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“Música é Deus na Terra”, diz Maestro que fundou Orquestra e Coral Universitário

Oswaldo Antônio Urban graduou-se em Filosofia, Direito e Orientação Educacional pela PUC-Campinas. Lecionou por 18 anos na Universidade e ajudou a fundar, nas décadas de 60 de 70, a Orquestra e o Coral Universitário. O Maestro regeu o Coral por 68 anos.

Por Eduardo Vella

“Só mesmo uma coisa tão maravilhosa como a música, que faz chegar até o homem a bondade e a divindade de Deus. Música é Deus na Terra”. É desse modo que o Maestro Oswaldo Antônio Urban define os seus 83 anos de vida dedicados às partituras e composições.

Aos 97 anos de idade, 68 deles devotados à regência do Coral PIO XI, o que lhe dá o título de “regente há mais tempo à frente de um mesmo coral”, outorgado pelo Ranking Brasil, Urban teve importante passagem pela academia, estudando e lecionando na PUC-Campinas. “Entrei na Instituição em 1949, no curso de Filosofia. Vim estudar na Universidade, pois tinha boa fama. Fiz também os cursos de Pedagogia e Orientação Educacional. Começou aí a minha vida de aluno dentro da PUC-Campinas”.

Maestro Urban esteve por 68 à frente do Coral Universitário/ Crédito: Álvaro Jr.
Maestro Urban esteve por 68 à frente do Coral Universitário/ Crédito: Álvaro Jr.

O Maestro exerceu o Magistério na Universidade de 1965 a 1983, quando se aposentou. À época, era Assessor da Reitoria e Diretor do Instituto de Arte e Comunicação, atual Centro de Linguagem e Comunicação (CLC).

Convidado pelo Arcebispo de Campinas e Reitor da Universidade Monsenhor Salim, Urban passou a dirigir a Faculdade de Música, que tempos depois integrou o Instituto de Arte e Comunicação, também coordenado pelo Maestro.

Urban nasceu em 1919 na cidade de Leme, cerca de 90 km de Campinas. Seus pais eram músicos e passaram para toda família essa paixão. Ele estudou também no Conservatório Musical Maestro Julião, em São Paulo e fez curso de música em Nápoles, na Itália. “Quando tinha 14 anos, o Maestro Salvador Bove, me colocou a batuta na mão e me fez dirigir o Coral que existia no Seminário. São 83 anos em que a música é a minha vida”, emociona-se.

Maestro Urban esteve por 68 à frente do Coral Universitário/ Crédito: Álvaro Jr.
Maestro Urban esteve por 68 à frente do Coral Universitário/ Crédito: Álvaro Jr.

Orquestra Sinfônica Universitária

Em 1960, associou-se ao Professor Luiz di Tullio, também convidado pelo Reitor, para formar uma Orquestra Sinfônica na Universidade. Seus alunos, que cultivavam a música clássica, constituíram grande parte dos primeiros e segundos violinos da orquestra. Eram chamados de “Os violinistas do Luizinho”.

Com a chegada do Maestro Benito Juarez à Orquestra Sinfônica de Campinas, que em 1974 passou às mãos da Prefeitura de Campinas, ocorreu uma dissidência de alguns músicos de grande projeção da Sinfônica e esses elementos foram integrar a Orquestra Universitária. “Um grupo ficou com o Juarez formando a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas e outro veio para a PUC-Campinas a meu convite para “engrossar” a Orquestra Universitária. Ela cresceu muito com isso”, orgulha-se.

“Fizemos em diversas oportunidades a PUC-Campinas brilhar com a Orquestra e o Coral Universitário, que eu fundei em 1965. Eles participavam das formaturas, da Aula Magna de início do ano letivo, do encerramento do ano letivo, no Teatro Central, na Rua Marechal Deodoro, e no Campus I”, ressalta o Maestro Oswaldo Antônio Urban.

A Orquestra Universitária teve fim com o falecimento do Maestro Luiz di Tullio durante um ensaio da Orquestra e do Coral para a formatura da turma de Engenharia, em 1977.

