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Um olhar psicanalítico sobre o transtorno alimentar

Pesquisa aponta que os sofrimentos de pessoas com transtorno alimentar se refugiam nos corpos como expressão daquilo que não pode ser dito. Tese foi defendida na Pós-Graduação de Psicologia

 

Por Amanda Cotrim

Realizar uma pesquisa científica nunca é uma tarefa fácil. Há inúmeros “problemas de pesquisa” pelo caminho. No caso da doutora pelo Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia da PUC-Campinas, Maria Salete Junqueira Lucas, o desafio se ancorava em estabelecer o grau de confiabilidade de uma pesquisa qualitativa que considerasse a subjetividade e um número menor de participantes, com o objetivo de pensar a clínica psicanalítica contemporânea.

“Ainda na área da saúde, existe um viés positivista com o clássico paradigma biomédico. Mas também existe o outro lado de uma medicina que não é apenas baseada em evidências e que admite a subjetividade, os aspectos psicossociais que sustentam a pessoa”, justifica a psicóloga, que teve orientação da Profa. Dra. Tânia Mara Marques Granato.

Logo no início da sua profissão, Maria Salete se deparou com uma paciente de 15 anos que se recusava a comer e que demonstrava um grande sofrimento diante das exigências de “ter que crescer”, além do seu confronto com sentimentos de amor, ódio, inveja e ciúmes de sua mãe. “Toda essa confusão de sentimentos fez com que ela escolhesse o corpo como defesa sobre o que poderia ser nomeado e elaborado. O corpo sofria pela alma”, relata.

A pesquisa considerou a figura paterna ligado a causa do transtorno alimentar/ Reprodução
A pesquisa considerou a figura paterna ligado a causa do transtorno alimentar/ Reprodução

Sua pesquisa de doutorado considerou a figura paterna ligado a causa do transtorno alimentar, além do papel da família. Pesquisas sobre transtornos alimentares já haviam indicado a dificuldade da relação mãe e filha como aspecto originário dos transtornos alimentares. “Minha pesquisa coloca essa questão de mãe e filha, mas traz um questionamento de que a função paterna também precisa ser escutada e tratada. Há uma fome de pais e essa fome pode ter desencadeado o sintoma alimentar também”, relaciona.

Só o biológico, aponta Maria Salete, não consegue expressar a complexidade humana, por isso, a importância da psicanálise: olhar para o inconsciente, analisar as narrativas das pessoas e facilitar que pensamentos e sentimentos sejam externalizados, auxiliando na elaboração daquela dor que não havia sido falada. “O analista também vive essas narrativas. A minha pesquisa contribui para poder compreender o espaço intersubjetivo e intrasubjetivo na relação terapêutica”.

Como acessar esse sofrimento

 Para conseguir fazer o estudo, a pesquisadora se utilizou do encontro psicanalítico, um método que abarca um processo gradual e não um objetivo dado em princípio. A doutora em Psicologia explica que o “espaço psicanalítico pressupõe a participação do analista e do analisado na experiência emocional da dupla, de onde pode emergir um novo conhecimento”.

Maria Salete conta que o ambiente é fundamental para o amadurecimento do ser humano, por isso, quando nascemos, segundo ela, estamos desamparados, e, nesse aspecto, a mãe ou a pessoa que cuidará de nós, é quem nos ajudará a realizarmos diversas “tarefas psicossomáticas”. “A integração psicossomática é o objetivo final para o sentimento de existir, sendo que o transtorno alimentar representa a dificuldade para que a integração se realize, acusando que o alojamento da psique no corpo não se deu de maneira satisfatória, criando obstáculos para o processo de desenvolvimento”, contextualiza.

 Tratamento interdisciplinar

 Segundo ela, os transtornos alimentares são patologias com origem multifatorial e, por isso, é importante que a psicanálise estabeleça comunicações com diversas áreas do conhecimento para um atendimento interdisciplinar. “Há uma chance maior para que o paciente seja mais bem atendido quando trabalhamos em rede. Poder trabalhar juntamente com um psiquiatra, uma nutricionista, um clínico geral, um educador físico, coloca em evidência as limitações de cada área”, ressalta.

E acrescenta: “Eu preciso de um psiquiatra para medicar o impulso incontrolável de um paciente com bulimia, que come e vomita incessantemente; ou um paciente deprimido, que pensa em se matar por se sentir aprisionado com seu sintoma”, justifica.

Cultura da magreza

 De acordo com a psicóloga, o estudo possibilitará a instrumentalização de intervenções que possam auxiliar o paciente a lidar melhor com seu psiquismo e com o seu corpo para ter uma melhor qualidade de vida. “Para isso, é fundamental que desenvolvamos programas preventivos nas escolas com o objetivo de debater as evidências de crianças e adolescentes em relações aos seus corpos, principalmente diante de uma cultura da magreza”. A pesquisadora ressalta a importância de a sociedade debater a imposição de um padrão de beleza, para que isso não seja naturalizado. “Os pacientes não mostram críticas e nem consciência de que esse padrão perverso teria um papel na eclosão de transtornos alimentares”, constata.

Ela também lembra que o tratamento de um paciente que sofre de transtorno alimentar também precisa contar com o apoio da família: “A partir do momento que a família acolhe, ela passa a entender o sofrimento do transtorno alimentar e passa a se responsabilizar pelo tratamento do paciente. Por meio da psicoterapia psicanalítica, os analistas podem auxiliar os pacientes numa verdadeira transformação psíquica”, finaliza.

 

Inclusão escolar do aluno com deficiência

Por Claudia Gomes

Abordar o tema da inclusão escolar de alunos com deficiências é assumir que especificidades existem, e que devem ser consideradas, porém, é alertar também para a necessidade de elaboração de políticas públicas de acompanhamentos preventivos e interventivos nas diferentes esferas que compõem o desenvolvimento humano.

