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Memória e continuidade: projeto de restauro do Solar do Barão de Itapura

Por Amanda Cotrim

A PUC-Campinas inicia as obras de restauração do Solar do Barão de Itapura, local que abrigou por 74 anos o Campus Central da Universidade. Para conseguir preservar a história, a memória, com sustentabilidade, responsabilidade e dignidade, a Instituição promove a campanha de captação de recurso para o restauro.

Diante da responsabilidade cultural que a legislação orienta, a PUC-Campinas observa que a preservação do patrimônio cultural é uma obrigação de toda a sociedade civil. A Universidade se apresenta como promotora da campanha para o restauro e convida os cidadãos e as empresas que queiram exercer a sua responsabilidade cultural a se engajar nessa ação. Para doar e contribuir com esse projeto, visite o Portal da PUC-Campinas:

Crowdfunding / Financiamento Coletivo

Diante da responsabilidade cultural que a legislação orienta, a PUC-Campinas observa que a preservação do patrimônio cultural é uma obrigação de toda a sociedade civil. A Universidade se apresenta como promotora da campanha para o restauro e convida os cidadãos e as empresas que queiram exercer a sua responsabilidade cultural a se engajar nessa ação.

SE VOCÊ É PESSOA FÍSICA

Qualquer pessoa física pode apoiar o restauro participando da campanha de financiamento coletivo promovido pela PUC-Campinas.  A campanha, em andamento, tem como objetivo as obras emergenciais para a recuperação da cobertura do Solar que está orçada em 1 milhão de reais. As doações podem ser feitas  no portal da PUC-Campinas.

SE VOCÊ É PESSOA JURÍDICA

Pessoas jurídicas podem apoiar o projeto utilizando uma ou mais das seguintes modalidades:

A campanha, em andamento, tem como objetivo as obras emergenciais para a recuperação da cobertura do Solar que está orçado em 1 milhão de reais. As doações podem ser feitas no portal da PUC-Campinas.

  1. Doação com Isenção no ICMS

PROAC – Programa estadual de incentivo a cultura do Governo do Estado de São Paulo

O PROAC ICMS funciona por meio de incentivos fiscais. O projeto do restauro do Solar do Barão de Itapura já está aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura e recebeu autorização para captar patrocínio junto a empresas que descontam o valor doado do ICMS devido. O processo é simples e toda a orientação é feita pela PUC-Campinas. O abatimento de 100% do valor doado até o limite de 3% do ICMS devido.

  1. Doação com Isenção no Imposto de Renda – Lei Rouanet

PRONAC – Programa Nacional de Apoio à Cultura – Lei 8.1313/91

Instituído em dezembro de 1991, com a promulgação da Lei nº 8.1313/ 91, também conhecida como Lei Rouanet visa apoiar e direcionar recursos para investimento em projetos culturais.

É destinada a toda empresa que faça sua declaração de Imposto de Renda pela modalidade de Lucro Real.  O processo é muito simples e toda a prestação de contas é feita diretamente pela PUC-Campinas. A lei permite ao contribuinte o abatimento de 100% do imposto de renda dos valores

História

O Solar do Barão de Itapura, reconhecido como patrimônio histórico e cultural pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (CONDEPACC) e Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico. (CONDEPHAAT), após o restauro, passará a ser um lugar de valor socioeducativo, já que seu espaço, por meio de uma ocupação consciente, será usufruído por toda a população, que se transformará na principal beneficiária das atividades educativas e culturais.

“O Solar não viverá apenas do passado, pois, ao realizar o restauro, a PUC-Campinas promoverá importante função social. Feita a recuperação, a Universidade dará ao Solar uma destinação eminentemente cultural, não apenas aos membros da Instituição, mas a toda a sociedade de Campinas e região propiciando enriquecimento cultural à população, promovendo o Turismo, contribuindo com a melhoria da qualidade de vida e garantindo dignidade cultural à sociedade em geral”, esclarece o Vice-Reitor da Universidade e Coordenador do Projeto de Restauro, Prof. Dr. Germano Rigacci Junior.

 

Conheça um pouco mais sobre a história do Solar do Barão de Itapura nesta reportagem do Jornal da PUC-Campinas, que abordou a origem do primeiro Campus da Universidade, aqui. 

 

A relação histórica da PUC-Campinas com o Solar do Barão de Itapura

Desde o início do século XX o Brasil já contava com faculdades católicas com a criação em 1908, no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Na década de 1930, Dom Francisco de Campos Barreto, segundo Bispo da Diocese de Campinas, idealizou a criação de uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Nesta época, a Igreja já administrava na cidade o Colégio Diocesano Santa Maria e a Academia de Comércio São Luís.

Para tornar real seu projeto, Dom Barreto funda em 1941, ao lado do Cônego Emílio José Salim e do Padre Agnelo Rossi, a Sociedade Campineira de Educação e Instrução, a SCEI, que teria como missão reunir as instituições católicas campineiras de ensino.

Nos 74 anos em que o Solar abrigou as dezenas de cursos da Universidade mais de 180 mil profissionais se formaram em suas dependências.

Não tardou, no entanto, para que o casarão do Barão de Itapura se tornasse pequeno para agrupar todos os cursos da PUC-Campinas. Assim, os novos Campi foram surgindo de acordo com a necessidade de espaço: o Campus I, o CampusII, o Seminário e o Instituto de Letras.

Em 2015, após a saída do curso de Direito – o último a ser transferido para o Campus I – a PUC-Campinas planeja uma nova história para o Solar do Barão.

 (Informações de Eduardo Vella)

Comida perpetua a cultura

Por Amanda Cotrim

Diga-me o que tu comes que eu te direi quem és”. É dessa forma que a Diretora do Curso de Turismo da PUC-Campinas, Profa. Me. Francis Pedroso, aborda a importância da gastronomia como elemento constitutivo de identidade. A comida que consumimos tem relação íntima com as características geográficas, culturais e históricas da região em que ela é produzida. “Os alimentos mais quentes e gordurosos, por exemplo, são típicos de regiões mais frias; já os alimentos mais leves, são provenientes de regiões mais quentes”, explica.

Acarajé tornou-se patrimônio cultura brasileiro/ Reprodução
Acarajé tornou-se patrimônio cultura brasileiro/ Reprodução

O Brasil, segundo Francis, sempre foi o país do sabor, desde as frutas exóticas até a produção de café, o que justifica essa vocação do país para a gastronomia. “Na década de 2000, no entanto, com a criação do Ministério do Turismo, em 2003, a gastronomia passou a ser promovida como valor turístico, o que coincide com a profissionalização da gastronomia brasileira”, contextualiza.

A comida é a materialidade dos valores de determinados lugares, por isso, para a Professora Francis, uma comida bonita, bem-feita e tradicional sempre será procurada por turistas, o que é “excelente do ponto de vista econômico e fundamental para o turismo. A gastronomia perpetua a cultura”, afirma.

A Diretora do Curso de História da Universidade, Profa. Dra. Janaina Camilo, explica que as tradições culturais brasileiras, principalmente aquelas manifestadas nas comidas, estão diretamente associadas às práticas religiosas e, portanto, às identidades culturais. “Exemplo disso é o ‘pato no tucupi’, comida paraense servida especialmente no almoço do domingo do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira dos paraenses. Analisando antropologicamente, o pato é uma ave dos pratos típicos da nobreza europeia, que veio parar no Brasil durante o processo de colonização. Já o tucupi é um caldo extraído da mandioca, raiz cultivada pelos povos indígenas da Amazônia”, contextualiza a historiadora.

Pato no tucupi é uma comida típica do Pará/ Reprodução
Pato no tucupi é uma comida típica do Pará/ Reprodução

A Professora Janaina aponta que a preferência do brasileiro por doces não é à toa, uma vez que a doçaria é um hábito dos povos árabes, que, segundo ela, estavam miscigenados com os portugueses que colonizaram o Brasil. “No dia de São Cosme e São Damião distribuímos doces às crianças, uma tradição que nem todos sabem a origem”.

