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A hora e a vez de mercadejar

Por Wagner Geribello

O Novo Aurélio, Dicionário da Língua Portuguesa, dedica treze linhas ao verbete natal, classificado como adjetivo que identifica local de nascimento, substantivo que define data de nascimento e, restritivamente, “Dia em que se comemora o nascimento de Cristo (25 de dezembro)”.

Em artigo estampado nesta edição do Jornal da PUC-Campinas, o Professor Vinicius Ferrari mostra que, contemporaneamente, natal (e o Natal) não se identifica com as ordenações lexicográficas do termo, nem com o sentido religioso da data, reduzindo-se ao objetivo consumista daqueles que compram, articulado com a avidez lucrativa de outros que vendem, confirmando análises reveladoras (de Herbert Marcuse, por exemplo) da perversa capacidade capitalista de incorporar, transformar e aproveitar em favor próprio tudo quanto existe, incluindo, até mesmo, aquilo que, por princípio e em princípio, questiona e antagoniza o próprio capitalismo.

Todavia, como não existe prática social inconsequente nem decisão pessoal inócua, a materialização econômica, substituindo manjedoura por festival de vitrinas, solidariedade pela troca de presentes e o simbolismo da guirlanda pelo frenesi do cartão de crédito acaba por deixar a gruta do recém-(re)nascido vazia e vazio de sentido o Natal verdadeiro, explicitado no Aurélio.

As consequências dessa “economização” são profundas, amplas e drásticas, seja porque estimulam o materialismo que “desumaniza” a sociedade, seja porque acentuam as diferenças que antagonizam os seres humanos, seja ainda porque afastam as pessoas das origens culturais e das convicções religiosas.

Não são poucos nem desconhecidos estudos e análises que associam a materialização exacerbada das sociedades à deterioração das condições de vida. Rompimento de laços afetivos, solidão e sectarismo são apenas alguns exemplos dos problemas afetos às sociedades excessivamente materialistas, que formalizam o relacionamento entre as pessoas pela redução de tudo e todos à instância econômica, definida pelo binômio produzir/consumir.

Análises comparativas mostram que relacionamentos intermediados pela oferta e recebimento de bens “presenteáveis” tendem a reduzir, inversamente, suas instâncias afetivas. Por exemplo, nas sociedades consumistas é possível observar a substituição dos relacionamentos de fraternidade e solidariedade pela troca de presentes no dimensionamento das interações de amizade e companheirismo.

Mesmo nas instâncias mais sólidas, que envolvem relacionamento de sangue, presentear acaba orientando modos e práticas de autovalorização e valorização do outro, como as crianças que avaliam a família (e o Natal em família) a partir dos presentes que ganham, ou deixam de ganhar.

Criar e exacerbar diferenças valorativas também figuram entre as consequências da redução unilateral do Natal à instância econômica. Para tanto, não é preciso ir além do modo como o valor de troca (leia-se preço) dos presentes ofertados e recebidos impacta na hierarquização das pessoas e dos relacionamentos. Nesse sentido, o Natal, idealmente identificado com união e igualdade, acaba separando a sociedade em castas e colocando “cada qual no seu lugar” a partir do ordenamento simbolizado nos presentes.

O rompimento dos laços com a herança cultural também aparece entre os efeitos negativos provocados pelo consumismo, em primeiro lugar porque ele próprio, enquanto mote de todas as intenções natalinas, é alienígena, culturalmente falando. Como demonstra com bastante precisão o artigo do Professor Vinícius Ferrari, a “economização” do período natalino tem data de nascimento e local de origem, de onde foi exportada para se impor como tendência universal. Aqui, nas terras brasileiras, é possível observar com muita clareza o abandono das celebrações religiosas e familiares em favor das excursões ao shopping, bem como mudanças consequenciais diversas, como a troca do presépio pela simbologia estrangeira dos bonecos de neve e gorrinhos de frio, inversos e adversos ao verão dezembrino do hemisfério sul.

A mercantilização domina, também, a própria avaliação do Natal, que é bom quando crescem os índices e os gráficos da atividade econômica, caindo para sofrível ou ruim quando badulaques e bugigangas destinados ao redor da árvore de Natal ficam entulhadas nas prateleiras. Nos tempos que precedem e sucedem o Natal, a mídia reporta com relativa fidelidade e os estardalhaços de praxe essa indissociável relação entre a variação das cifras econômicas e o consequente “valor” do Natal.

