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A arte do presépio no mundo atual

Por Paula Elizabeth de Maria Barrantes

A primeira representação conhecida da natividade aconteceu nas Catacumbas de Priscila, em Roma, entre os séc. III e IV d.C. Do séc. IV em diante ganham força os sarcófagos, período paleocristão, momento em que o cristianismo foi autorizado por Constantino. As representações seguem na forma de trípticos, pinturas e iluminuras durante a idade média.

Em 1223, inovadoramente, São Francisco de Assis encena numa gruta de Greccio e à noite, o nascimento de Jesus, a encenação retirava os ouvintes da reflexão passiva e os colocava dentro do cenário, numa natividade dramática e tridimensional. A experiência prosperou e nos séc. XVIII e XIX os presépios pequenos começam a se espalhar pelo mundo em virtude da abertura dos canais comerciais e da imigração dos artistas.

Hoje, os lares católicos habituaram-se à montagem do presépio no Natal, todavia, sabem os católicos o significado de cada elemento que compõe o presépio? Sendo Jesus o símbolo unificador de todos os povos teria ele apenas uma etnia? Dentro da iconografia, os presépios podem ter apenas a Sagrada Família e os Magos conforme o Evangelho de Mateus (Mt. 2,2), relato dos reis e das nações, a estrela torna-se o símbolo de Deus que guia e ilumina.

Aristides. Presépio de palha de milho na cabaça, ano 2000, Minas Gerais. Coleção Valter Polettini. Foto: Paula Barrantes
Aristides. Presépio de palha de milho na cabaça, ano 2000, Minas Gerais. Coleção Valter Polettini. Foto: Paula Barrantes

Alguns podem conter apenas a Sagrada Família, ou seja, o momento do nascimento do unificador. Mas, quando a Sagrada Família e os pastores completam o presépio, incluindo aí a singular figura do Bom Pastor, estamos no Evangelho de Lucas onde anjos anunciam a chegada de Jesus aos pastores (Lc 2,15). Por fim, existem presépios que, não raro, trazem a Sagrada Família, a estrela, o anjo, os pastores e os Magos. No momento em que nos deparamos com estas interessantes obras estamos diante da união de Mateus, Lucas e do livro dos Salmos (Sl 72, 1-20). Caberá ao filho de Deus a justiça no tratar os pobres e oprimidos; aos povos do deserto e, igualmente, aos reis de Társia, da Arábia e de Sabá. Todas raças da Terra e todas as nações o proclamariam feliz.

A arte do séc. XX e XXI traduz nos materiais e nas concepções uma aproximação com a mensagem original, demonstrando que a arte e o artesanato não se afastaram da natividade. Ao elaborar os presépios de papel, cerâmica, plásticos e recicláveis, vidro, tecidos, fibras naturais, biscuit, pedra, ouro ou prata, ou seja, ao apropriar-se de materiais pertencentes ao seu universo individual o artista recria a natividade conferindo-lhe um novo aspecto social e cultural. As diversas etnias encontradas nos presépios demonstram um avanço no sentido da tolerância e do entendimento, na medida em que podem conter todos os tipos de cabelos, cor de pele e vestes. Atualmente, estas obras de arte contém uma carga considerável de crítica e reflexão, sempre respeitando a iconografia dos evangelhos.

A exposição “Presépios artesanais: a natividade no mundo” do Museu Arquidiocesano de Campinas oferece a possibilidade de uma viagem pela produção da Ásia, Oriente, Europa e Américas, pertencente ao colecionador Valter Polettini.

Paula Elizabeth de Maria Barrantes é Doutoranda em História da Arte e Curadora do Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas

 

 

Primeiro Museu de Arte Sacra do estado de S. Paulo

Museu Arquidiocesano de Campinas inaugura sua nova sede no bairro Nova Campinas. Espaço cultural terá minicursos, pesquisa e interatividade

 

Por Amanda Cotrim

A nova sede do primeiro Museu de Arte Sacra do Estado de São Paulo é fruto de muito trabalho. Mas também é conseqüência de um desejo de preservar a memória, tanto do ponto de vista artístico, quanto histórico. O Museu, que nasceu em 1964, já teve algumas moradas em Campinas, como um edifício na Avenida Aquidabã e o consistório superior da Catedral Metropolitana de Campinas. Apesar do esforço de muitas pessoas em preservar o acervo, era preciso mais. “A iniciativa de ter um espaço apropriado para o Museu surgiu do Arcebispo Metropolitano de Campinas, Dom Airton José dos Santos. Ele resgatou o sentimento de que era preciso preservar o patrimônio”, comenta a historiadora da Arte, que participa do projeto, Paula Elizabeth de Maria Barrantes. “Dom Airton alude à necessidade de espaço físico mais adequado que abrigue e valorize o rico acervo, bem como para melhores condições de acessibilidade do público, dentro de um projeto que visa também fazer do mesmo edifício um centro de memórias da Igreja de Campinas”, explica o Doutor em História e Bens Culturais da Igreja e Coordenador do projeto de reestruturação do Museu, Monsenhor Rafael Capelato.