A importância de alguns pratos é tão grande que alguns se tornam patrimônios culturais, como foi caso do acarajé da Bahia, que se tornou patrimônio imaterial do Brasil, em 2015. O prato, explica a historiadora, conta com forte presença africana em seus ingredientes, como é o caso do dendê, e no próprio modo se preparar a comida. “Nesse sentido, portanto, o acarajé não é o resultado da mistura de temperos, mas o saber fazer o prato, com todo o ritual que o envolve, como a arrumação do tabuleiro, a preparação da mesa, o uso de trajes próprios, como as roupas brancas enfeitadas com colares de contas e panos coloridos”. O acarajé, antes de ter se tornado Patrimônio Cultural brasileiro, havia sido reconhecido como Patrimônio Cultural de Salvador, pela Câmara Municipal da cidade, em 2009.

Profa. Janaína Camilo é diretora no curso de História/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Janaína Camilo é diretora no curso de História/ Crédito: Álvaro Jr.



 

Profa. Francis é diretora do curso de Turismo/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Francis é diretora do curso de Turismo/ Crédito: Álvaro Jr.

A Diretora do Curso de Turismo elencou alguns pratos típicos de cada região, para que o leitor possa apreciar quando estiver nesses lugares. A Região Norte do Brasil tem como ‘cartão’ de visita os peixes de rio doce e o açaí. “Turistas de várias partes do mundo vêm para o Brasil atrás do açaí”, brinca Francis. Já a carne de sol, as moquecas e a tapioca são alimentos típicos da Região Nordeste, ainda que a região tenha uma gastronomia muito rica. A Região Sul, no entanto, conserva certo hábito pelo consumo de doces diversificados, como o café colonial, além, é claro, lembra a professora, do churrasco gaúcho e vinhos. “Também destacaria os frutos do mar do estado de Santa Catarina, que são excelentes”.

O Sudeste, por sua vez, explica Francis, tem forte influência africana, daí pratos como angu com quiabo e frango, típicos de Minas Gerais, o Virado à Paulista, a Moqueca Capixaba, a produção de salgadinhos típicos de camarão empanados do Rio de Janeiro, além da doçaria portuguesa, do arroz, feijão e da feijoada. “Na Região Centro-Oeste temos a riqueza do Cerrado. As frutas – como o pequi – e os doces provenientes dessas frutas são uma das marcas da região, além de peixes, feijão tropeiro e arroz carreteiro, que, segundo a docente, é conhecida como ‘a comida dos viajantes’”.

Comidas tradicionais x fast food

 Para a Diretora do Curso de Turismo, o fast food não conseguiu acabar com os pratos tradicionais, ao contrário. “Cresceu muito o slow food. E nós começamos a ter mais consciência sobre o alimento saudável, o que torna a gastronomia mais atrativa. Comer não é ‘fast’. Comer é um prazer. O ato de consumir comida requer tempo”, defende.

 

Inédito: Curso de Extensão “Declaração de Nulidade nos Tribunais Eclesiásticos” na PUC-Campinas

 

Por Pe. Adriano Broleze

O curso de extensão “Declaração de Nulidade nos Tribunais Eclesiásticos”  acontece na Universidade, ou seja, os Tribunais Eclesiásticos são organismos de aplicação da justiça eclesiástica, isto é, resolvem questões próprias relativas a Sacramentos e outros assuntos da própria Igreja. As pessoas que trabalham e atuam nos Tribunais Eclesiásticos, necessariamente precisam estar capacitadas, isto é, preparadas como em todos os outros tribunais civis. O curso de Extensão, promovido pela PUC – Campinas,  é uma oportunidade que a Universidade oferece de aprimoramento, para todos os que queiram trabalhar nos Tribunais Eclesiásticos ou que desejam aumentar seu conhecimento Jurídico, Canônico e Teológico. É sem dúvida uma ótima oportunidade para conhecer mais sobre os organismos da Igreja.

A Faculdade de Teologia e a Faculdade de Direito possuem a matéria de Direito Canônico e os alunos da PUC que frequentam esses cursos tem a possibilidade de receber esse conhecimento. Porém como Curso de Extensão é a primeira vez que está sendo oferecido.

 A razão reside justamente na necessidade de compreendermos que não basta a boa vontade ou um mero desejo de justiça para atuar nos Tribunais. É preciso, conhecimento técnico, até para evitar que a injustiça aconteça. Doutro lado a PUC-Campinas abre suas portas para que a sociedade, e nesse caso, a sociedade que se interessa por essa área do Direito, conheça e se aprimore essa temática. Pela quantidade de inscritos verificamos que foi uma ideia ótima.

Causas julgadas pelos tribunais eclesiásticos

Os Tribunais Eclesiásticos podem julgar todas as causas relacionadas aos Sacramentos e a vida própria da Igreja Católica. Em sua grande maioria as causas julgadas pelos Tribunais são de Declaração de Nulidade Matrimonial. Mais podem também acontecer causas patrimoniais e até penais. Tudo dentro da competência e da finalidade canônica.

As partes podem, depois de um casamento que não chegou a se firmar, pedir a Declaração da Nulidade Matrimonial. Pode essa Declaração ser requerida tanto pelo homem ou pela mulher, ou até mesmo por ambos. Também o chamado Promotor de Justiça do Tribunal Eclesiástico, poderá pedir a nulidade matrimonial em determinadas circunstancias, visto que o matrimonio é um Sacramento de ordem pública.

 Todos aqueles maiores de quatorze anos e que de algum modo são conhecedores dos fatos alegados pelas partes que pedem justiça, poderão participar como testemunhas. Contudo, por prática admitimos somente os maiores de idade. O fato é que não desejamos julgar a pessoa, mas se existiu ou não o matrimonio colocado em questão.

CONFIRA O VÍDEO DA TV PUC-CAMPINAS

O tempo de um processo é muito variável, pois, se a causa está clara e as testemunhas comparecem com rapidez o processo evidentemente é mais rápido. Em média geral, os processos, no Tribunal Eclesiástico duram um ano. O custo no Tribunal Eclesiástico da Província Eclesiástica de Campinas é  de um salário mínimo. Esse valor só é possível porque todas as Dioceses da Província subsidiam as despesas do Tribunal Eclesiástico.

 Se a sentença for favorável, acontece algo interessante, pois se Declarada a Nulidade do Matrimonio,  significa dizer que ele não existiu. Ocorreu um evento, uma locomoção de pessoas e até uma festa, mas não o Sacramento. Logo, a pessoa não vai se casar novamente na Igreja, mas ela vai se casar na Igreja, pois, o casamento anterior não existiu enquanto Sacramento. Resumindo sim, se ela desejar ela poderá celebrar validamente seu matrimonio, ou seja, poderá casar na Igreja.

Quem tem fé e se casa na Igreja, casa com o firme desejo de viver uma união para a vida toda. Infelizmente, nem sempre isso acontece, seja por um vício de consentimento ou por um impedimento legal canônico ou civil. Nesses casos cabe a ação nos Tribunais Eclesiásticos pedindo a Declaração de Nulidade Matrimonial.

Prof. Dr. Adriano Broleze é Doutor em Direito Canônico e Docente na PUC-Campinas

Afinal, o que é patrimônio?

Por Janaina Camilo

A palavra patrimônio pode ser entendida de diferentes formas. Na antiguidade, estava relacionada com a herança familiar, sobretudo quando dirigida aos pateres famílias. No século XVIII, em meio à efervescência dos acontecimentos políticos e sociais que desenharam a Revolução Francesa, patrimônio passou a ser entendida como assunto do Estado, que providenciou as primeiras ações de proteção dos monumentos de valor histórico, sobretudo aqueles que remetiam às memórias do antigo regime, mas não para exaltá-los, mas para mostrar a vitória do vencedor revolucionário. Dessa forma, patrimônio e memória iam ao encontro da representação do poder.

