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Entre insetos, países bloqueados e orquídeas: a poesia de Carlos Drummond de Andrade

Por Prof. Dr. Ricardo Gaiotto de Moraes – Docente da Pós-Graduação em Linguagens, Mídia e Arte (LIMIAR) e da Faculdade de Letras da PUC-Campinas

A permanência de um texto literário parece se relacionar à capacidade de atualização da coerência entre sentidos e forma em diferentes momentos. Se um texto do passado é ainda lido com entusiasmo por um grupo de leitores é porque, de certa forma, apresenta um interesse contemporâneo. A cada nova leitura, tal poema ou romance são atualizados e revestidos pelas preocupações do presente. Passados 30 anos da morte de Carlos Drummond de Andrade, sua poesia parece permanecer, ressignificada a cada nova leitura.

Não é que a poesia de Drummond esteja tão afastada de nosso tempo, seu primeiro livro de poemas, Alguma poesia, data de 1930, seu último publicado em vida, Amar se aprende amando, de 1985. Não é que os poemas de Drummond tratem de temas caducos: as guerras ainda batem à porta, a desigualdade social ainda não passou e os fascismos do presente não têm vergonha de usar meias palavras, as intolerâncias de todos os tipos aparecem à luz do dia. Há, para além disso, uma atualidade no gesto de resistência da poesia. Mesmo sem inflacionar os sentimentos do eu com retórica grandiloquente, a poesia drummondiana tem uma potência arrebatadora, que pode ser depreendida de um de seus poemas mais comentados:

Áporo

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se

(ANDRADE, C. D. A rosa do povo. 33ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2006. p.63)

Décio Pignatari, em “Um inseto semiótico”, texto da década de 1970, chamava atenção para um fio interpretativo do poema a partir do significante “áporo” que, ao longo do poema, vai assumindo vários significados, marcados tanto pelo enredo condensado quanto pelas escolhas sonoras. Assim, o “Áporo” assumiria os sentidos dicionarizados de inseto com metamorfose completa, problema de resolução impossível, labirinto sem saída, gênero de orquídeas.

A transformação do inseto que cava, no soneto com versos de cinco sílabas poéticas, ocorreria mesmo com um terrível obstáculo: o “país bloqueado”, que, na leitura de Pignatari, faria referência à ditadura do Estado Novo e aos horrores da Segunda Guerra Mundial, lembrando que A rosa do povo foi publicada em 1945. O labirinto, a própria aporia se desataria numa solução que não respeita a lógica matemática, “antieuclidiana”. O áporo se transformaria, na cadência do poema, em uma orquídea ou numa “flor ainda desbotada”, para tomar outra imagem da poesia drummondiana.

Davi Arrigucci Júnior, no livro Coração partido, de 2002, vê na trajetória da transformação do inseto em orquídea o resultado do esforço do poeta em constituir a trama do poema. O trabalho do poeta, cuja voz surgiria na pergunta da segunda estrofe, seria comparável à imagem do inseto que cava. A aporia, a dificuldade em passar, o “país bloqueado” geraria uma imagem esmagadora diante do minúsculo animal, o que potencializaria a metáfora do excruciante labor artesanal do poeta diante de um mundo bloqueado pelos imperativos do mercado. No entanto, a metamorfose do inseto em “flor-poema” seria a metáfora para o produto da elaboração artística do poema.

Tanto as transformações que se estabelecem pela forma poética, aflorando a polissemia do vocábulo, quanto a metáfora da resistência à opressão driblada pela metamorfose em “flor-poema” parecem se unir em diálogo com nosso tempo. No centro, permanece a poesia de Carlos Drummond de Andrade, prova de que o trabalho miúdo com as palavras e a resistência poeticamente se materializam em “flor-poema”. Lido, às sombras das intolerâncias atuais (“país bloqueado”, “enlace de noite raiz e minério”), “Áporo” é símbolo de que a resistência da arte permanece.

A poesia na era digital. Combinação perfeita?