Assim, embrulhado para presente e precificado pelo oportunismo, a cada ano um pouco mais, o Natal se afasta do que deveria ser, para ser o que nunca pretendeu: hora e vez  de mercadejar.

Prof. Dr. Wagner Geribello / Álvaro. Jr.
Prof. Dr. Wagner Geribello / Álvaro. Jr.

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Prof. Dr. Wagner Geribello é Consultor do Jornal da PUC-Campinas

Ciência e Mídia estão na mesma estrutura mercadológica

Por Amanda Cotrim

Depois que o cineasta brasileiro Fernando Meirelles abordou a dificuldade dos cientistas em se comunicarem com o público, durante o Congresso Brasileiro de Unidade de Conservação, em setembro, a relação entre mídia e ciência voltou a ganhar contornos nos debates entre cientistas e jornalistas. Como falar sobre temas tão complexos para o grande público? De quem é a responsabilidade pela divulgação científica?

Edson Rossi: "sem o jornalismo de ciência, é a sociedade que perde". Crédito: Álvaro Jr.
Edson Rossi: “sem o jornalismo de ciência, é a sociedade que perde”. Crédito: Álvaro Jr.

Nessa relação entre cientistas e jornalistas existe uma assimetria de expectativa. O jornalista busca uma coisa e o cientista outra. Essa é a conclusão que chega o professor de Jornalismo da PUC-Campinas, Edson Rossi, que tem mais de 30 anos de experiência no mercado da notícia. “O objetivo do jornalista não é tratar o assunto com a densidade e o espaço que o pesquisador dedica. O profissional de imprensa vai lidar com o assunto, no máximo, por algumas horas. Se o pesquisador não entender minimamente como a imprensa funciona, ele terá dificuldade de lidar e não ficará satisfeito com o resultado final”.

Profa. Dra. Vera Placido, docente no curso de Geografia- Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Dra. Vera Placido, docente no curso de Geografia- Crédito: Álvaro Jr.

A Profa. Dra. Vera Placido, docente no curso de Geografia da PUC-Campinas destaca que, no nosso atual contexto territorial em que as informações chegam de diferentes formas e se utilizam de meios também distintos, é fundamental que a ciência se aproxime da mídia, em especial dos profissionais de jornalismo, para se pronunciar de forma mais imediata e esclarecedora possível. “Eu acredito que é possível uma aproximação em prol de objetivos convergentes, como é o caso de informar corretamente, num primeiro momento e, posteriormente, contribuir com o processo de formação cultural da sociedade como um todo”, considera.

“O objetivo do jornalista não é tratar o assunto com a densidade e o espaço que o pesquisador dedica. O profissional de imprensa vai lidar com o assunto, no máximo, por algumas horas. Se o pesquisador não entender minimamente como a imprensa funciona, ele terá dificuldade de lidar e não ficará satisfeito com o resultado final”

No que tange as questões ambientais, segundo a professora Vera, essa aproximação se torna ainda mais necessária, já que o ambiente envolve a todos e impacta a qualidade de vida. “Divulgar corretamente o que está acontecendo, bem como as medidas que possam ser adotadas no sentido de mitigar os impactos, é função não apenas de uma mídia comprometida, mas da própria ciência que deve contribuir com informação segura sobre os diversos temas, esclarecendo a população sobre o seu papel e sua função”, enfatiza.

Além de uma questão de linguagem, a relação conflituosa e desconexa entre cientistas e jornalistas é resultado da complexa estrutura que começa desde a universidade. Essa é a questão colocada pela Pesquisadora em Comunicação e docente no Centro de Linguagem e Comunicação da PUC-Campinas, Profa. Dra. Márcia Rosa. Para ela, a produção científica e a produção jornalística estão inseridas em universos parecidos e por isso divergem. Ambas as produções são reguladas por uma estrutura mercadológica, segundo ela. “Muitas vezes, o pesquisador não está preocupado e nem tem interesse na divulgação científica do seu trabalho pela mídia. Ao contrário, a divulgação até pode atrapalhar que esse pesquisador consiga novos financiamentos. Então, o cientista está numa estrutura de mercado em que ele também compete com a imprensa. O pesquisador precisa publicar nas revistas científicas, realizar artigos, produzir. Ou seja, os cientistas passam pelas mesmas questões que passam os jornalistas numa redação. Cada um desses profissionais buscará os seus interesses”.