Padre João Augusto Pezzuto, responsável pela restauração do acervo./ Crédito: Álvaro Jr
O Historiador Gabriel Amstalden e Paula Berrante, historiadora da arte- Crédito: Álvaro Jr

Esse importante passo para a cultura do estado e da cidade começou em 2014 e tem o apoio da Arquidiocese de Campinas, desde o projeto de reestruturação, a organização e a condução do mesmo. “A PUC-Campinas, por meio da Diretora da Faculdade de História, Profa. Dra Janaina Camilo e da Reitoria da Universidade, na pessoa do Vice-Reitor, Prof. Dr. Germano Rigazzi Junior, teve participação de grande importância”, destaca o Monsenhor. A equipe que colocou em prática a ideia de resgatar o Museu contou ainda com a historiadora da arte Paula Barrantes, com os historiadores Luiz Raphael Tonon, Thiago Avansi, Gabriel Amstalden, Diego da Silva Souza; e com o Padre João Augusto Pezzuto, responsável pela restauração do acervo.

Padre João Augusto Pezzuto, responsável pela restauração do acervo./ Crédito: Álvaro Jr
Padre João Augusto Pezzuto, responsável pela restauração do acervo. / Crédito: Álvaro Jr

A nova sede do Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas está localizada no Palácio Episcopal, antiga casa de Dom Paulo de Tarso Campos, primeiro Arcebispo de Campinas, no bairro Nova Campinas. O local, com 1300 metros quadrados e 16 salas, abrigará 1200 peças. “O acervo, dividido em salas temáticas, conta a história das primeiras freguesias do Estado de São Paulo e as transformações dessas freguesias em cidade e depois em metrópole” explica Paula. “A arte sacra é a primeira manifestação artística do estado, sendo fundamental para o ensino da religião, por se tratar de uma forma fácil e rápida de ensino”, complementa.

A Professora Janaina Camilo, Diretora do Curso de História da PUC-Campinas e Coordenadora do Museu Universitário, explica que o Museu Arquidiocesano de Arte Sacra segue as normas previstas pelo Instituto Brasileiro de Museus e pela Carta Circular providenciada pela Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja, as quais orientam para “Função Pastorial dos Museus Eclesiásticos”, ou seja, “não basta para um Museu atingir sua função de formador de informação, propagador de ideias e reflexão histórica e arquitetônica. É preciso, também, que o espaço museal dialogue com a comunidade, promovendo a valorização das identidades e da memória social e cultural”, considera. Foi sob essa orientação que o projeto expográfico foi produzido, com vistas a efetivar o uso adequado do acervo combinado ao espaço físico.

Profa Dra Janaína Camilo, Diretora do curso de História da PUC-Campinas / Crédito: Álvaro Jr
Profa Dra Janaína Camilo, Diretora do curso de História da PUC-Campinas / Crédito: Álvaro Jr

O projeto expográfico contou com o apoio da equipe do Museu Universitário da PUC-Campinas, que ficou responsável pelo estudo das peças e da logística para a transferência do acervo da Catedral Metropolitana para o Palácio Episcopal. A Professora Janaina ressalta que nesse processo foi fundamental as visitas técnicas às cidades de São João Del Rei e Tiradentes, com orientação da Profa. Dra. Adalgiza Arantes Campos, docente de História da Arte da Universidade Federal de Minas Gerais e por seu orientando de doutorado, Prof. Me. Leandro Gonçalves de Rezende.

Parte do acervo do primeiro Museu de Arte Sacra do Estado de S. Paulo/ Crédito: Álvaro Jr
Parte do acervo do primeiro Museu de Arte Sacra do Estado de S. Paulo/ Crédito: Álvaro Jr

O historiador e funcionário do Museu Arquidiocesano, Gabriel Amstalden, explica que o espaço vai funcionar, inicialmente, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, com entrada no valor de 10 reais inteira e 5 reais a meia. No futuro, aposta Amstalden, o Museu também abrirá aos sábados. Além da visitação ao acervo, o público terá acesso a minicursos – na área de história da arte – e a pesquisa, com um espaço para a biblioteca e sala de estudo. “Além disso, haverá uma cinemateca e todo o acervo do Museu estará com informações em Braile. Queremos que esse espaço seja freqüentado por todas as pessoas”, reforça.

Diante da interatividade cada vez mais presente nos museus do Brasil, Paula explica que o Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas também se valerá da tecnologia, mas com cautela: “É preciso usar a tecnologia com cuidado, porque ela passa a ser a estrela do lugar e não o acervo. A tecnologia tem que servir à informação e ao acervo”, opina. Segundo a historiadora da arte, tudo que tem de mais moderno está sendo aplicado no Museu. “Talvez, ele seja um dos primeiros museus do Brasil a ser iluminado totalmente por luz de led, material essencial para a preservação das peças, dos tecidos, e fundamental para tornar o ambiente agradável”, explica. “Ainda não conseguimos, mas estamos trabalhando para conseguir a caneta falante: qualquer criança, idoso, ou pessoa com deficiência visual, por exemplo, não precisará ler a etiqueta da obra; é só colocar a caneta na identificação da peça e o próprio áudio da caneta vai explicar todo o acervo para a pessoa: contexto histórico, informações do artista, entre outros detalhes. Essa caneta dará total autonomia para a pessoa; inclusive para o Museu poder receber estrangeiros”, comenta Paula. “Por muito tempo se pensou (e talvez ainda se pense) que o moderno importa mais do que o passado. Extinguir o passado tornou-se uma prática na nossa cultura. Com o Museu, estamos fazendo o caminho contrário”, finaliza.

