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Páscoa, cultura e tradição

Por Prof. Dr. Wagner José Geribello – Assessor Especial da
Reitoria da PUC-Campinas

Páscoa compõe o tema central desta edição de abril, mês em que a Liturgia Católica celebra a Ressurreição de Jesus Cristo, legitimando a abordagem religiosa do assunto.

A Pascoa é, também, evento cultural, implicando comportamentos e características específicas ao período, desde repercussões econômicas, até hábitos que a sociedade incorpora e transforma em tradição. Assim, as matérias desta edição cobrem variado leque de enfoques do período, como as oscilações de preços de produtos “sobrevalorizados” nesta época, a exemplo do peixe e do chocolate, até a tendência cada vez mais acentuada de oferecer “presentes vivos”, no caso coelhos.

O Jornal da PUC-Campinas de abril também abre espaço para tratar de assuntos da atualidade que, de certa forma, caminham na contramão dos sentimentos e valores pascais, em especial aqueles referentes à solidariedade. A intensificação de fluxos migratórios e a tragédia dos refugiados tematizam artigo que resgata as origens e expõe as razões desse fenômeno que persiste na mídia internacional e tem reclamado ações e posições dos governos e das sociedades nacionais ao redor do Planeta.

Questões urbanas relevantes também figuram no cardápio de matérias, algumas positivas, como as perspectivas promissoras das Cidades Inteligentes, ou negativas, como a nefasta relação entre a falta de tratamento de esgoto e a consequente redução quantitativa e qualitativa da água potável disponível.

Eventos internos também estão na pauta, com destaque para a Mostra de Talentos, que valoriza e dá ampla visibilidade à produção dos Trabalhos de Conclusão de Cursos (TCC) na Graduação.

Além disso tudo, o Jornal da PUC-Campinas ainda tem cinema e informações importantes sobre o cotidiano acadêmico, reunindo razões de sobra para ser lido, comentado e também usado como instrumento de ensino e aprendizagem em aulas, estudos e trabalhos, justificando o encerramento deste editorial com desejos sinceros de boa Páscoa, boa leitura e bom aproveitamento.

 

PÁSCOA – RELIGIÃO Vida ressignificada!

Por Pe. João Batista Cesário

Duelam forte e mais forte: é a vida que enfrenta a morte! (…) Vi Cristo ressuscitado, o túmulo abandonado!” Esses versos são da Sequência Pascal, hino festivo que a Igreja canta no Domingo da Páscoa da Ressurreição do Senhor, exultando de alegria por sua vitória sobre a morte. De fato, “Jesus de Nazaré foi um homem aprovado por Deus…pelos milagres, prodígios e sinais que Deus realizou por meio dele, entre vós” (At 2,22) – testemunhou Pedro no dia de Pentecostes. “Ele andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos… e nós somos testemunhas de tudo que Jesus fez na terra dos judeus e em Jerusalém” (At 10,38-39) – insistia o apóstolo. Entretanto, “eles o mataram, pregando-o numa cruz. Mas Deus o ressuscitou no terceiro dia” (At 10, 39-40) – concluiu Pedro. E, à luz de sua Páscoa, a história do passado do povo de Deus foi relida e reinterpretada sob nova perspectiva, enquanto novos horizontes se abriam para o futuro da humanidade.

Com efeito, no passado, no ambiente da cultura semítica, a festa da Páscoa era a celebração da partida dos rebanhos para as pastagens de verão, associada mais tarde à festa dos “pães ázimos” (sem fermento), que marcava o início das colheitas, momento muito importante na vida agropastoril.

A experiência do Êxodo ou da libertação do povo de Deus da escravidão no Egito, ocorrida nos dias das celebrações pascais, conferiu novo significado à Pascoa que, desde então, se tornou a celebração da libertação que Deus garantiu ao seu povo e o reinício de sua história numa terra prometida.

Após a morte e ressurreição de Jesus nos dias da páscoa judaica, os cristãos ressignificaram o sentido dessa festa, que passou a ser a celebração da vitória de Cristo sobre a morte. Com efeito, Páscoa é passagem, e, assim como no passado, os hebreus passaram pelo Mar Vermelho a pé enxuto para vencer os grilhões da escravidão (Êxodo), agora é Cristo que, realizando um novo êxodo, passa da morte para a vida. “Imolado como cordeiro pascal dos cristãos” (1Co 5,7), Cristo ofereceu sua vida em sacrifício (Jo 10,18), morreu por amor a todos e ressuscitou para garantir vida plena para a humanidade.