No século XIX, patrimônio passa a ser relacionado à construção das identidades. Preservavam-se monumentos materiais (móvel ou imóvel) com o objetivo de construir tradições comuns, que simbolizavam o poder das nações, por exemplo, a língua e os costumes nacionais. Por esse viés, o significado de patrimônio estava diretamente relacionado ao conceito de fronteira, já que esta não se afirma pelos tratados assinados, mas pela dinâmica de convivência entre os homens. Assim, patrimônio limitava-se, basicamente, ao histórico e ao arquitetônico, representando a construção das identidades e, portanto, era assunto político.

Ao longo do século XX, patrimônio recebeu outra conotação, mais dinâmica e abrangente. Ele passou a ser, também, cultural e ambiental, pois, uma vez que hoje concebemos o ambiente como um produto da ação dos homens, portanto, da cultura.

Relacionar patrimônio com os conceitos de identidades, cultura e memória, antecede à chegada do Estado/ Crédito: Álvaro Jr.
Relacionar patrimônio com os conceitos de identidades, cultura e memória, antecede à chegada do Estado/ Crédito: Álvaro Jr.

Patrimônio cultural pode ser tangível e intangível (material e imaterial) e está conceitualmente envolvido com a dinâmica das mudanças espaciais e temporais, que não são, portanto, estáticas e, por isso, está diretamente envolvido numa trama de acontecimentos que envolvem a memória e a identidade. Assim, o sentido de patrimônio exige outras ações como o da preservação e salvaguarda, já que o processo identitário revela, consciente ou inconscientemente, o que somos e o que queremos ser e, daí, a importância do que preservar, por que preservar e o que preservar.

No Brasil, as transformações do significado de patrimônio não foram diferentes e passaram a ser ações de política pública, a partir de 1923, quando o deputado Luiz Cedro apresentou um projeto de criação da “Inspetoria dos Monumentos Históricos dos Estados Unidos do Brasil”, com o objetivo de conservar os imóveis públicos ou particulares, que no ponto de vista da história ou da arte revistam, um interesse nacional.

Em 1936, Mário de Andrade escreveu o projeto que se tornou lei somente um ano depois, pelo qual se entendia por Patrimônio Artístico Nacional todas as obras, nacional ou estrangeira, pertencentes aos poderes públicos, e a organismos sociais e a particulares nacionais, a particulares estrangeiros, residentes no Brasil. Mesmo que o autor modernista tenha se preocupado com as obras de arte, naquela época, no Brasil, a política patrimonial era coordenada pelo Serviço do Patrimônio Artístico Nacional (SPHAN), sendo a sua principal ação a preservação de bens materiais imóveis (cidades, fortificações, prédios) e, por isso, a política patrimonial era conhecida como “pedra e cal” e a decisão do que se tombar era uma disputa política entre modernistas e os neocoloniais.

Em 1988, com a promulgação da Constituição Nacional, sobretudo o artigo 216, o patrimônio brasileiro ganhou outra temática, a dos bens intangíveis (as celebrações, o saber fazer, as formas de expressão e os lugares), sendo o registro autorizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) por meio do decreto no 3.551, de 2000, que instituiu o registro de bens cultuais de natureza imaterial.

Dessa forma, portanto, concluímos que quando relacionamos patrimônio com os conceitos de identidades, cultura e memória, provocamos outra forma de interpretação subjetiva: a de que sua existência antecede à chegada do Estado.

Profa. Dra. Janaina Camilo é Diretora do Curso de História da PUC-Campinas

Ensino e Saúde: Hospital da PUC-Campinas, um patrimônio regional

Por Antônio Celso de Moraes

O Hospital e Maternidade Celso Pierro (HMCP), o Hospital da PUC-Campinas, funciona há mais de 35 anos e nasceu da necessidade de servir como base para a capacitação e prática dos alunos da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), que, neste ano, completa 40 anos. O Hospital caminha em conjunto com a PUC-Campinas, a Sociedade Campineira de Educação e Instrução (SCEI), sua mantenedora, e a Igreja Católica e tem como missão cuidar da educação e da saúde de sua comunidade.

Dr. Antonio Celso de Moraes: “O HMCP cresceu com a cidade de Campinas” / Crédito: Álvaro Jr.
Dr. Antonio Celso de Moraes: “O HMCP cresceu com a cidade de Campinas” / Crédito: Álvaro Jr.

São quase quatro décadas de contribuição para o ensino, a pesquisa e a promoção da saúde. Hoje, o Hospital atende as dez faculdades da área da saúde do Centro de Ciências da Vida (CCV) da PUC-Campinas, bem como a faculdade de Serviço Social. Como Hospital Universitário, possui, também, os Programas de Residência Médica e Multiprofissional, que já contribuíram para a formação de mais de mil duzentos e cinquenta médicos de todo o Brasil.

Criado inicialmente para ser um Hospital-Escola, não deixou de lado o assistencialismo. Localizado na região noroeste da cidade de Campinas, que abrange cerca de 190 mil habitantes, distribuídos por diversos bairros de população simples, situados entre as rodovias Anhanguera e Bandeirantes, faz divisa com os municípios de Hortolândia, Sumaré e Monte Mor, oferece atendimento à população mais carente. Além disso, atende a Região Sudoeste com 240 mil habitantes, bem como a demanda das 19 cidades que compreendem a Região Metropolitana de Campinas (RMC).

O HMCP cresceu com a cidade de Campinas, especialmente em atendimento e complexidade. Hoje, realiza anualmente mais de 2 milhões de atendimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) sendo que Campinas possui 1.154.617 habitantes e 660 mil atendimentos são de convênios privados, com mais de 30 operadoras de saúde e atendimento particular. Como centro de excelência na Região Metropolitana de Campinas (RMC), o Hospital possui Certificação Nível 2 de Qualidade pela Organização Nacional de Acreditação (ONA), que garante qualidade e segurança no atendimento prestado. No Brasil, há, aproximadamente, 6 mil hospitais, sendo que, menos de 224 são acreditados.

O HMCP mostra, dia a dia, que é um hospital completo, com equipe multidisciplinar, certificado para atendimentos de alta complexidade, com destaque em traumatologia, neurologia e cardiologia. A cardiologia (adulto/infantil) é referência no Estado de São Paulo, com índices de resultado em parâmetros internacionais.

Na última década, a produtividade do HMCP quadruplicou consequência do trabalho em equipe e do apoio da Mantenedora e da Universidade na gestão de recursos e investimentos destinados ao Hospital.

Uma Instituição que ensina,  acredita e desenvolve a humanização/ Crédito: Álvaro Jr.
Uma Instituição que ensina, acredita e desenvolve a humanização/ Crédito: Álvaro Jr.

Uma Instituição que ensina, beneficia a população, acredita e desenvolve a humanização em seu ambiente. Trata-se de um local em que é propícia a troca de experiências de vida entre alunos, professores, colaboradores, cidadãos comuns e a Igreja Católica, com base em sua missão de ‘prestar atendimento na área da saúde e contribuir para a geração e promoção do conhecimento, considerando sua orientação cristã e seu caráter de Hospital Universitário’.

Dr. Antônio Celso de Moraes- Superintendente do HMCP

 

Mundo sem fronteiras? Livro-reportagem reabre debate sobre refugiados

Valeria Graziano se formou em Jornalismo na Universidade, trabalhou na ONU e, hoje, pesquisa questões que envolvem migrações e refúgios. Valeria conversou com o Jornal da PUC-Campinas sobre a imigração forçada, direitos humanos e xenofobia. Segundo ela, pesquisas mostram que o aumento da xenofobia na Europa, por exemplo, acontece justamente em momentos de crescimento econômico. Por isso, segundo Valeria, “a associação direta entre crise econômica e financeira com o aumento da hostilidade é uma falácia”. Confira a entrevista completa.