SERVIÇO:

O que:  Museu Arquidiocesano de Arte Sacra

Onde: Rua Dr. José Ferreira de Camargo, 844 (Antigo Palácio Episcopal)

Confira a programação do Museu em: www.facebook.com/museudeartesacracampinas

Telefone: 3790-3950

Artigo: “Brilhar na Fé e na Ciência”

 Por Pe. Dr. Adriano Broleze

“A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”.  Assim se inicia a Encíclica Fides et Ratio, que versa sobre a relação da fé e da razão.  Importante documento que desenvolve o tema muitas vezes concebido como antitético entre a Revelação e a Racionalidade humana. Um convite para compreender que, tanto a fé como a razão são características propriamente do ser pensante e, somente numa visão de entendimento, poderão ser assumidas como colaboradoras do desejo mais profundo do coração humano, ou seja, o anseio pela verdade.

As novas descobertas, sobretudo no campo da biotecnologia, evidenciam inumeráveis possibilidades ao desenvolvimento humano, contudo nem sempre uma tecnologia alcançável e aplicável é, humanamente (ética, moral e religião), aceitável. Seja pelo que entendemos do ser humano, como portador de dignidade inalienável, seja pelo que a religião expressa em conceber o mesmo humano como merecedor de não violação de sua vital sacralidade. O que acentuamos é que a ética, a moral e a religião nunca desejaram em sua raiz mais genuína, como diagnosticaram os iluministas e modernistas mais efêmeros, obstruir o desenvolvimento científico. A posição da religião, nesse senso, é justamente de afirmação, ou seja, de sustentação do valor de todo indivíduo e de todo ecossistema, nosso eu e nossa casa comum.

“O que acentuamos é que a ética, a moral e a religião nunca desejaram em sua raiz mais genuína, como diagnosticaram os iluministas e modernistas mais efêmeros, obstruir o desenvolvimento científico.”

As ciências bem o sabem que, defronte ao ser humano, não será possível adotar outra linguagem que não a da Dignidade, mas ao mesmo tempo, também são cientes que essa linguagem reclama contínua e fatigosa revisão. Não existe, todavia, na esfera do código simbólico, outra estrada a percorrer, senão a da reflexão que forjará as contingências do avanço e da autolimitação da pesquisa científica. A Igreja, nesse sentido, oferece uma significativa contribuição, sustentando uma visão integral do ser humano, visão que envolve não só a indispensável conceituação teórica de cada ciência, mas também a englobante visão antropológica, colhida na seara teológica, do pensante como mistério para si mesmo e, em comunhão com o outro.

Na história da relação entre Fé e Razão encontraremos, certamente, momentos turvos, que no entrincheiramento histórico podemos apreciar, todavia também não nos faltam elementos que indicam a gloriosa colheita que se pode desfrutar quando essas dimensões se unem. Vejamos, por exemplo, a conservação dos livros nos mosteiros desde a Idade Média, o nascimento das universidades, os grandes cientistas como Nicolau Copérnico (padre), Gregor Mendel (monge) e ainda Pascal, Ampère, Pasteur e Eduardo Branly. Hoje a Academia Pontifícia das Ciências reúne estudiosos do mundo inteiro, e os trabalhos do Observatório Astronômico do Vaticano são destaque, sem ainda enumerar tantas universidades e escolas espalhadas pelo mundo.

“A pesquisa científica e a dimensão do mistério será sempre pauta de debates, encontros e até desencontros”.

Nesse sentido, Giuseppe Moscati (1880-1927), sustentava que não deveria existir contradição ou antítese entre ciência e fé, ambas deveriam concorrer para o bem do homem. Médico e professor universitário ele testemunhou ao longo de toda sua vida um zelo no atendimento aos doentes, foi pioneiro na relação de proximidade com os doentes. Dizia: “Seja a dor considerada não como uma oscilação ou uma contração muscular, e sim como o grito de uma alma, de um irmão, ao qual outro irmão, o médico acode com o calor do amor ou da caridade”. Conhecido como médico os pobres, foi canonizado pelo Papa João Paulo II, em 1987.

A pesquisa científica e a dimensão do mistério será sempre pauta de debates, encontros e até desencontros. Ao longo dos séculos, esses elementos serão observados e utilizados ora para salvaguardar uma ora para depreciar a outra. Contudo, o que não podemos nunca esquecer é que essas duas dimensões fazem parte de uma única realidade humana, que deseja ardentemente pela mais gloriosa tarefa da racionalidade, isto é, o desvelamento do mistério da verdade. Quando razão e fé se unem, esse desvelamento torna-se maravilhosamente possível.

Prof. Dr. Pe. Adriano Broleze- Faculdade de Teologia e Direito da PUC-Campinas

Concílio Vaticano II: seu significado e sua recepção

Prof Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves

O Concílio Vaticano II (162-1965) é um dos eventos mais importantes da Igreja Católica na era contemporânea. Anunciado em 1959 e convocado em 1961 pelo papa João XXIII, esse Concílio significou o encerramento do Concílio Vaticano I (1869-1870) que havia sido suspenso pelo papa Pio IX em função da guerra franco-prussiana e assumindo a perspectiva teológico-pastoral, recepcionou e levou a cabo um processo de renovação interna da Igreja e de seu modo de relacionar-se com o mundo contemporâneo. Abraçou uma postura de renovação interna da Igreja em suas estruturas para que se constituíssem em espaços de comunhão e de fraternidade, de diálogo com o mundo contemporâneo, sentindo “as alegrias e as esperanças, as tristezas e angústias da humanidade de hoje” (cf. Gaudium et Spes n. 1), para promover o aggiornamento, sendo a luz de Cristo para todos os povos, sacramento universal de salvação mediante o ecumenismo, o diálogo interreligioso, a contribuição profunda com a unidade dos povos e com a emergência do novo ser humano, constituído de espírito de alegria, de justiça, de bondade, de paz e de amor.

