoa encontra estratégias para utilizar outros sentidos na ausência da visão. Não podemos generalizar essa questão é achar que só porque a pessoa é cega ela tem a audição, o tato ou qualquer outro sentido super apurado.

Como você avalia a cobertura da Mídia sobre a questão da deficiência?

A Mídia precisa evoluir muito na abordagem que ela faz sobre a deficiência. Muitas vezes há sensacionalismo na abordagem, como se a deficiência por si fosse notícia. É preciso evoluir na forma como a Mídia aborda a questão e na forma como ela influencia a população a pensar sobre essa questão. Nesse aspecto, ela mantém as barreiras atitudinais. As reportagens, quase sempre, têm um viés assistencialista, uma coisa quase passional, carregado de drama. Sem falar as terminologias: “portador de deficiência”, “deficiente”, “portador de necessidades especiais”. Então, talvez seja importante pensar sobre essa questão durante a própria formação dos profissionais de comunicação. Existe uma lacuna nesse sentido.

O que você diria para um cego que está lendo a sua entrevista e ainda tem medo de enfrentar desde um vestibular até sair de casa?

As pessoas com deficiência visual, assim como qualquer pessoa, mas elas especialmente, precisam confiar muito em si mesmas e acreditar que a superação de todos os limites é possível, e que vai depender da nossa motivação e empenho. São as pessoas com deficiência visual as protagonistas da própria inclusão. Não é o outro que vai nos incluir; e a gente que se inclui. Se a gente ficar esperando as instituições e as pessoas fazerem alguma coisa, ninguém faz. É a gente que tem que fazer. Precisamos ter consciência que os limites existem, das mais diversas formas, para todas as pessoas. E que essas barreiras podem ser superadas ou minimizadas no próprio ambiente em que vivemos. Mas é preciso haver condições: se o livro não estiver em braile eu não consigo ler, mas se ele tiver, eu consigo.

Fabiana, você gostaria de falar sobre alguma coisa que eu não perguntei?

É importante que as pessoas tenham abertura para dialogar e desconstruir algumas fantasias que elas continuam tendo por que não perguntam. Às vezes elas querem saber coisas básicas, como se eu sonho. E por vezes não falar sobre essas dúvidas constrói ainda mais barreiras. Por outro lado, nós que temos alguma deficiência, temos que ter abertura para responder, mesmo as perguntas básicas, porque aquilo que a pessoa está perguntando é importante para ela, como a questão do sonho, uma vez que para as pessoas que enxergam só é possível sonhar com imagens.

Eu também tenho muita curiosidade de saber sobre a realidade de quem enxerga. Eu gosto de saber como são as estrelas, o céu, o horizonte, a lua. A gente sabe sobre isso de ouvir contar. É muito interessante essa relação na qual os lados têm curiosidades.

A inclusão propicia que as diferenças estejam em contato o tempo todo. Então é muito importante que os alunos desde pequenos convivam com as diferenças desde cedo, para que eles possam naturalizar isso e se tornarem adultos sem essas barreiras.

A pessoa com deficiência precisa estar nos espaços como qualquer outra pessoa. Ela não pode ficar em escolas especiais e especificas. Elas precisam ocupar os espaços regulares e comuns a todos.

 

A necessidade de garantia dos direitos das pessoas com deficiência no Brasil

Por Lucas De Laurentiis

Igualdade é um conceito relacional. Isso quer dizer que para que dois sujeitos sejam considerados iguais, a relação entre eles deve respeitar um padrão de comparação comum. Não é legitimo, portanto, sob o prisma da igualdade, diferenciar sujeitos que se encontrem em situação equivalente, sem que se aponte uma razão da desequiparação. Mas a igualdade é mais do que isso, pois, caso haja diferenças entre os sujeitos comparados, tais características devem ser espelhadas no tratamento que lhes é dispensado. Respeitar a igualdade entre desiguais quer dizer, nesse último sentido, respeitar e reconhecer suas diferenças, pois, do contrário, a própria equiparação de desiguais se torna um fator de discriminação. Tudo isso é sintetizado em uma fórmula clássica do direito: respeitar a igualdade é tratar iguais igualmente e desiguais desigualmente, sempre na medida de sua desigualdade.

