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PUC-Campinas lança livro sobre a vida e obra do Monsenhor Salim

Por Sílvia Perez

A publicação do livro Monsenhor Doutor Emílio José Salim: A Missão de Ensinar, Santificar e Reger, lançado no último dia 12 de novembro, na Paróquia Maronita São Charbel, tem o objetivo de homenagear um dos fundadores da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Monsenhor Emílio José Salim, que era conhecido como o “semeador de faculdades” e apóstolo da cultura, e que deixou um grande legado para a educação superior e para a igreja.

Para o desenvolvimento desse projeto, que teve início, em 2016, durante as atividades da Semana Monsenhor Dr. Emílio José Salim, que fez parte das comemorações dos 75 anos da PUC-Campinas, foi criado um grupo de trabalho coordenado pelo Prof. Dr. Germano Rigacci Júnior e composto pelos professores: Prof. Me. José Donizeti de Souza, Profa. Dra. Janaína Valéria Pinto Camilo, Prof. Dr. Rogério Eduardo Rodrigues Bazi, pelo Padre João Batista Cesário e pelo Coordenador do Departamento de Comunicação Social, Alcino Ricoy Júnior.

Para a organização do trabalho, o livro foi dividido em dois grandes eixos temáticos: Ele por Nós e Ele por Ele, para retratar o filho de imigrantes árabes que desde jovem já demonstrava a vocação para a vida religiosa, estudando em Seminários, Filosofia, e com diversos trabalhos publicados.

Entusiasta da educação, foi fundador e diretor de duas publicações da então Universidade Católica de Campinas (UCC), tendo também forte atuação em diversas funções administrativas da Instituição. Seu espírito humanista, com intensa dedicação às atividades de ensino e cultura, rendeu-lhe homenagens e condecorações nacionais e estrangeiras.

Partiu do Monsenhor Salim, como era popularmente conhecido, a determinação para que fosse criado o Colégio de Aplicação Pio XII, para que os estudantes dos cursos de formação de professores e professoras da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UCC tivessem um local para estagiar.

Em 1938, uniu-se a um grupo de intelectuais, maçons e religiosos para a realização de um objetivo comum: fundar, em Campinas, uma Faculdade que formasse profissionais atuantes nas áreas do ensino, comércio e das indústrias.

Os esforços renderam frutos, que tornaram Campinas reconhecida, nos anos 40 e 50, como uma cidade produtora de ciência e conhecimento, tendo sido escolhida para sediar a 1ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em 1949.

A união de duas mentes brilhantes, do Monsenhor Salim e do Prof. Zeferino Vaz, fez com que eles protagonizassem, nos anos 60, uma das mais importantes histórias sobre o ensino universitário no município, a construção da Universidade Estadual de Campinas, que, junto com a Universidade Católica de Campinas, formou um dos mais importantes complexos universitários do Brasil, que, posteriormente, passou a ser chamado de cidade universitária.

Anais da Semana Monsenhor Dr. Emílio José Salim

Por Armando Martinelli

A Semana Monsenhor Dr. Emílio José Salim, organizada pelo Museu Universitário e pela Faculdade de História, foi uma das várias ações realizadas para comemorar os 75 anos da PUC-Campinas, em 2016. O sucesso da iniciativa foi tão grande que suscitou a produção dos Anais (registro histórico) do evento, lançados no dia 12/11, em conjunto com cerimônia religiosa que marcou a apresentação do livro em homenagem ao Monsenhor José Salim.

Para a Diretora da Faculdade de História da PUC-Campinas, Profa. Dra. Janaína Camilo Pinto, a Semana Monsenhor Dr. Emílio José Salim permitiu uma reflexão profunda sobre a atuação do primeiro Reitor da Universidade, resgatando temas de enorme relevância. “Foi uma semana muito rica, com palestras e debates que proporcionaram intensas ponderações. A produção desse registro histórico é uma extensão da Semana, dessas reflexões que sentimos a necessidade de compartilhá-las e, assim, manter ainda mais vivos os ideais do Monsenhor Dr. Emílio José Salim”, disse a Diretora da Faculdade de História da PUC-Campinas.

Com palestras e rodas de conversa que abordaram temas como “Década de 1940: o surgimento das Faculdades Campineiras”, “Monsenhor Dr. Emílio José Salim e o seu tempo (1941 a 1968)”, entre outros, a Semana Monsenhor Dr. Emílio José Salim abordou o corpo e alma da Instituição desde o seu nascedouro. “O Monsenhor Dr. Emílio José Salim foi peça- chave da organização da maioria dos cursos superiores da Igreja nas décadas de 40 e 50 e tornou-se o principal esteio do projeto de implantação das Faculdades Campineiras, predecessoras da PUC-Campinas”, reforça a Profa. Dra. Janaína Camilo Pinto.

Os Anais da Semana Monsenhor Dr. Emílio José Salim contam com textos da Profa. Me. Maria Salete Zulzke Trujillo, Prof. Me. José Donizeti de Souza, Prof. Dr. Lindener Pareto Junior, Prof. Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves, Prof. Dr. João Miguel Teixeira de Godoy, Prof. Dr. Fábio Augusto Morales, Profa. Dra. Janaína Camilo Pinto, Pe. João Batista Cesário e do Monsenhor Dr. Rafael Capelato.

Acesse: https://www.puc-campinas.edu.br/75-anos-da-puc-campinas/

 

Um homem que se entregou à causa de Deus

PUC-Campinas presta homenagem a Dom Gilberto Pereira Lopes durante semana de evento que leva o seu nome

Por Amanda Cotrim

Integrando as comemorações dos 75 anos de fundação da criação da PUC-Campinas, a Universidade, por meio do Museu Universitário e da Faculdade de História, promoveu a Semana Dom Gilberto Pereira Lopes, de 24 a 28 de outubro de 2016, no Auditório Cardeal Agnelo Rossi, localizado no Campus I.

Semana Dom Gilberto Pereira Lopes ocorreu do dia 24 a 28 de outubro de 2016/ Crédito: Álvaro Jr.
Semana Dom Gilberto Pereira Lopes ocorreu do dia 24 a 28 de outubro de 2016/ Crédito: Álvaro Jr.

O objetivo foi homenagear o Arcebispo Emérito de Campinas Dom Gilberto Pereira Lopes, que atuou como Arcebispo Metropolitano de Campinas e Grão-Chanceler da Pontifícia Universidade Católica de Campinas no período de 1982 a 2004.

Um dos momentos mais emocionantes da Semana foi o primeiro dia de evento, o qual contou com a presença de Dom Gilberto e seus familiares, além da Reitora da Universidade, Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht e do Arcebispo Metropolitano de Campinas, Dom Airton José dos Santos.

O evento pode aproximar a nova geração da história de um dos homens mais importantes para a Igreja Católica do Brasil e para a Universidade. Os palestrantes ressaltaram que Dom Gilberto se entregou à causa de Deus e dedicou toda a sua vida à obra Dele. “É por amor e reconhecimento que fizemos esta homenagem”, ressaltou Arcebispo e Grão-Chanceler da PUC-Campinas.

Livro: a materialização da memória de Dom Gilberto

A Semana Dom Gilberto Pereira Lopes também proporcionou o lançamento do livro “Dom Gilberto: no tempo de Deus”, o qual conta a trajetória do religioso e a promessa feita aos pais de que ele seria um servo de Deus. Desde pequeno, Dom Gilberto, que nasceu em 1927, na Bahia, frequentou o Seminário Menor, em Petrolina, Pernambuco, cidade em que cresceu. Cursou Filosofia e Teologia em Olinda. Foi ordenado presbítero, na Catedral de Petrolina, no dia 4 de dezembro de 1949, por Dom Avelar Brandão Vilela, então Bispo de Petrolina, depois Cardeal Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil.