Por Amanda Cotrim

O ano era 2006. Valeria Graziano tinha 21 anos e estava no último ano da graduação de Jornalismo, na PUC-Campinas. Preparava-se para a realização do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Embora tenha decidido estudar jornalismo, Valeria sempre gostou das relações internacionais. Pensar questões relacionadas às migrações forçadas, conflitos armados, direitos humanos e globalização, balançava e ainda balança o coração da jornalista. A partir disso, não teve dúvidas: decidiu unir o jornalismo e as relações internacionais. O resultado foi o livro-reportagem “A esperança além da fronteira”, que teve orientação do Prof. Dr. Glauco Cortez. Em seu livro, Valeria contou a história de quatro seres humanos, de quatro países: Congo, Colômbia, Sérvia e Irã. Personagens/vítimas de guerra civil, conflito armado, perseguição étnica e religiosa. “Diferentes origens. Diferentes problemas. Mesmo destino: Brasil. Chegaram aqui sob a condição de refugiados. Ao atravessar a fronteira, os problemas não desapareceram. Apenas transformaram-se”, diz o livro. “Muitas vezes, os imigrantes são alvo de preconceito e intolerância no país que o ‘acolheu’”, denuncia Valeria. Para ela, a falta de acesso a informações sobre guerras e conflitos nessas partes esquecidas do planeta faz com que suas consequências se tornem também desconhecidas.

Valeria Graziano, ex-aluna da PUC-Campinas/ Crédito: Arquivo Pessoal
Valeria Graziano, ex-aluna da PUC-Campinas/ Crédito: ACNUR Brasil/V. Graziano

A relação de Valeria com os direitos humanos não se esvaziou no Trabalho de Conclusão de Curso. Depois de formada, a ex-aluna da PUC-Campinas trabalhou no Departamento de Comunicação da Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados no Brasil – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) e defendeu seu mestrado em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional, pela Universidade de Brasília. Atualmente, estuda Cultura, Política e Identidades na Universidade de São Paulo. Em 2015, quase 10 anos depois de Valeria ter escrito seu livro, o tema continua atual.  Confira a entrevista que o Jornal da PUC-Campinas realizou com a ex-aluna.

Por que esse tema “provocou” você enquanto cursava o último ano de graduação em Jornalismo?

Eu tinha 21 anos, estava no último ano da graduação em Comunicação Social – Jornalismo. Embora tenha decidido estudar jornalismo, sempre gostei muito do campo das relações internacionais e de pensar questões relacionadas às migrações forçadas, conflitos armados, direitos humanos e globalização. Cheguei à conclusão de que poderia unir as duas áreas para desenvolver meu TCC.

Conforme eu pesquisava os conflitos armados contemporâneos, ia descobrindo a realidade extremamente difícil em que vivem milhões de refugiados por todo o mundo, os quais sofrem ameaças permanentes, violências de todo tipo e violações sistemáticas de direitos humanos. E onde estavam esses conflitos e essas histórias na mídia tradicional brasileira? Naquela época, o grupo de refugiados que mais crescia no Brasil era o de colombianos. Apesar disso, a crise humanitária vivida no país vizinho era (e ainda é) invisibilizada pela mídia tradicional brasileira, que continua a comprar grande parte das matérias para seus cadernos internacionais de agências estrangeiras, as quais estão totalmente inseridas na lógica de interesses do capitalismo global. Cheguei à conclusão de que narrar as histórias de vidas de refugiados seria uma forma de dar visibilidade aos milhões de excluídos e vítimas diretas dessa nova ordem internacional, que continua a resultar em aumento de conflitos armados, guerras civis, perseguições a minorias étnicas e religiosas, torturas e massacres pelo mundo, os quais são constantemente ignorados pela mídia brasileira. Essa inexistência de informações sobre tais conflitos e de um debate crítico na mídia tradicional sobre suas causas, responsabilidade dos países desenvolvidos e dos organismos internacionais, bem como as consequências para a população civil, resultam em preconceito, intolerância e violência contra as principais vítimas dessa lógica: os refugiados.

 No livro você conta a história do Abdul*, que tinha 21 anos e nasceu no Irã, da Ana*, da antiga Iugoslava, da Karen*, da Colômbia, que na época tinha 17 anos e do Johnnie*, da República Democrática do Congo. Como foi o processo de apuração e do contato com as fontes? Você já conhecia essas pessoas?

(*) Os nomes dos refugiados das entrevistas foram trocados por questão de segurança.

Não, eu não conhecia nenhum deles. Aliás, até então, nunca tinha tido contato com nenhuma pessoa na condição de refúgio. Entrei em contato com a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, que é uma das organizações não governamentais que trabalha em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) no Brasil para prestar assistência humanitária e apoiar no processo de integração dos refugiados que chegam ao país. Estive diversas vezes no Centro de Acolhida para Refugiados mantido pela Cáritas, na cidade de São Paulo, em que pude conversar com os funcionários e também com refugiados que chegavam ao local. No processo de definição das histórias que contaria no livro, considerei importante abordar histórias de refugiados que chegavam de diferentes regiões e que fugiam por motivos diversos. Conto no livro a história de um refugiado da República Democrática do Congo, que fugiu da guerra civil que assolava o país na virada do século; de uma refugiada da Colômbia, país que vive uma situação de conflito armado e violência generalizada; de uma refugiada da Sérvia, que sofreu perseguição étnica durante o conflito nos Balcãs, na década de 1990; e de um refugiado do Irã, que foi vítima de perseguição religiosa em seu país, na década de 1980.

Foi muito importante durante esse processo o contato com o escritório do ACNUR, em Brasília, para que eu pudesse entender as questões jurídicas, ou seja, os tratados internacionais e legislações nacionais relativas ao tema, a ter acesso às estatísticas oficiais sobre refúgio no mundo e no Brasil, e a entender melhor como funciona o trabalho desenvolvido pelo ACNUR e a articulação com as instituições nacionais – governamentais e não governamentais – envolvidas no processo de acolhida, reconhecimento do status de refugiado e no processo de integração local.

Qual foi o maior desafio na realização do livro reportagem?

Realizar as entrevistas e fazer com os refugiados contassem em detalhes suas histórias com certeza foi o maior desafio, especialmente com relação àqueles que estavam a menos tempo nessa condição de refúgio, já que era muito difícil para eles relembrar todo o sofrimento vivido, a perda de familiares e amigos, as violências de que foram vítimas, tudo que deixaram para trás.

O que mais tocou você?

Todas as histórias me tocaram muito, não tem como não se sentir chocada diante de tanta injustiça, violência, violação de direitos básicos, e indignada ao lembrar que os responsáveis pelas decisões políticas nacionais e internacionais que geraram tais situações de violência generalizada ou perseguições individuais em sua maioria seguem impunes.

Ainda tem contato com as personagens/vítimas?

Não. Logo depois que terminei a graduação, me mudei para Brasília e acabei perdendo o contato com eles.

Precisamos de uma democracia que seja verdadeiramente intercultural/ Crédito: Arquivo Pessoal
Precisamos de uma democracia que seja verdadeiramente intercultural/ Crédito: ACNUR BRASIL/ V. Graziano

Apesar de o seu livro ter sido escrito em 2006 (há quase 10 anos), o tema ainda é bem atual.