A fundação do Coral Universitário

O Coral era composto de alunos voluntários das várias Faculdades que compunham a PUC-Campinas. Ele foi fundado pela natureza da Faculdade de Música, com os alunos que estavam estudando. Mas isso se estendeu para os outros os cursos. “Assim se formou um Coral com mais de 50 elementos”, relembra.

 O Maestro busca no coração o dia da solenidade de inauguração do Campus I, em 1973. “Nessa data estavam vários Bispos, representando as autoridades eclesiásticas, principalmente Dom Antônio Maria Alves de Siqueira, o Bispo da época, o Reitor Prof. Dr. Benedito José Barreto Fonseca, que levou avante a construção do Campus”, salienta.

 Urban orgulha-se de ter composto para a ocasião o hino para da inauguração do Campus I – Música e Letra – executados pelo Coral e pela Orquestra Universitária.

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 O Maestro, personagem importante na história da Universidade deseja “que a PUC-Campinas continue resplandecendo pela Fé e pela Ciência, segundo os dizeres de seu brasão: Fide Splendet et Scientia.

Atualmente, a PUC-Campinas possui o Coral Universitário do Centro de Cultura e Arte (CCA) que realiza significativo trabalho de formação e divulgação cultural dentro e fora na Universidade. Esse importante canal de expressão artística, de busca do aperfeiçoamento musical e do desenvolvimento cultural de seus membros é um dos grandes legados do Maestro Oswaldo Antônio Urban, que plantou essa semente nos anos 1960.

Reportagem da TV PUC-Campinas

 

“Nos ligam a um estereótipo e não compreendem o significado da nossa deficiência”

“Quando vou comprar uma roupa, me reporto ao vendedor. Mas ele pergunta para o meu acompanhante se eu vou gostar, como se eu não estivesse ali”

Por Amanda Cotrim

Nessa entrevista, a ex-aluna do curso de Psicologia, da PUC-Campinas, Fabiana Bonilha, defende que a maior dificuldade para a pessoa com deficiência, e em especial a que tem deficiência visual, são as atitudes de uma sociedade que caminha a passos lentos quando o assunto é a superação do preconceito. “As barreiras atitudinais são o grande empecilho no dia-a-dia”.

Mas além dessas, Fabiana elenca ações objetivas que precisam mudar logo, para que haja a real inclusão, como a socialização da tecnologia assistiva. “Isso interessa porque é um fator de equiparação”. A ex-aluna da PUC-Campinas, que trabalha no Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, afirma que a tecnologia gera condições iguais entre as pessoas.

Para Fabiana, a inclusão da pessoa com deficiência na vida de pessoas que não tem deficiência e vice-versa é fundamental para que as crianças de hoje se tornem adultos sem essas “barreiras atitudinais” de amanhã. “A pessoa com deficiência precisa estar nos espaços como qualquer outra pessoa. Ela não pode ficar em escolas especiais e especificas. Elas precisam ocupar os espaços regulares e comuns a todos”.

Confira o bate papo que o Jornal da PUC-Campinas teve com a Fabiana:

Gostaria que você se apresentasse, contasse um pouco sobre você: onde nasceu, o que estudou e com o que você trabalha atualmente?

Meu nome é Fabiana Bonilha, eu nasci em Campinas e atualmente eu trabalho no CTI (Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer), onde sou servidora pública, como técnica em Tecnologia Assistiva.

A minha deficiência visual é desde o nascimento e ela ocorreu porque eu nasci prematura. Eu tive Retinopatia da prematuridade, que causa a deficiência visual. Tenho cegueira total e congênita. Desde os primeiros anos de vida eu fiz reabilitação tátil e a alfabetização em braille. Paralelamente, sempre estudei em escola regular.

Durante o meu período escolar, eu iniciei o estudo da música (piano) aos sete anos. Após concluir o Ensino Médio, ingressei na faculdade de Música e me formei pela UNICAMP e, concomitantemente, em Psicologia pela PUC-Campinas.  Por causa de a música ser muito importante para mim, eu sempre tive contato com a partitura em braille (musicografia braille). Mas não era muito comum na época, então minha primeira professora de piano teve que se esforçar muito para conseguir essas partituras. Essa foi a razão pela qual eu desenvolvi pesquisas no mestrado e doutorado com o tema do ensino da musicografia braille, cujo objetivo é que as pessoas cegas sejam plenamente incluídas. As pessoas com deficiência visual precisam ter acesso ao mesmo conhecimento que os outros estudantes têm, por isso é importante a alfabetização em braille, mas há poucos professores que têm essa dedicação e esforço de ir atrás desses materiais. O braille é um código pouco disseminado.