Vice Reitor Prof. Dr. Germano Rigacci Jr, Padre José Antônio Trasferetti, Dom Gilberto e Prof. Paulo Pozzebon/ Crédito: Álvaro Jr.
Vice Reitor Prof. Dr. Germano Rigacci Jr, Padre José Antônio Trasferetti, Dom Gilberto e Prof. Paulo Pozzebon/ Crédito: Álvaro Jr.

 

 

Trajetória

O ano de 1976 surgiu na Diocese de Campinas com um novo vigor. Dom Gilberto Pereira Lopes foi nomeado pelo Papa Paulo VI, no dia 24 de dezembro de 1975, como Arcebispo Coadjutor.

Sua posse canônica se deu na Catedral Metropolitana de Campinas, no dia 7 de março de 1980, dia em que se comemorava três anos de sua posse como Coadjutor na Arquidiocese. No dia 10 de fevereiro de 1982, foi promovido a Arcebispo de Campinas, recebendo o Pálio, por procurador, no Consistório, em 24 de maio do mesmo ano, realizado no Vaticano.

Na sua palavra de posse, Dom Gilberto já fazia alusão à administração da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Em 1981, na Assembleia do Regional Sul 1, Dom Gilberto foi escolhido para ser o seu representante na Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Recebeu, ainda, nomeação do Papa João Paulo II como Membro da Congregação para Educação Católica (Seminários e Institutos de Estudos), por meio de carta da Secretaria de Estado do Vaticano, datada de 5 de abril de 1989, pelo período de cinco anos. De 18 a 25 de abril de 1989, Dom Gilberto foi representante do Brasil no 3o Congresso Internacional sobre Universidade Católica, realizado em Roma, com 175 representantes de todo o mundo.

Ao completar 75 anos de idade, enviou sua carta de renúncia ao Papa João Paulo II, que aceitou o pedido em 2 de junho de 2004, nomeando Dom Bruno Gamberini como Arcebispo Metropolitano de Campinas. Dom Bruno, no dia de sua posse, em 1o de agosto de 2004, conferiu a Dom Gilberto as faculdades de Vigário Geral da Arquidiocese de Campinas. Hoje, Dom Gilberto é Arcebispo Emérito de Campinas.

 

Resenha: Professores resgatam legado da Imprensa campineira

Por Tereza de Moraes

Em uma produção gráfico-editorial primorosa, a Editora Setembro, de Holambra, São Paulo, disponibiliza ao público a obra “A Imprensa em Campinas: retratos da história”, organizada pelos experientes professores Carlos Gilberto Roldão, Fabiano Ormaneze e Ivete Cardoso do Carmo-Roldão. Tal produção, certamente, atraiu e constantemente arrebatará muitos leitores não somente pela qualidade editorial, mas principalmente pelo tema que aborda com legitimidade e exatidão.

Profa Tereza de Moraes: “Trata-se de um obra de grande relevância”/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa Tereza de Moraes: “Trata-se de um obra de grande relevância”/ Crédito: Álvaro Jr.

Qualquer leitor, conhecedor do assunto ou leigo, encontrará o percurso histórico preciso da Imprensa em Campinas, em toda a sua abrangência, da origem (1858) até os dias atuais. Para tanto, a obra está dividida em doze capítulos, destacando um percurso diacrônico pela Imprensa em Campinas, analisando mais de um século de jornalismo, visitando tanto a Imprensa tradicional quanto a popular. A origem é o Diário do Povo (1912 a 2012), anexado posteriormente ao Correio Popular, fundado em 1927.

Nas competentes mãos de Ivete Cardoso Roldão e Carlos Gilberto Roldão, Marcel Cheida e Cyntia Andretta, três capítulos abordam a história completa da Imprensa tradicional campineira, desde a fundação até o presente momento, passando por todas as dificuldades, superações, bastidores, situações cômicas, culminando
com as transformações tecnológicas e a atual situação da conhecida Rede Anhanguera de Comunicação (RAC).

Já os três capítulos na responsabilidade de Juliana Sangion e Rose Bars, Luiz Roberto Saviani Rey e Paiva Jacobini desvelam com rigorosa precisão a presença na cidade das sucursais de grandes jornais da capital, seu significado, sua importância e sua contribuição.

Dois capítulos são destinados a esclarecer as experiências do Jornal de Hoje (de 1979 a 1981) e do Jornal de Domingo, um semanário que, durante vinte anos (1972 a 1993) chegou gratuitamente às residências dos campineiros. Nessa abordagem, Carlos Alberto Zanotti e Toledo-Vieira informam com dados confiáveis de pesquisa intensa e com muito bom humor a força da concorrência, num contexto histórico propício, entre a Imprensa escrita já consolidada e a inovação da rebeldia.

Molck tem a missão de revelar a imprensa contemporânea e o faz com profundidade e estilo peculiar. Expõe os traços marcantes da imprensa pós-intenet em todos os seus aspectos (linguagem, público, conteúdo…), simplificando ao leitor o contato com as experiências existentes (Metro e Destak). Chiquinho Jr. e Rosa revelam os traços do jornalismo popular existentes em Notícias Já, também um periódico pós-moderno, que justifica a permanência da Imprensa escrita mesmo após o advento das modernas tecnologias.

Os dois capítulos restantes, se não se encaixam somente nesse percurso diacrônico, nem por isso são menos relevantes. Ao contrário, em mãos de José Roberto Gonçalves e Fabiano Ormanze, fica a incumbência de tratar da polêmica entre Imprensa e discriminação. Gonçalves faz um estudo da imprensa negra (Getulino: 1923 a 1926) e a sua luta contra a discriminação em uma brilhante análise fundamentada nos estudos do discurso, demonstrando que fazer jornalismo é, antes de tudo, fazer política. Já Ormaneze presenteia o leitor com o último capítulo, revelando a participação das mulheres na imprensa, esclarecendo que tal presença começa tímida, através da utilização de pseudônimos, em
função do papel da mulher na sociedade androcêntrica e patriarcal, mas resulta em grandes reportagens.

Trata-se, portanto, de obra de grande relevância, recomendada tanto ao público em geral quanto aos especialistas da área do jornalismo, já que fundamentada em intensas pesquisas e muita reflexão crítica. Importante frisar que a relevância se estende ao fato de que a visão da Imprensa campineira nunca se distancia de uma contextualização mundial, podendo o leitor caminhar pela província sem perder de vista o universal. Nesse sentido, é uma obra para qualquer leitor do mundo, mas, sobretudo, para o leitor campineiro, que faz um verdadeiro ingresso ao túnel do tempo e revisita a Campinas antiga. No dizer machadiano, obra escrita com a pena da sabedoria, da paixão e da saudade.

Tereza de Moraes é Professora da Faculdade de Letras da PUC-Campinas

 

Coluna Pensando o Mundo: Mal – Estar na inclusão: como (não) se faz

Por Ruth Maria Rodrigues Gare

 Você já deve estar achando que este é mais um livro falando de inclusão de pessoas com deficiência e provavelmente pensando: mais um livro defendendo a inclusão e toda aquela teoria, os problemas enfrentados pelos alunos com deficiência na escola, citação de documentos oficiais como Declaração de Salamanca, etc. Claro que conhecer todos estes documentos é muito importante e são imprescindíveis para a reflexão sobre os direitos dos alunos com necessidades educacionais especiais, e saber o que é discutido na comunidade acadêmica é muito produtivo, porém, um posicionamento responsável contribui para práticas mais promissoras, inclusivas e humanizadas nos contextos educacionais.

"Com certeza será uma leitura prazerosa onde os autores que contribuem com a obra vão desfilando diversos teóricos"_ Divulgação
“Com certeza será uma leitura prazerosa onde os autores que contribuem com a obra vão desfilando diversos teóricos”_ Divulgação

Não, este livro traz muito mais do que isso, o tema é a Inclusão sim, mas a brincadeira com a expressão “mal-estar” na verdade é a tentativa dos organizadores e dos seus autores de levarem o leitor a repensar de forma cuidadosa as questões de inclusão.