Infelizmente, ainda é muito atual. Naquele ano em que escrevi o livro (2006), o total da população de preocupação do ACNUR (refugiados, solicitantes de refúgio, deslocados internos, apátridas) chegava a 19 milhões – incluindo 9,2 milhões de refugiados reconhecidos pela ONU e 5,6 milhões de deslocados internos, que são aquelas pessoas que são obrigadas a fugir pelos mesmos motivos que os refugiados, mas que não chegam a atravessar fronteiras internacionais, ou seja, fogem para outras regiões dentro do seu próprio país. De acordo com os últimos dados, esse total ultrapassa atualmente 42 milhões pessoas. No dia 20 de junho, quando é celebrado o Dia Mundial do Refugiado, o ACNUR lançou seu relatório anual e apresentou números ainda maiores. O que chamou minha atenção ao comparar os números de 2006 com os atuais é o impressionante crescimento no número de deslocados internos, o que revela não apenas mudanças nas características dos conflitos, mas também as consequências das políticas migratórias cada vez mais rígidas nos países desenvolvidos e o aumento da intolerância e da xenofobia em todo o mundo na última década. E, ainda, o contínuo crescimento da população total de preocupação do ACNUR demonstra o grande fracasso da resposta da comunidade internacional diante do aumento das situações de conflito armado e de crises humanitárias nas últimas décadas. Embora tenham crescido em número e tipos as operações de paz e humanitárias da ONU em todo o mundo, a população civil continua a ser a principal vítima desses conflitos.

A partir da sua experiência na área profissional e acadêmica, como você avalia o clima de hostilidade que os brasileiros vêm promovendo em relação aos imigrantes, principalmente os oriundos de países ditos mais pobres, como Haiti e da África? Por que isso ocorre e o que deve ser feito para combater a intolerância e o preconceito em relação aos imigrantes?

Em primeiro lugar, é importante ressaltar que esse aumento da hostilidade com relação ao estrangeiro, o aumento da xenofobia e da violência contra o imigrante ou refugiado, infelizmente é percebido atualmente não apenas no Brasil, mas em muitas partes do mundo, especialmente após os atentados terroristas no início do século nos Estados Unidos (2001), Madri (2004) e Londres (2005). Esses atentados legitimaram e deram força aos discursos mais conservadores e que têm resultado em políticas migratórias mais rígidas, bem como na criminalização e na securitização da questão da imigração. As correntes políticas anti-imigratórias passam a articular terrorismo, crimes transnacionais e imigração irregular, e a noção de ameaça iminente e a necessidade de proteger o Estado contra essas ameaças fazem com que esses discursos se proliferem. Assim, passam a fazer associar “islamismo” e “terrorismo”, por exemplo, e chegam a resgatar o discurso da “pureza racial europeia”, o qual num passado bastante recente resultou em grandes tragédias para toda a humanidade. É importante ressaltar, ainda, que algumas pesquisas mostram que o aumento da xenofobia na Europa, por exemplo, acontece justamente em momentos de crescimento econômico, por isso a associação direta entre crise econômica e financeira com o aumento da hostilidade é uma falácia, a questão é muito mais complexa. Não são as lógicas econômicas e financeiras diretamente que geram essa hostilidade – aliás, os trabalhos realizados por imigrantes têm sido fundamentais para o crescimento econômico em muitos países desenvolvidos -, mas as decisões políticas nacionais e no âmbito dos organismos multilaterais, as quais resultam em processos de exclusão social, étnica e cultural. Por isso entendo que o aumento da xenofobia é um problema político, social e cultural, e não apenas econômico, embora todas essas lógicas estejam intrinsicamente relacionadas.

Falando especificamente do Brasil, o que existe é um grande desconhecimento com relação aos conflitos contemporâneos e às situações que resultam em crises humanitárias, violência generalizada e perseguições. Esses conflitos e crises são ignorados pela mídia tradicional do país e, quando aparecem nas notícias são tratados a partir das informações oficiais produzidas por governos ou pelas agências internacionais, o que resulta em uma postura pouco ou nada crítica por parte da mídia e no tratamento superficial dessas questões. Como consequência, existe também um grande desconhecimento sobre o que é ser refugiado. E o desconhecimento, somado ao crescimento dos discursos políticos anti-imigratórios que associam a imigração irregular com o terrorismo e com crimes transnacionais, resulta em medo, preconceito, violência, xenofobia.

Por isso é tão importante e urgente o debate sobre a regulação da mídia no Brasil. É preciso repensar o papel e a responsabilidade dos veículos de comunicação. É fundamental também o investimento em políticas públicas nas mais diversas áreas que promovam a educação intercultural, políticas públicas que não apenas incluam a diferença de maneira formal e burocrática, mas que promovam a valorização e a inclusão dessa diferença nas estruturas do Estado e da sociedade. Os discursos oficiais sobre diversidade ou multiculturalismo revelam-se insuficientes e continuam restritos aos âmbitos da educação e da cultura. É preciso pensar essa questão da diferença de maneira mais ampla, com vistas a construir uma democracia que seja verdadeiramente intercultural.

O aumento da xenofobia é percebido não apenas no Brasil/ Crédito: Arquivo Pessoal
O aumento da xenofobia é percebido não apenas no Brasil/ Crédito: ACNUR BRASIL/ V. Graziano

Em sua opinião, por que o Brasil é uma escolha para esses imigrantes?

Temos que diferenciar as migrações da condição de refúgio. Embora a imigração também seja em geral forçada, ou seja, as pessoas se sentem pressionadas pelas condições econômicas e sociais a abandonar seus lares para tentar construir uma nova vida em outros países, ainda assim é uma condição diferente do refúgio. No caso do refúgio, a pessoa não tem escolha, ou ela foge, ou vai morrer, seja por um contexto de violência generalizada, ocasionada por um conflito armado, por exemplo, seja por uma perseguição individual devido à sua religião, etnia, orientação sexual, etc. No caso do refúgio é muito difícil que a pessoa consiga escolher o país de destino. Ela está vivendo uma situação de ameaça, de perigo iminente, e foge para onde consegue. Na década de 1980, cresceu significativamente o número de refugiados angolanos no Brasil, os quais fugiam da guerra civil e chegavam ao país pela proximidade linguística e cultural. Chegam também refugiados de diversos outros países africanos, muitos deles vêm escondidos em porões de navios e descobrem que estão no Brasil somente ao desembarcar. No caso da Colômbia e do Haiti, a proximidade geográfica contribuiu para a vinda de uma significativa população para o país. Além disso, muitos outros refugiados chegam ao Brasil por meio do programa de reassentamento do ACNUR, ou seja, chegam como refugiados em países e por algum motivo não podem continuar nele – seja porque esses países não reconhecem seu status de refugiado ou porque continuam a sofrer ameaças -, eles são reassentados pelo ACNUR em um terceiro país, e o Brasil faz parte desse programa de reassentamento.

Numa situação como essa, percebemos que o mundo não é tão sem fronteiras assim…

Não mesmo. Tenho pesquisado bastante sobre essas contradições inerentes à globalização – ou melhor, globalizações, no plural – e, em especial, à sua fase mais recente, marcada pelo capitalismo global. Embora esses processos mais recentes relacionados ao fenômeno da globalização tenham criado um fluxo de capitais e mercados sem precedentes, as fronteiras se fecham cada vez mais para os seres humanos. É preciso lembrar que a globalização é um processo bastante desigual, assimétrico. Enquanto uma minoria, especialmente em países desenvolvidos, se beneficia das facilidades promovidas pela globalização, por outro lado, as fronteiras têm se tornado muito mais rígidas para as populações mais pobres do planeta, as quais deixam para trás suas famílias para tentar construir uma nova vida em outro país, mas que acabam barradas pelas políticas migratórias. As barreiras são cada vez mais altas e fortes especialmente naqueles países responsáveis pelas decisões políticas e econômicas tomadas no âmbito dos organismos internacionais e que resultam em intervenções e conflitos internos. E, quando as vítimas desses conflitos conseguem atravessar uma fronteira internacional, as barreiras permanecem não mais como um muro de concreto, mas a partir da criminalização de sua condição e de sua identificação como imigrante ilegal e, de maneira mais profunda e complexa, na forma de barreiras simbólicas, ou seja, os imigrantes e refugiados continuam a sofrer com as políticas migratórias rígidas, que dificultam a integração, a busca por um trabalho, com a violência do Estado, e também com a xenofobia e o preconceito das populações locais. As fronteiras simbólicas estão ali, presentes no dia a dia de um migrante ou refugiado. Estamos muito longe da possibilidade de construção de uma cidadania universal, embora os entusiastas da globalização falem em desaparecimentos de todas as fronteiras.