Tais considerações têm efeitos diretos na questão do tratamento de pessoas com deficiências. Quem se encontra em tal situação deve ser tratada de forma preferencial em relação aos demais destinatários das regras jurídicas e, por isso, desigual, sob pena de se afrontar seu direito a igual tratamento. Esse é um caso claro em que o respeito ao direito fundamental à igualdade exige uma ação discriminatória do poder público, por meio da qual as diferenças e as necessidades especiais de tais sujeitos de direito sejam reconhecidas e tuteladas. Isso quer também dizer que a ausência de tal ação estatal é causa de uma inaceitável desequiparação entre as pessoas com deficiências e as pessoas sem deficiência. É um caso de inconstitucionalidade da inação estatal, que nessa hipótese assume a forma de uma ação discriminatória.

Em nível normativo, tal estado de inconstitucionalidade foi suprido pela incorporação, em agosto de 2009, ao direito brasileiro, da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e de seu Protocolo Facultativo. Incorporado ao direito brasileiro com força de norma constitucional, esse tratado internacional prevê e reconhece uma série de direitos fundamentais às pessoas com deficiência. O respeito à dignidade, igualdade, liberdade de locomoção e acessibilidade são alguns dos muitos direitos previstos nessa convenção, que não só por isso deve ser considerada como um documento revolucionário.

O próprio conceito de deficiência foi consideravelmente alterado por tal convenção, que adota uma noção relacional e socialmente determinada de deficiência física, mental ou sensorial. Segundo tal conceito, não basta a indicação do impedimento corporal ou comportamental para que se conclua que uma pessoa tem uma deficiência física ou mental. É preciso também verificar de que forma tais características físicas ou mentais podem impedir a plena e efetiva participação de sujeitos na sociedade. E, com isso, se afasta de uma tendência estigmatizante das pessoas com deficiências físicas, que não podem mais serem vistas como doentes ou pessoas com menor capacidade. Elas são sujeitos de direitos como todos os demais, cuja única diferença está na necessidade de ação estatal destinada a superar os fatores de impedimento do exercício de seus direitos fundamentais.

O problema surge quando se desce ao plano dos fatos e se verifica que, apesar do reconhecimento normativo dos direitos das pessoas com deficiência, a realidade por eles enfrentada ainda é dura e discriminatória. Segundo recente pesquisa produzida pelo Instituto brasileiro dos direitos de pessoas com deficiência, apesar da queda do preconceito em relação a essas pessoas, 73% dos entrevistados com deficiências físicas ou intelectuais consideram que seus direitos não são respeitados. É um número altíssimo para um país que há quase uma década incorporou o documento internacional mais avançado dessa matéria. É também um indicativo claro de que a igualdade na lei das pessoas com deficiência não passa, na realidade, de um agrave ato de desigualdade.

Prof. Dr. Lucas De Laurentiis é especialista em direito constitucional e docente na PUC-Campinas.

A pessoa com deficiência e o universo do trabalho

Profa. Dra. Karina de Carvalho Magalhães

O tema Gestão da Diversidade trata de um assunto atual na sociedade moderna e nas Organizações: a inclusão dos grupos historicamente marginalizados, em especial, pessoas com diversos tipos de deficiências no universo do trabalho. Por um lado houve um movimento legal para a garantia da inclusão deste seguimento da sociedade na vida laboral, como a Lei de Cotas, implantada acerca de 25 anos no Brasil, que estabelece percentual de 2% a 5% de cotas para a contratação de pessoas com deficiência nas empresas com mais de 100 funcionários, por outro lado, muitas dificuldades ainda são encontradas para a efetiva inclusão das pessoas com deficiência no mundo laboral, sendo elas: a falta de conhecimento em relação às potencialidades e capacidades deste público para o trabalho, a falta de conhecimento acerca da deficiência, a falta de acessibilidade e de adaptação dos postos de trabalho, a falta de compreensão dos gestores acerca da pessoa com deficiência e a ausência de plano de carreira para esse grupo de profissionais.