Nós nos comunicamos por e-mail para marcarmos essa entrevista. Eu gostaria de saber se você utiliza software de leitura de voz para acessar o computador e o celular?

Eu uso software de voz para o computador e para o celular. Ele lê as informações que estão na tela. Há opções para computador que são gratuitas, como o NVDA. Mas também existem outros, que são comerciais.  O NVDA é bem desenvolvido, com muitas funções. Ele é quase equivalente aos softwares comerciais. No celular também há opções de leitor de telas, que nos permite acesso a todos as funções: redes sociais, e-mail, WhatsApp e etc. Se você não soubesse que eu tenho deficiência visual, não teria diferença. E isso é interessante, porque é um fator de equiparação. É um grande ponto positivo da tecnologia; ela gera uma condição igual entre as pessoas. E isso impacta a minha vida profissional, porque eu faço praticamente o que todos fazem.

Você utiliza áudio descrição para ter assistir televisão e quando vai ao cinema?

Embora exista a áudio-descrição, pela qual as imagens são descritas, existe pouco material disponível. No cinema geralmente não há. Na televisão, apenas duas horas de programação por semana são dedicadas a áudio-descrição. Então o recurso existe, mas não existem tantos incentivos para que ele seja implantado de forma efetiva. Assistir a um filme sem áudio-descrição é perder todas as informações passadas pelas imagens. É como a pessoa que enxerga assistir a um filme de olhos fechados (risos). Com o teatro é a mesma coisa: há pouquíssimas peças com áudio-descrição.

Fabiana Bonilha- Crédito: Álvaro Jr.
Fabiana Bonilha no Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer – Crédito: Álvaro Jr.

 

Você se formou em Psicologia pela PUC-Campinas e em Música pela Unicamp. São combinações interessantes. O que te motivou a fazer esses dois cursos? 

Eu ingressei nos dois cursos em 1997. Formei-me em Psicologia em 2001 e em Musica em 2003. A Música era um caminho natural, porque desde os meus sete anos eu estudo música e me apaixonei por essa área. No caso da Psicologia, é uma área que eu sempre gostei. Fiz orientação profissional no ensino médio, e ele era ministrado por uma psicóloga, então eu comecei a me aprofundar sobre a carreira, o que acabou me motivando a fazer o curso.

Em que medida o curso de Psicologia te auxiliou a ser quem você é e a chegar aonde você chegou, profissionalmente?

O curso de Psicologia da PUC-Campinas é muito completo e aborda muitas frentes na área. Avalio que eu tive uma boa formação. Foi uma graduação que me deu muita base para depois eu fazer o Mestrado e Doutorado, além de ter contribuído muito para a minha visão de mundo e a minha atuação profissional aqui no CTI.

Quais foram as maiores dificuldades que você considera ter enfrentado para fazer as duas graduações?

Eu fiz as duas faculdades em um período no qual não se falava muito de inclusão da pessoa com deficiência na universidade e eram poucas as universidades que pensavam em acessibilidade. Então de certo modo, eu tive que “desbravar” esses caminhos. Hoje em dia, as universidades estão melhor equipadas, com uma infraestrutura e serviços de acessibilidade, como é o caso da PUC-Campinas com o PROACESS (Programa de Acessibilidade), e do Laboratório de Acessibilidade da UNICAMP.

Quando a gente tem que desbravar os caminhos, enfrenta algumas dificuldades. No caso da pessoa com deficiência visual a maior dificuldade é o acesso ao material; não existiam livros em formato braille e nem em formato digital. No início das duas graduações, eu tive que contar com a minha família para escanear todos os livros para que eu pudesse ler. Minha mãe precisou datilografar todo o material em braille.