Ao refletir sobre o sujeito da inclusão, os textos apresentados o levarão para além dos estereótipos construídos nos discursos que emergem nas escolas pelas metanarrativas de professores e comunidade escolar, os dizeres do lugar comum.

Com certeza será possível compreender que imbricado no título Mal-estar na inclusão: como (não) se faz, o “não” revela a possibilidade de ver nas ações inclusivas o lugar ocupado pelos sujeitos protagonistas. Não se trata de invenções ou simples arcabouço teórico, mas de pessoas reais que de alguma forma, por meio de diferentes práticas de ensino-aprendizagem, conseguiram superar os desafios propostos pelos contextos educacionais e viveram momentos de transformações.

A obra está dividida em duas partes, na primeira os sujeitos enunciadores apresentam um posicionamento, segundo as próprias organizadoras, responsável e produtivo do ponto de vista da psicanálise; já na segunda parte, o olhar crítico trata da governamentalidade dos corpos.

Essa divisão deve-se ao referencial teórico, pois os artigos foram desenvolvidos à luz da perspectiva discursivo-desconstrutivista, segundo as organizadoras, numa possível interface com a psicanálise lacaniana.

Complicado!!!! Não!! Com certeza será uma leitura prazerosa onde os autores que contribuem com a obra vão desfilando diversos teóricos: BAUMAN, Z.; CAPOVILLA, F,C;  CORACINI, M.J.R.F; DELEUZE, G;  FREIRE, P;  ORLANDI, E.; FOUCAULT, M; FREUD, S; QUADROS, R.M;  SASSAKI, R.; SKLIAR, C.;  MANTOAN, M.T.E;  VIGOTSKY, L.S;  entre outros, a lista é grande, mas, muito rica. São 14 artigos que se harmonizam no sentido de mostrar abordar a inclusão como dispositivo biopolítico da governamentalidade em nome de uma causa democrática.

As organizadoras do livro, a professora Drª Márcia Aparecida Amador Mascia da Universidade São Francisco, atua no curso de Pós-Graduação Stricto Sensu e sua pesquisa gira em torno das questões de ensino-aprendizagem de línguas para ouvintes e surdos, em diferentes contextos educacionais. Problematiza os modos de subjetivação e identificação dos sujeitos no mundo contemporâneo. A professora Elzira Yoko Uyeno professora da Unitau produzia (faleceu antes da publicação do livro em 2014) com pesquisas no eixo temático: exclusão e resistência (Unicamp). A Juliana Santana Cavallari (Fatec) possui como temas de pesquisa práticas discursivo-pedagógicas, avaliação, análise de material didático de língua estrangeira, práticas inclusivas, tradução e modos de subjetivação.

O livro que Mal-Estar na Inclusão: como (não) se faz, foi publicado pela Editora Mercado de Letras em 2014 e pode ser encontrado nas melhores livrarias a um preço bem acessível. São 360 páginas de um material, denso, sério e atualizado, com uma prática repensada em múltiplas dimensionalidades.

Você, caro leitor, está convidado para essa leitura que com certeza revelará singularidades da inclusão que o ajudarão a percebê-la como substância e não apenas forma, como possibilidade real e com responsabilidade.

Boa leitura !!

Prof.ª Drª Ruth Maria Rodrigues Gare é docente no curso de Letras da PUC-Campinas

 

 

Entrevista: Livro compara as representações da ciência na mídia

 Por Amanda Cotrim

Como resultado de sua dissertação de mestrado, defendida em 2013, no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, na Unicamp, o docente do Centro de Linguagem e Comunicação da PUC-Campinas, Prof. Me. Fabiano Ormaneze, lança o livro “Do Jornalismo Literário ao Científico: biografia, discurso e representação”, pela editora Pontes. A obra, a partir do discurso, reflete sobre como a imprensa representa os cientistas das ciências humanas e naturais. O livro também é uma oportunidade para pensar os sentidos de ciência na sociedade contemporânea. Confira o bate-papo que o Jornal da PUC-Campinas teve com o autor.

O nome do seu livro é: “Do Jornalismo Literário ao Científico: biografia, discurso e representação”. O que você aborda nessa obra?

Essa obra é fruto do mestrado, desenvolvido no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (LabJor) / Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), entre 2011 e 2012. Trata-se de uma análise de como o cientista e, consequentemente, a ciência são representados em biografias, já que esse gênero, híbrido entre o jornalismo, a literatura e a história, se propõe a narrar a vida de uma pessoa em detalhes. O livro faz uma análise de 10 biografias, publicadas numa série especial da revista Caros Amigos, comparando como são representados os cientistas das áreas de ciências humanas e das áreas de ciências naturais.

Explique qual foi o método de comparação usado e o que essa análise lhe trouxe. Ou seja, o que é possível considerar da sua pesquisa?

Para a comparação, busquei as representações no discurso, ou seja, como o discurso sobre ciência e sobre cientista faz circular e se constitui a partir de pré-construídos e da história. Essa análise levou em conta certas regularidades na forma de designar os cientistas, por exemplo. Só para citar genericamente: em geral, sociólogos ou antropólogos nunca eram chamados de “cientistas”, mas apenas de “professores” ou “estudiosos”, ao contrário do que acontecia com o físico ou o geneticista, por exemplo. Notei também certa diferenciação na narrativa: as biografias dos cientistas da área de ciências naturais eram marcadas pelos feitos, pela obra. Já as biografias dos cientistas da área de humanas focalizavam a trajetória de vida, a relação com a família e com os alunos. Cada disciplina trazia elementos que o jornalista imputava ao seu discurso ao narrar a vida do biografado.

O livro analisa 10 biografias, publicadas na revista Caros Amigos- Crédito: Álvaro Jr
O livro analisa 10 biografias, publicadas na revista Caros Amigos- Crédito: Álvaro Jr

Quais são as relações que você estabelece entre jornalismo literário e científico?

O jornalismo literário é um método de trabalho que pode ser utilizado em diversas editorias, para falar de diversos assuntos, desde que encontre para isso condições suficientes, como a possibilidade de uma apuração aprofundada, linha editorial e a linguagem esteticamente elaborada. Pode, portanto, estar presente na abordagem sobre cientistas e sobre ciência, principalmente, quando se fala em biografia. A questão é que as análises que fiz durante a pesquisa demonstraram que o jornalista encontra muito mais facilidade para produzir um texto com características do jornalismo literário quando vai abordar temáticas próprias das ciências humanas, afetado pela constituição histórica dos discursos e pela própria dificuldade em compreender conceitos.

Com quais autores você dialoga no livro e como você construiu suas bases argumentativas?

O livro é construído a partir das teorias do discurso, principalmente, a partir de Michel Pêcheux, Michel Foucault e Eni Orlandi, sobremaneira nos textos em que esses autores abordam a ciência e a constituição, formulação e circulação dos discursos. Do ponto de vista das reflexões sobre ciência, recupero ainda os conceitos de Charles Snow, que faz uma interessante análise de como o mundo contemporâneo vivenciou um distanciamento entre as ciências naturais e as humanidades, o que provoca um empobrecimento, uma dicotomia e uma dificuldade para a interdisciplinaridade que facilitaria uma visão mais ampla e detalhada da complexidade que constitui o real.

Você diz que utilizou Charles Snow, o qual faz uma análise de como o mundo contemporâneo distanciou ciências naturais e humanidades. Fala-se muito hoje em dia em interdisciplinaridade. Explique por que esse conceito se destacou na contemporaneidade e qual é a importância de uma ciência interdisciplinar?

A interdisciplinaridade ganha destaque a partir do momento em que o projeto positivista, de que a especificidade de cada disciplina, garantiria avanços e maior compreensão do mundo, mostrou-se falha e incapaz de compreender a complexidade. Além disso, a ciência, ao desconsiderar a interdisciplinaridade, tem uma visão que deixa de considerar a subjetividade do ser humano, os interesses sempre em questão nas pesquisas e descobertas, etc. A ciência moderna passou por uma verdadeira fragmentação do saber, como se não houvesse relações entre o que se estuda na biologia e o que é comprovado pela antropologia, por exemplo. Essa visão fragmentada ajudou, inclusive, a criar certa hierarquização entre as ciências, como se houvesse as mais importantes e as menos importantes, as mais objetivas e as menos objetivas. A interdisciplinaridade vem mostrar como a complexidade do mundo não pode ser compreendida apenas por um ponto de vista, que será sempre lacunar.