Assim, a festa da Páscoa é desafio de renovação espiritual; de ressignificação de costumes, práticas e da própria vida; de retomada de bons propósitos e projetos; e de realização de travessias para utopias (que, literalmente, ainda não têm lugar, mas permanecem latentes na história) a serem construídas em vista de outro mundo possível, no qual todos possam viver digna e plenamente – um mundo com mais pontes de fraternidade e integração e menos muros de intolerância e exclusão!

 

PÁSCOA – ECONOMIA Efeitos sazonais

Por Prof. Dr. Izaias de Carvalho Borges – Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas

Páscoa é alegria, época destinada a transformação interna de todos os cristãos. Essa renovação tem início no período da Quaresma, momento de recolhimento e reflexão espiritual, de preparação para a festa do renascimento de Cristo. A data religiosa acaba influenciando no aumento do consumo e dos preços de alguns produtos, principalmente chocolates e peixes, recebendo dos economistas um termo específico para traduzir o fato, chamado sazonalidade.

A sazonalidade resulta de mudanças sazonais, ou seja, mudanças temporárias, típicas de determinada época ou estação do ano. Por ser temporária, a variável que está sofrendo o efeito da mudança sazonal, normalmente os preços, tende a regressar a seu nível inicial após certo tempo.

Existem, basicamente, dois tipos de sazonalidade: as climáticas e as culturais. As climáticas – influenciadas pelas estações do ano – são as principais causas de oscilações nos preços de alguns alimentos ao longo do ano. As sazonalidades climáticas podem influenciar tanto a oferta quanto a demanda. Por exemplo, no caso de algumas frutas, como o limão, a oscilação do preço ao longo do ano é resultado tanto de alterações sazonais na oferta quanto na demanda. A colheita normalmente ocorre entre dezembro e abril. Nos meses de outubro e novembro os preços costumam aumentar muito por dois motivos: a oferta está muito baixa (período da entressafra) e a demanda por bebidas está aquecida, influenciada pelo aumento da temperatura nesse período.

Já as sazonalidades culturais são influenciadas por costumes de uma população ou por festas religiosas. Esse tipo de sazonalidade geralmente influencia apenas a demanda de produtos específicos, normalmente alimentos e bebidas. A Páscoa é um exemplo de um evento religioso que gera efeitos sazonais sobre os preços de dois produtos: o chocolate e os peixes. A tradição de comer peixes na Sexta-feira Santa e de presentear pessoas com chocolates no Domingo de Páscoa faz com a demanda de ambos os produtos aumente e, consequentemente, os seus preços.

Uma questão importante é: quais estratégias o consumidor pode adotar frente às oscilações sazonais dos preços. Uma primeira estratégia é, quando possível, antecipar as compras. Por exemplo, comprar peixes na semana que antecede a Semana Santa pode não ser o melhor momento. Os preços costumam ter picos próximos ao dia principal do evento. A segunda estratégia é pesquisar antes de comprar. Os preços podem se diferenciar muito, tanto em função da variedade de marcas, tamanhos e sabores, quanto pela concorrência entre os varejistas. Alguns estudos mostram, por exemplo, que o preço de um ovo de Páscoa, com a mesma marca e mesmas características, pode oscilar até 150%.

 

PÁSCOA – COMPORTAMENTO Coelhos como presente

Por Prof. Dr. João Flávio Panattoni Martins – Diretor da Faculdade de Medicina Veterinária

Estamos chegando ao final da Quaresma!

Na última semana destes quarenta dias de orações e penitências, designada Semana Santa, celebramos e comemoramos o Tríduo Pascal, que prevê os eventos mais marcantes e importantes do ano litúrgico cristão. Este período de profunda significância para nós católicos, que retrata a Paixão de Cristo, culmina no Domingo de Páscoa, quando festejamos intensamente o dia da Ressurreição de Cristo.

Nesse momento de renascimento, o Domingo da Ressurreição é, tradicionalmente, simbolizado pelo Coelho da Páscoa, que representa a fertilidade, o nascimento, a vida nova! Muitos relatos comprovam, desde antigas civilizações, a representação da fertilidade simbolizada pelos coelhos, por serem animais muito prolíferos de intensa atividade reprodutiva.

No entanto, percebe-se que esta simbologia associada à prática de originalmente se distribuir ovos de galinha pintados às crianças, vai sendo reinventada através das gerações, sendo inclusive, bastante influenciada pelas atividades comerciais. Os ovos se tornaram doces cada vez mais sofisticados, ansiosamente aguardados não só pelas crianças.

Porém uma prática relativamente mais recente, normalmente estimulada pelo anseio de originalidade e inovação de comerciantes e consumidores, requer uma reflexão madura e responsável, o que, na maioria das vezes, não acontece.