Quando o Concílio Vaticano II foi encerrado aos 08 de dezembro de 1965, um grande entusiasmo tomou conta de cristãos e de outras pessoas de boa vontade. O desafio emergente era a recepção, compreendida como o modo de sua atualização nas diferentes realidades do mundo contemporâneo. Nesta perspectiva, os bispos fortaleceram suas estruturas de colegialidade episcopal mediante a efetividade das Conferências Episcopais, das Assembléias Gerais do Episcopado – como exemplo têm-se as Assembléias do Episcopado Latino-americano realizadas em Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007) –, a recuperação dos Sínodos e a apresentação do Papa como o bispo de Roma que, na caridade, preside o colégio episcopal. Os bispos foram fortalecidos em suas Igrejas particulares e locais, efetivando a comunhão nas instâncias de colegialidade episcopal, principalmente as Conferências Episcopais, nas instâncias diocesanas com o respectivo Presbitério e Laicato, levando a cabo a concepção da Igreja como Povo de Deus, fundamentalmente ministerial, servidor e munido da esperança escatológica. Estruturas eclesiais de comunhão e participação foram criadas tanto no âmbito mundial quanto nacional, regional, diocesano e paroquial. Assim, devem ser entendidos os conselhos pastorais e administrativos das diferentes instâncias eclesiais.

Emergiram e consolidaram-se realidades eclesiais comprometidas com a evangelização do mundo contemporâneo, tanto em termos de anúncio explícito de Jesus Cristo através da catequese, da homilia e da teologia pastoral, como em termos sociais mediante o impulso e a realização de movimentos históricos de transformação social, política, econômica e social. Neste sentido, compreende-se a concepção de “Igreja dos Pobres” proferida pelo papa João XXIII aos 11/09/1962 e levado a cabo nas formas de Comunidades Eclesiais de Base, de atividades pastorais sociais diversas e práticas pessoais comprometidas com a dignidade humana, a justiça e a paz.

No âmbito da theologia mundi, preocupada com a relação entre Deus e mundo, surgiram as teologias contextuais – teologia da libertação latino-americana, teologia asiática, teologias africanas –, teologias da cultura – pós-moderna, negra e indígena –, teologias do genitivo – teologia da mulher, teologia feminista, teologia do feminino –, teologias das religiões, teologia ecológica. Essas teologias respondem à pergunta: como falar de Deus a partir das diversas realidades – aqui se trata da concepção clássica de loci theologici – compreendidas em sua especificidade vital, sem perder a universalidade própria da revelação cristã? Para isso, a inteligência da fé, que é própria da teologia, tem na filosofia sua companheira – partner – que lhe possibilita compreender o ser humano e o mundo em sua totalidade e nas ciências os elementos constitutivos para a compreensão das realidades específicas. Todas essas teologias possuem um espírito de diálogo e de apresentação das possibilidades de eficácia da fé cristã.

É também constatável que não tem faltado tensões de diversas ordens na recepção do Concílio, porém é verdade que a Igreja está imbuída de um espírito dialógico, ecumênico e de comprometimento com a emergência do homem novo e com a nova criação, porque a Igreja tem consciência de sua missão: ser sacramento de salvação para todos os povos, zelando e cuidando da humanidade com confiança e com amor, para que esta possa resplender o rosto do Cristo, o filho do Deus, que é Amor e que ama a todos os seres humanos e a todas as criaturas desde a eternidade.

Prof Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves- Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião – CCHSA

 

Renomada Filósofa Italiana, Angela Ales Bello, visita a PUC-Campinas

Pesquisadora do pensamento de Edith Stein analisa o ensino em ciências da religião e o papel da mulher no mundo acadêmico

Por Eduardo Vella

A Profa. Dra. Ângela Ales Bello, docente da Pontificia Università Lateranense di Roma – Itália – esteve na PUC-Campinas, no início do mês setembro, a convite do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião.

A Profa. Angela Ales Bello é italiana, filósofa contemporânea, fundadora e diretora do Centro Italiano di Ricerche Fenomenologiche, com sede em Roma, e Professora Emérita de História da Filosofia Contemporânea da Faculdade de Filosofia da Pontifícia Università Lateranense. É especialista na Fenomenologia de Edmund Husserl (1859-1938) e uma das mais renomadas pesquisadoras do pensamento de Edith Stein (1891-1941). Editou pela Città Nuova, em língua italiana, as Obras Completas de Edith Stein.

Edith Stein reforça a igualdade, no que diz respeito a dignidade humana. Crédito: Álvaro Jr
Edith Stein reforça a igualdade, no que diz respeito a dignidade humana. Crédito: Álvaro Jr

O Jornal da PUC-Campinas conversou com a Pesquisadora que falou sobre sua visita à Universidade, a qualidade do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião da PUC-Campinas, Ensino de Ciências da Religião e Teologia no Brasil e o papel da mulher na vida acadêmica e dentro do estudo da religião.

 Jornal da PUC-Campinas: Qual a motivação de sua visita ao Brasil, especialmente à PUC-Campinas?