Você não acha que interdisciplinaridade em alguma medida poderia prejudicar o conhecimento científico, uma vez em que as coisas poderiam virar um conjunto de pontos de vista?

 Não. Para isso, é preciso que se deixe claro que fazer ciência pressupõe um processo rigoroso, sujeito a método e comprovação. A partir do momento em que áreas diferentes dialoguem em torno de seus resultados, lacunas são preenchidas. Não se pode, no entanto, deixar de lado o fato de que a ciência, como bem mostra Gilles Deleuze, estará sempre sujeita à subjetividade de quem a produz.

Quando falamos em Ciência, muitas vezes se imagina um cientista, trancado em seu laboratório, cheio de poções ao seu redor. Podemos dizer que existe um imaginário que perpassa a ideia de que ciência é algo “difícil” e distante da “massa”? Se sim, por que isso acontece?

Existe um imaginário, em primeiro lugar, de que o fazer científico seja uma exclusividade das ciências naturais. Essa imagem de alguém no laboratório é reflexo disso. Dificilmente, alguém pensa em um cientista como sendo alguém da área de sociologia ou de psicologia, por exemplo, embora essas áreas tenham todos os requisitos necessários para serem consideradas como tal. Esse imaginário tem início na própria escola básica. Logo nas séries iniciais, o aluno tem aulas de uma disciplina chamada “Ciências”, assim, no plural. Mas, o conteúdo diz respeito apenas às áreas de naturais, ligados à biologia, física e química. Nessa mesma disciplina, o estudante entra em contato com laboratório, misturas de substâncias, reações químicas e tudo parece uma mágica em que, associando elementos, se tem uma explosão, uma substância de outra cor. Na escola básica, o aluno tem aulas de história, geografia e outras tantas disciplinas que têm configuração de ciência, mas dificilmente alguém as nomeia como tal. Esse imaginário também é reforçado pela mídia. O chamado “jornalismo científico”, por exemplo, quase sempre está ligado a descobertas nas áreas de biologia, química, física e saúde. É muito comum, assim, que uma descoberta na área de psicologia, por exemplo, apareça nas editorias de “comportamento”, da mesma forma em que a antropologia, quando aparece, fica restrita ao campo da cultura. Por fim, há de se lembrar de que esse imaginário é também derivado da própria história das ciências, uma vez que as ciências humanas são bastante recentes – só surgiram no final do século XIX – e que o cientista da área de ciências naturais sempre, pelo seu caráter antecipador e transgressor, foi visto como um “louco” na história. Tudo isso vai sendo acumulado em termos de discursos e se constitui como uma percepção pública do que seja ciência. Os já ditos sobre ciência ao longo da história constituem os dizeres atuais.

Mundo sem fronteiras? Livro-reportagem reabre debate sobre refugiados

Valeria Graziano se formou em Jornalismo na Universidade, trabalhou na ONU e, hoje, pesquisa questões que envolvem migrações e refúgios. Valeria conversou com o Jornal da PUC-Campinas sobre a imigração forçada, direitos humanos e xenofobia. Segundo ela, pesquisas mostram que o aumento da xenofobia na Europa, por exemplo, acontece justamente em momentos de crescimento econômico. Por isso, segundo Valeria, “a associação direta entre crise econômica e financeira com o aumento da hostilidade é uma falácia”. Confira a entrevista completa.

Por Amanda Cotrim

O ano era 2006. Valeria Graziano tinha 21 anos e estava no último ano da graduação de Jornalismo, na PUC-Campinas. Preparava-se para a realização do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Embora tenha decidido estudar jornalismo, Valeria sempre gostou das relações internacionais. Pensar questões relacionadas às migrações forçadas, conflitos armados, direitos humanos e globalização, balançava e ainda balança o coração da jornalista. A partir disso, não teve dúvidas: decidiu unir o jornalismo e as relações internacionais. O resultado foi o livro-reportagem “A esperança além da fronteira”, que teve orientação do Prof. Dr. Glauco Cortez. Em seu livro, Valeria contou a história de quatro seres humanos, de quatro países: Congo, Colômbia, Sérvia e Irã. Personagens/vítimas de guerra civil, conflito armado, perseguição étnica e religiosa. “Diferentes origens. Diferentes problemas. Mesmo destino: Brasil. Chegaram aqui sob a condição de refugiados. Ao atravessar a fronteira, os problemas não desapareceram. Apenas transformaram-se”, diz o livro. “Muitas vezes, os imigrantes são alvo de preconceito e intolerância no país que o ‘acolheu’”, denuncia Valeria. Para ela, a falta de acesso a informações sobre guerras e conflitos nessas partes esquecidas do planeta faz com que suas consequências se tornem também desconhecidas.

Valeria Graziano, ex-aluna da PUC-Campinas/ Crédito: Arquivo Pessoal
Valeria Graziano, ex-aluna da PUC-Campinas/ Crédito: ACNUR Brasil/V. Graziano

A relação de Valeria com os direitos humanos não se esvaziou no Trabalho de Conclusão de Curso. Depois de formada, a ex-aluna da PUC-Campinas trabalhou no Departamento de Comunicação da Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados no Brasil – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) e defendeu seu mestrado em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional, pela Universidade de Brasília. Atualmente, estuda Cultura, Política e Identidades na Universidade de São Paulo. Em 2015, quase 10 anos depois de Valeria ter escrito seu livro, o tema continua atual.  Confira a entrevista que o Jornal da PUC-Campinas realizou com a ex-aluna.

Por que esse tema “provocou” você enquanto cursava o último ano de graduação em Jornalismo?

Eu tinha 21 anos, estava no último ano da graduação em Comunicação Social – Jornalismo. Embora tenha decidido estudar jornalismo, sempre gostei muito do campo das relações internacionais e de pensar questões relacionadas às migrações forçadas, conflitos armados, direitos humanos e globalização. Cheguei à conclusão de que poderia unir as duas áreas para desenvolver meu TCC.

Conforme eu pesquisava os conflitos armados contemporâneos, ia descobrindo a realidade extremamente difícil em que vivem milhões de refugiados por todo o mundo, os quais sofrem ameaças permanentes, violências de todo tipo e violações sistemáticas de direitos humanos. E onde estavam esses conflitos e essas histórias na mídia tradicional brasileira? Naquela época, o grupo de refugiados que mais crescia no Brasil era o de colombianos. Apesar disso, a crise humanitária vivida no país vizinho era (e ainda é) invisibilizada pela mídia tradicional brasileira, que continua a comprar grande parte das matérias para seus cadernos internacionais de agências estrangeiras, as quais estão totalmente inseridas na lógica de interesses do capitalismo global. Cheguei à conclusão de que narrar as histórias de vidas de refugiados seria uma forma de dar visibilidade aos milhões de excluídos e vítimas diretas dessa nova ordem internacional, que continua a resultar em aumento de conflitos armados, guerras civis, perseguições a minorias étnicas e religiosas, torturas e massacres pelo mundo, os quais são constantemente ignorados pela mídia brasileira. Essa inexistência de informações sobre tais conflitos e de um debate crítico na mídia tradicional sobre suas causas, responsabilidade dos países desenvolvidos e dos organismos internacionais, bem como as consequências para a população civil, resultam em preconceito, intolerância e violência contra as principais vítimas dessa lógica: os refugiados.

 No livro você conta a história do Abdul*, que tinha 21 anos e nasceu no Irã, da Ana*, da antiga Iugoslava, da Karen*, da Colômbia, que na época tinha 17 anos e do Johnnie*, da República Democrática do Congo. Como foi o processo de apuração e do contato com as fontes? Você já conhecia essas pessoas?