Márcia Rosa- Professora no Centro e Linguagem e Comunicação - Crédito: Álvaro Jr
Márcia Rosa- Professora no Centro e Linguagem e Comunicação – Crédito: Álvaro Jr

Novas formas de comunicar ciência

“Vivemos uma estrutura com paradigmas do século XIX, mas com os jornalistas e cientistas que são do século XX e XXI e isso causa um caos, uma vez que cientistas e jornalistas continuam com hábitos do século XX. Essa estrutura não permite mais que a comunicação se realize de forma passiva entre jornalista e fonte. A relação hoje é dialógica. Em rede. São vários interlocutores e reações”, contextualiza Márcia Rosa.

As redes sociais fazem parte dessa comunicação dialógica e servem como um espaço de embate de versões entre pesquisadores e jornalistas. “Se o jornal disser X, o pesquisador, imediatamente, vai à rede social desmentir o jornal”, avalia o jornalista Edson Rossi.

Com pouco espaço para as notícias de ciência, quem perde é a sociedade, defende Rossi. “Por mais que os conflitos existam, o fato de cotidianamente se falar sobre ciência no jornal, inevitavelmente se formará um público no assunto. Às vezes o pesquisador não quer divulgar nos veículos de massa, apenas revista cientifica segmentada”, constata.

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Para Rossi, “o pesquisador que abre mão do grande veículo de imprensa para se comunicar, pode achar que isso não fará diferença do ponto de vista da pesquisa, mas o que ele pesquisou (o que não deveria ser em causa própria) deixará de ser dividido com as pessoas. O cientista também está deixando de contribuir para a educação científica. É a sociedade que perde”, conclui.

O mercado da atenção

Na era da Informação, o usuário da internet tornou-se um produto para as mídias sociais e um consumidor para as marcas. A atenção das pessoas é o bem mais valioso no território digital

 

Por Amanda Cotrim

Na Era da Informação, o bem mais valioso é o seu tempo. Isso mesmo, o tempo que você, leitor, está usando neste momento para acompanhar esta reportagem. Essa tese foi defendida pelo economista e pesquisador do campo da psicologia cognitiva e informática, Hebert Simon, ainda na década de 1970. Simon foi um dos primeiros a descrever o fenômeno da “Economia da Atenção”. Em 2015, o Jornal da PUC-Campinas “confessa que ficará satisfeito”, se você continuar lendo o conteúdo dessa página até o final.

Para disputar a sua atenção, leitor, existem grandes organizações, como Google, Facebook e Youtube,entre outras mídias sociais, que não cobram do seu usuário, oferecem serviços gratuitos, mas vendem a sua atenção para a publicidade. “O usuário na verdade não é mais um usuário, ele é um produto e, às vezes, um consumidor”, explica em entrevista ao Jornal da PUC-Campinas, o ex-aluno da Universidade, formado em Sistemas de Informação, Julio Cunha.

Atualmente, Julio trabalha com marketing digital e é uma das referências no assunto. Segundo ele, as redes sociais captam a atenção do público-produto e as vende no mercado digital. “Tem muitas pessoas que estão ganhando cerca de 100 a 500 mil reais por mês só gravando vídeo no Youtube. São os famosos Youtubers”.

Mapeamento do usuário-produto

As grandes organizações, como Google, Youtube e Facebook, entre outras, analisam por meio de inteligência artificial, tudo o que você, leitor, faz nas redes sociais e, a partir daí, te oferecem uma seleção de postagens que eles entendem que são do seu gosto. Quando você interage, clicando, compartilhando, curtindo ou comentando na postagem, a rede social registra o teu comportamento e procura repetir isso, promovendo um ambiente favorável para que você passe mais tempo na rede.

As empresas devem ter cautela ao publicar conteúdo polêmico ou que “choque” sua audiência- Crédito: Álvaro Jr.
As empresas devem ter cautela ao publicar conteúdo polêmico ou que “choque” sua audiência- Crédito: Álvaro Jr.

E qual é o segredo para que uma postagem tenha a atenção das pessoas na internet? Para Julio, não tem segredo, “precisa ser um vídeo que as pessoas gostem e que gere engajamento”, pontua. “Quem determina o valor que será pago é o anunciante, e vai depender do segmento e da qualidade do conteúdo, quem vai dizer se o post é bom ou não são os usuários-consumidores”, acrescenta.