Segundo o Ministério da Saúde – Política Nacional de Saúde das Pessoas com Deficiência (BRASIL, 2009), não podemos desconsiderar que, dentre as possíveis causas das necessidades especiais, estão presentes as questões hereditárias, mas também as decorrentes da falta e da inadequação da assistência às mulheres durante a gestação e o parto, a desnutrição, as doenças transmissíveis e as crônicas, as perturbações psiquiátricas, os traumas e lesões, eventos esses que podem e devem ser evitados por meio de políticas públicas sociais de saúde.

Já no âmbito escolar, com a promulgação do Decreto n. 6.571 (09/2008), que regulamenta a Política Nacional de Educação Especial na perspectiva Inclusiva (BRASIL, 2008), não podemos desconsiderar que os amparos legais vêm possibilitando gradativamente a inclusão de alunos com deficiências no ensino regular. Entretanto, se por um lado as estatísticas parecem animadoras, por outro, não podemos deixar de considerar que o indicador de inclusão, quando delimitado pela realização da matrícula do aluno, não garante que a permanência e desenvolvimento do aluno, como proclamado pelos diferentes documentosr, de fato está sendo efetivado.

Neste sentido, um dos grandes desafios que cercam o debate da inclusão é a análise do processo na perspectiva do próprio aluno incluído. Ainda evidenciamos que seja pelo desconhecimento das necessidades e potencialidades destes alunos, ou pela supervalorização de suas características, a discussão das ações ainda estão embasadas em uma representação focada no “estereótipo do aluno perfeito”, no qual alunos com deficiência se distanciam por suas características físicas, cognitivas, sensoriais ou relacionais.

Abrir novos espaços de correspondência social para esses alunos, para que se identifiquem, é premissa para que venham a alcançar novas formas de representar seu desenvolvimento escolar, o que é ainda é desconsiderado pelas ações e práticas inclusivas nas escolas atualmente, ao focarem em suas ações metodologias conteúdistas e instrucionais, que por um lado privam e excluem a necessária relação humana que deveria caracterizar os processos educacionais e, por outro, ratificam a distinção da representação “de quem ensina e quem aprende”, “dos melhores e dos piores”; “dos eficientes e dos deficientes”.

Segundo Glatt (1991), os papéis atribuídos socialmente aos indivíduos com deficiências têm uma dupla função, servem tanto de ingresso e indicação ao local adequado onde eles devem se sentar, como também determina o script que o indivíduo terá que atuar em suas relações no “Teatro da Vida” (1991: 09).

Para tanto, de acordo com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Inclusão, o processo de inclusão deve propiciar o direito de cada aluno constituir sua própria identidade, ao mesmo tempo em que deve saber reconhecer essa identidade, os direitos de igualdade e respeito às diferenças dos outros (BRASIL, 2008). Efetivar a garantia de acesso, permanência e desenvolvimento de alunos com deficiências nas escolas regulares, possibilita a modernização das práticas pedagógicas, assim como um maior respeito à diferença e à diversidade dos alunos, para além da compreensão da escola como espaço de socialização, ou ainda, de práticas de compensação sociais.

Defender a análise do processo de inclusão na perspectiva do aluno deficiente é alertar para a necessidade de criação de interações pedagógicas, como condição central para repensarmos o processo de desenvolvimento humano, com a consideração dos sujeitos como ativos e construtores, com a devida exploração dos significados e da compreensão interpretativa acerca da alteridade.

Segundo Berger e Luckman (1976), a relação de socialização está intimamente ligada à produção emocional, no entanto, só se pode falar de interiozação, e portanto, socialização de fato, quando o indivíduo absorve os papéis e as atitudes dos outros como suas, quando há, primeiramente, um processo de identificação.

O processo de inclusão escolar deve propiciar um processo dialético entre a identificação do aluno deficiente com o outro e a auto-identificação de suas necessidades, ou seja, um processo tensional entre a identidade atribuída e a identidade apropriada. Neste caso, cabe ressaltar, que a identidade atribuída a alunos com deficiência só pode ser apropriada por este aluno atrelada ao mundo que a formaliza, ou melhor, esta identidade a ser apropriada só é possível em um meio que confirme esta auto-identificação, e a escola é o espaço pleno do desenvolvimento de tais relações humanas.

Claudia Gomes concluiu seu doutorado em Psicologia pela PUC-Campinas, onde pesquisou a posição do sujeito aluno na inclusão escolar. 

 

 

“Nos ligam a um estereótipo e não compreendem o significado da nossa deficiência”

“Quando vou comprar uma roupa, me reporto ao vendedor. Mas ele pergunta para o meu acompanhante se eu vou gostar, como se eu não estivesse ali”

Por Amanda Cotrim

Nessa entrevista, a ex-aluna do curso de Psicologia, da PUC-Campinas, Fabiana Bonilha, defende que a maior dificuldade para a pessoa com deficiência, e em especial a que tem deficiência visual, são as atitudes de uma sociedade que caminha a passos lentos quando o assunto é a superação do preconceito. “As barreiras atitudinais são o grande empecilho no dia-a-dia”.

Mas além dessas, Fabiana elenca ações objetivas que precisam mudar logo, para que haja a real inclusão, como a socialização da tecnologia assistiva. “Isso interessa porque é um fator de equiparação”. A ex-aluna da PUC-Campinas, que trabalha no Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, afirma que a tecnologia gera condições iguais entre as pessoas.

Para Fabiana, a inclusão da pessoa com deficiência na vida de pessoas que não tem deficiência e vice-versa é fundamental para que as crianças de hoje se tornem adultos sem essas “barreiras atitudinais” de amanhã. “A pessoa com deficiência precisa estar nos espaços como qualquer outra pessoa. Ela não pode ficar em escolas especiais e especificas. Elas precisam ocupar os espaços regulares e comuns a todos”.