Por Profa. Dra. Tereza de Moraes – docente da Faculdade de Letras da PUC-Campinas

Desde os primórdios, o indivíduo sempre tentou manifestar seus sentimentos, suas emoções, suas sensações, suas percepções, suas formas de compreensão do mundo, buscando representá-las por meio da arte, em suas várias manifestações possíveis. A primeira manifestação linguística se deu por intermédio da oralidade, mas, com o advento da escrita, essa produção passou a ser registrada e perpetuada. A utilização da linguagem escrita tornou-se, a partir daí, o meio ímpar para o registro da arte literária.

Muitos poetas, em vários contextos históricos diferentes, endeusaram a palavra, o verbo. Olavo Bilac questiona o poder de expressão da palavra (Inania Verba), Carlos Drummond de Andrade argumenta que escrever é lutar com palavras (O Lutador). Afirma, ainda, que para encontrar as possíveis nuances das palavras que vivem num reino diferenciado é necessário possuir a chave (À procura da poesia). Encontrar a palavra certa e combiná-la num sintagma esteticamente, utilizando todos os recursos disponíveis da linguagem, era o ideal dos poetas, sobretudo do engenheiro do verso, João Cabral de Mello Neto, que priorizava a técnica e diminuía a importância da inspiração.

Século XX. Nesse novo cenário mundial pode-se observar a rapidez do progresso, do desenvolvimento. Mudanças tecnológicas acontecem num piscar de olhos. Vários suportes se nos oferecem para a representação de mundo. Entretanto um deles permanece intacto: a linguagem escrita, fonte primordial da manifestação literária. Mas, a partir dos anos 1950, muitas mudanças começam a surgir, com o movimento concretista. Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari introduzem um novo agente estrutural na poesia: o espaço. A linguagem agora é verbo-visual. Aos poucos, novas linguagens são incorporadas: o código musical, o código fotográfico, o código sonoro. Novas técnicas para a representação de mundo: colagens, montagem e desmontagem. Novos suportes: caixas, outdoors.

Pronto. Era um passo para a entrada na era digital. Hoje as manifestações de mundo contam com inúmeros espaços cibernéticos para aparecerem. Felizmente, o que não mudou é a necessidade do ser humano de expressar seu mundo. A diferença é que, além da palavra escrita, hoje podem ser utilizados outros materiais disponíveis e diversificados suportes para a expressão artística. Aproximadas as diferentes linguagens, combinadas as diversas temáticas, a poesia digital representa o mundo de hoje e os anseios, as angústias, as expectativas do homem cibernético, pois o poema, digital ou não, é produto do sujeito pós-humano que necessita extravasar seu mundo interior ainda que seja no ciberespaço.

O espaço digital, além de se tornar suporte para as manifestações poéticas dos sujeitos, serve também para rememorar poetas consagrados, divulgando seus escritos. Porém, nem sempre, o que se atribui aos poetas na Internet é de sua autoria reconhecida. Versos atribuídos a Clarice Lispector, Cora Coralina, Manuel de Barros e outros poetas são da lavra de outros autores, outras vezes são modificados e, no mais das vezes, apenas um ou dois versos de um poema são publicados, roubando ao texto sua integridade e os sentidos possíveis. Outra questão é o efeito moralizador ou de literatura de autoajuda que essas publicações assumem, nos moldes do pastiche tão caro à pós-modernidade. Aí não se encontra verdadeiramente o texto do autor, mas a sua interpretação pelo indivíduo que o publica. De qualquer modo, o ambiente virtual vem contribuindo grandemente para a proliferação da poesia, numa prova de que a estética é um elemento essencial do ser humano.

Clique aqui (https://www.youtube.com/watch?v=-EAYepikGK4) e confira a atriz Laura Cardoso interpretando o poema “O lutador”, de Carlos Drummond de Andrade.

Coluna Pensando o Mundo: Homenagem a Nair Fobé

Poema  favorito da Professora Nair Fobé fala sobre escolhas que fazem a diferença

Por Profa. Dra. Maria de Fátima Amarante- Diretora do Curso de Letras

No dia 3 de julho de 2015, a PUC-Campinas se despediu da Professora Nair Leme Fobé. Docente da Faculdade de Letras por 45 anos, Mrs. Fobé deixou grandes lições de ensinar e traduzir.