Profa. Dra. Ângela Ales Bello: Fui convidada pela PUC-Campinas, em especial pelo Coordenador do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião da PUC-Campinas Prof. Dr. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves e pela Pró-Reitora de Extensão e Assuntos Comunitários, Profa. Dra. Vera Engler Cury para que pudesse falar de minha experiência filosófica, em especial da Fenomenologia, dentro da disciplina “Tópicos Especiais em Ciências da Religião” e também para estabelecer um relacionamento com a PUC-Campinas, através da Pontificia Università Lateranense di Roma, instituição da qual faço parte.

 Jornal da PUC-Campinas: Qual sua impressão do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião da PUC-Campinas?

 Profa. Dra. Ângela Ales Bello: Tive uma impressão ótima. Os alunos estavam muito bem preparados e motivados para participar de minhas aulas, compreendendo e participando de forma muito ativa. Foi uma experiência muito interessante.

 Jornal da PUC-Campinas: Faça uma análise sobre o ensino e pesquisa de Ciências da Religião e Teologia no Brasil.

 Profa. Dra. Ângela Ales Bello: Essa área de Pesquisa existente no Brasil é particularmente importante, pois não é ligada somente a uma religião, como a Católica, que caracteriza, por exemplo, a nossa Pontifícia Universidade. Através de outras experiências ligadas ao ponto de vista filosófico, teológico e histórico, o ensino e pesquisa de Ciências da Religião e Teologia permite uma preparação muito ampla e adequada ao mundo contemporâneo. Talvez pudesse, ainda interiormente, aprofundar a questão histórica, não só de nossa cultura ocidental, como também de outras religiões.

Profa. Dra. Ângela Ales Bello, docente da Pontificia Università Lateranense di Roma – Itália- Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Dra. Ângela Ales Bello, docente da Pontificia Università Lateranense di Roma – Itália- Crédito: Álvaro Jr.

 Jornal da PUC-Campinas: A Senhora é uma das mais renomadas pesquisadoras do pensamento de Edith Stein. Qual sua visão sobre a participação da mulher na vida acadêmica e dentro do estudo da religião?

Profa. Dra. Ângela Ales Bello: Edith Stein nos ajuda de uma forma muito intensa a valorizar a presença da mulher nesse campo. Em todas as profissões, em qualquer trabalho que um ser humano pode fazer, sobretudo do ponto de vista intelectual, sabemos que nas décadas passadas, também em nossa cultura, não se pensava ser possível que a mulher pudesse produzir algo. Havia dúvidas de que as mulheres fossem capazes. Edith Stein mostra em seus escritos e comprova que a mulher pode fazer e tem sua maneira própria de atuar. Ela destaca as diferenças entre o homem e a mulher, porém reforça a igualdade, no que diz respeito a dignidade humana. Aqui na PUC-Campinas podemos constatar isso, já que a Reitora, Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht, e duas Pró-Reitoras são mulheres.

 

Museu arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas

Por Pe. Rafael Capelato

O Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas (MAAS) foi fundado, em 1964, pelo Arcebispo Dom Paulo de Tarso Campos (1941-1968). O primeiro conjunto de peças destinado a constituir o acervo foi reunido por iniciativa do próprio Dom Paulo que solicitou a diversas paróquias antigas, a doação de obras de valor histórico e artístico. Além disso, ele fez doação de sua coleção pessoal para o acervo inicial. O primeiro edifício a sediar tais peças sacras localizava-se na Avenida Aquidabã e contava com amplo espaço. O primeiro curador foi o historiador Celso Maria de Mello Pupo, que organizou o museu e inventariou as obras então reunidas. Seu inventário continua sendo o mais completo para o conhecimento do acervo artístico da entidade.

Pe. Rafael Capelato/ Arquivo: Arquidiocese
Pe. Rafael Capelato/ Arquivo: Arquidiocese

Consta no Diário Oficial do Estado de São Paulo, a. LXXV, n. 107, (11/6/1965), 94 que “Entre os seus objetivos: organizar e manter um museu histórico e de arte sacra; promover conferências e cursos de museologia, de divulgação de fatos, acontecimentos e de arte sacra; organizar e manter um serviço de documentação e arquivo da Arquidiocese de Campinas; promover periodicamente exposição e mostras de documentos históricos e de arte sacra; elaborar o inventário artístico da Arquidiocese, defendendo seu patrimônio histórico, ou melhor, patrimônio artístico, velando pela sua conservação e recolhendo ao museu as peças de maior valor que não estejam habitualmente entregues ao culto”. Os apelos pelo cuidado com os bens patrimoniais artísticos da Igreja Católica por parte da Santa Sé e de esferas do governo local, somados à vasta cultura e zelo artístico de Dom Paulo culminaram, então, com a ideia da fundação.

Em 2014, o Museu Arquidiocesano de Campinas completou o cinquentenário de sua fundação, após não poucas intempéries. Na ocasião o Arcebispo Metropolitano, Dom Airton José dos Santos, decidiu transferi-lo para o Palácio Episcopal, no bairro Nova Campinas. Dom Airton alude à necessidade de espaço físico mais adequado que abrigue e valorize o rico acervo, bem como para melhores condições de acessibilidade do público, dentro de um projeto que visa também fazer do mesmo edifício um centro de memórias da Igreja de Campinas. Está em andamento a transferência das obras e operacionalização de um novo plano expográfico, adequado à nova sede.