Profa. Dra. Karina Magalhães
Profa. Dra. Karina Magalhães

O atual momento aponta para o olhar das empresas voltado para a necessidade de oferecer às pessoas com deficiência condições adequadas de trabalho, seja por meio da adaptação estrutural e técnica às atividades concernentes a função exercida pelo profissional com deficiência, seja pelos estímulos a mudanças de atitudes em respeito a diversidade, na busca de novas práticas que ampliem o nível de empregabilidade da pessoa com deficiência (Carvalho-Freitas, 2009).

Um dos principais desafios das empresas refere-se à conscientização de que a inclusão de pessoas com deficiência permite novas formas de relacionamentos e a valorização de potenciais humanos, de troca de saberes, de experiências e visões de mundo, que possibilitará a riqueza da diversidade. Neste contexto, a convivência com a pessoa com deficiência no ambiente de trabalho, contribui valiosamente para refletir acerca da diversidade humana com respeito, aceitação, abertura e atitude proativa.

O ingresso e permanência no mercado de trabalho é uma excelente estratégia para o desenvolvimento do potencial de qualquer pessoa. Pensar a dimensão dessa conquista para a pessoa com deficiência, é qualificá-la continuamente como protagonista da sua história, responsável por suas escolhas, independente, autônoma, digna e reconhecida socialmente.

Desta forma, percebe-se que a inserção da pessoa com deficiência no mercado de trabalho permite uma série de reflexões nas relações de trabalho, a qual desencadeia a necessidade de novos estudos e da ampliação de estratégias inclusivas para o ingresso e permanência da pessoa com deficiência no mundo do trabalho.

Profa. Dra. Karina de Carvalho Magalhães é Coordenadora do Centro Interdisciplinar da Pessoa com Deficiência da PUC-Campinas

 

 

Colóquio Laudato Si’: por uma ecologia integral

Evento ocorre nos dias 04 e 05 de maio

Por Redação

Tempo de existência e currículo de realizações são itens inversos na história do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas, criado em maio de 2015, mas que já fez acontecer dois Colóquios de extrema importância, seja pelas temáticas abordadas, seja pela relevância dos participantes. O terceiro deles acontece nos dias 04 e 05 de Maio de 2016 o Colóquio Laudato Si’: por uma ecologia integral, que contará com a presença do Reitor da PUC-Rio, Prof. Dr. Pe. Josafá Carlos de Siqueira e de professores doutores e mestres da PUC-Campinas.

Segundo Colóquio promovido pelo Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas, em Setembro de 2015- Crédito: Álvaro Jr.
Segundo Colóquio promovido pelo Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas, em Setembro de 2015- Crédito: Álvaro Jr.

O Colóquio vai ao encontro do tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016: “Casa Comum, Nossa Responsabilidade” cujo lema é “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca”, que tem como preocupação central o Meio Ambiente.

O evento, aberto ao público, é organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da Universidade e será realizado no Campus I e no e Campus II da Universidade.

Por uma Ecologia integral

O Colóquio receberá a Conferência Laudato Si’: por uma ecologia integral, às 8h, no auditório Dom Gilberto (Campus I) e terá como conferencista o Prof. Dr. Pe. Josafá Carlos de Siqueira – Reitor da PUC – Rio e o Prof. Me. Côn. José Luís Araújo, da Faculdade de Teologia da PUC-Campinas, como mediador. No mesmo dia, mas às 19h30, haverá a Mesa-Redonda: “Panoramas éticos, ecológico, ecológico, espiritual e midiático da vida no planeta”, cujo objetivo é suscitar uma reflexão que permita compreender a realidade ética, ecológica, espiritual e midiática da vida no planeta. A Mesa-Redonda terá o Prof. Me. Marcel José Cheida, da Faculdade de Jornalismo, a Profa. Me. Maria Pilar Rojals Pique, da Faculdade de Engenharia Ambiental e o Prof. Dr. Renato Kirchner, da Faculdade de Filosofia. Todos os docentes da PUC-Campinas. O Pe. João Batista Cesário, da Pastoral Universitária fará a mediação.