Para honrar sua memória, publicamos seu poema favorito. Mrs. Fobé sempre o declamava para incentivar os alunos a refletirem sobre suas escolhas pessoais e profissionais, enfatizando, com o poeta, que tomar a estrada menos percorrida é que faz toda a diferença. A professora Nair Leme Fobé, ao escolher educar, certamente fez a diferença na vida de seus alunos e, por meio deles, continuará a fazê-lo.

“Duas estradas se abriam em um bosque, e eu Tomei a menos trilhada”/ Crédito: Divulgação
“Duas estradas se abriam em um bosque, e eu
Tomei a menos trilhada”/ Crédito: Divulgação

 

Tradução: A estrada não trilhada

Duas estradas se abriam em um bosque amarelado/ E sentindo não poder ambas percorrer/ Sendo um só viajante, por muito tempo me detive/ E observei uma até quão longe pude/ Até onde, na vegetação, ela se curvava.

Então olhei a outra, tão boa quanto a primeira,/E tendo talvez o melhor apelo,/Por ser gramada e ansiar por uso;/Apesar de o trilhar de ambas/Ter  sido quase o mesmo.

E, naquela manhã, em ambas igualmente jaziam/ Folhas que passo algum pisara./Ó, deixei a primeira para outro dia!/Mas, como um caminho leva a outro,/Duvidei de que algum dia ali voltaria.

Com um suspiro isto direi/Em algum lugar em um futuro distante: Duas estradas se abriam em um bosque, e eu Tomei a menos trilhada/ E isto fez toda a diferença.

 Abaixo, segue a seleção de algumas manifestações de alunos e ex-alunos da Profa Nair, nas redes sociais:

 You will eternally live through the language you so carefully taught to hundreds and hundreds of us. May you always speak through us. Daniel Paula

Depois de 45 anos de PUC-Campinas, muitos ex-alunos devem estar se sentindo como eu, meio sem saber como fica o mundo sem a Fobé. Espero que cada um deles lembre-se de uma de suas tiradas afiadas ou de uma de suas aulas, para que ela fique entre nós mais um pouco e ganhe seu lugar entre as figuras míticas, onde só quem é inesquecível consegue estar. Obrigada, querida Fobé. Que falta você fará! Júlia de Almeida

Mrs. Fobé, sem delongas, MUITO obrigada. Obrigada pela paixão, pela paciência, pelas piadas, pelos puxões de orelha, pelo zelo, pelo carinho, por ser sido você. Graças à senhora, hoje leio obras da literatura inglesa sem medo, mas com prazer. Tenho minhas histórias particulares com a Mrs. Fobé e, com elas, seguirei feliz, pois tive o prazer de ter vivido ao lado dessa grande personalidade. Sua alma será eterna em nossos corações. “O que temos para hoje é saudade.” Brysda Rocha

Uma perda muito grande! A Fobé não só me ensinou, mas me fez apaixonar pela língua e por ensinar. Um exemplo que sempre carregarei no meu coração! Vai fazer MUITA falta! Débora Dutra

 Ouvi falar sobre a fama da Fobé antes mesmo de entrar na PUC-Campinas pela excelente profissional que ela era. Não tive a oportunidade de tê-la como minha professora, o que sempre foi meu maior desejo. Mas ela foi muito mais do que isso. Ela foi uma grande amiga. Que o Espírito Santo console a família e amigos desse fenômeno incomparável e inigualável chamado Fobé! Márcio José

Língua e poesia popular: entre a fala e a escrita

Por Cristina Betioli Ribeiro Marques

Quando o assunto é língua materna, muitas ideias passam pela cabeça dos seus usuários: o vínculo com a terra pátria, o canal para relembrar e contar histórias, o meio para registrar e difundir conhecimento, o instrumento identificador do sujeito humano inserido em sua cultura.