SERVIÇO:

O livro A Esperança além da Fronteira, de Valeria Graziano, está disponível para consulta na biblioteca da PUC-Campinas, no Campus I da Universidade.

Informações em: (19) 3343-7058

 

Língua e poesia popular: entre a fala e a escrita

Por Cristina Betioli Ribeiro Marques

Quando o assunto é língua materna, muitas ideias passam pela cabeça dos seus usuários: o vínculo com a terra pátria, o canal para relembrar e contar histórias, o meio para registrar e difundir conhecimento, o instrumento identificador do sujeito humano inserido em sua cultura.

Embora sejamos todos conhecedores intuitivos dos aspectos constituidores de nosso idioma – afinal, dispomos dele constantemente, no dia a dia – nem sempre atentamos para questões socioculturais essenciais que o definem. Uma dessas questões é a profunda diferença entre língua falada e língua escrita. Os usos dessas duas modalidades, embora apoiados numa competência linguística que é comum a todos os usuários de um idioma, servem a propósitos distintos. As variedades linguísticas presentes na língua falada – e para citar um exemplo, consideremos os diversos sotaques brasileiros – nem de longe podem ser plenamente transpostas para a língua escrita. Essa limitação se dá por uma questão absolutamente técnica: a escrita não dispõe de símbolos gráficos suficientes para representar toda a variedade sonora que uma língua pode apresentar.

A literatura de cordel é, simultaneamente, patrimônio material e imaterial brasileiro/ Crédito: Divulgação
A literatura de cordel é, simultaneamente, patrimônio material e imaterial brasileiro/ Crédito: Divulgação

Se esse fato fosse apenas um dado teórico, menos mal; mas infelizmente não é. A escrita, embora seja uma modalidade de uso da língua desenvolvida artificialmente e muito mais recente que a fala na história da humanidade, ganhou estatuto de superioridade depois dos antigos estudos alexandrinos que inauguraram, a partir da literatura grega, a prescrição de regras para o “bom uso” do idioma. As gramáticas tradicionais que conhecemos têm filiação nesses estudos que, historicamente, foram desprestigiando a modalidade falada em detrimento da escrita. O resultado disso, na tradição de ensino de português no Brasil, é o conhecido bordão de que “não sabemos português”. Ora, como é que pode haver uma nação constituída de falantes que não sabem a própria língua? Qual o lugar reservado aos usuários do idioma que são iletrados? Questionamentos como estes devem-nos levar a repensar os aspectos definidores de língua materna, como patrimônio imaterial muito mais complexo do que aparenta.

Dentre os produtos-símbolo da cultura brasileira, temos um exemplo que ilustra de forma sui generis o lugar que a tradição oral pode ocupar. O gênero de texto conhecido como “literatura de cordel” nos mostra como pode ser controversa a polarização entre língua falada e língua escrita. No exemplo em questão, as duas modalidades podem estar numa relação de continuidade com a qual a gramática normativa não consegue lidar. Até mesmo o uso do termo “literatura”, para uma poesia que na sua origem era composta e transmitida oralmente, pode ser inadequado. As narrativas poéticas de cordel têm história nas cantorias improvisadas, com participação eufórica de auditórios que se misturavam aos cantadores, desde meados do século XIX, predominantemente nas antigas “províncias do Norte” (período em que ainda não se conhecia a separação regional do “Nordeste”). Nessa época, os índices de alfabetização no Brasil eram baixíssimos e, ainda mais, nas regiões que se distanciavam da capital do Império e dos centros cultural e economicamente mais estabelecidos, como Recife e Bahia. Por esse motivo, os populares poemas em redondilhas maiores e rimas regulares, eram compostos por poetas não alfabetizados, com extraordinária memória e engenho para a improvisação, que faziam renome em suas comunidades e atraíam público para reverenciar sua performance.

Profa. Dra. Cristina Betioli Ribeiro Marques/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Dra. Cristina Betioli Ribeiro Marques / Crédito: Álvaro Jr.

A poesia popular dos cantadores nortistas ganharia formato impresso em folhetos, amarrados por cordéis em varais de exposição nas feiras populares, no início do século XX. Produzidos e impressos em pequenas tipografias particulares, esses folhetos começam a conferir autoria a poetas como Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista. A partir de então, as composições que eram predominantemente orais ganham o prestígio de literatura impressa; no entanto, nessa literatura, perdurará o caráter misto de criações com traços da fala transpostos para a escrita.

Podemos dizer que a literatura de cordel, por representar um registro híbrido da nossa língua, é, simultaneamente, patrimônio material e imaterial brasileiro. Seus temas versam sobre atualidades, amor, sofrimento, fábulas, valentia e, em tempos de soberania da escrita… o valor da instrução para a dignidade do homem. Nas palavras do poeta João Martins de Athayde, em “A desventura de um analfabeto ou o homem que nunca aprendeu a ler” (1945): “Abram-se as portas da escola,/ para este povo entrar,/ a fim de obter a esmola/ do saber que vai buscar,/ porque o analfabetismo,/ deixa o homem no ostracismo,/ faz a vergonha do lar”.

Profa. Dra. Cristina Betioli Ribeiro Marques é  Docente na Faculdade de Letras da PUC-Campinas

 

 

 

 

Pesquisa identifica degradação na Mata do Quilombo

Trabalho de Conclusão de Curso da Faculdade de Engenharia Ambiental aponta que a perda ambiental está relacionada à exploração dos recursos naturais

 Por Amanda Cotrim

A Mata do Quilombo, conhecida também como Mata da Vila Holândia, no distrito de Barão Geraldo, em Campinas, está passando por um processo de degradação. Isso é o que apontou pesquisa realizada na Faculdade de Engenharia Ambiental, do Centro de Ciências Exatas, Ambientais e de Tecnologias (CEATEC). Segundo a autora da pesquisa, Gabriela Fernandes Zangirolami, que foi orientada pela Profa. Dra. Regina Longo, o fato de o remanescente florestal estar em uma área urbana, com crescimento populacional e aumento na exploração dos recursos naturais, a exemplo do solo, flora e ar, aliado à demanda de investimentos em obras de infraestrutura e construção de estradas, contribuiu para a degradação do local.

A vegetação em áreas urbanas ameniza as alterações do clima e melhora o microclima urbano/ Crédito: Álvaro Jr.
A vegetação em áreas urbanas ameniza as alterações do clima e melhora o microclima urbano/ Crédito: Álvaro Jr.

Para identificar os aspectos de degradação da mata, o perímetro da mesma foi dividido em segmentos de A a F. O trecho AB está localizado na interface com o plantio de cana-de-açúcar; o segmento BC faz interface com uma estrada de terra e com o pasto; o trecho CD localiza-se na beira da estrada, e, por fim, o segmento EF está localizado na beira da Estação de Tratamento de Esgoto (E.T.E.) do distrito de Barão Geraldo. “Somados estes aspectos, fica evidente a prática do desmatamento, além da remoção da camada orgânica e exposição das camadas mais frágeis do solo, compactação e lixívia do solo, contaminação por metais pesados, os quais afugentam entorno da fauna, promovem a remoção da flora local, a erosão do solo e a disposição de resíduos”, afirma Gabriela.