O Google está programado para realizar uma busca semântica, levando em consideração a região demográfica da busca, o navegador da internet, as buscas que o usuário costuma realizar e o contexto da frase. O tempo de permanência na página, em quantas páginas a pessoa entrou e se ela voltou a repetir a mesma busca, são índices considerados para o aperfeiçoamento da plataforma.

Quando o usuário busca algum produto em um site, essa busca em forma de anúncios vai aparecer tanto no Facebook, Google, blogs, twitter, etc., usando a técnica do remarketing, ou cruzamento de mídias. “Não há nenhuma parceria entre as empresas. Cada uma dessas plataformas tem uma espécie de “chip rastreador”. O remarketing pode representar 30% a mais de vendas para uma empresa”, considera.

“Você é um produto para as mídias sociais e um consumidor para as marcas que anunciam nas redes sociais. O tempo é a grande mercadoria da internet”, esclarece. E diferente das outras mídias, como a televisão e o rádio, na internet não existe horário nobre. “O horário nobre pode ser às 2h da manhã”, completa.

Por que alguns conteúdos viralizam mais do que outros?

A atenção é o bem mais valioso na era da informação- Crédito: Álvaro Jr.
A atenção é o bem mais valioso na era da informação- Crédito: Álvaro Jr.

Para entender as redes sociais é preciso entender o ser humano, acredita Julio. “As pessoas tendem a se sensibilizar com postagens que envolvem crianças e animais, além de conteúdo trágico ou engraçado. Por sua vez, as redes sociais reproduzem mais o que tem mais visibilidade. Então é um ciclo vicioso. Uma causa social tende a unir mais as pessoas, fazendo o conteúdo ‘viralizar’, seja por revolta, raiva ou compaixão”, explica.

Julio alerta, porém, que as empresas e as pessoas devem ter cautela ao publicar conteúdo polêmico ou que “choque” sua audiência. “As polêmicas dividem as pessoas, e para uma marca, uma empresa, um artista, por exemplo, isso não é bom, à medida que ao se posicionar sobre algo, a empresa perde pelo menos metade de um público em potencial”, opina.

Para o especialista em marketing digital, tomar cuidado com o conteúdo da postagem também pode ser uma pista sobre como os grandes jornais brasileiros devem se comportar nas redes sociais. “Por mais que esses jornais tenham audiência e credibilidade, não é qualquer tipo de assunto que as pessoas que estão na internet querem ver. Em minha opinião, os jornais erram nas pautas e acabam não tendo retorno financeiro nas redes sociais, uma vez que jornal vive de anúncio e dentro do Facebook quem vende o anúncio é o Facebook e não o jornal”.

Apesar de a rede social ser usada pelos grandes jornais como ponte para que o internauta acesse seu conteúdo noticiado, é muito difícil, segundo Julio, tirar o usuário da sua zona de conforto, que é a tela da rede social. “E tem outra coisa, a mesma informação que um grande jornal está postando, o outro grande também está postando e o pequeno também está postando. O usuário já tem a mesma informação vinda de sete fontes diferentes. Dependendo do assunto, o usuário não vai sair da sua zona de conforto para acessar a página do grande jornal”. É aí, para ele, que mora o perigo das pessoas compartilharem informações mentirosas, sem checar a fonte.

 A informação na era digital

 Qual seria o caminho da imprensa, então? Julio aposta que os jornais têm de selecionar suas postagens nas redes sociais e não postar todo o conteúdo que está naquela edição, como se o Facebook fosse um “depósito de informação”. “Os jornais deveriam selecionar quais são as manchetes do dia e direcionar esse conteúdo nos horários de pico do Facebook. Em vez de ele colocar 70 postagens no dia, ele colocará 10”.

“As empresas erram em suas estratégicas de marketing, porque a rede social é lugar de gente e não de empresa, por isso elas têm pouco engajamento, no geral. Em minha opinião, os anúncios no Facebook às vezes causam mais repulsa do que engajamento”.

Julio compara as do Facebook com uma praça em que o usuário vai para trocar figurinha com os amigos. “Já o Google seria a biblioteca. Na biblioteca você não sai gritando e sim procurando a informação que deseja; já numa roda de amigos as pessoas falam e/ou gritam. As empresas precisam entender que no Facebook elas estão numa roda de amigos e precisam falar ou gritar juntos a mesma coisa”.