Confira o bate papo que o Jornal da PUC-Campinas teve com a Fabiana:

Gostaria que você se apresentasse, contasse um pouco sobre você: onde nasceu, o que estudou e com o que você trabalha atualmente?

Meu nome é Fabiana Bonilha, eu nasci em Campinas e atualmente eu trabalho no CTI (Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer), onde sou servidora pública, como técnica em Tecnologia Assistiva.

A minha deficiência visual é desde o nascimento e ela ocorreu porque eu nasci prematura. Eu tive Retinopatia da prematuridade, que causa a deficiência visual. Tenho cegueira total e congênita. Desde os primeiros anos de vida eu fiz reabilitação tátil e a alfabetização em braille. Paralelamente, sempre estudei em escola regular.

Durante o meu período escolar, eu iniciei o estudo da música (piano) aos sete anos. Após concluir o Ensino Médio, ingressei na faculdade de Música e me formei pela UNICAMP e, concomitantemente, em Psicologia pela PUC-Campinas.  Por causa de a música ser muito importante para mim, eu sempre tive contato com a partitura em braille (musicografia braille). Mas não era muito comum na época, então minha primeira professora de piano teve que se esforçar muito para conseguir essas partituras. Essa foi a razão pela qual eu desenvolvi pesquisas no mestrado e doutorado com o tema do ensino da musicografia braille, cujo objetivo é que as pessoas cegas sejam plenamente incluídas. As pessoas com deficiência visual precisam ter acesso ao mesmo conhecimento que os outros estudantes têm, por isso é importante a alfabetização em braille, mas há poucos professores que têm essa dedicação e esforço de ir atrás desses materiais. O braille é um código pouco disseminado.

Nós nos comunicamos por e-mail para marcarmos essa entrevista. Eu gostaria de saber se você utiliza software de leitura de voz para acessar o computador e o celular?

Eu uso software de voz para o computador e para o celular. Ele lê as informações que estão na tela. Há opções para computador que são gratuitas, como o NVDA. Mas também existem outros, que são comerciais.  O NVDA é bem desenvolvido, com muitas funções. Ele é quase equivalente aos softwares comerciais. No celular também há opções de leitor de telas, que nos permite acesso a todos as funções: redes sociais, e-mail, WhatsApp e etc. Se você não soubesse que eu tenho deficiência visual, não teria diferença. E isso é interessante, porque é um fator de equiparação. É um grande ponto positivo da tecnologia; ela gera uma condição igual entre as pessoas. E isso impacta a minha vida profissional, porque eu faço praticamente o que todos fazem.

Você utiliza áudio descrição para ter assistir televisão e quando vai ao cinema?

Embora exista a áudio-descrição, pela qual as imagens são descritas, existe pouco material disponível. No cinema geralmente não há. Na televisão, apenas duas horas de programação por semana são dedicadas a áudio-descrição. Então o recurso existe, mas não existem tantos incentivos para que ele seja implantado de forma efetiva. Assistir a um filme sem áudio-descrição é perder todas as informações passadas pelas imagens. É como a pessoa que enxerga assistir a um filme de olhos fechados (risos). Com o teatro é a mesma coisa: há pouquíssimas peças com áudio-descrição.

Fabiana Bonilha- Crédito: Álvaro Jr.
Fabiana Bonilha no Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer – Crédito: Álvaro Jr.

 

Você se formou em Psicologia pela PUC-Campinas e em Música pela Unicamp. São combinações interessantes. O que te motivou a fazer esses dois cursos? 

Eu ingressei nos dois cursos em 1997. Formei-me em Psicologia em 2001 e em Musica em 2003. A Música era um caminho natural, porque desde os meus sete anos eu estudo música e me apaixonei por essa área. No caso da Psicologia, é uma área que eu sempre gostei. Fiz orientação profissional no ensino médio, e ele era ministrado por uma psicóloga, então eu comecei a me aprofundar sobre a carreira, o que acabou me motivando a fazer o curso.

Em que medida o curso de Psicologia te auxiliou a ser quem você é e a chegar aonde você chegou, profissionalmente?

O curso de Psicologia da PUC-Campinas é muito completo e aborda muitas frentes na área. Avalio que eu tive uma boa formação. Foi uma graduação que me deu muita base para depois eu fazer o Mestrado e Doutorado, além de ter contribuído muito para a minha visão de mundo e a minha atuação profissional aqui no CTI.

Quais foram as maiores dificuldades que você considera ter enfrentado para fazer as duas graduações?

Eu fiz as duas faculdades em um período no qual não se falava muito de inclusão da pessoa com deficiência na universidade e eram poucas as universidades que pensavam em acessibilidade. Então de certo modo, eu tive que “desbravar” esses caminhos. Hoje em dia, as universidades estão melhor equipadas, com uma infraestrutura e serviços de acessibilidade, como é o caso da PUC-Campinas com o PROACESS (Programa de Acessibilidade), e do Laboratório de Acessibilidade da UNICAMP.

Quando a gente tem que desbravar os caminhos, enfrenta algumas dificuldades. No caso da pessoa com deficiência visual a maior dificuldade é o acesso ao material; não existiam livros em formato braille e nem em formato digital. No início das duas graduações, eu tive que contar com a minha família para escanear todos os livros para que eu pudesse ler. Minha mãe precisou datilografar todo o material em braille.

Outra dificuldade é as barreiras atitudinais, as barreiras que existem nos pensamentos das pessoas em relação ao modo como elas imaginam a pessoa com deficiência. Nem sempre as pessoas percebem que nós podemos trabalhar, estudar e fazer qualquer coisa.

Conte um pouco como é a sua rotina hoje e como você avalia a sua autonomia em relação ao seu dia-a-dia e ao acesso à cidade?