(*) Os nomes dos refugiados das entrevistas foram trocados por questão de segurança.

Não, eu não conhecia nenhum deles. Aliás, até então, nunca tinha tido contato com nenhuma pessoa na condição de refúgio. Entrei em contato com a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, que é uma das organizações não governamentais que trabalha em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) no Brasil para prestar assistência humanitária e apoiar no processo de integração dos refugiados que chegam ao país. Estive diversas vezes no Centro de Acolhida para Refugiados mantido pela Cáritas, na cidade de São Paulo, em que pude conversar com os funcionários e também com refugiados que chegavam ao local. No processo de definição das histórias que contaria no livro, considerei importante abordar histórias de refugiados que chegavam de diferentes regiões e que fugiam por motivos diversos. Conto no livro a história de um refugiado da República Democrática do Congo, que fugiu da guerra civil que assolava o país na virada do século; de uma refugiada da Colômbia, país que vive uma situação de conflito armado e violência generalizada; de uma refugiada da Sérvia, que sofreu perseguição étnica durante o conflito nos Balcãs, na década de 1990; e de um refugiado do Irã, que foi vítima de perseguição religiosa em seu país, na década de 1980.

Foi muito importante durante esse processo o contato com o escritório do ACNUR, em Brasília, para que eu pudesse entender as questões jurídicas, ou seja, os tratados internacionais e legislações nacionais relativas ao tema, a ter acesso às estatísticas oficiais sobre refúgio no mundo e no Brasil, e a entender melhor como funciona o trabalho desenvolvido pelo ACNUR e a articulação com as instituições nacionais – governamentais e não governamentais – envolvidas no processo de acolhida, reconhecimento do status de refugiado e no processo de integração local.

Qual foi o maior desafio na realização do livro reportagem?

Realizar as entrevistas e fazer com os refugiados contassem em detalhes suas histórias com certeza foi o maior desafio, especialmente com relação àqueles que estavam a menos tempo nessa condição de refúgio, já que era muito difícil para eles relembrar todo o sofrimento vivido, a perda de familiares e amigos, as violências de que foram vítimas, tudo que deixaram para trás.

O que mais tocou você?

Todas as histórias me tocaram muito, não tem como não se sentir chocada diante de tanta injustiça, violência, violação de direitos básicos, e indignada ao lembrar que os responsáveis pelas decisões políticas nacionais e internacionais que geraram tais situações de violência generalizada ou perseguições individuais em sua maioria seguem impunes.

Ainda tem contato com as personagens/vítimas?

Não. Logo depois que terminei a graduação, me mudei para Brasília e acabei perdendo o contato com eles.

Precisamos de uma democracia que seja verdadeiramente intercultural/ Crédito: Arquivo Pessoal
Precisamos de uma democracia que seja verdadeiramente intercultural/ Crédito: ACNUR BRASIL/ V. Graziano

Apesar de o seu livro ter sido escrito em 2006 (há quase 10 anos), o tema ainda é bem atual.

Infelizmente, ainda é muito atual. Naquele ano em que escrevi o livro (2006), o total da população de preocupação do ACNUR (refugiados, solicitantes de refúgio, deslocados internos, apátridas) chegava a 19 milhões – incluindo 9,2 milhões de refugiados reconhecidos pela ONU e 5,6 milhões de deslocados internos, que são aquelas pessoas que são obrigadas a fugir pelos mesmos motivos que os refugiados, mas que não chegam a atravessar fronteiras internacionais, ou seja, fogem para outras regiões dentro do seu próprio país. De acordo com os últimos dados, esse total ultrapassa atualmente 42 milhões pessoas. No dia 20 de junho, quando é celebrado o Dia Mundial do Refugiado, o ACNUR lançou seu relatório anual e apresentou números ainda maiores. O que chamou minha atenção ao comparar os números de 2006 com os atuais é o impressionante crescimento no número de deslocados internos, o que revela não apenas mudanças nas características dos conflitos, mas também as consequências das políticas migratórias cada vez mais rígidas nos países desenvolvidos e o aumento da intolerância e da xenofobia em todo o mundo na última década. E, ainda, o contínuo crescimento da população total de preocupação do ACNUR demonstra o grande fracasso da resposta da comunidade internacional diante do aumento das situações de conflito armado e de crises humanitárias nas últimas décadas. Embora tenham crescido em número e tipos as operações de paz e humanitárias da ONU em todo o mundo, a população civil continua a ser a principal vítima desses conflitos.

A partir da sua experiência na área profissional e acadêmica, como você avalia o clima de hostilidade que os brasileiros vêm promovendo em relação aos imigrantes, principalmente os oriundos de países ditos mais pobres, como Haiti e da África? Por que isso ocorre e o que deve ser feito para combater a intolerância e o preconceito em relação aos imigrantes?

Em primeiro lugar, é importante ressaltar que esse aumento da hostilidade com relação ao estrangeiro, o aumento da xenofobia e da violência contra o imigrante ou refugiado, infelizmente é percebido atualmente não apenas no Brasil, mas em muitas partes do mundo, especialmente após os atentados terroristas no início do século nos Estados Unidos (2001), Madri (2004) e Londres (2005). Esses atentados legitimaram e deram força aos discursos mais conservadores e que têm resultado em políticas migratórias mais rígidas, bem como na criminalização e na securitização da questão da imigração. As correntes políticas anti-imigratórias passam a articular terrorismo, crimes transnacionais e imigração irregular, e a noção de ameaça iminente e a necessidade de proteger o Estado contra essas ameaças fazem com que esses discursos se proliferem. Assim, passam a fazer associar “islamismo” e “terrorismo”, por exemplo, e chegam a resgatar o discurso da “pureza racial europeia”, o qual num passado bastante recente resultou em grandes tragédias para toda a humanidade. É importante ressaltar, ainda, que algumas pesquisas mostram que o aumento da xenofobia na Europa, por exemplo, acontece justamente em momentos de crescimento econômico, por isso a associação direta entre crise econômica e financeira com o aumento da hostilidade é uma falácia, a questão é muito mais complexa. Não são as lógicas econômicas e financeiras diretamente que geram essa hostilidade – aliás, os trabalhos realizados por imigrantes têm sido fundamentais para o crescimento econômico em muitos países desenvolvidos -, mas as decisões políticas nacionais e no âmbito dos organismos multilaterais, as quais resultam em processos de exclusão social, étnica e cultural. Por isso entendo que o aumento da xenofobia é um problema político, social e cultural, e não apenas econômico, embora todas essas lógicas estejam intrinsicamente relacionadas.

Falando especificamente do Brasil, o que existe é um grande desconhecimento com relação aos conflitos contemporâneos e às situações que resultam em crises humanitárias, violência generalizada e perseguições. Esses conflitos e crises são ignorados pela mídia tradicional do país e, quando aparecem nas notícias são tratados a partir das informações oficiais produzidas por governos ou pelas agências internacionais, o que resulta em uma postura pouco ou nada crítica por parte da mídia e no tratamento superficial dessas questões. Como consequência, existe também um grande desconhecimento sobre o que é ser refugiado. E o desconhecimento, somado ao crescimento dos discursos políticos anti-imigratórios que associam a imigração irregular com o terrorismo e com crimes transnacionais, resulta em medo, preconceito, violência, xenofobia.

Por isso é tão importante e urgente o debate sobre a regulação da mídia no Brasil. É preciso repensar o papel e a responsabilidade dos veículos de comunicação. É fundamental também o investimento em políticas públicas nas mais diversas áreas que promovam a educação intercultural, políticas públicas que não apenas incluam a diferença de maneira formal e burocrática, mas que promovam a valorização e a inclusão dessa diferença nas estruturas do Estado e da sociedade. Os discursos oficiais sobre diversidade ou multiculturalismo revelam-se insuficientes e continuam restritos aos âmbitos da educação e da cultura. É preciso pensar essa questão da diferença de maneira mais ampla, com vistas a construir uma democracia que seja verdadeiramente intercultural.