Embora sejamos todos conhecedores intuitivos dos aspectos constituidores de nosso idioma – afinal, dispomos dele constantemente, no dia a dia – nem sempre atentamos para questões socioculturais essenciais que o definem. Uma dessas questões é a profunda diferença entre língua falada e língua escrita. Os usos dessas duas modalidades, embora apoiados numa competência linguística que é comum a todos os usuários de um idioma, servem a propósitos distintos. As variedades linguísticas presentes na língua falada – e para citar um exemplo, consideremos os diversos sotaques brasileiros – nem de longe podem ser plenamente transpostas para a língua escrita. Essa limitação se dá por uma questão absolutamente técnica: a escrita não dispõe de símbolos gráficos suficientes para representar toda a variedade sonora que uma língua pode apresentar.

A literatura de cordel é, simultaneamente, patrimônio material e imaterial brasileiro/ Crédito: Divulgação
A literatura de cordel é, simultaneamente, patrimônio material e imaterial brasileiro/ Crédito: Divulgação

Se esse fato fosse apenas um dado teórico, menos mal; mas infelizmente não é. A escrita, embora seja uma modalidade de uso da língua desenvolvida artificialmente e muito mais recente que a fala na história da humanidade, ganhou estatuto de superioridade depois dos antigos estudos alexandrinos que inauguraram, a partir da literatura grega, a prescrição de regras para o “bom uso” do idioma. As gramáticas tradicionais que conhecemos têm filiação nesses estudos que, historicamente, foram desprestigiando a modalidade falada em detrimento da escrita. O resultado disso, na tradição de ensino de português no Brasil, é o conhecido bordão de que “não sabemos português”. Ora, como é que pode haver uma nação constituída de falantes que não sabem a própria língua? Qual o lugar reservado aos usuários do idioma que são iletrados? Questionamentos como estes devem-nos levar a repensar os aspectos definidores de língua materna, como patrimônio imaterial muito mais complexo do que aparenta.

Dentre os produtos-símbolo da cultura brasileira, temos um exemplo que ilustra de forma sui generis o lugar que a tradição oral pode ocupar. O gênero de texto conhecido como “literatura de cordel” nos mostra como pode ser controversa a polarização entre língua falada e língua escrita. No exemplo em questão, as duas modalidades podem estar numa relação de continuidade com a qual a gramática normativa não consegue lidar. Até mesmo o uso do termo “literatura”, para uma poesia que na sua origem era composta e transmitida oralmente, pode ser inadequado. As narrativas poéticas de cordel têm história nas cantorias improvisadas, com participação eufórica de auditórios que se misturavam aos cantadores, desde meados do século XIX, predominantemente nas antigas “províncias do Norte” (período em que ainda não se conhecia a separação regional do “Nordeste”). Nessa época, os índices de alfabetização no Brasil eram baixíssimos e, ainda mais, nas regiões que se distanciavam da capital do Império e dos centros cultural e economicamente mais estabelecidos, como Recife e Bahia. Por esse motivo, os populares poemas em redondilhas maiores e rimas regulares, eram compostos por poetas não alfabetizados, com extraordinária memória e engenho para a improvisação, que faziam renome em suas comunidades e atraíam público para reverenciar sua performance.

Profa. Dra. Cristina Betioli Ribeiro Marques/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Dra. Cristina Betioli Ribeiro Marques / Crédito: Álvaro Jr.

A poesia popular dos cantadores nortistas ganharia formato impresso em folhetos, amarrados por cordéis em varais de exposição nas feiras populares, no início do século XX. Produzidos e impressos em pequenas tipografias particulares, esses folhetos começam a conferir autoria a poetas como Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista. A partir de então, as composições que eram predominantemente orais ganham o prestígio de literatura impressa; no entanto, nessa literatura, perdurará o caráter misto de criações com traços da fala transpostos para a escrita.

Podemos dizer que a literatura de cordel, por representar um registro híbrido da nossa língua, é, simultaneamente, patrimônio material e imaterial brasileiro. Seus temas versam sobre atualidades, amor, sofrimento, fábulas, valentia e, em tempos de soberania da escrita… o valor da instrução para a dignidade do homem. Nas palavras do poeta João Martins de Athayde, em “A desventura de um analfabeto ou o homem que nunca aprendeu a ler” (1945): “Abram-se as portas da escola,/ para este povo entrar,/ a fim de obter a esmola/ do saber que vai buscar,/ porque o analfabetismo,/ deixa o homem no ostracismo,/ faz a vergonha do lar”.