Outra dificuldade é as barreiras atitudinais, as barreiras que existem nos pensamentos das pessoas em relação ao modo como elas imaginam a pessoa com deficiência. Nem sempre as pessoas percebem que nós podemos trabalhar, estudar e fazer qualquer coisa.

Conte um pouco como é a sua rotina hoje e como você avalia a sua autonomia em relação ao seu dia-a-dia e ao acesso à cidade?

Eu trabalho  no CTI e geralmente conto com alguém que me traz e me busca. Eu não tenho autonomia para vir trabalhar de ônibus porque eu acho que não é fácil o acesso ao transporte público por duas razões: ele não é seguro e ele não é acessível. Além de trabalhar, eu também me dedico ao estudo do piano, então eu procuro me desenvolver nessa área de performance e de formação de repertorio. Para isso, mantenho um estudo de, no mínimo, duas horas por dia durante a semana e de três a quatro horas no final de semana.

A minha pesquisa em relação à musicografia braille é outro aspecto que faz parte do meu projeto de vida. Porque eu ainda vejo que temos muito a avançar para deixar esse material acessível. A pesquisa é o meu instrumento para lutar por isso, principalmente nos dias de hoje em que o braille está passando por uma crise em razão das novas tecnologias. Tem muita gente dizendo que o software de voz, por exemplo, já é o suficiente para a pessoa que tem deficiência visual e que, portanto, o braille não é mais necessário. E eu digo não. O braile é o código de leitura escrita para uso de pessoas cegas por excelência. Não tem como ela não ser alfabetizada. A pessoa cega pode até utilizar outras tecnologias, mas ela não pode prescindir da alfabetização em braile. O toque das palavras é a nossa memória visual, então a gente precisa lutar para que o braile se mantenha vivo e para que se aumente a produção de materiais (livros) em braile.

Como você avalia as políticas públicas para as pessoas com deficiência visual, no Brasil?

Esse campo evoluiu muito. Em 2011, por exemplo, foi lançado o programa Viver Sem Limites. Então a questão da deficiência passou a ser colocada em foco, inclusive por meio de pesquisas científicas na área de tecnologia assistiva. No entanto, uma dificuldade que ainda existe é que nem sempre essa tecnologia chega para o usuário que precisa dela. Ainda temos uma realidade que os produtos são importados, tem um custo alto e, muito embora eles existam, não chegam para quem precisa. Esse déficit favorece que muitas barreiras continuem sem ser quebradas.

Você falou sobre as barreiras atitudinais. Você sofre preconceito? Como lida com o preconceito das pessoas no dia a dia?

Eu acho que o preconceito existe e ele se manifesta nessas barreiras atitudinais, ou seja, nas atitudes das pessoas, que nos ligam a um estereótipo e não compreendem o significado da nossa deficiência. Uma situação que sempre acontece comigo é quando eu vou a uma loja de roupas com uma amiga e o atendente se dirige a pessoa que está comigo e não a mim. Ainda que eu aborde o vendedor, dizendo o que eu procuro, ele se reporta à pessoa que está comigo: “Essa roupa aqui será que ela vai gostar?” (risos). Como seu eu não estivesse ali. Eu me pergunto: Por que ele fez isso, se eu mesma tinha me comunicado com ele? Essa situação mostra o que é uma barreira atitudinal.

Falta compreensão em relação aos próprios limites de uma pessoa com deficiência. Uma pessoa cega só não enxerga, não precisa falar alto com ela e explicar tudo nos mínimos detalhes (risos).

Há também o preconceito no sentido mais estrito. Muitas vezes as pessoas com deficiência são inseridas no mundo do trabalho via programas específicos de inclusão. Mas por que elas não podem ser inseridas como qualquer outra pessoa? A inserção das pessoas com deficiência no mundo do trabalho ou na escola precisa ser natural. No entanto, ainda não chegamos nesse momento, por isso é preciso ações afirmativas para reverter esse atraso.

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Você conseguiria descrever quando e como você se percebeu cega? Ou seja, quando você compreendeu isso?