Eu trabalho  no CTI e geralmente conto com alguém que me traz e me busca. Eu não tenho autonomia para vir trabalhar de ônibus porque eu acho que não é fácil o acesso ao transporte público por duas razões: ele não é seguro e ele não é acessível. Além de trabalhar, eu também me dedico ao estudo do piano, então eu procuro me desenvolver nessa área de performance e de formação de repertorio. Para isso, mantenho um estudo de, no mínimo, duas horas por dia durante a semana e de três a quatro horas no final de semana.

A minha pesquisa em relação à musicografia braille é outro aspecto que faz parte do meu projeto de vida. Porque eu ainda vejo que temos muito a avançar para deixar esse material acessível. A pesquisa é o meu instrumento para lutar por isso, principalmente nos dias de hoje em que o braille está passando por uma crise em razão das novas tecnologias. Tem muita gente dizendo que o software de voz, por exemplo, já é o suficiente para a pessoa que tem deficiência visual e que, portanto, o braille não é mais necessário. E eu digo não. O braile é o código de leitura escrita para uso de pessoas cegas por excelência. Não tem como ela não ser alfabetizada. A pessoa cega pode até utilizar outras tecnologias, mas ela não pode prescindir da alfabetização em braile. O toque das palavras é a nossa memória visual, então a gente precisa lutar para que o braile se mantenha vivo e para que se aumente a produção de materiais (livros) em braile.

Como você avalia as políticas públicas para as pessoas com deficiência visual, no Brasil?

Esse campo evoluiu muito. Em 2011, por exemplo, foi lançado o programa Viver Sem Limites. Então a questão da deficiência passou a ser colocada em foco, inclusive por meio de pesquisas científicas na área de tecnologia assistiva. No entanto, uma dificuldade que ainda existe é que nem sempre essa tecnologia chega para o usuário que precisa dela. Ainda temos uma realidade que os produtos são importados, tem um custo alto e, muito embora eles existam, não chegam para quem precisa. Esse déficit favorece que muitas barreiras continuem sem ser quebradas.

Você falou sobre as barreiras atitudinais. Você sofre preconceito? Como lida com o preconceito das pessoas no dia a dia?

Eu acho que o preconceito existe e ele se manifesta nessas barreiras atitudinais, ou seja, nas atitudes das pessoas, que nos ligam a um estereótipo e não compreendem o significado da nossa deficiência. Uma situação que sempre acontece comigo é quando eu vou a uma loja de roupas com uma amiga e o atendente se dirige a pessoa que está comigo e não a mim. Ainda que eu aborde o vendedor, dizendo o que eu procuro, ele se reporta à pessoa que está comigo: “Essa roupa aqui será que ela vai gostar?” (risos). Como seu eu não estivesse ali. Eu me pergunto: Por que ele fez isso, se eu mesma tinha me comunicado com ele? Essa situação mostra o que é uma barreira atitudinal.

Falta compreensão em relação aos próprios limites de uma pessoa com deficiência. Uma pessoa cega só não enxerga, não precisa falar alto com ela e explicar tudo nos mínimos detalhes (risos).

Há também o preconceito no sentido mais estrito. Muitas vezes as pessoas com deficiência são inseridas no mundo do trabalho via programas específicos de inclusão. Mas por que elas não podem ser inseridas como qualquer outra pessoa? A inserção das pessoas com deficiência no mundo do trabalho ou na escola precisa ser natural. No entanto, ainda não chegamos nesse momento, por isso é preciso ações afirmativas para reverter esse atraso.

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Você conseguiria descrever quando e como você se percebeu cega? Ou seja, quando você compreendeu isso?

Eu nasci com a deficiência visual, então essa condição sempre foi muito natural para mim. Eu soube que eu não enxergava pelas outras pessoas, porque para mim era tudo normal, natural. Como eu não vivi uma perda da visão, então para mim, o esperado era assim. Outras pessoas começaram a me contar que o que algumas pessoas tinham de diferente de mim era- que elas enxergavam e eu não. Então o meu referencial foi na relação com o outro. Na escola, como crianças são muito curiosas, eu fui percebendo que havia alguma coisa que acontecia comigo e não acontecia com outras pessoas.

É verdade que as pessoas cegas percebem as  cores pelas sensações e que os outros sentidos são mais aguçados?  Isso acontece com você?

A gente conhece as cores por analogia em relação à temperatura e à textura. Mas não há a ideia de uma ultra sensibilidade, quase sobrenatural que faz com que a gente “veja” sem enxergar. Claro que a ausência de algum sentido faz com que as pessoas cegas desenvolvam outros referenciais, como a audição. Mas isso é um trabalho subjetivo de cada um; não é natural. Cada pessoa encontra estratégias para utilizar outros sentidos na ausência da visão. Não podemos generalizar essa questão é achar que só porque a pessoa é cega ela tem a audição, o tato ou qualquer outro sentido super apurado.

Como você avalia a cobertura da Mídia sobre a questão da deficiência?

A Mídia precisa evoluir muito na abordagem que ela faz sobre a deficiência. Muitas vezes há sensacionalismo na abordagem, como se a deficiência por si fosse notícia. É preciso evoluir na forma como a Mídia aborda a questão e na forma como ela influencia a população a pensar sobre essa questão. Nesse aspecto, ela mantém as barreiras atitudinais. As reportagens, quase sempre, têm um viés assistencialista, uma coisa quase passional, carregado de drama. Sem falar as terminologias: “portador de deficiência”, “deficiente”, “portador de necessidades especiais”. Então, talvez seja importante pensar sobre essa questão durante a própria formação dos profissionais de comunicação. Existe uma lacuna nesse sentido.

O que você diria para um cego que está lendo a sua entrevista e ainda tem medo de enfrentar desde um vestibular até sair de casa?