A equipe que está trabalhando nesse processo é composta pelo Doutor em História e Bens Culturais da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana – Roma, Padre Rafael Capelato; pela Doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP), Professora Janaína Camilo; pela Doutoranda em História da Arte pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Paula Elizabeth de Maria Barrantes; pelo Graduado em História pela PUC-Campinas, Luiz Raphael Tonon; pelo Graduado em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Thiago Avansi; pelo Graduado em História pela UNESP, Gabriel Amstalden; pelo Graduado em História pela PUC-Campinas, Diego da Silva Souza; e pelo Formado em restauro de arte sacra, Padre João Augusto Pezzuto.

Padre Rafael Capelato: Diretor ad hoc da transferência e reorganização do MAAS, Vigário Geral da Arquidiocese de Campinas.

Projeto combate a intolerância religiosa nas escolas

Projeto de Extensão da PUC-Campinas nas escolas da Rede Pública de Ensino alia história das religiões à história do patrimônio de Campinas

Por Amanda Cotrim

O Brasil é um país multicultural. Essa frase já foi repetida muitas vezes para identificar o País como sendo um lugar de muitas religiões, costumes e etnias. Mas isso não faz do Brasil um lugar, necessariamente, harmônico. Os conflitos existem. Pensando em combater o preconceito e a intolerância religiosa, a PUC-Campinas mantêm, desde fevereiro de 2015, o projeto de extensão Os lugares da religião: Espaço, Patrimônio e Cultura Material em Campinas, que tem como objetivo “ofertar aos professores da rede pública o conhecimento sobre a religião, seja a deles ou a dos outros”, explica o docente da Faculdade de História e responsável pelo projeto, Prof. Dr. Fabio Augusto Morales Soares.

O Professor Fabio Morales explica a relação entre religião, patrimônio e memória / Crédito: Álvaro Jr.
O Professor Fabio Morales explica a relação entre religião, patrimônio e memória / Crédito: Álvaro Jr.

Uma vez por mês, o Professor Morales e dois alunos-bolsistas promovem oficinas nas escolas da rede pública e, juntamente com os educadores, realizam um estudo sobre religião em um ou mais templos religiosos de Campinas, uma atividade que alia cultura, arte e arquitetura. Em abril de 2015, o estudo foi sobre o catolicismo, na Catedral Metropolitana, no Largo do Rosário e na Basílica do Carmo. Em maio de 2015, foi a vez do islamismo, em que professores visitaram a Mesquita da Sociedade Islâmica de Campinas, no Parque São Quirino. Em agosto de 2015, o projeto estudará o judaísmo, na Sinagoga localizada na Rua Barreto Leme, no Centro de Campinas; em setembro de 2015, será a vez do budismo, no Templo Higashi Honganji, no Jardim Chapadão; em outubro, a umbanda no Terreiro Vó Benedita, na Vila Ipê, e, em novembro, será a vez do neopentecostalismo, na Igreja Universal, em Campinas.

“À medida que as religiões são fenômenos sociais extremamente complexos e diversificados, selecionamos dois aspectos das experiências religiosas presentes na cidade: a arquitetura e os objetos sagrados. Desse modo, além de conhecer melhor – evitando preconceitos vários – o campo religioso da cidade, os participantes têm acesso de um modo aprofundado ao patrimônio material edificado da cidade, assim como aos objetos sagrados em cada uma das religiões”, explica Soares.

O estudante do quarto ano do curso de História da PUC-Campinas, Renan Corrêa Teruya, de 30 anos, é extensionista no projeto. Renan é responsável em explicar sobre as fachadas dos espaços religiosos visitados. Já a também extensionista Camila Médici, 20 anos, tem a responsabilidade de falar sobre os objetos sagrados de cada templo visitado.  “Auxiliamos o professor Soares desde a reflexão acadêmica sobre as religiões até a preparação de textos e atividades que vamos usar com os professores da rede pública”, explica Renan. “No final do projeto, teremos um site completo com informações acadêmicas sobre as religiões que estamos estudando”, adianta o docente.

A PUC-Campinas mantêm, desde fevereiro de 2015, o projeto de extensão Os lugares da religião: Espaço, Patrimônio e Cultura Material em Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.
A PUC-Campinas mantêm, desde fevereiro de 2015, o projeto de extensão Os lugares da religião: Espaço, Patrimônio e Cultura Material em Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.

As atividades são realizadas de duas maneiras: uma oficina expositiva, em que os alunos-bolsistas vão até as escolas e apresentam a história arquitetural de cada uma das religiões presentes em Campinas. No sábado seguinte a essa exposição, “realizamos em conjunto estudos do meio, em que visitamos edifícios religiosos. Tanto nas oficinas expositivas quanto nas visitas aos edifícios religiosos, os professores participam ativamente, seja na forma de complementos ao discurso preparado, seja na forma de novos encaminhamentos às questões apresentadas”, revela Soares.