Profa. Dra. Cristina Betioli Ribeiro Marques é  Docente na Faculdade de Letras da PUC-Campinas

 

 

 

 

Um adeus a Manoel de Barros

O Poeta que esticou o horizonte da poesia brasileira

Foi no dia 13 de novembro de 2014 que o mundo ficou um pouco mais escuro e menos colorido: o poeta Manoel de Barros alçou voo em sua poesia e foi apresentar seus solos de ave em céu aberto.

Barros, um dos poetas mais lidos na atualidade, escrevia sobre motivos do cotidiano, do não notável, dando um ar de infância aos seus poemas, transformando-os em verdadeiras experiências sinestésicas.

Nas palavras do poeta, não foi só ele que se apaixonou pelas palavras, as letras também se apaixonaram por ele. Mas não se enganem, Manoel não escrevia por inspiração, escrever poesia consistia para ele em um trabalho de artesão, era preciso lapidar o poema: “poesia é o belo trabalhado”.

Foto: divulgação
Foto: divulgação

O nascimento do poeta

Barros teve uma rica trajetória em sua formação. Seus primeiros anos de vida se passaram no Pantanal, em meio à natureza, rodeado pelos seres mais ínfimos e “desimportantes” que traçariam a temática de seus poemas e mudariam a tessitura poética nacional.

Quando ainda criança, transferiu-se para Campo Grande para estudar em um colégio interno. Depois, seguiu para o Rio de Janeiro onde continuou os estudos em um internato católico, quando teve contato com as obras de Padre Antônio Vieira, o qual se tornou grande inspiração para o poeta. Foi também nas terras cariocas que Manoel iniciou seus estudos em advocacia.

Posteriormente, Barros passou alguns anos fora do Brasil. Quando retornou, conheceu sua esposa Stella, com quem se casou em 1947 e regressou ao Pantanal.

Embora Manoel tenha publicado seu primeiro livro em 1937, Poemas concebidos sem pecado, sua dedicação integral à poesia só veio a consolidar-se quando herdou as fazendas pantaneiras de seu pai. Quando as terras passaram a dar lucro foi que o poeta pôde, então, tornar-se um “vagabundo profissional”. Seu reconhecimento como poeta, no entanto, só ocorreu nos anos 80, quando o escritor e jornalista Millôr Fernandes o desvelou ao público.

 “A poesia nasce do não existir”

Como poeta, Manoel criou um universo só seu: “tão absurdo quanto palpável”. Para dar vida a sua poesia, ele se utilizava do “idioleto Manoelês”, a dita língua dos bocós e dos idiotas.

Ainda que Manoel tenha inovado em relação à linguagem, empregando diversos neologismos e atribuindo novos sentidos às palavras, pensá-lo através de teorias e arcabouços literários é um desafio, uma vez que, segundo o poeta, poesia não foi feita para ser compreendida, mas para ser incorporada.

A verdade é que Barros reinventou a linguagem brincando com as palavras, materializando uma poesia que beira a meninice. Seus poemas são como macrofotografias: evidenciam os detalhes que passam despercebidos pelos olhares desatentos do dia a dia. Seus escritos são a altiva pequenez. Parece absurdo? É e não é. É absurdo por terem sido criados em seu mundo mas não quando se trata de seus poemas. O poeta via a grandeza nas pequenas coisas, fazia do grão de areia o milagre da existência. Manoel não era só gente, era bicho, era árvore, era água da chuva que deixava a pureza no matagal que é a alma humana. Para ler seus poemas não é preciso muito, basta ter o peito aberto à sensibilidade.

 “Pode o homem enriquecer a natureza com sua incompletude?”, perguntou o poeta. Em se tratando de Manoel de Barros isso é mais que possível. Ele não só enriqueceu a natureza como também a Literatura Brasileira e a existência humana, transpondo um novo olhar para tudo aquilo que no mundo parecia não ter espaço.

 Caroline Ruiz é aluna do 4º ano de Letras.