As pessoas com deficiência visual, assim como qualquer pessoa, mas elas especialmente, precisam confiar muito em si mesmas e acreditar que a superação de todos os limites é possível, e que vai depender da nossa motivação e empenho. São as pessoas com deficiência visual as protagonistas da própria inclusão. Não é o outro que vai nos incluir; e a gente que se inclui. Se a gente ficar esperando as instituições e as pessoas fazerem alguma coisa, ninguém faz. É a gente que tem que fazer. Precisamos ter consciência que os limites existem, das mais diversas formas, para todas as pessoas. E que essas barreiras podem ser superadas ou minimizadas no próprio ambiente em que vivemos. Mas é preciso haver condições: se o livro não estiver em braile eu não consigo ler, mas se ele tiver, eu consigo.

Fabiana, você gostaria de falar sobre alguma coisa que eu não perguntei?

É importante que as pessoas tenham abertura para dialogar e desconstruir algumas fantasias que elas continuam tendo por que não perguntam. Às vezes elas querem saber coisas básicas, como se eu sonho. E por vezes não falar sobre essas dúvidas constrói ainda mais barreiras. Por outro lado, nós que temos alguma deficiência, temos que ter abertura para responder, mesmo as perguntas básicas, porque aquilo que a pessoa está perguntando é importante para ela, como a questão do sonho, uma vez que para as pessoas que enxergam só é possível sonhar com imagens.

Eu também tenho muita curiosidade de saber sobre a realidade de quem enxerga. Eu gosto de saber como são as estrelas, o céu, o horizonte, a lua. A gente sabe sobre isso de ouvir contar. É muito interessante essa relação na qual os lados têm curiosidades.

A inclusão propicia que as diferenças estejam em contato o tempo todo. Então é muito importante que os alunos desde pequenos convivam com as diferenças desde cedo, para que eles possam naturalizar isso e se tornarem adultos sem essas barreiras.

A pessoa com deficiência precisa estar nos espaços como qualquer outra pessoa. Ela não pode ficar em escolas especiais e especificas. Elas precisam ocupar os espaços regulares e comuns a todos.

 

Mães são mediadoras na relação do filho autista com o mundo

Pesquisadora analisou a experiência de mães e pais no relacionamento com o filho diagnosticado com autismo. Dissertação foi defendida no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUC-Campinas 

Por Amanda Cotrim

O Transtorno do Espectro Autista (TEA), popularmente conhecido como autismo, engloba alterações na socialização, na comunicação e comportamentos repetitivos e às vezes restritivos. Não é possível conceituá-lo, uma vez que ele é visto de formas diferentes pela comunidade científica. Há estudos que apontam o autismo como uma doença ou lesão neurológica congênita, causada por uma combinação de fatores genéticos e ambientais, e o que pode ser curado. Mas há quem defenda que se trata de uma diversidade neurológica que deve ser respeitada, sem a necessidade de “cura”. Por outro lado, o autismo também pode ser compreendido como uma deficiência, mesmo que os sintomas possam se alterar ao longo da vida. Isso é o que explica a pesquisadora Gisella Mouta Fadda, que defendeu sua dissertação sobre a relação de mães e pais com os filhos autistas, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia, em 2015, e teve como orientadora a Profa. Dra. Vera Engler Cury. “O melhor seria compreender a pessoa diagnosticada com autismo como estando deficiente, e não sendo deficiente”.

"muito importante a disponibilidade de espaços para que pais e mães se encontrem e conversem entre si"/ Crédito: Álvaro Jr
“muito importante a disponibilidade de espaços para que pais e mães se encontrem e conversem entre si”/ Crédito: Álvaro Jr

Gisella quis compreender como pais e mães vivenciavam sua relação com seus filhos autistas, já que a interação e a comunicação social são características deste transtorno do neurodesenvolvimento. Ela considerou que os pais e as mães são protagonistas nos cuidados do filho, por isso sua indagação era “saber como eles percebiam essa convivência tão peculiar com seus filhos”, explica.

Para isso, a pesquisadora se aproximou do modo como os participantes da pesquisa se relacionavam com seus filhos autistas, realizando encontros dialógicos com os participantes, individualmente ou como casal, e após cada encontro, foi redigida uma narrativa compreensiva considerando o que foi vivido no encontro entre pesquisadora e participantes.

“Após concluir essa etapa, produzi uma narrativa-síntese contendo elementos significativos da experiência de todos os participantes, possibilitando uma compreensão e interpretação do fenômeno”, contextualiza Gisella. 

O trabalho desenvolvido como resultado do mestrado considerou que as mães, em especial, tornam-se mediadoras na relação do filho com o mundo e ao dedicarem-se integralmente nesse cuidado permanente, acabam por formar uma relação de exclusividade, o que acaba, por vezes, afastando ambos do convívio social. Essa dedicação faz com que muitas mães descuidem de si mesmas. Por outro lado, “quando brincam com o filho, ampliam a possibilidade de se relacionarem afetivamente de uma maneira mais gratificante, mais prazerosa”, observou.

muito importante a disponibilidade de espaços para que pais e mães se encontrem e conversem entre si
muito importante a disponibilidade de espaços para que pais e mães se encontrem e conversem entre si

“Existe um ditado que diz: ‘é caminhando que se faz o caminho’ que pode representar como esses pais e mães se relacionam com seu filho, pois apesar do grande desgaste físico e emocional que muitos vivenciam nesse cotidiano, nota-se que o importante é formar a relação com o outro, e não pelo outro”, afirma.

O que a pesquisadora descobriu, no entanto, não esgota a questão, mas auxilia novos modelos de compreensão acerca de pais e mães de crianças diagnosticadas com autismo e a disponibilização de atenção psicológica às famílias. Gisella acredita que “é necessário, contudo, que um maior número de pesquisas sobre atenção psicológica sejam realizadas para atualizar a formação profissional, tanto do psicólogo como de outros profissionais que atuam com o TEA”. 