O docente explica, por exemplo, que a Catedral Metropolitana, dedicada à Nossa Senhora da Conceição está repleta de referências à arquitetura clássica e renascentista, e tem a ver com o processo de europeização (via arquitetura eclética) das cidades brasileiras no contexto da “modernização capitalista” e da formação da nova rede urbana paulista, o que não impediu o fato de que a técnica utilizada ser a taipa de pilão, tipicamente colonial, construída por trabalho escravo; “a Mesquita no Parque São Quirino é uma réplica do Domo da Rocha, em Jerusalém, mesquita construída sobre o antigo templo de Salomão e sobre a rocha onde Abraão teria quase sacrificado Isac/Ismael – dentro do domo da Rocha, assim como dentro da Mesquita de Campinas, existe um mihrab, que é um nicho na parede que indica a direção de Meca, conectando todas as mesquitas às geografia sagrada do Islã”, contextualiza. Já a Igreja Universal na Avenida João Jorge, por sua vez, tem um misto de arquitetura grega e judaica, o que tem a ver com a afirmação desta denominação no cenário religioso brasileiro, compensando sua curta história com a incorporação de uma longuíssima tradição arquitetural. “O terreiro da Vó Benedita, finalmente, não se reconhece facilmente, pois sua arquitetura é absolutamente residencial, o que se explica pela perseguição latente a religiões de matriz africana e afro-brasileira em nossa sociedade, supostamente, tolerante”, ressalta.

Professores da rede pública de ensino em Campinas durante as oficinas do Projeto de Extensão / Crédito: Álvaro Jr.
Professores da rede pública de ensino em Campinas durante as oficinas do Projeto de Extensão / Crédito: Álvaro Jr.

Para a Coordenadora Pedagógica dos anos finais (do 6º ao 9º ano), da escola Estadual Luis Gonzaga Horta Lisboa, em Campinas, em que o projeto de Extensão é realizado, Jaqueline Salione Silveira, “a iniciativa é muito bem-vinda pela sua relevância cultural. Ficamos encantados com a possibilidade de aliar a cultura da cidade de Campinas com o que cada religião traz de informação cultural. Eu propus levar os alunos para acompanhar as oficinas, porque acreditamos que o projeto é muito rico para o conhecimento cultural desse aluno”, opina a Coordenadora.

A intolerância às religiões de matriz africana.

Segundo o Professor Morales, não se apagam 300 anos de escravidão africana por decreto. O racismo, segundo ele, estruturou a sociedade colonial e imperial brasileira e a república não se esforçou para integrar os negros. “O racismo derivado da escravidão e das formas de reprodução da condição subalterna da população negra (ausência de Estado de bem-estar social + baixos salários + representações midiáticas depreciativas) é, certamente, o principal fator para a explicação da intolerância às religiões de matriz africana. Mas não só”, considera.

Nada como o conhecimento e informação para desmistificar uma situação de preconceito. Isso é o que acredita a Coordenadora Jaqueline, que adiantou que transmitirá todo o conhecimento adquirido aos alunos no final do projeto. “Eu penso em trabalhar com todas as religiões e no final do projeto apresentar todas suas características culturais como um trabalho geral para os estudantes”, finalizou.

Universidade Católica: entre o amor e o saber

PUC-Campinas celebra os 25 anos da Constituição Apostólica “Ex Corde Ecclesiae”

 Por Eduardo Vella

A PUC-Campinas promoveu nos dias 6 e 7 de maio o Colóquio “A identidade da Universidade Católica: em comemoração aos 25 anos da Constituição Apostólica “Ex Corde Ecclesiae”. O eventou contou com a presença de diversas autoridades eclesiásticas, civis e militares, Diretores de Centro e de Faculdades da PUC-Campinas, além de docentes, alunos e funcionários. O Colóquio marcou o primeiro evento organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da Universidade, que teve na sua abertura a conferência “A identidade da Universidade Católica à luz da Constituição Apostólica “Ex Corde Ecclesiae”, ministrada pelo Prefeito da Congregação para a Educação Católica, sua Eminência Reverendíssima Cardeal Zenon Grocholewski.

O Colóquio marcou o primeiro evento organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da Universidade
O Colóquio marcou o primeiro evento organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da Universidade

De acordo com o Arcebispo Metropolitano de Campinas e Grão-Chanceler da PUC-Campinas Dom Airton José dos Santos, o Colóquio contribui para que “sintamos a presença de Deus”, considerou.  “Confirmo e reforço o sucesso do Colóquio, pois ele é uma oportunidade de buscarmos na Constituição Apostólica “Ex Corde Ecclesiae” a reflexão necessária para nossa missão educacional”, ressaltou a Reitora da PUC-Campinas Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht.

 Identidade

Para delinear a identidade das Universidades Católicas, o Cardeal Zenon Grocholewski levantou uma questão: “Porque a Igreja Católica possui Universidades?”. Respondeu citando o Evangelho. “Ide e fazei com que todos os povos da terra se tornem discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo quanto vos tenho ordenado”. E emendou: “Por isso, a Igreja, por mandato do Divino Pastor, desde as suas origens, vem apascentando e velando sobre a grei do Senhor desde todo ponto de vista”.

Na Foto: A Reitora da PUC-Campinas, Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht, o Cardeal  Zenon Grocholewski e Grão-Chanceler da PUC-Campinas Dom Airton José dos Santos
Na Foto: A Reitora da PUC-Campinas, Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht, o Cardeal Zenon Grocholewski e Grão-Chanceler da PUC-Campinas Dom Airton José dos Santos

O Cardeal Grocholewski esclareceu que quando se fala no dever e no direito de educar da Igreja, não se está referindo unicamente à educação religiosa. “A Igreja participa também da educação nas ciências, por quanto, desde sempre, e ao longo da história, ela se preocupou de formar integralmente à pessoa”, assegurou.