Aliadas às áreas urbanas, as áreas verdes têm função de manter o equilíbrio social, ambiental e econômico garantindo qualidade de vida e qualidade ambiental. Essas áreas podem estar distribuídas e possuem diversas categorias, além de serem viáveis economicamente. Com a degradação da Mata do Quilombo, a qualidade de vida da população é reduzida. “A proposta de recuperação da área do entorno do remanescente poderá auxiliar o poder público nessa percepção, já que demonstrará como as ações de recuperação melhoram a qualidade de vida das comunidades vizinhas e do bioma”, defende a autora da pesquisa.

Demanda de investimentos em obras de infraestrutura e construção de estradas, contribuiram para a degradação do local. / Crédito: Álvaro Jr.
Demanda de investimentos em obras de infraestrutura e construção de estradas, contribuiram para a degradação do local. / Crédito: Álvaro Jr.

“A vegetação em áreas urbanas é tão necessária como benéfica, pois ameniza as alterações do clima e melhora o microclima urbano e a variação das proximidades da superfície do solo”, afirma Gabriela. A vegetação também tem uma grande função no balanço de energia e no fluxo de volumes de água, já que uma parte da precipitação é retida pela vegetação, sendo que quanto maior a superfície de folhagem maior é a área de retenção da água. A vegetação também determina a infiltração e o escoamento das águas pluviais, “sendo esses os fatores que determinam a erosão do solo, a qualidade e quantidade de água que escoa pela superfície, bem como, a infiltração no solo”, explica.

A Mata do Quilombo, conhecida também como Mata da Vila Holândia/ Crédito: Álvaro Jr.
A Mata do Quilombo, conhecida também como Mata da Vila Holândia/ Crédito: Álvaro Jr.

Diante da constatação de que a sociedade está contribuindo para a degradação da Mata do Quilombo, a autora da pesquisa afirma que a recuperação da área ainda carece de políticas públicas e de fiscalização para a conservação ambiental. “É necessário que os ecossistemas naturais estejam presentes na vida das pessoas, frente ao grande patrimônio ambiental que representam. O nosso trabalho, realizado na Faculdade de Engenharia Ambiental, serve como subsídio para a recuperação e melhora da qualidade ambiental da área”, considera Gabriela. As atividades de recuperação, segundo ela, têm por finalidade permitir que ocorra o processo de sucessão ecológica na área trabalhada, garantindo-se que todos os fatores fundamentais para que a sucessão ocorra estejam ali presentes ou seja a ela fornecidos.

Projeto combate a intolerância religiosa nas escolas

Projeto de Extensão da PUC-Campinas nas escolas da Rede Pública de Ensino alia história das religiões à história do patrimônio de Campinas

Por Amanda Cotrim

O Brasil é um país multicultural. Essa frase já foi repetida muitas vezes para identificar o País como sendo um lugar de muitas religiões, costumes e etnias. Mas isso não faz do Brasil um lugar, necessariamente, harmônico. Os conflitos existem. Pensando em combater o preconceito e a intolerância religiosa, a PUC-Campinas mantêm, desde fevereiro de 2015, o projeto de extensão Os lugares da religião: Espaço, Patrimônio e Cultura Material em Campinas, que tem como objetivo “ofertar aos professores da rede pública o conhecimento sobre a religião, seja a deles ou a dos outros”, explica o docente da Faculdade de História e responsável pelo projeto, Prof. Dr. Fabio Augusto Morales Soares.

O Professor Fabio Morales explica a relação entre religião, patrimônio e memória / Crédito: Álvaro Jr.
O Professor Fabio Morales explica a relação entre religião, patrimônio e memória / Crédito: Álvaro Jr.

Uma vez por mês, o Professor Morales e dois alunos-bolsistas promovem oficinas nas escolas da rede pública e, juntamente com os educadores, realizam um estudo sobre religião em um ou mais templos religiosos de Campinas, uma atividade que alia cultura, arte e arquitetura. Em abril de 2015, o estudo foi sobre o catolicismo, na Catedral Metropolitana, no Largo do Rosário e na Basílica do Carmo. Em maio de 2015, foi a vez do islamismo, em que professores visitaram a Mesquita da Sociedade Islâmica de Campinas, no Parque São Quirino. Em agosto de 2015, o projeto estudará o judaísmo, na Sinagoga localizada na Rua Barreto Leme, no Centro de Campinas; em setembro de 2015, será a vez do budismo, no Templo Higashi Honganji, no Jardim Chapadão; em outubro, a umbanda no Terreiro Vó Benedita, na Vila Ipê, e, em novembro, será a vez do neopentecostalismo, na Igreja Universal, em Campinas.

“À medida que as religiões são fenômenos sociais extremamente complexos e diversificados, selecionamos dois aspectos das experiências religiosas presentes na cidade: a arquitetura e os objetos sagrados. Desse modo, além de conhecer melhor – evitando preconceitos vários – o campo religioso da cidade, os participantes têm acesso de um modo aprofundado ao patrimônio material edificado da cidade, assim como aos objetos sagrados em cada uma das religiões”, explica Soares.

O estudante do quarto ano do curso de História da PUC-Campinas, Renan Corrêa Teruya, de 30 anos, é extensionista no projeto. Renan é responsável em explicar sobre as fachadas dos espaços religiosos visitados. Já a também extensionista Camila Médici, 20 anos, tem a responsabilidade de falar sobre os objetos sagrados de cada templo visitado.  “Auxiliamos o professor Soares desde a reflexão acadêmica sobre as religiões até a preparação de textos e atividades que vamos usar com os professores da rede pública”, explica Renan. “No final do projeto, teremos um site completo com informações acadêmicas sobre as religiões que estamos estudando”, adianta o docente.

A PUC-Campinas mantêm, desde fevereiro de 2015, o projeto de extensão Os lugares da religião: Espaço, Patrimônio e Cultura Material em Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.
A PUC-Campinas mantêm, desde fevereiro de 2015, o projeto de extensão Os lugares da religião: Espaço, Patrimônio e Cultura Material em Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.

As atividades são realizadas de duas maneiras: uma oficina expositiva, em que os alunos-bolsistas vão até as escolas e apresentam a história arquitetural de cada uma das religiões presentes em Campinas. No sábado seguinte a essa exposição, “realizamos em conjunto estudos do meio, em que visitamos edifícios religiosos. Tanto nas oficinas expositivas quanto nas visitas aos edifícios religiosos, os professores participam ativamente, seja na forma de complementos ao discurso preparado, seja na forma de novos encaminhamentos às questões apresentadas”, revela Soares.

O docente explica, por exemplo, que a Catedral Metropolitana, dedicada à Nossa Senhora da Conceição está repleta de referências à arquitetura clássica e renascentista, e tem a ver com o processo de europeização (via arquitetura eclética) das cidades brasileiras no contexto da “modernização capitalista” e da formação da nova rede urbana paulista, o que não impediu o fato de que a técnica utilizada ser a taipa de pilão, tipicamente colonial, construída por trabalho escravo; “a Mesquita no Parque São Quirino é uma réplica do Domo da Rocha, em Jerusalém, mesquita construída sobre o antigo templo de Salomão e sobre a rocha onde Abraão teria quase sacrificado Isac/Ismael – dentro do domo da Rocha, assim como dentro da Mesquita de Campinas, existe um mihrab, que é um nicho na parede que indica a direção de Meca, conectando todas as mesquitas às geografia sagrada do Islã”, contextualiza. Já a Igreja Universal na Avenida João Jorge, por sua vez, tem um misto de arquitetura grega e judaica, o que tem a ver com a afirmação desta denominação no cenário religioso brasileiro, compensando sua curta história com a incorporação de uma longuíssima tradição arquitetural. “O terreiro da Vó Benedita, finalmente, não se reconhece facilmente, pois sua arquitetura é absolutamente residencial, o que se explica pela perseguição latente a religiões de matriz africana e afro-brasileira em nossa sociedade, supostamente, tolerante”, ressalta.