O aumento da xenofobia é percebido não apenas no Brasil/ Crédito: Arquivo Pessoal
O aumento da xenofobia é percebido não apenas no Brasil/ Crédito: ACNUR BRASIL/ V. Graziano

Em sua opinião, por que o Brasil é uma escolha para esses imigrantes?

Temos que diferenciar as migrações da condição de refúgio. Embora a imigração também seja em geral forçada, ou seja, as pessoas se sentem pressionadas pelas condições econômicas e sociais a abandonar seus lares para tentar construir uma nova vida em outros países, ainda assim é uma condição diferente do refúgio. No caso do refúgio, a pessoa não tem escolha, ou ela foge, ou vai morrer, seja por um contexto de violência generalizada, ocasionada por um conflito armado, por exemplo, seja por uma perseguição individual devido à sua religião, etnia, orientação sexual, etc. No caso do refúgio é muito difícil que a pessoa consiga escolher o país de destino. Ela está vivendo uma situação de ameaça, de perigo iminente, e foge para onde consegue. Na década de 1980, cresceu significativamente o número de refugiados angolanos no Brasil, os quais fugiam da guerra civil e chegavam ao país pela proximidade linguística e cultural. Chegam também refugiados de diversos outros países africanos, muitos deles vêm escondidos em porões de navios e descobrem que estão no Brasil somente ao desembarcar. No caso da Colômbia e do Haiti, a proximidade geográfica contribuiu para a vinda de uma significativa população para o país. Além disso, muitos outros refugiados chegam ao Brasil por meio do programa de reassentamento do ACNUR, ou seja, chegam como refugiados em países e por algum motivo não podem continuar nele – seja porque esses países não reconhecem seu status de refugiado ou porque continuam a sofrer ameaças -, eles são reassentados pelo ACNUR em um terceiro país, e o Brasil faz parte desse programa de reassentamento.

Numa situação como essa, percebemos que o mundo não é tão sem fronteiras assim…

Não mesmo. Tenho pesquisado bastante sobre essas contradições inerentes à globalização – ou melhor, globalizações, no plural – e, em especial, à sua fase mais recente, marcada pelo capitalismo global. Embora esses processos mais recentes relacionados ao fenômeno da globalização tenham criado um fluxo de capitais e mercados sem precedentes, as fronteiras se fecham cada vez mais para os seres humanos. É preciso lembrar que a globalização é um processo bastante desigual, assimétrico. Enquanto uma minoria, especialmente em países desenvolvidos, se beneficia das facilidades promovidas pela globalização, por outro lado, as fronteiras têm se tornado muito mais rígidas para as populações mais pobres do planeta, as quais deixam para trás suas famílias para tentar construir uma nova vida em outro país, mas que acabam barradas pelas políticas migratórias. As barreiras são cada vez mais altas e fortes especialmente naqueles países responsáveis pelas decisões políticas e econômicas tomadas no âmbito dos organismos internacionais e que resultam em intervenções e conflitos internos. E, quando as vítimas desses conflitos conseguem atravessar uma fronteira internacional, as barreiras permanecem não mais como um muro de concreto, mas a partir da criminalização de sua condição e de sua identificação como imigrante ilegal e, de maneira mais profunda e complexa, na forma de barreiras simbólicas, ou seja, os imigrantes e refugiados continuam a sofrer com as políticas migratórias rígidas, que dificultam a integração, a busca por um trabalho, com a violência do Estado, e também com a xenofobia e o preconceito das populações locais. As fronteiras simbólicas estão ali, presentes no dia a dia de um migrante ou refugiado. Estamos muito longe da possibilidade de construção de uma cidadania universal, embora os entusiastas da globalização falem em desaparecimentos de todas as fronteiras.

SERVIÇO:

O livro A Esperança além da Fronteira, de Valeria Graziano, está disponível para consulta na biblioteca da PUC-Campinas, no Campus I da Universidade.

Informações em: (19) 3343-7058

 

Dom Helder Camara, um peregrino da justiça e da paz

Livro resgata história do arcebispo de Olinda e Recife, que lutou pela libertação da população pobre mundial

Por Amanda Cotrim

“Se ajudo um pobre, me chamam de humanista. Se questiono a pobreza, me chamam de comunista”. Essa frase é uma das marcas de Dom Helder Camara, um dos nomes mais importantes da Igreja Católica no Brasil e no Mundo, no século XX. Nem capitalista e nem comunista, Dom Helder era, acima de tudo, um homem religioso que lutou em vida pela libertação do povo pobre, explorado e marginalizado. Seu lema: “os homens fazem história”, e por isso, segundo Dom Helder, podem romper com o todo sistema de exploração e opressão. Esse e outros detalhes de sua vida são contados no livro “Dom Helder Camara – Um Profeta-peregrino da justiça e da paz”, do Diretor da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas, Professor Edvaldo Araújo, resultado de sua tese de doutorado. “A finalidade desse estudo foi compreender a vida e o pensamento de Dom Helder”. O livro tem cerca de 600 páginas e é uma realização da Editora Ideias Letras.

O livro do Professor Edvaldo Araújo é resultado de sua tese de doutorado/ Crédito: Álvaro Jr.
O livro do Professor Edvaldo Araújo é resultado de sua tese de doutorado/ Crédito: Álvaro Jr.

A trajetória de Dom Helder é reconhecida internacionalmente. No Brasil, o arcebispo emérito de Olinda e Recife recebeu o título de cidadão honorário em 30 cidades do país, 14 prêmios por sua atuação pela paz, quatro indicações ao Prêmio Nobel da Paz, além de 32 títulos de Doctor Honoris Causa, sendo 18 no exterior e 14 no Brasil. Em abril de 2015, o Vaticano autorizou a abertura do processo de canonização de Dom Helder, o pedido para que a Santa Sé, em Roma, analisasse a possibilidade de declarar o religioso santo foi enviado em 2014 pelas Arquidioceses de Olinda e do Recife.

“A notícia sobre a abertura do processo de beatificação de Dom Helder é o reconhecimento da Igreja sobre sua atuação que, a partir da perspectiva da fé, batalhou pela construção de um mundo mais justo e mais humano”, afirma Araújo. Segundo o professor, Dom Helder atuou principalmente no processo de libertação do povo latino-americano, buscando que toda a teoria e reflexão partissem de uma prática e, principalmente, que levassem a uma prática mais consciente e libertadora. “Ele acreditava que a superação do sofrimento do povo da América Latina, da África e da Ásia, regiões exploradas, pudesse se transformar em esperança capaz de mudar o sentido da história”, defende o professor Araújo.

Segundo Dom Helder, a realidade de injustiça social que traz consigo a negação do ser humano, era uma injustiça institucionalizada, é um pecado que “se encarna nas estruturas da sociedade, que se manifesta no abismo entre ricos e pobres”, explica Araújo. Entre as consequências dessa realidade de desigualdade social estão: a marginalização da pessoa humana, a contradição, o escândalo, a indiferença, o egoísmo e a espiral da violência. Segundo Araújo, para Dom Helder, a ausência de ética possibilitava a situação para violência atuar, e por isso toda violação da pessoa humana, social, cultural, econômica e política precisa ser banida da História.

Prof. Dr. Edvaldo Araújo é diretor da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Edvaldo Araújo é diretor da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.

A tese do professor Araújo, defendida em Roma, na Faculdade Teresianum, em 2004, é dividida em três partes, que correspondem aos deslocamentos geográficos e às transformações do pensamento de Dom Helder. A primeira fase vai de 1909 a 1936, com a formação familiar e os primeiros anos de sacerdócio, período vivido em Fortaleza, no Ceará. A segunda fase é de 1936 a 1964, no Rio de Janeiro, narrando o momento em que Dom Helder se confronta com a realidade enfrentada pelos pobres. Já a última fase é de 1964 a 1999, em que ele viveu na Arquidiocese de Olinda e Recife e trabalhou na defesa dos direitos humanos, “lutando pela justiça, se fazendo voz de quem não tem voz”, explica Araújo.