Transformar o símbolo da fertilidade em presente vivo, não pode ser uma atitude impensada, pois se assim for, torna-se automaticamente irresponsável e cruel.

Nos meses posteriores à Páscoa, várias organizações e entidades envolvidas com a proteção e o bem-estar animal, relatam o expressivo aumento dos casos de abandono, maus tratos e de morte de coelhos.

As pessoas, normalmente agindo por impulso, não exercitam a consciência de que aquele lindo e sedutor filhotinho transformado em presente oportuno, se tornará adulto e por toda sua vida irá requerer espaço, assistência e dedicação de um tutor consciente da responsabilidade assumida. Se essa consciência estiver presente, esses animais normalmente são muito dóceis e afáveis, tornando essa convivência muito agradável e prazerosa. Porém, coelhos são muito susceptíveis a doenças fúngicas, sarnas, pulgas e também não são raras as situações de destruição de plantas e jardins e a incompatibilidade de convivência com outros animais como cães e gatos. Nesse sentido, uma pessoa bem-intencionada poderá, rapidamente, se transformar em algoz do próprio “presente”. Por existirem os coelhos selvagens, vários acreditam que coelhos domésticos conseguirão sobreviver autonomamente quando abandonados em matas ou florestas, o que definitivamente não acontece, pois são altamente susceptíveis a estresse, predadores e dificilmente conseguirão se alimentar satisfatoriamente.

Sendo assim, percebe-se que essa euforia e suposto compromisso de posse responsável, assumidos inicialmente, tornam-se efêmeros e passageiros, afinal a estimativa de vida de um coelho doméstico é de 6 a 8 anos, e aquele lindo animal que simboliza fertilidade e vida nova, acaba sendo vítima de abandono e morte.

Instrua seus amigos!! Coelhos de presente?! …dê preferência aos de chocolate!!

Feliz Páscoa a todos!!

Informações adicionais no link abaixo:

http://emais.estadao.com.br/blogs/comportamento-animal/pascoa-chocolates-e-coelhos-com-moderacao/

 

O CINEMA E O SAGRADO

Por Prof. Me Arnaldo Lemos Filho, professor das Faculdades de Ciências Sociais, Direito, Educação e Serviço Social

A exibição do filme “Silêncio”, de Martin Scorcese nos oferece a oportunidade de analisar as relações entre o cinema e o sagrado. A própria palavra silêncio estrutura a narrativa, referindo-se a três níveis: uma complexa questão teológica, a resistência do meio japonês à evangelização e a fé dos católicos japoneses perseguidos. Na alma do padre Rodrigues, personagem central, a dúvida instala-se: onde está Deus perante o sofrimento dos seus filhos?

O filme permite discutir a possibilidade de o sagrado ser expresso na tela. Historicamente, todas as artes possuem suas raízes na religião. Em todas as suas manifestações primitivas, as artes se inspiraram nas crenças religiosas. O cinema, “la sola arte non nata del culto” teve, ao contrário das outras artes, origens eminentemente profanas. Nascido do desenvolvimento moderno da técnica, no contexto do cientificismo e da ideologia do progresso do homem, é profano também por sua estrutura industrial e comercial.

O cinema pode trazer as questões de fé e da religião cristã. Mas quais são os limites e o poder da imagem para a expressão do sagrado e do religioso?

A noção de sagrado é complexa e ambígua. Os termos “sagrado” e “religioso” não são idênticos, pois um tema religioso não constitui condição necessária nem suficiente para se atingir o sagrado. Muitos filmes de santos ou de temas bíblicos não têm nada de sagrado. Por outro lado, um filme pode atingir a evocação do sagrado sem possuir um tema estritamente religioso.

Daí se inferem duas vias, ou melhor, duas leis na evocação do sagrado no cinema: uma, a transcendência que se encarna, a outra, aquela que acentua a encarnação da transcendência. Na primeira via, o cinema atinge o sagrado por um estilo de transparência, pela ascese e austeridade no cenário, na iluminação e na música. São poucos os filmes que alcançam a expressão do sagrado por essa via e devem seu êxito aos dons verdadeiramente criadores de seus diretores.

Na segunda via, a encarnação da transcendência, o cinema se coloca dentro de seus limites, procurando atingir o sagrado inserindo a transcendência no carnal, no cotidiano. A face de um homem pode tornar-se para seus irmãos a face humana de Deus: um santo, um pobre, um pecador. Escolhendo enraizar-se na banalidade e insignificância do cotidiano, tais filmes se aproximam do mistério da Encarnação.

Ao assistir ao filme, procure definir qual via Scorcese escolheu para expressar o sagrado.

Veja o trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=cdQwu7SEuZQ