A pesquisadora acredita que uma escuta atenta realizada por profissionais da área da saúde pode beneficiar esses pais e mães em seus crescimentos pessoais, desenvolvimento psicológico e a atualização de significados que ampliam a compreensão deles sobre suas experiências. “Conclui que seria muito importante a disponibilidade de espaços para que pais e mães se encontrem e conversem entre si, sendo mediados, por exemplo, por recursos criativos que possibilitem narrativas sobre suas histórias de vida e infância a fim de promover um constante vir a ser, em um processo permanente de criação de novos significados em suas vidas”.

 

 

Estudo sugere psicanálise no tratamento de traumas sociais

Dissertação da Pós-Graduação em Psicologia defende que traumas como o racismo não sejam tratados como sofrimento individual

 

Por Amanda Cotrim

O racismo se constitui em uma realidade multifacetada: fatores históricos, econômicos, geopolíticos, sociais, institucionais e culturais. O Brasil tem algumas características peculiares: foi o País que recebeu o maior número de africanos escravizados da América e foi o último a declarar a abolição, em 1888. Para compreender o racismo como causa de sofrimento, o aluno do Doutorado em Psicologia da PUC-Campinas, Rafael Aiello-Fernandes, se debruçou sobre a temática durante a dissertação de mestrado, defendida em 2013, na Instituição. De acordo com ele, lidamos o tempo todo com as reverberações de um passado-presente, “a colonidade do poder, do saber e do ser, que se atualiza repetidas vezes e que clama por transformação”.

O trabalho, que teve orientação da Profa. Dra. Tânia Maria José Aiello-Vaisberg, problematiza a psicologia clínica, que, muitas vezes, segundo o estudo, isola o psiquismo quando se propõe a lidar com os sofrimentos das pessoas. Para contrapor essa prática, Fernandes sugere o método psicoanalítico. “O inconsciente será um conjunto de ambientes humanamente produzidos. Ao deslocar o método, se desloca o inconsciente, transformando a psicologia clínica, abandonando práticas de culpabilização individualizante por conhecimento de traumas sociais. Nessa clínica, a culpa dará lugar para o cuidado relativo aos sofrimentos de injustiças, desamparo, humilhação e cerceamento da liberdade”, ressalta.

Rafael Aiello-Fernandes desenvolveu seu estudo dentro do grupo de pesquisa Atenção Psicológica Clínica em instituições: prevenção e intervenção/ Crédito: Álvaro Jr.
Rafael Aiello-Fernandes desenvolveu seu estudo dentro do grupo de pesquisa Atenção Psicológica Clínica em instituições: prevenção e intervenção/ Crédito: Álvaro Jr.

Para investigar o tema, Fernandes usou a psicanálise como pesquisa e entrevistou dois homens negros que tiveram relativa ascensão social nos últimos anos. O objetivo foi discutir o sofrimento causado pelo racismo não por um viés individual, mas social, e discutir se o racismo se restringiria apenas a uma questão socioeconômica. Ou seja, um negro relativamente rico também sofre racismo? O que o estudo mostrou é que mesmo com relativo poder aquisitivo, o racismo extrapola as fronteiras da economia, pois, segundo Fernandes, trata-se de barreiras culturais e históricas. “O racismo é uma modalidade de manutenção de poder socialmente produzida, que não pode ser reduzida à dimensão psicológica. O negro é alvo de constante ataque, seja no modo de vivenciar o próprio corpo – o esquema corporal sendo submetido a um esquema histórico racial que o precede e constrange -, seja no modo de experimentar a própria racionalidade, pois os participantes sentem que são alvo de um processo de objetivação, que os desumaniza, e que tentam com muita dificuldade compreender racionalmente”, explica.  Esse processo, segundo a pesquisa, leva a um conflito entre o intelecto e a experiência emocional do negro, que resulta em um grande sofrimento.

Como o racismo é percebido?

De acordo com o estudo, a sutileza do racismo traz pistas importantes de como o racismo brasileiro se expressa no cotidiano, seja pelo olhar, pela fala ou pelos gestos. A pesquisa identificou que o racismo está tanto no plano verbal quanto no não verbal. “Não defendo que o racismo não possa se expressar abertamente e violentamente no Brasil, mas que esse modo coexiste com formas de discriminação mais sutis. Tudo isso leva a população negra a vivenciar um estado de tensão emocional considerável, que, no caso, tenta superar com um esforço adicional em suas áreas profissionais, buscando ser impecável no que faz para que sua aparência física não se torne uma questão. Obviamente, é um sistema social racista que obriga a esse estado de permanente tensão subjetiva”, afirma Fernandes.

Estudo mostrou que mesmo com relativo poder aquisitivo, o racismo não acabou/ Crédito: Álvaro Jr
Estudo mostrou que mesmo com relativo poder aquisitivo, o racismo não acabou/ Crédito: Álvaro Jr

Por outra psicologia clínica

De acordo com o pesquisador, é preciso pensar em uma clínica dos sofrimentos sociais, o que exige primeiramente uma qualificação: a clínica é habitualmente pensada a partir do modelo de atendimento padrão, ou seja, individualizado. Admite-se a concepção de subjetividade, que pensa a vida emocional como essencialmente “intrapsíquica”, ou seja, acontecendo “dentro” da mente do ser humano. Esse discurso, aliás, está muito presente no Brasil, quando se ouve que o negro tem preconceito com ele mesmo, algo como uma “mania” de perseguição. Fernandes, no entanto, combate esse discurso, que reduz os fatores sociais a uma questão individual ou, no máximo, de âmbito familiar.

