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A arte do presépio no mundo atual

Por Paula Elizabeth de Maria Barrantes

A primeira representação conhecida da natividade aconteceu nas Catacumbas de Priscila, em Roma, entre os séc. III e IV d.C. Do séc. IV em diante ganham força os sarcófagos, período paleocristão, momento em que o cristianismo foi autorizado por Constantino. As representações seguem na forma de trípticos, pinturas e iluminuras durante a idade média.

Em 1223, inovadoramente, São Francisco de Assis encena numa gruta de Greccio e à noite, o nascimento de Jesus, a encenação retirava os ouvintes da reflexão passiva e os colocava dentro do cenário, numa natividade dramática e tridimensional. A experiência prosperou e nos séc. XVIII e XIX os presépios pequenos começam a se espalhar pelo mundo em virtude da abertura dos canais comerciais e da imigração dos artistas.

Hoje, os lares católicos habituaram-se à montagem do presépio no Natal, todavia, sabem os católicos o significado de cada elemento que compõe o presépio? Sendo Jesus o símbolo unificador de todos os povos teria ele apenas uma etnia? Dentro da iconografia, os presépios podem ter apenas a Sagrada Família e os Magos conforme o Evangelho de Mateus (Mt. 2,2), relato dos reis e das nações, a estrela torna-se o símbolo de Deus que guia e ilumina.

Aristides. Presépio de palha de milho na cabaça, ano 2000, Minas Gerais. Coleção Valter Polettini. Foto: Paula Barrantes
Aristides. Presépio de palha de milho na cabaça, ano 2000, Minas Gerais. Coleção Valter Polettini. Foto: Paula Barrantes

Alguns podem conter apenas a Sagrada Família, ou seja, o momento do nascimento do unificador. Mas, quando a Sagrada Família e os pastores completam o presépio, incluindo aí a singular figura do Bom Pastor, estamos no Evangelho de Lucas onde anjos anunciam a chegada de Jesus aos pastores (Lc 2,15). Por fim, existem presépios que, não raro, trazem a Sagrada Família, a estrela, o anjo, os pastores e os Magos. No momento em que nos deparamos com estas interessantes obras estamos diante da união de Mateus, Lucas e do livro dos Salmos (Sl 72, 1-20). Caberá ao filho de Deus a justiça no tratar os pobres e oprimidos; aos povos do deserto e, igualmente, aos reis de Társia, da Arábia e de Sabá. Todas raças da Terra e todas as nações o proclamariam feliz.

A arte do séc. XX e XXI traduz nos materiais e nas concepções uma aproximação com a mensagem original, demonstrando que a arte e o artesanato não se afastaram da natividade. Ao elaborar os presépios de papel, cerâmica, plásticos e recicláveis, vidro, tecidos, fibras naturais, biscuit, pedra, ouro ou prata, ou seja, ao apropriar-se de materiais pertencentes ao seu universo individual o artista recria a natividade conferindo-lhe um novo aspecto social e cultural. As diversas etnias encontradas nos presépios demonstram um avanço no sentido da tolerância e do entendimento, na medida em que podem conter todos os tipos de cabelos, cor de pele e vestes. Atualmente, estas obras de arte contém uma carga considerável de crítica e reflexão, sempre respeitando a iconografia dos evangelhos.

A exposição “Presépios artesanais: a natividade no mundo” do Museu Arquidiocesano de Campinas oferece a possibilidade de uma viagem pela produção da Ásia, Oriente, Europa e Américas, pertencente ao colecionador Valter Polettini.

Paula Elizabeth de Maria Barrantes é Doutoranda em História da Arte e Curadora do Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas

 

 

Primeiro Museu de Arte Sacra do estado de S. Paulo

Museu Arquidiocesano de Campinas inaugura sua nova sede no bairro Nova Campinas. Espaço cultural terá minicursos, pesquisa e interatividade

 

Por Amanda Cotrim

A nova sede do primeiro Museu de Arte Sacra do Estado de São Paulo é fruto de muito trabalho. Mas também é conseqüência de um desejo de preservar a memória, tanto do ponto de vista artístico, quanto histórico. O Museu, que nasceu em 1964, já teve algumas moradas em Campinas, como um edifício na Avenida Aquidabã e o consistório superior da Catedral Metropolitana de Campinas. Apesar do esforço de muitas pessoas em preservar o acervo, era preciso mais. “A iniciativa de ter um espaço apropriado para o Museu surgiu do Arcebispo Metropolitano de Campinas, Dom Airton José dos Santos. Ele resgatou o sentimento de que era preciso preservar o patrimônio”, comenta a historiadora da Arte, que participa do projeto, Paula Elizabeth de Maria Barrantes. “Dom Airton alude à necessidade de espaço físico mais adequado que abrigue e valorize o rico acervo, bem como para melhores condições de acessibilidade do público, dentro de um projeto que visa também fazer do mesmo edifício um centro de memórias da Igreja de Campinas”, explica o Doutor em História e Bens Culturais da Igreja e Coordenador do projeto de reestruturação do Museu, Monsenhor Rafael Capelato.