Ele explicou que as Universidades Católicas têm como de contribuir com a sociedade, seja mediante a pesquisa, seja mediante a educação ou a preparação profissional. “Esta contribuição nasce desde o momento que a Universidade compromete-se a ser universitas, ou seja, consagra-se a pesquisa, o ensino e a formação dos estudantes, livremente reunidos com seus docentes, animados todos pelo mesmo amor de saber”, destacou. “Faço votos que esta Pontifícia Universidade Católica siga crescendo”.

A Constituição Apostólica “Ex Corde Ecclesiae”, promulgada pelo Papa João Paulo II em 15 de agosto de 1990, orienta as Universidades Católicas na perspectiva doutrinal e, ao mesmo tempo, pastoral. A Constituição é uma reflexão sobre a importância histórica e atual das Universidades Católicas, a partir de sua identidade e de sua missão de serviço à sociedade, principalmente no diálogo entre fé e ciência, fé e cultura. Deste modo, a Constituição conduz, através de normas gerais, a atuação das Universidades Católicas na sociedade contemporânea.

O Colóquio também refletiu sobre a Relação entre Fé e Ciência na Universidade Católica, com Prof. Dr.Rogério Miranda de Almeida (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) / Prof. Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves (Pontifícia Universidade Católica de Campinas) e a Conferência “ A Presença da Teologia e da Filosofia na Universidade Católica” – Cardeal Zenon Grocholewski.

 

Estudos indicam que práticas religiosas auxiliam na saúde

A espiritualidade está associada a melhores índices de saúde, maior longevidade, habilidades de enfrentamento e qualidade de vida

Por Amanda Cotrim

A relação entre espiritualidade e saúde existe desde tempos mais remotos. No período medieval, as autoridades religiosas eram responsáveis pelas licenças para a prática da medicina. Entretanto, somente nas últimas décadas, as implicações da espiritualidade e da religiosidade na saúde vêm sendo estudadas e documentadas cientificamente, como explica a docente da Faculdade de Medicina da PUC-Campinas, Professora Doutora Gloria Maria de Almeida Souza Tedrus. Segundo a pesquisadora, “há evidências da relação entre as crenças e práticas religiosas e melhor saúde física, incluindo menor prevalência de doenças coronarianas, menor pressão arterial, melhores funções imune e neuroendócrina, menores prevalências de doenças infecciosas e menor mortalidade”.

Professora Doutora Gloria Maria de Almeida Souza Tedrus/ Crédito: Álvaro Jr.
Professora Doutora Gloria Maria de Almeida Souza Tedrus/ Crédito: Álvaro Jr.

A explicação para isso está no cérebro humano, que, de acordo com a Professora Glória, é “programado” para experiências e explicações de crenças espirituais presentes em todas as culturas desde os tempos pré-históricos. “Todas as experiências humanas são mediadas no cérebro, incluindo a razão científica, dedução matemática, julgamento moral, experiência e comportamento religiosos, emoção e o pensamento. Assim, é inequívoco considerar a espiritualidade e a religiosidade como parte do comportamento humano, localizado no cérebro”, explica.

Os estudos mais recentes buscam entender os impactos de práticas religiosas na saúde mental, como depressão, transtornos ansiosos e enfermidades graves, e na qualidade de vida. As pesquisas apontam que eventos dolorosos, caóticos e imprevisíveis podem ser compreendidos e mais bem aceitos a partir da confirmação de crenças do indivíduo que vivencia tal situação. “A perspectiva do paciente é de grande importância no curso do processo saúde-doença e nesse contexto tem havido evidências crescentes da existência de relações positivas ou negativas entre a espiritualidade/religiosidade e a proteção à saúde”, afirma a pesquisadora.

O Grupo de Pesquisa da PUC-Campinas, Neuropsicofisiologia em cognição e epilepsia, do qual a Professora Glória faz parte, estuda há alguns anos as relações entre doenças neurológicas como a epilepsia e demência com a espiritualidade e a religiosidade. Em epilepsia temos observado que há relação entre os aspectos clínicos da doença, qualidade de vida e a espiritualidade e religiosidade. Observamos, em pacientes com epilepsia, que a dimensão – espiritualidade, religião e crenças pessoais é considerada como fator protetor no processo de adoecimento, de enfrentamento para lidar com os problemas, e desse modo influenciar positivamente a qualidade de vida desses indivíduos, o que sugere uma relação positiva entre espiritualidade e religiosidade e saúde”, considera. De acordo com ela, alguns estudos sugerem que as crenças religiosas podem funcionar, em caso de doença já instalada, como mediadores cognitivos favorecendo a adaptação e o ajustamento das pessoas à nova condição de saúde.

Relação Fé e Ciência:

Capa Estudos indicam que práticas religiosas auxiliam na saúde

Segundo a Pesquisadora, ciência e religião “descobriram” que têm interesses mútuos importantes e contribuições relevantes. “Atualmente, existem centenas de artigos científicos que mobilizam a relação entre espiritualidade/religião. A parede entre medicina e espiritualidade está ruindo, com evidências da importância da prece, da espiritualidade e da participação religiosa na melhora da saúde física e mental”, expõe.

No campo da pesquisa, a Professora Glória compara que para a ciência há problemas metafísicos que a religião pode ajudar a resolver. A religião, por sua vez, “pode ajudar a decidir entre teorias científicas empiricamente equivalentes, para a aceitação de uma teoria científica, os interesses metafísicos, inclusive os religiosos podem contribuir”, defende a pesquisadora. “A criação do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas é um marco da Instituição e só vai ampliar e qualificar as discussões nessa área”, finalizada.