Fundamentos para uma reflexão teológica, econômica e social sobre a crise ecológica

No dia 05 de maio, às 8h30, a primeira Mesa-Redonda acontecerá no Auditório Monsenhor Salim (Campus II) e discutirá os “Fundamentos para uma reflexão teológica, econômica e social sobre a crise ecológica”. O debate contará com o Prof. Me. Pe. José Antonio Boareto, da Faculdade de Teologia, o Prof. Dr. Josué Mastrodi Neto, da Faculdade de Direito e o Prof. Me. Ernesto Dimas Paulella, da Faculdade de Economia. A mediação será do Prof. Dr. Glauco Barsalini, da Faculdade de Ciências Sociais. Todos os docentes são da PUC-Campinas.

O encerramento do Colóquio Laudato Si’: por uma ecologia integral acontecerá no Auditório Dom Gilberto, no Campus I da Universidade, no dia 05 de maio, às 19h30, com a Mesa-Redonda: “Educação e Espiritualidade ecológicas para a construção de uma ecologia integral”, cujo objetivo é refletir sobre a importância da educação e da espiritualidade ecológicas para a construção de uma ecologia integral. Essa mesa contará com a Profa. Dra. Rita de Cássia Violin Pietrobom, da Faculdade de Ciências Biológicas, a Profa. Dra. Ana Paula Fraga Bolfe, da Faculdade de Ciências Sociais, a Profa. Dra. Ceci Maria Costa Baptista Mariani, da Faculdade de Teologia e Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e terá como Mediador o Prof. Me. José Donizeti de Souza, da Faculdade de Teologia.

Retrospectiva

O primeiro Colóquio da PUC-Campinas aconteceu em maio de 2015
O primeiro Colóquio da PUC-Campinas aconteceu em maio de 2015- Crédito: Álvaro Jr. 

 Nos dias seis e sete de maio do ano passado, a cerimônia de oficialização pública do Núcleo de Fé e Cultura foi congruente com seu primeiro evento, o Colóquio “A Identidade da Universidade Católica, em Comemoração aos 25 anos da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae”.

Constituído por uma série de palestras e mesas-redondas, distribuídas em três períodos, o ponto alto do Colóquio foi a presença do Prefeito da Congregação para a Educação, Cardeal Zenon Grocholewski, responsável pela palestra de abertura, tratando do tema que identificava o Colóquio. Além do Cardeal Grocholewski, participaram do evento o Professor Dr. Padre Erico João Hammes da PUC-Rio Grande do Sul, Professor Dr. Padre Pedro Rubens Ferreira Oliveira, da Universidade Católica do Pernambuco e Professor Dr. Rogério Miranda de Almeida, da PUC-Paraná, além dos docentes da PUC-Campinas, Professor Dr. Artur José Renda Vitorino, Professora Dra. Sueli do Carmo Bettine e Professor Dr. Padre Paulo Sérgio Lopes Gonçalves.

Quatro meses depois, em 21, 22 e 23 de setembro, o Núcleo de Fé e Cultura recoloca no calendário acadêmico mais uma intensa programação de palestras e debates, no bojo do Colóquio “A Universidade Católica à Luz do Concílio Vaticano Segundo”, que, além de professores da Casa, contou com a participação do Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Sérgio da Rocha e do Bispo Emérito de Lorena, Dom Benedito Beni dos Santos.

Ainda no seu período inicial, o Núcleo de Fé e Cultura abriu um site destinado a consolidar a divulgação  do seu trabalho e à comunicação com comunidade universitária e com a sociedade em geral, contribuindo para a pesquisa, o debate e a circulação de informação na sua área de atuação.

 

 

 

Coluna Pensando o Mundo: Mal – Estar na inclusão: como (não) se faz

Por Ruth Maria Rodrigues Gare

 Você já deve estar achando que este é mais um livro falando de inclusão de pessoas com deficiência e provavelmente pensando: mais um livro defendendo a inclusão e toda aquela teoria, os problemas enfrentados pelos alunos com deficiência na escola, citação de documentos oficiais como Declaração de Salamanca, etc. Claro que conhecer todos estes documentos é muito importante e são imprescindíveis para a reflexão sobre os direitos dos alunos com necessidades educacionais especiais, e saber o que é discutido na comunidade acadêmica é muito produtivo, porém, um posicionamento responsável contribui para práticas mais promissoras, inclusivas e humanizadas nos contextos educacionais.