O Pesquisador, contudo, explica que a psicologia clínica, atualmente, não se limita apenas a esse modelo “individualizante”, pois já é pensada também em contextos grupais, institucionais e sociais, estando, portanto, a subjetividade vinculada e emergindo de tais contextos. “É nessa perspectiva que desenvolvi minha pesquisa, dentro do grupo de pesquisa Atenção psicológica clínica em instituições: prevenção e intervenção do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUC-Campinas, que por sua vez se situa na linha de pesquisa sobre Prevenção e intervenção psicológica. Buscamos, portanto, elaborar e fundamentar o que chamamos de ‘enquadres diferenciados’, que são modalidades de exercer a clínica para além do dispositivo tradicional”, relata.

Rafael ressalta que o Grupo de Pesquisa compreende os sofrimentos produzidos socialmente a partir do olhar da psicanálise concreta, inspirada na obra de Georges Politzer e José Bleger, que entende que a dramática de vida pessoal e coletiva só pode ser entendida dentro de contextos históricos, culturais, econômicos e políticos específicos.

Posição e Reação
Pela condição de Universidade e, principalmente, pela identidade católica, a PUC-Campinas tem posição sólida e transparente de repúdio a toda e qualquer manifestação de racismo e preconceito, que se efetiva em duas vertentes básicas.
 De um lado, pela produção e difusão de conhecimento, como observado na matéria Estudo sugere psicanálise no tratamento de traumas sociais; estudar e difundir conhecimento sobre causas e origens do racismo e do preconceito, tornando a sociedade e as pessoas mais esclarecidas, contribui para a erradicação desses problemas. Por outro lado, a Universidade tem meios efetivos para evitar e, quando preciso, coibir manifestações preconceituosas verificadas no seu âmbito de ação, válidas para a totalidade do público universitário: alunos, funcionários e professores.
 Porque ferem o coração cristão e porque ofendem as mentes esclarecidas, o racismo e o preconceito não podem ter e não têm vez nem lugar no ambiente universitário.
 

 

 

 

Saúde Psicológica em situações de desastres

Pesquisadora faz mapeamento inédito de psicólogos que trabalham em regiões de conflito; tese foi defendida em 2015

Por Amanda Cotrim

A tese de doutorado de Ticiana Paiva de Vasconcelos, psicóloga de formação, surgiu a partir de algumas indagações que, ao longo da pesquisa, foram se transformando em dados; uma delas é que cada vez mais a psicologia está sendo convocada a entrar em cenários de desastres. Além disso, aponta a Pesquisadora, isso provoca os psicólogos a compreender melhor o sofrimento humano em contextos não habituais de atendimento. “Para além das teorias, que são importantes, sem dúvida, a psicologia está aprendendo na prática a lidar com esses contextos que exigem uma intervenção apropriada e em sintonia com determinada emergência”, explica Ticiana. Como uma tese de doutorado, esta pesquisa teve como principal objetivo compreender o que leva um profissional da psicologia a trabalhar com vítimas de desastres ou de conflitos armados e qual o impacto disso para sua vida profissional. O estudo foi desenvolvido sob a orientação da docente do Programa de Pós Graduação em Psicologia da PUC-Campinas, Profa. Dra. Vera Engler Cury.

A pesquisadora entrevistou 10 psicólogos com experiência em atendimento a vítimas de grandes enchentes, terremotos, pós-guerra e conflitos civis permanentes. Para mapear os entrevistados, Ticiana utilizou a internet e publicações da Associação Brasileira de Psicologia para Atendimento de Desastres, criada em 2008.

A pesquisadora Ticiana Paiva de Vasconcelos ressalta a importância de psicólogos se confrontarem com experiências de vidas diferentes das habituais / Crédito: Álvaro Jr.
A pesquisadora Ticiana Paiva de Vasconcelos ressalta a importância de psicólogos se confrontarem com experiências de vidas diferentes das habituais / Crédito: Álvaro Jr.

As entrevistas foram conduzidas pela pesquisadora individualmente com os participantes, sob a forma de um encontro dialógico, sem um roteiro fechado de perguntas, e sem limite de tempo. A maioria dos profissionais entrevistados vivenciou essa experiência em atendimento de desastres voluntariamente, em intervenções pontuais, como no caso da enchente em Itajaí, em Santa Catarina, em 2008. Mas alguns dos participantes trabalham profissionalmente no atendimento a vítimas em situações extremas. “Esse psicólogo está hoje no Brasil, depois ele é chamado para ir até a África, em seguida, precisa estar na Ásia. Ou seja, faz parte da rotina dele se defrontar com seus limites, diariamente”, explica.

O estudo concluiu que os psicólogos que trabalham nesses contextos extremos, além de presenciarem situações dolorosas vivenciadas pelas vítimas, também convivem com riscos à sua própria integridade física e psicológica decorrentes de situações ambientais precárias e da desagregação social que se instala. “Na Palestina, um psicólogo me relatou que há ataques com bombas a qualquer momento. No Haiti, após o terremoto, ocorreram inúmeros casos de estupros e as psicólogas que estavam lá também estavam sob esse risco. Em situações ocorridas no Brasil, alguns participantes relataram admiração em relação à capacidade das pessoas que haviam perdido parentes de conseguirem retomar a sua rotina muito rapidamente”, conta Ticiana.

Confrontar-se com experiências de vida muito diferentes do habitual é, de acordo com o estudo, um desafio para os psicólogos que passam a conhecer de perto outras formas de sofrimento humano. “Daí, a necessidade de haver profissionais flexíveis. Os psicólogos precisam sair mais dos consultórios e ir além, para vivenciar outras perspectivas de mundo”, ressalta a pesquisadora.