“Dom Helder rompeu o silêncio da cumplicidade e foi ao cerne do problema, ao denunciar a situação de violência institucionalizada, gerada por uma estrutura de dependência colonial e neocolonial. Ele toma posição diante do futuro: assume a tarefa transformadora e libertadora”, considera Araújo. Dom Helder Câmara morreu aos 90 anos, em Recife, no dia 27 de agosto de 1999. Atuou como um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Episcopal Latino Americano (CELAM) e foi um grande defensor dos direitos humanos e atuando contra o regime civil militar no Brasil.

Um olhar estrangeiro sobre Moçambique

Livro retrata o cotidiano do país africano que, em 2015, completa 40 anos de independência

Por Amanda Cotrim

Há quarenta anos (1975), Moçambique, na região sudeste da África, tornava-se independente de sua metrópole, Portugal. Mas essa recém-nascida independência oficial não é uma folha em branco; por isso, olhar para o país africano e não enxergar que ali, até pouco tempo, foi uma colônia explorada, pode perpetuar equívocos e preconceitos. A marca da exploração ainda está latente “Quando nos aproximávamos, os jovens fugiam. Por sermos brancos, eles tinham medo que fossemos sequestrá-los ou fazer-lhes algum mal. Depois que falávamos que éramos brasileiros, eles abriam um sorriso e diziam que somos irmãos”, conta o agora ex-estudante de Jornalismo da PUC-Campinas, Roberto Barreira. O jovem de 22 anos ficou um mês em Moçambique juntamente com os amigos Bruno Machado, 21, e André Montejano, 22. O objetivo: realizar um fotolivro no país africano que, segundo eles, ao mesmo tempo em que está distante, está bem próximo do Brasil.

A ideia de elaborar um trabalho sobre Moçambique surgiu durante a graduação no curso de Jornalismo da Universidade, em 2013. Depois de assistir a uma reportagem num programa esportivo, que mostrava uma instituição em Moçambique sendo ajudada pelo Palmeiras, clube de futebol paulista, Montejano não teve dúvidas: “Estava determinado em retratar a realidade e o sorriso do moçambicano”, afirmou. Como bom jornalista, o jovem conseguiu o contato da instituição e fez a proposta para os outros dois colegas de classe, que decidiram realizar o fotolivro para a disciplina de projeto experimental, no último ano da graduação- curso concluído em 2014. Bruno Machado, Roberto Barreira e André Montejano partiram para Moçambique no dia 5 de agosto e por lá ficaram durante 30 dias.

Foto: Bruno Machado
Foto: Bruno Machado

Os, agora, ex-alunos, viajaram cerca de quatro mil quilômetros entre a capital Maputo e a província de Zambézia. O fotolivro mostra o cotidiano da população das duas províncias por meio do olhar dos três estrangeiros. Ao todo, os jornalistas fizeram nove mil fotos. Desse número, 82 foram selecionadas para o trabalho acadêmico, que recebeu o nome de “Moçambique Ntiyisso”. (Ntiyisso é uma palavra do dialeto moçambicano, o changana, que possui dois significados: realidade e verdade).

Em Moçambique, os ex-alunos faziam, semanalmente, uma reunião de pauta, que definia o que seria realizado pelos jornalistas. Para conseguir “conquistar” a confiança da população, sem invadir o cotidiano dos moçambicanos que estavam sendo fotografados, os ex-alunos da PUC-Campinas tinham uma estratégia: “Brincávamos com as pessoas, quebrávamos o gelo da situação, conquistávamos a confiança para deixar o ambiente propício para a realização das fotos”, explica Barreira.

Crédito: André Montejano
Crédito: André Montejano

Método de trabalho:

Antes da viagem, os jornalistas realizaram uma breve pesquisa sobre Moçambique. Os ex-alunos puderam notar que há pouca informação sobre o país. “Como o Brasil, nesse sentido, não conhece o país africano, decidimos explorar esse caráter de novidade”, explicou Machado. “Eu preferi não pesquisar muito para não contaminar meu olhar. Fui surpreendido. Imaginava um lugar sujo, abandonado e muito pobre. Porém, pude notar que a capital Maputo é um centro urbano como outro qualquer. E os moçambicanos são muito parecidos com os brasileiros. Então, a gente se via neles”, reflete Montejano.

O trabalho de fundamentação teórica- exigência na disciplina de Projeto Experimental- dialogou com bibliografias sobre ética no fotojornalismo, memória, história oral e antropologia visual. Sob orientação do Prof. Me. Nelson Chinalia alcançou méritos na avaliação geral.

Foto: Bruno Machado
Foto: Bruno Machado

A meta, agora, é lançar uma nova edição do fotolivro, com as imagens que ficaram de fora da edição acadêmica. “Como em 2015 completam-se 40 anos da independência de Moçambique, queremos aproveitar esse gancho para fazer o lançamento. Já temos convite de uma TV moçambicana para mostrar o livro lá. Esse é o novo objetivo”, conclui Montejano.

Confira o vídeo das Crianças da tribo Macena, em Mirerene, uma vila na Província de Zambézia. O dialeto é o Cena, clicando aqui. 

 Crédito: Bruno Machado

Livro resgata memória “perdida” de Campinas

Por Amanda Cotrim

No dia 18 de setembro de 1932, um domingo, a cidade de Campinas, no interior de São Paulo, era bombardeada pelo governo provisório de Getúlio Vargas. Foram vários dias de sobrevoo no Município com panfletagem de um governo que tentava convencer os paulistas que a guerra de São Paulo era separatista. Nesse domingo, um menino escoteiro, 10 anos, de nome Aldo Chioratto, mensageiro do exército paulista, pegaria um trem até Sumaré (cidade vizinha). Pegaria. Aldo foi assassinado durante o bombardeio. Quem decidiu resgatar essa história e, conseqüentemente, o papel da cidade de Campinas na Revolução de 1932, foi o jornalista e docente no curso de Jornalismo da PUC-Campinas, Prof. Me. Saviani Rey. Segundo ele, essa memória é “ocultada” dos campineiros, que não sabem, por exemplo, que a cidade exportou dois mil voluntários que lutaram e morreram na Guerra Paulista. O livro “O Menino Herói da Guerra Paulista – o bombardeio de Campinas” traz elementos literários para contar uma história que é real: existiu um bombardeio em Campinas que vitimou um menino, cujo caminho foi atravessado pela História. O material foi editado pela editora Pontes.

Livro O Menino Herói da Guerra Paulista (crédito: divulgação)
Livro O Menino Herói da Guerra Paulista (crédito: divulgação)

Confira a entrevista:

Jornal da PUC-Campinas: Por que surgiu a ideia de realizar um livro sobre a Revolução Constitucionalista de 1932?

Prof. Saviani: Ao longo da minha carreira, produzi diversas crônicas sobre temas, geralmente ocultos, que envolvem a cidade de Campinas. A ideia de escrever sobre o bombardeio que o município sofreu, na década de 1930, em razão da Revolução Constitucionalista, é antiga. Meu pai mentiu a idade para as autoridades para poder lutar na guerra. Infelizmente, até então, ninguém tinha escrito sobre esse bombardeio em Campinas e sobre os personagens envolvidos por esse fato histórico. Não há memória de que a cidade teve dois mil voluntários que foram lutar na guerra, ao lado dos paulistas.

Jornal da PUC-Campinas: Como foi construída a narrativa do livro?