"Com certeza será uma leitura prazerosa onde os autores que contribuem com a obra vão desfilando diversos teóricos"_ Divulgação
“Com certeza será uma leitura prazerosa onde os autores que contribuem com a obra vão desfilando diversos teóricos”_ Divulgação

Não, este livro traz muito mais do que isso, o tema é a Inclusão sim, mas a brincadeira com a expressão “mal-estar” na verdade é a tentativa dos organizadores e dos seus autores de levarem o leitor a repensar de forma cuidadosa as questões de inclusão.

Ao refletir sobre o sujeito da inclusão, os textos apresentados o levarão para além dos estereótipos construídos nos discursos que emergem nas escolas pelas metanarrativas de professores e comunidade escolar, os dizeres do lugar comum.

Com certeza será possível compreender que imbricado no título Mal-estar na inclusão: como (não) se faz, o “não” revela a possibilidade de ver nas ações inclusivas o lugar ocupado pelos sujeitos protagonistas. Não se trata de invenções ou simples arcabouço teórico, mas de pessoas reais que de alguma forma, por meio de diferentes práticas de ensino-aprendizagem, conseguiram superar os desafios propostos pelos contextos educacionais e viveram momentos de transformações.

A obra está dividida em duas partes, na primeira os sujeitos enunciadores apresentam um posicionamento, segundo as próprias organizadoras, responsável e produtivo do ponto de vista da psicanálise; já na segunda parte, o olhar crítico trata da governamentalidade dos corpos.

Essa divisão deve-se ao referencial teórico, pois os artigos foram desenvolvidos à luz da perspectiva discursivo-desconstrutivista, segundo as organizadoras, numa possível interface com a psicanálise lacaniana.

Complicado!!!! Não!! Com certeza será uma leitura prazerosa onde os autores que contribuem com a obra vão desfilando diversos teóricos: BAUMAN, Z.; CAPOVILLA, F,C;  CORACINI, M.J.R.F; DELEUZE, G;  FREIRE, P;  ORLANDI, E.; FOUCAULT, M; FREUD, S; QUADROS, R.M;  SASSAKI, R.; SKLIAR, C.;  MANTOAN, M.T.E;  VIGOTSKY, L.S;  entre outros, a lista é grande, mas, muito rica. São 14 artigos que se harmonizam no sentido de mostrar abordar a inclusão como dispositivo biopolítico da governamentalidade em nome de uma causa democrática.

As organizadoras do livro, a professora Drª Márcia Aparecida Amador Mascia da Universidade São Francisco, atua no curso de Pós-Graduação Stricto Sensu e sua pesquisa gira em torno das questões de ensino-aprendizagem de línguas para ouvintes e surdos, em diferentes contextos educacionais. Problematiza os modos de subjetivação e identificação dos sujeitos no mundo contemporâneo. A professora Elzira Yoko Uyeno professora da Unitau produzia (faleceu antes da publicação do livro em 2014) com pesquisas no eixo temático: exclusão e resistência (Unicamp). A Juliana Santana Cavallari (Fatec) possui como temas de pesquisa práticas discursivo-pedagógicas, avaliação, análise de material didático de língua estrangeira, práticas inclusivas, tradução e modos de subjetivação.

O livro que Mal-Estar na Inclusão: como (não) se faz, foi publicado pela Editora Mercado de Letras em 2014 e pode ser encontrado nas melhores livrarias a um preço bem acessível. São 360 páginas de um material, denso, sério e atualizado, com uma prática repensada em múltiplas dimensionalidades.

Você, caro leitor, está convidado para essa leitura que com certeza revelará singularidades da inclusão que o ajudarão a percebê-la como substância e não apenas forma, como possibilidade real e com responsabilidade.

Boa leitura !!