Professores da rede pública de ensino em Campinas durante as oficinas do Projeto de Extensão / Crédito: Álvaro Jr.
Professores da rede pública de ensino em Campinas durante as oficinas do Projeto de Extensão / Crédito: Álvaro Jr.

Para a Coordenadora Pedagógica dos anos finais (do 6º ao 9º ano), da escola Estadual Luis Gonzaga Horta Lisboa, em Campinas, em que o projeto de Extensão é realizado, Jaqueline Salione Silveira, “a iniciativa é muito bem-vinda pela sua relevância cultural. Ficamos encantados com a possibilidade de aliar a cultura da cidade de Campinas com o que cada religião traz de informação cultural. Eu propus levar os alunos para acompanhar as oficinas, porque acreditamos que o projeto é muito rico para o conhecimento cultural desse aluno”, opina a Coordenadora.

A intolerância às religiões de matriz africana.

Segundo o Professor Morales, não se apagam 300 anos de escravidão africana por decreto. O racismo, segundo ele, estruturou a sociedade colonial e imperial brasileira e a república não se esforçou para integrar os negros. “O racismo derivado da escravidão e das formas de reprodução da condição subalterna da população negra (ausência de Estado de bem-estar social + baixos salários + representações midiáticas depreciativas) é, certamente, o principal fator para a explicação da intolerância às religiões de matriz africana. Mas não só”, considera.

Nada como o conhecimento e informação para desmistificar uma situação de preconceito. Isso é o que acredita a Coordenadora Jaqueline, que adiantou que transmitirá todo o conhecimento adquirido aos alunos no final do projeto. “Eu penso em trabalhar com todas as religiões e no final do projeto apresentar todas suas características culturais como um trabalho geral para os estudantes”, finalizou.

Fazenda Roseira: Preservar para existir

Dissertação analisa processo de requalificação e transformação social da Fazenda Roseira, ponto referencial de cultura e história negra, em Campinas

Por Beatriz Videira

Estudo de mestrado desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Urbanismo acompanhou e analisou o processo de requalificação da Fazenda Roseira como Casa de Cultura, processo que contou com a participação de movimentos sociais, culturais e ambientais da região noroeste de Campinas. Formada em História pela Universidade, a pesquisadora Alessandra Ribeiro é gestora da Casa de Cultura Afro Fazenda Roseira e uma das integrantes da Comunidade Jongo Dito Ribeiro. A Fazenda Roseira está entre os centros de referência regional sobre o Jongo, além de ser um espaço reconhecido como polo de difusão da cultura negra, localizado no jardim Roseira, na região noroeste do município. E foi por essa relação entre território material e cultura imaterial, que a comunidade negra optou, dentro das suas condições, por transformar a Fazenda Roseira na sede da Comunidade Jongo Dito Ribeiro.

Segundo Alessandra, seu maior objetivo foi realizar um diálogo entre a academia e a comunidade Jongo Dito Ribeiro. “Me utilizei do método de pesquisadora-participante, com base na episteme oriunda da oralidade e vivências da própria comunidade, entrelaçadas com fontes bibliográficas e referenciais teóricos”, explica.

A Fazenda Roseira fica no bairro Roseira, região noroeste de Campinas/ Crédito Álvaro Jr.

A Fazenda Roseira fica no bairro Roseira, região noroeste de Campinas/ Crédito Álvaro Jr.

A dissertação aborda o processo que envolveu a preservação da Fazenda Roseira, uma antiga fazenda de café e marco referencial cultural e histórico para o município, localizada hoje numa região de importantes rodovias e ocupada predominantemente por uma população de baixa renda. A pesquisadora escolheu o tema porque também quis conhecer, efetivamente, suas origens e sua ancestralidade. “Saber de onde vim contribuiu muito para que eu fizesse escolhas e determinasse alguns caminhos a seguir como mulher, negra e moradora de uma das regiões periféricas de Campinas”, justifica.

A principal problemática posta pela pesquisa era quais as possibilidades de uma comunidade negra, periférica, praticante de uma cultura ancestral, reconhecida nacionalmente,  “conseguia se articular ou não na defesa de um patrimônio público, com grandes dimensões do patrimônio material, na cidade de Campinas”, contextualiza a pesquisadora.

Em Campinas, a Comunidade Jongo Dito Ribeiro recebeu esse nome em homenagem a Benedito Ribeiro, avô de Alessandra, que chegou à cidade na década de 1930, vindo do interior de Minas Gerais. Com o objetivo de acessar esse passado, Alessandra encontrou na academia uma possibilidade, entre outras, de buscar algumas respostas. Um processo que envolveu medo, superação e surpresa. “Escolhi que seria a voz daqueles que nem sempre podem estar na academia falando de si, defendendo-os e lutando por eles”, revela.

Em Campinas, a Comunidade Jongo Dito Ribeiro recebeu esse nome em homenagem a Benedito Ribeiro/ Crédito: Alvaro Jr.
Em Campinas, a Comunidade Jongo Dito Ribeiro recebeu esse nome em homenagem a Benedito Ribeiro/ Crédito: Alvaro Jr.

E uma de suas lutas é a preservação do Jongo, patrimônio imaterial nacional, que se cultuou por meio da dança e da música nos quintais das periferias urbanas e em comunidades negra do Sudeste brasileiro. O Jongo, também conhecido como Caxambu, é uma manifestação cultural que mescla percussão e dança coletiva e tem três elementos essenciais: os pontos, a dança e os tambores. Os pontos concentram todos os saberes do Jongo e, ao misturar metáforas e dialetos da língua banto – língua que deu origem a diversas línguas no centro e no sul do continente africano -, possibilitaram uma comunicação entre os negros escravizados, numa expressão de origem mista, persistente até os dias atuais”, explica.

No entanto, Alessandra explica que a origem sobre o Jongo não é um consenso entre os intelectuais da área de História, Sociologia e Antropologia. Segundo ela, algumas produções acadêmicas apontam duas correntes antagônicas a respeito do Jongo “A primeira, mais recente, afirma que o Jongo se configura como uma entre as múltiplas manifestações culturais resultantes do contato entre a cultura escrava do século XIX na antiga área cafeeira do Sudeste brasileiro, e a cultura dos proprietários de terras e senhores de escravos. Para a segunda, ele é originário da região de Congo-Angola e chegou ao Brasil com os negros bantos que, escravizados, trabalharam nas lavouras e na mineração”. O que há em comum entre as referências, no entanto, se dá em seu efeito. “Os Jongos foram, sobretudo, canções de protesto, reprimidas, mas de resistência. Atualmente, o Jongo é considerado por seus praticantes como o ‘pai do samba’”, reforça a pesquisadora.

Pesquisadora Alessandra Ribeiro: "Fui entender quem sou eu"/ Crédito Álvaro Jr.
Pesquisadora Alessandra Ribeiro: “Fui entender quem sou eu”/ Crédito Álvaro Jr.

Durante a pesquisa, uma das hipóteses confirmadas foi que quando a sociedade participa, há mudança: “mesmo não tendo sido resolvida a situação da formalidade da Comunidade, ficou evidente que a mesma, desenvolveu uma grande habilidade em envolver pessoas, coletivos, sendo de grupos sociais e/ou do poder público”, analisa Alessandra.  Foram essas ações da comunidade que contiveram a depredação do espaço, tornando-o efetivamente público, complementa a pesquisadora.

A Comunidade Jongo Dito Ribeiro tem uma parceria com a Prefeitura da Campinas, há doze anos, porém, somente no dia 8 de julho de 2015, conseguiu uma formalização legal para o uso da Fazenda da Roseira. Para Alessandra, “é uma grande conquista depois de sete anos de espera e muito trabalho”. A Casa de Cultura Fazenda Roseira oferece cursos grátis para a comunidade como costura, capoeira, formação de professores, oficinas de Jongo, teatro, culinária afro, cultura digital, entre outros.

(Edição de texto: Amanda Cotrim)