Eu nasci com a deficiência visual, então essa condição sempre foi muito natural para mim. Eu soube que eu não enxergava pelas outras pessoas, porque para mim era tudo normal, natural. Como eu não vivi uma perda da visão, então para mim, o esperado era assim. Outras pessoas começaram a me contar que o que algumas pessoas tinham de diferente de mim era- que elas enxergavam e eu não. Então o meu referencial foi na relação com o outro. Na escola, como crianças são muito curiosas, eu fui percebendo que havia alguma coisa que acontecia comigo e não acontecia com outras pessoas.

É verdade que as pessoas cegas percebem as  cores pelas sensações e que os outros sentidos são mais aguçados?  Isso acontece com você?

A gente conhece as cores por analogia em relação à temperatura e à textura. Mas não há a ideia de uma ultra sensibilidade, quase sobrenatural que faz com que a gente “veja” sem enxergar. Claro que a ausência de algum sentido faz com que as pessoas cegas desenvolvam outros referenciais, como a audição. Mas isso é um trabalho subjetivo de cada um; não é natural. Cada pessoa encontra estratégias para utilizar outros sentidos na ausência da visão. Não podemos generalizar essa questão é achar que só porque a pessoa é cega ela tem a audição, o tato ou qualquer outro sentido super apurado.

Como você avalia a cobertura da Mídia sobre a questão da deficiência?

A Mídia precisa evoluir muito na abordagem que ela faz sobre a deficiência. Muitas vezes há sensacionalismo na abordagem, como se a deficiência por si fosse notícia. É preciso evoluir na forma como a Mídia aborda a questão e na forma como ela influencia a população a pensar sobre essa questão. Nesse aspecto, ela mantém as barreiras atitudinais. As reportagens, quase sempre, têm um viés assistencialista, uma coisa quase passional, carregado de drama. Sem falar as terminologias: “portador de deficiência”, “deficiente”, “portador de necessidades especiais”. Então, talvez seja importante pensar sobre essa questão durante a própria formação dos profissionais de comunicação. Existe uma lacuna nesse sentido.

O que você diria para um cego que está lendo a sua entrevista e ainda tem medo de enfrentar desde um vestibular até sair de casa?

As pessoas com deficiência visual, assim como qualquer pessoa, mas elas especialmente, precisam confiar muito em si mesmas e acreditar que a superação de todos os limites é possível, e que vai depender da nossa motivação e empenho. São as pessoas com deficiência visual as protagonistas da própria inclusão. Não é o outro que vai nos incluir; e a gente que se inclui. Se a gente ficar esperando as instituições e as pessoas fazerem alguma coisa, ninguém faz. É a gente que tem que fazer. Precisamos ter consciência que os limites existem, das mais diversas formas, para todas as pessoas. E que essas barreiras podem ser superadas ou minimizadas no próprio ambiente em que vivemos. Mas é preciso haver condições: se o livro não estiver em braile eu não consigo ler, mas se ele tiver, eu consigo.

Fabiana, você gostaria de falar sobre alguma coisa que eu não perguntei?

É importante que as pessoas tenham abertura para dialogar e desconstruir algumas fantasias que elas continuam tendo por que não perguntam. Às vezes elas querem saber coisas básicas, como se eu sonho. E por vezes não falar sobre essas dúvidas constrói ainda mais barreiras. Por outro lado, nós que temos alguma deficiência, temos que ter abertura para responder, mesmo as perguntas básicas, porque aquilo que a pessoa está perguntando é importante para ela, como a questão do sonho, uma vez que para as pessoas que enxergam só é possível sonhar com imagens.

Eu também tenho muita curiosidade de saber sobre a realidade de quem enxerga. Eu gosto de saber como são as estrelas, o céu, o horizonte, a lua. A gente sabe sobre isso de ouvir contar. É muito interessante essa relação na qual os lados têm curiosidades.

A inclusão propicia que as diferenças estejam em contato o tempo todo. Então é muito importante que os alunos desde pequenos convivam com as diferenças desde cedo, para que eles possam naturalizar isso e se tornarem adultos sem essas barreiras.

A pessoa com deficiência precisa estar nos espaços como qualquer outra pessoa. Ela não pode ficar em escolas especiais e especificas. Elas precisam ocupar os espaços regulares e comuns a todos.