Psicóloga da organização Médicos Sem Fronteiras durante atendimento às vitimas do Ebola, na África. / Crédito: Divulgação
Psicóloga da organização Médicos Sem Fronteiras durante atendimento às vitimas do Ebola, na África. / Crédito: Divulgação

Uma vantagem que essa nova realidade da profissão revelou, de acordo com o estudo, é que os psicólogos que trabalham nesses contextos de desastres conseguem ver o resultado do seu trabalho imediatamente. “Em campo, eles vêem as mudanças que o seu trabalho proporcionou às vítimas e isso é muito significativo para o profissional, de acordo com a fala da maioria dos psicólogos entrevistados”. O ponto positivo, ressalta Ticiana, é que os conhecimentos aprendidos em situação natural pelos profissionais da psicologia possuem grande potencial para fomentar novas hipóteses do ponto de vista teórico.

Segundo a Pesquisadora, os psicólogos que trabalham com atendimento em desastres estão sempre amparados por organizações que realizam trabalhos humanitários em regiões de conflito. O profissional é uma parte, dentro de todo o aparato social oferecido por essas organizações. “As entrevistas mostraram que esse profissional é assistido o tempo todo. Se ele não consegue lidar com a situação, ou se, de repente, chegou ao seu limite, todo o atendimento é amparado por outros profissionais que estão lá justamente para isso”, explicou. “São essas organizações que acabam dando apoio para os psicólogos enquanto formação, em que eles aprendem com treinamento e são supervisionados”, pontuou.

A maior motivação para o trabalho desses profissionais, de acordo com o estudo, tem sido a possibilidade de ajudar o outro: “A etimologia da palavra clínica, significa inclinar-se ao outro. Os profissionais afirmaram que a grande motivação é poder ser útil para alguém em algum lugar do mundo”, relatou a pesquisadora.

Entre os desafios para essa nova realidade da prática da psicologia está a formação do psicólogo, que precisa, de acordo com Ticiana, integrar essas novas demandas: “As disciplinas do curso de Psicologia precisam incluir temas como atendimentos em situações extremas de forma a flexibilizar o olhar desse novo profissional. O ensino nas universidades, de modo geral, precisa abrir-se para novas realidades. Infelizmente, os currículos caminham em ritmo mais lento do que a profissão exige.  , Mas isso vem mudando”, finalizou.

PUC-Campinas Informa

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Novo prédio de Psicologia

O novo edifício, localizado no Centro de Ciências da Vida (CCV), Campus II da Universidade, foi financiado pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), ligada ao Ministério de Ciência Tecnologia e Inovação, e abriga os laboratórios de psicologia e as salas para a orientação de mestrandos e doutorandos. Foi a primeira vez que a FINEP financiou uma Instituição de Ensino Superior não pública, em um edital que contemplou as Universidades Comunitárias. Para a Reitora da PUC-Campinas, Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht, esse prédio é o resultado do trabalho dos docentes e alunos da psicologia e do esforço da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (anteriormente, sob a gestão da Profa. Dra. Vera Engler Cury e, atualmente, da Profa. Dra. Sueli Betini) e da Pró-Reitoria de Administração. “Nós sabemos o quanto é difícil pesquisar… e essa conquista exigiu a dedicação de todos”, destacou a Reitora. O novo prédio recebeu o nome do Arcebispo de Campinas, Dom Bruno Gamberini, falecido em 2011.

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Professora da PUC-Campinas é premiada

A docente da Faculdade de Artes Visuais da PUC-Campinas, Profa. Dra. Paula Almozara, foi uma das contempladas com o Prêmio Brasil Fotografia 2014, considerado o mais importante do segmento no País, na categoria Bolsa de Desenvolvimento de Projeto. O trabalho vencedor denominado “À Margem” desenvolverá um conjunto de 10 obras que tem como objetivo fundamental questionar e provocar os limites existentes sobre a noção de reprodutibilidade técnica na relação “matriz/múltiplo” e “objeto único”, realizando experimentações a partir da fotografia analógica e tendo na paisagem um elemento dominante das relações visuais a serem estabelecidas. A premiação é uma bolsa em dinheiro durante os seis meses de duração do Projeto. A exposição com os trabalhos acontece no dia 15 de janeiro de 2015 para convidados, no Espaço Cultural Porto Seguro, em São Paulo, capital, ficando em cartaz ao público até 31 de março.

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Turismo completa 40 anos de atividades

A Faculdade de Turismo da PUC-Campinas completa 40 anos de atividades em 2014. Para celebrar suas quatro décadas, os alunos do segundo ano do curso de Turismo promoveram evento cujo objetivo foi debater temas como aeroportos e epidemias. Tendo em vista os grandes eventos dos últimos anos, se fez necessário discutir quais são os impactos dos eventos turísticos na saúde e o impacto de doenças nos grandes eventos. Além disso, o ano de 2014 corou a excelência do curso, que recebeu quatro estrelas do Guia do Estudante. O resultado demonstra a qualidade do curso oferecido pela PUC-Campinas e coloca a Universidade como uma das melhores do País. Publicado anualmente pela Editora Abril, o Guia do Estudante é um dos principais veículos de publicação de Instituições de Ensino Superior do Brasil e de avaliação de cursos superiores de bacharelado e licenciatura.

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Aluna da PUC-Campinas vence prêmio cultural

A estudante do Curso de Letras da PUC-Campinas, Ana Paula Santos, 19 anos, é a vencedora do Concurso Cultural “PUC-Campinas numa frase”. O resultado foi divulgado no dia 13 de novembro, pela Reitora da Universidade, Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht. Estavam também presentes as cinco finalistas do concurso e a Comissão responsável pela seleção das frases. Com a frase “PUC-Campinas: a tradição construindo os valores e a inovação transformando a vida”, Ana Paula Santos ganhou uma viagem de uma semana para Roma, na Itália, com hospedagem, passagem e o direito de levar um acompanhante. Será a primeira viagem internacional da estudante.