Prof.ª Drª Ruth Maria Rodrigues Gare é docente no curso de Letras da PUC-Campinas

 

 

Mães são mediadoras na relação do filho autista com o mundo

Pesquisadora analisou a experiência de mães e pais no relacionamento com o filho diagnosticado com autismo. Dissertação foi defendida no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUC-Campinas 

Por Amanda Cotrim

O Transtorno do Espectro Autista (TEA), popularmente conhecido como autismo, engloba alterações na socialização, na comunicação e comportamentos repetitivos e às vezes restritivos. Não é possível conceituá-lo, uma vez que ele é visto de formas diferentes pela comunidade científica. Há estudos que apontam o autismo como uma doença ou lesão neurológica congênita, causada por uma combinação de fatores genéticos e ambientais, e o que pode ser curado. Mas há quem defenda que se trata de uma diversidade neurológica que deve ser respeitada, sem a necessidade de “cura”. Por outro lado, o autismo também pode ser compreendido como uma deficiência, mesmo que os sintomas possam se alterar ao longo da vida. Isso é o que explica a pesquisadora Gisella Mouta Fadda, que defendeu sua dissertação sobre a relação de mães e pais com os filhos autistas, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia, em 2015, e teve como orientadora a Profa. Dra. Vera Engler Cury. “O melhor seria compreender a pessoa diagnosticada com autismo como estando deficiente, e não sendo deficiente”.

"muito importante a disponibilidade de espaços para que pais e mães se encontrem e conversem entre si"/ Crédito: Álvaro Jr
“muito importante a disponibilidade de espaços para que pais e mães se encontrem e conversem entre si”/ Crédito: Álvaro Jr

Gisella quis compreender como pais e mães vivenciavam sua relação com seus filhos autistas, já que a interação e a comunicação social são características deste transtorno do neurodesenvolvimento. Ela considerou que os pais e as mães são protagonistas nos cuidados do filho, por isso sua indagação era “saber como eles percebiam essa convivência tão peculiar com seus filhos”, explica.

Para isso, a pesquisadora se aproximou do modo como os participantes da pesquisa se relacionavam com seus filhos autistas, realizando encontros dialógicos com os participantes, individualmente ou como casal, e após cada encontro, foi redigida uma narrativa compreensiva considerando o que foi vivido no encontro entre pesquisadora e participantes.

“Após concluir essa etapa, produzi uma narrativa-síntese contendo elementos significativos da experiência de todos os participantes, possibilitando uma compreensão e interpretação do fenômeno”, contextualiza Gisella. 

O trabalho desenvolvido como resultado do mestrado considerou que as mães, em especial, tornam-se mediadoras na relação do filho com o mundo e ao dedicarem-se integralmente nesse cuidado permanente, acabam por formar uma relação de exclusividade, o que acaba, por vezes, afastando ambos do convívio social. Essa dedicação faz com que muitas mães descuidem de si mesmas. Por outro lado, “quando brincam com o filho, ampliam a possibilidade de se relacionarem afetivamente de uma maneira mais gratificante, mais prazerosa”, observou.

muito importante a disponibilidade de espaços para que pais e mães se encontrem e conversem entre si
muito importante a disponibilidade de espaços para que pais e mães se encontrem e conversem entre si

“Existe um ditado que diz: ‘é caminhando que se faz o caminho’ que pode representar como esses pais e mães se relacionam com seu filho, pois apesar do grande desgaste físico e emocional que muitos vivenciam nesse cotidiano, nota-se que o importante é formar a relação com o outro, e não pelo outro”, afirma.

O que a pesquisadora descobriu, no entanto, não esgota a questão, mas auxilia novos modelos de compreensão acerca de pais e mães de crianças diagnosticadas com autismo e a disponibilização de atenção psicológica às famílias. Gisella acredita que “é necessário, contudo, que um maior número de pesquisas sobre atenção psicológica sejam realizadas para atualizar a formação profissional, tanto do psicólogo como de outros profissionais que atuam com o TEA”. 

A pesquisadora acredita que uma escuta atenta realizada por profissionais da área da saúde pode beneficiar esses pais e mães em seus crescimentos pessoais, desenvolvimento psicológico e a atualização de significados que ampliam a compreensão deles sobre suas experiências. “Conclui que seria muito importante a disponibilidade de espaços para que pais e mães se encontrem e conversem entre si, sendo mediados, por exemplo, por recursos criativos que possibilitem narrativas sobre suas histórias de vida e infância a fim de promover um constante vir a ser, em um processo permanente de criação de novos significados em suas vidas”.