 

Música de Câmara inova repertório e quer se globalizar

Por Amanda Cotrim

O Grupo de Música de Câmara, do Centro de Cultura e Arte (CCA) da PUC-Campinas, traz uma novidade para 2015. Agora, os músicos, sob a regência do Professor Moises Cantos, terão um repertório mais globalizado, com músicas não só eruditas, mas de variados estilos. A iniciativa, segundo Cantos, partiu dos próprios alunos, que demonstraram interesse em tocar ritmos do mundo todo.

Foto: Álvaro Jr.
Foto: Álvaro Jr.

Segundo o Professor, o erudito é fundamental para que o aluno possa atingir uma boa técnica. No entanto, outros estilos de música são importantes para estimular não só o aluno como também o público. “Este ano, traremos um repertório mais amplo para o Grupo de Música de Câmara, músicas de outros países, que envolvam uma técnica apurada, mas que o aluno possa crescer como pessoa e ter contato com uma camada variada de estilos globais, para que ele aprenda a tocar de tudo”, explica Cantos.

Música de Câmara é um termo utilizado para formações de pequenos grupos de instrumentos ou vozes, com, geralmente, repertório de música erudita, que tradicionalmente podiam acomodar-se nas câmaras de um palácio. Atualmente, a expressão é usada para qualquer música executada por um pequeno número de músicos. A palavra “câmara” indica que a música pode ser realizada em salas pequenas, geralmente com uma atmosfera mais intimista.

 O grupo do CCA concentra instrumentos de sopro, como flauta doce, trompete e o sax; instrumentos de corda, como o violino, a viola, o violoncelo e o contrabaixo, além de percussão e do piano. O repertório do grupo atende aos eventos da Universidade e, eventualmente, o Música de Câmara se apresenta em outros espaços.

Segundo Cantos, a aposta é que, com um repertório mais globalizado, a música de câmara se aproxime mais do público leigo. “Se eu fizer um repertório muito erudito, eu terei dificuldade, porque nem todo mundo tem o hábito de ouvir música clássica”. O Professor ressalta, no entanto, que não vai abandonar a música erudita.

Inclusão Musical

Foto: Álvaro Jr.
Foto: Álvaro Jr.

Moises Cantos explica que outra novidade nas apresentações será a explicação sobre a obra que será apresentada. Antes de o público conferir a música, o grupo vai apresentar a história da obra e de seu compositor. Para Cantos, isso contribuirá para que o público e o aluno acessem a música, principalmente a erudita, com os “ouvidos mais abertos”.

“Beethoven era um compositor envolvido com a maçonaria. Na Quinta Sinfonia: ta ta ta ta…os quatro elementos da maçonaria aparecem na música. Ele colocou uma mensagem subliminar. Apresentar esses aspectos curiosos e outros aspectos técnicos para desvendar e desmistificar a música erudita é um dos nossos objetivos”.

De acordo com o Professor, o público em geral está aberto para a música erudita, mas a dificuldade em aceitá-la está no fato de as pessoas não entenderem a música. “É preciso dar ferramentas para que o público acesse esse estilo. Por isso, é tão importante desenvolver o gosto pela música, construir uma ponte entre os dois lados, para quando o Grupo de Música de Câmara for apresentar música erudita, o público não fique bocejando”, brinca.

Coordenador do Música de Câmara, Moises Cantos e um dos ensaios do grupo. (Imagem:Álvaro Jr.)
Coordenador do Música de Câmara, Moises Cantos e um dos ensaios do grupo. (Imagem:Álvaro Jr.)

Repertório Global

Ainda não há definição sobre quais músicas e estilos vão figurar durante o ano no Grupo de Música de Câmara, apesar de já se saber que será global. Segundo Cantos, a definição vai depender dos alunos que vão participar do grupo em 2015. “Eu vou avaliar o aluno e o instrumento que ele trouxer. A partir daí, conhecendo esses alunos, eu defino repertório”, considera.

Para participar do Grupo de Música de Câmara é necessário um conhecimento intermediário em algum dos instrumentos citados. Os ensaios são realizados no CCA, que fica no Campus Central. Além do ganho artístico, Cantos garante que o aluno aprende a trabalhar em grupo, ser liderador e liderar quando é preciso, além de aprender a lidar com as diferenças, afinal, são 17 pessoas completamente diferentes entre si, que vão trabalhar juntas por um ano todo.