Prof. Saviani: O romance histórico é dividido em duas partes: o Menino e a História. O personagem é Aldo Chioratto, um menino, escoteiro, que era mensageiro das tropas paulistas. Ele existiu. Mas é pouco conhecido. O livro é um romance calcado em realidade, ou seja, não existe nenhuma informação inverídica. No entanto, a forma como essa narrativa foi construída traz, sim, elementos literários. As atitudes das pessoas são literárias, mas os fatos são reais. Eu pesquisei quem foi Aldo Chioratto, que morreu aos 10 anos de idade, e cuja morte abalou toda a cidade. Os parentes mais próximos de Aldo, hoje vivos, são seus sobrinhos. Seguindo os traços do que a história conta, pude me aproximar de quem era esse menino.

Jornal da PUC-Campinas: Conte-nos quem foi esse menino Aldo Chioratto?

Professor Saviani: A história atravessou o seu caminho: Aldo era filho de um tintureiro, de família de classe média baixa, que morava no centro de Campinas. Desde meus seis anos de idade eu sabia quem era Aldo. Meu pai contava-me histórias fabulosas sobre a coragem dos paulistas, a luta que envolveu outros dois mil campineiros. Eu, ainda criança, ia com ele até o Mausoléu dos Voluntários, no Cemitério da Saudade, em Campinas, ouvir sobre a bravura do povo paulista. E o rosto de Aldo também estava ali no mausoléu. Era o rosto de uma criança. E eu também era uma criança.

Docente na Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas (Foto: Álvaro Jr).
Docente na Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas (Foto: Álvaro Jr).

“Que lindo era aquilo! Sentia-me orgulhoso! Passear com as mãos presas às mãos de meu pai, trêmulas, ele emocionado e derramando lágrimas, e eu observando aquelas colunas de cimento, os nomes dos heróis tombados, a bandeira de treze listas e… seu rosto de menino, ali, como o meu rosto, o rosto de um menino morto!” (trecho do livro)

Eu perguntava para o meu pai quem era aquele menino? E ele me contava sobre a morte de Aldo: um menino, escoteiro das tropas constitucionalistas, que havia sido atingido pelas bombas disparadas de um avião Vermelhinho do Getúlio Vargas, que bombardeou Campinas.

Jornal da PUC-Campinas: Por que o senhor acredita que não existe um resgate histórico dessa época?

Professor Saviani: As pessoas não tinham interesse em guardar. Tudo é muito burocrático. Não havia uma preocupação com a documentação dos fatos. Eu me vali de livros de arquitetura e jornalismo, para poder entender Campinas da década de 1930.

Jornal da PUC-Campinas: Como era Campinas nessa época?

Professor Saviani: Campinas tinha rompido com os padrões convencionais do Império e se ampliava, com indústrias de velas, empresas, comércio. Precisei fazer leituras fora do plano da história. O livro narra, por exemplo, quem foi Orosimbo Maia e sua relevância para o período. Eu digo no livro que no Brasil havia uma insatisfação com a política do “Café com Leite” e o Tenentismo foi contrário à dominação dos fazendeiros do café.

Jornal da PUC-Campinas: O livro foi escrito em quanto tempo?

Professor Savini: Sou jornalista. Sempre trabalhei com deadline. Sempre pensei: tenho de conseguir X de conteúdo para o horário que eu vou fechar a matéria. Aprendi a me mobilizar em um espaço curto de tempo para reunir dados. Eu escrevo rapidamente. Sou capaz de produzir 100 páginas em 1 hora. Eu fui atrás da pesquisa em julho de 2014: reuni dados e, mais especificamente, do dia 12 de outubro, até a última semana de novembro, eu fechei o conteúdo. Não sei se isso é bom ou não.

Jornal da PUC-Campinas: O senhor teve algum apoio financeiro para realizar o livro?

Professor Savini: Não. As 146 páginas do livro foram realizadas com meus próprios investimentos. Mas é preciso ressaltar que o material teve a colaboração do docente da Faculdade de Jornalismo, Prof. Me. Fabiano Ormaneze, que realizou a revisão final do livro.

Trabalho informal, que de tão informal passa despercebido

Estudo realizado  mostra que trabalho e consumo estão indissociáveis

Por Amanda Cotrim

Elas são mulheres de todos os tipos, como já cantou Martinho da Vila. As revendedoras de produtos cosméticos têm rostos variados, estão na periferia e nos bairros de classe média alta de São Paulo. Têm curso superior ou não. Elas podem ou não estar empregadas. Não importa, pois, no fundo, todas são consumidoras dos produtos que revendem. Essa forma de trabalho traz características complexas, pois, se de um lado a revendedora não precisa “bater o ponto” diariamente numa empresa, e isso gera uma grande sensação de autonomia, por outro, ela assume todos os riscos e prejuízos que seriam da empresa de produtos cosméticos. Questões como essas são abordadas no livro “Sem Maquiagem – o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos”, da professora da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-Campinas, Ludmila Costhek Abílio, lançado recentemente pela Editora Boitempo. O livro é o resultado da sua tese de doutorado, defendida na Unicamp.

Capa do livro "Sem Maquiagem"
Capa do livro “Sem Maquiagem”

 “O trabalho informal passou a me chamar a atenção desde os tempos do mestrado, em 2005. E atividades como essas das revendedoras são muito difíceis de serem contabilizadas, pois sequer são vistas como um trabalho”, explica Ludmila. Apesar de ser um trabalho informal, são atividades que não têm “cara” de trabalho. “Diferentemente de atividades informais, como os ambulantes, ser revendedora parece um lazer” contextualiza.

 Para realizar a pesquisa, Ludmila enviou 100 pedidos de entrevistas (muitas revendedoras têm cadastro na empresa, o que facilitou a localização). Desse número, 30 retornaram. A partir daí, a pesquisadora realizou entrevistas semiestruturadas e optou pelo estudo de trajetória de vida. “Eu queria entender como essa mulher se tornou uma revendedora, de onde ela é e o que ela faz”, conta. Segundo a docente, a vida de uma pessoa é uma microanálise. “Quando eu vejo a vida de uma pessoa, estou olhando e vendo o mundo”, completou. Depois da décima quinta entrevista, explica, as respostas começaram a se repetir e as questões centrais da pesquisa, portanto, foram se reconfirmando.

Um dos aspectos tratados no livro é a relação entre o trabalho informal e a tecnologia, que, segundo Ludmila, traz uma forma moderna de flexibilização do trabalho e mostra novas formas de exploração. “Como não parece que a revendedora está trabalhando, porque ela faz isso nas ‘horas vagas’, essa nova configuração do trabalho quase não tem limites, porque a pessoa trabalha o tempo inteiro”, constata.

Para a empresa de produtos cosméticos o negócio é muito bem-sucedido. Segundo a docente, além da relação empresa x revendedora não gerar qualquer vínculo empregatício, a empresa consegue garantir a distribuição de seus produtos no Brasil inteiro. Outro ponto relevante é que nessa configuração não fica claro o que é trabalho e o que é consumo: “Se você revende, tem 30 % de comissão. Então, de 10 reais, você paga 7 reais. Muitas mulheres, portanto, viram revendedoras para ter desconto. Contudo, a questão é mais delicada. Porque não é possível ser apenas consumidora, uma vez que para ter acesso aos produtos é necessário atingir um determinado número de pontos mensais de venda; é um critério para entrar na rede”, explica.

A pesquisadora também observou que não há estoque na empresa de cosméticos e a inadimplência das revendedoras é baixíssima. “O estoque fica na casa dessas mulheres. A produção da empresa é de acordo com o pedido das revendedoras feito pelo site. Além disso, o boleto bancário é o que ‘amarra’ juridicamente essa relação. A revendedora, na verdade, é uma compradora dos produtos”, ressalta.

O livro também aborda sobre como outros formatos, sem forma de trabalho, estão adentrando a vida das pessoas, mobilizando uma relação que é social. “Pensando para além das revendedoras, quando eu mesma compro minha passagem aérea pelo site da empresa, eu estou trabalhando para a companhia, porque eu elimino um trabalho que deveria ser feito por um funcionário. Isso é um serviço. Estou consumindo, mas para a empresa é economia de trabalho”, reflete. “Hoje o mundo do trabalho e do consumo estão interligados”, resumiu.