Padre João Augusto Pezzuto, responsável pela restauração do acervo./ Crédito: Álvaro Jr
O Historiador Gabriel Amstalden e Paula Berrante, historiadora da arte- Crédito: Álvaro Jr

Esse importante passo para a cultura do estado e da cidade começou em 2014 e tem o apoio da Arquidiocese de Campinas, desde o projeto de reestruturação, a organização e a condução do mesmo. “A PUC-Campinas, por meio da Diretora da Faculdade de História, Profa. Dra Janaina Camilo e da Reitoria da Universidade, na pessoa do Vice-Reitor, Prof. Dr. Germano Rigazzi Junior, teve participação de grande importância”, destaca o Monsenhor. A equipe que colocou em prática a ideia de resgatar o Museu contou ainda com a historiadora da arte Paula Barrantes, com os historiadores Luiz Raphael Tonon, Thiago Avansi, Gabriel Amstalden, Diego da Silva Souza; e com o Padre João Augusto Pezzuto, responsável pela restauração do acervo.

Padre João Augusto Pezzuto, responsável pela restauração do acervo./ Crédito: Álvaro Jr
Padre João Augusto Pezzuto, responsável pela restauração do acervo. / Crédito: Álvaro Jr

A nova sede do Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas está localizada no Palácio Episcopal, antiga casa de Dom Paulo de Tarso Campos, primeiro Arcebispo de Campinas, no bairro Nova Campinas. O local, com 1300 metros quadrados e 16 salas, abrigará 1200 peças. “O acervo, dividido em salas temáticas, conta a história das primeiras freguesias do Estado de São Paulo e as transformações dessas freguesias em cidade e depois em metrópole” explica Paula. “A arte sacra é a primeira manifestação artística do estado, sendo fundamental para o ensino da religião, por se tratar de uma forma fácil e rápida de ensino”, complementa.

A Professora Janaina Camilo, Diretora do Curso de História da PUC-Campinas e Coordenadora do Museu Universitário, explica que o Museu Arquidiocesano de Arte Sacra segue as normas previstas pelo Instituto Brasileiro de Museus e pela Carta Circular providenciada pela Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja, as quais orientam para “Função Pastorial dos Museus Eclesiásticos”, ou seja, “não basta para um Museu atingir sua função de formador de informação, propagador de ideias e reflexão histórica e arquitetônica. É preciso, também, que o espaço museal dialogue com a comunidade, promovendo a valorização das identidades e da memória social e cultural”, considera. Foi sob essa orientação que o projeto expográfico foi produzido, com vistas a efetivar o uso adequado do acervo combinado ao espaço físico.

Profa Dra Janaína Camilo, Diretora do curso de História da PUC-Campinas / Crédito: Álvaro Jr
Profa Dra Janaína Camilo, Diretora do curso de História da PUC-Campinas / Crédito: Álvaro Jr

O projeto expográfico contou com o apoio da equipe do Museu Universitário da PUC-Campinas, que ficou responsável pelo estudo das peças e da logística para a transferência do acervo da Catedral Metropolitana para o Palácio Episcopal. A Professora Janaina ressalta que nesse processo foi fundamental as visitas técnicas às cidades de São João Del Rei e Tiradentes, com orientação da Profa. Dra. Adalgiza Arantes Campos, docente de História da Arte da Universidade Federal de Minas Gerais e por seu orientando de doutorado, Prof. Me. Leandro Gonçalves de Rezende.

Parte do acervo do primeiro Museu de Arte Sacra do Estado de S. Paulo/ Crédito: Álvaro Jr
Parte do acervo do primeiro Museu de Arte Sacra do Estado de S. Paulo/ Crédito: Álvaro Jr

O historiador e funcionário do Museu Arquidiocesano, Gabriel Amstalden, explica que o espaço vai funcionar, inicialmente, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, com entrada no valor de 10 reais inteira e 5 reais a meia. No futuro, aposta Amstalden, o Museu também abrirá aos sábados. Além da visitação ao acervo, o público terá acesso a minicursos – na área de história da arte – e a pesquisa, com um espaço para a biblioteca e sala de estudo. “Além disso, haverá uma cinemateca e todo o acervo do Museu estará com informações em Braile. Queremos que esse espaço seja freqüentado por todas as pessoas”, reforça.

Diante da interatividade cada vez mais presente nos museus do Brasil, Paula explica que o Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas também se valerá da tecnologia, mas com cautela: “É preciso usar a tecnologia com cuidado, porque ela passa a ser a estrela do lugar e não o acervo. A tecnologia tem que servir à informação e ao acervo”, opina. Segundo a historiadora da arte, tudo que tem de mais moderno está sendo aplicado no Museu. “Talvez, ele seja um dos primeiros museus do Brasil a ser iluminado totalmente por luz de led, material essencial para a preservação das peças, dos tecidos, e fundamental para tornar o ambiente agradável”, explica. “Ainda não conseguimos, mas estamos trabalhando para conseguir a caneta falante: qualquer criança, idoso, ou pessoa com deficiência visual, por exemplo, não precisará ler a etiqueta da obra; é só colocar a caneta na identificação da peça e o próprio áudio da caneta vai explicar todo o acervo para a pessoa: contexto histórico, informações do artista, entre outros detalhes. Essa caneta dará total autonomia para a pessoa; inclusive para o Museu poder receber estrangeiros”, comenta Paula. “Por muito tempo se pensou (e talvez ainda se pense) que o moderno importa mais do que o passado. Extinguir o passado tornou-se uma prática na nossa cultura. Com o Museu, estamos fazendo o caminho contrário”, finaliza.

SERVIÇO:

O que:  Museu Arquidiocesano de Arte Sacra

Onde: Rua Dr. José Ferreira de Camargo, 844 (Antigo Palácio Episcopal)

Confira a programação do Museu em: www.facebook.com/museudeartesacracampinas

Telefone: 3790-3950