O Grupo de Música de Câmara do CCA foi fundado em 2006 e busca contribuir para o fomento da música erudita na Universidade por meio de formações instrumentais diversas. As formações podem ser integradas por alunos, funcionários e membros da comunidade externa em geral. O objetivo é formar grupos de música de câmara para o desenvolvimento pessoal de cada músico, permitindo o acesso a uma das maneiras mais representativas de fazer música em conjunto, na história da música universal. O trabalho é apoiado na pesquisa e na performance de cada grupo.

Mais informações sobre o processo seletivo, datas e horários de ensaio, acesse aqui. 

Corais Universitários

Para o Regente do Coral Universitário do CCA, é preciso desmistificar os Corais e aproximá-los do público

Com a proposta de juntar várias vozes em uma só sintonia, o Canto Coral rearranja músicas de todos os estilos, com ou sem o acompanhamento de instrumentos musicais. Um trabalho de cooperação, que exercita o corpo e a mente daqueles que se dedicam ao Coro.

Criado em 1983, o Coral Universitário do Centro de Cultura e Arte (CCA) da PUC-Campinas é um importante canal de expressão artística, que une pessoas de diferentes áreas com um interesse em comum: a música. Além da aproximação de estilos diferentes, o trabalho em grupo, colaborativo, e a responsabilidade junto ao regente e aos colegas, servem de auxílio para um futuro início de carreira.

O Coral nas universidades, no entanto, possui algumas peculiaridades. Trabalhar com gente nova pode não ser fácil. É necessário tornar a atividade atrativa aos estudantes. Para isso, o atual regente titular do Coral Universitário do CCA, Nelson Silva, utiliza de meios próprios. “Você tem de jogar com o pessoal, trazendo coisas que eles conheçam, e aí, por outro lado, desafiá-los com uma coisa que eles não conhecem tanto, mas que pode ser interessante conhecerem.”, explica Nelson. Além do repertório, o regente titular do Coral, há nove anos, explica que a rotatividade de um Coral Universitário pode ser um problema, mas nem sempre. “O trabalho do coro é uma atividade que amadurece ao longo do tempo. Você começa com coisas bem simples, que as pessoas têm bastante dificuldade. Essa dificuldade vai diminuindo e a qualidade vai melhorando, você vai criando um núcleo mais forte, mais apto. De repente, esse núcleo desmonta. As pessoas se formam, arrumam estágio, emprego… É um ‘jogo’ que não para”, compara Silva.

O Coral e as Massas

Os Corais não são muito populares no Brasil, e o público nas apresentações é limitado. A falta de acesso da população ao gênero de música coral, segundo o Regente, é porque as pessoas imaginam um Coral como algo ligado à Igreja, à música sacra e músicas de Natal. Silva afirma que isso é um mito. “Os corais, principalmente os coros brasileiros, fazem um trabalho que é diferente, que tem muito a ver com música popular, é um trabalho bem acessível, e também muito rico, porque o cancioneiro popular brasileiro é muito talentoso”, afirma. O tema “Saindo do limbo: Como levar o trabalho dos corais à mídia e às pessoas em geral? foi debatido durante o 28º Encontro de Corais do CCA, no dia 12 de setembro.

O desinteresse da mídia em relação a esse tipo de atividade cultural é, para Silva, o que contribui para uma imagem estereotipada dos Corais. O regente acredita que é um ciclo vicioso, em que o público desconhece o trabalho dos coros por não ter acesso, e a mídia não mostra porque é uma atividade anônima, que ainda não “se vende” no país.

Para participar do Coral Universitário do Centro de Cultura e Arte (CCA) da PUC-Campinas, é necessário se inscrever pelo site, entre os meses de dezembro e março. Há uma seleção para os grupos musicais e um teste de aptidão mínima para o canto.

“O trabalho do coro é uma atividade que amadurece ao longo do tempo”

Apresentação do Coral do CCA da PUC-Campinas
Apresentação do Coral do CCA da PUC-Campinas