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EDITORIAL: 2016- um ano de conquistas

A edição 170 do Jornal da PUC-Campinas que fecha o ano de 2016 abre oportunidade para retomar e relembrar a quantidade, variedade e importância dos eventos que marcaram este ano, comemorando o Jubileu de Diamante. Trata-se, portanto, de um convite para rever as edições precedentes, que relatam em detalhes os colóquios, palestras, conferências e eventos comemorativos, trazendo para os auditórios da Universidade figuras de destaque do meio acadêmico nacional e internacional, assim como importantes representantes da Igreja, e da sociedade, todos responsáveis por momentos memoráveis de reflexão e troca de conhecimento como cabe ao ambiente universitário.

Dezembro também é tempo de Natal e a qualificação confessional da PUC-Campinas sugere o destaque do tema, que polariza esta edição.

Data maior da cristandade, o Natal marca-se pela celebração de caráter religioso e pela comemoração de perfil social, sobretudo no ambiente familiar, configurando, também, um período de reflexão espiritual.

Focada nesses aspectos, a última edição do ano colocou o Natal em pauta, trazendo artigos que refletem sobre a data, a exemplo do processo de mercantilização que descaracteriza e mesmo confronta a identidade religiosa do 25 de dezembro.

Os modos como a arte e a literatura se envolvem com o Natal também estão presente nas pautas preparadas pela editora Amanda Cotrim, incluindo considerações muito oportunas e apropriadas sobre o cinema inspirado em livros tematizados no Natal.

O espírito de Natal que se expressa em solidariedade é um outro tema com vez e voz  nesta edição, que mostra o envolvimento da comunidade acadêmica em campanhas em favor de parcelas mais fragilizadas da sociedade.

Além do Natal, também a política internacional integra a edição, nas considerações e análises da eleição de Donald Trump, que agradou alguns, desagradou muitos e surpreendeu quase todos, ecoando nas instâncias econômicas, diplomáticas, políticas e até culturais de todo o planeta.

Isso tudo e muito mais estimulam e legitimam a leitura atenta da última edição de 2016 do Jornal da PUC-Campinas, que é, também, portadora dos desejos da equipe editorial e dos colaboradores para que todos os leitores tenham um período feliz e repousante de férias, um ano novo de muita paz e um Natal comungado com amigos, familiares e entes queridos, acrescentando o compromisso de retomar nosso contato em 2017…

Até lá.

Comida perpetua a cultura

Por Amanda Cotrim

Diga-me o que tu comes que eu te direi quem és”. É dessa forma que a Diretora do Curso de Turismo da PUC-Campinas, Profa. Me. Francis Pedroso, aborda a importância da gastronomia como elemento constitutivo de identidade. A comida que consumimos tem relação íntima com as características geográficas, culturais e históricas da região em que ela é produzida. “Os alimentos mais quentes e gordurosos, por exemplo, são típicos de regiões mais frias; já os alimentos mais leves, são provenientes de regiões mais quentes”, explica.

Acarajé tornou-se patrimônio cultura brasileiro/ Reprodução
Acarajé tornou-se patrimônio cultura brasileiro/ Reprodução

O Brasil, segundo Francis, sempre foi o país do sabor, desde as frutas exóticas até a produção de café, o que justifica essa vocação do país para a gastronomia. “Na década de 2000, no entanto, com a criação do Ministério do Turismo, em 2003, a gastronomia passou a ser promovida como valor turístico, o que coincide com a profissionalização da gastronomia brasileira”, contextualiza.

A comida é a materialidade dos valores de determinados lugares, por isso, para a Professora Francis, uma comida bonita, bem-feita e tradicional sempre será procurada por turistas, o que é “excelente do ponto de vista econômico e fundamental para o turismo. A gastronomia perpetua a cultura”, afirma.

A Diretora do Curso de História da Universidade, Profa. Dra. Janaina Camilo, explica que as tradições culturais brasileiras, principalmente aquelas manifestadas nas comidas, estão diretamente associadas às práticas religiosas e, portanto, às identidades culturais. “Exemplo disso é o ‘pato no tucupi’, comida paraense servida especialmente no almoço do domingo do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira dos paraenses. Analisando antropologicamente, o pato é uma ave dos pratos típicos da nobreza europeia, que veio parar no Brasil durante o processo de colonização. Já o tucupi é um caldo extraído da mandioca, raiz cultivada pelos povos indígenas da Amazônia”, contextualiza a historiadora.

Pato no tucupi é uma comida típica do Pará/ Reprodução
Pato no tucupi é uma comida típica do Pará/ Reprodução

A Professora Janaina aponta que a preferência do brasileiro por doces não é à toa, uma vez que a doçaria é um hábito dos povos árabes, que, segundo ela, estavam miscigenados com os portugueses que colonizaram o Brasil. “No dia de São Cosme e São Damião distribuímos doces às crianças, uma tradição que nem todos sabem a origem”.

A importância de alguns pratos é tão grande que alguns se tornam patrimônios culturais, como foi caso do acarajé da Bahia, que se tornou patrimônio imaterial do Brasil, em 2015. O prato, explica a historiadora, conta com forte presença africana em seus ingredientes, como é o caso do dendê, e no próprio modo se preparar a comida. “Nesse sentido, portanto, o acarajé não é o resultado da mistura de temperos, mas o saber fazer o prato, com todo o ritual que o envolve, como a arrumação do tabuleiro, a preparação da mesa, o uso de trajes próprios, como as roupas brancas enfeitadas com colares de contas e panos coloridos”. O acarajé, antes de ter se tornado Patrimônio Cultural brasileiro, havia sido reconhecido como Patrimônio Cultural de Salvador, pela Câmara Municipal da cidade, em 2009.

Profa. Janaína Camilo é diretora no curso de História/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Janaína Camilo é diretora no curso de História/ Crédito: Álvaro Jr.



 

Profa. Francis é diretora do curso de Turismo/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Francis é diretora do curso de Turismo/ Crédito: Álvaro Jr.

A Diretora do Curso de Turismo elencou alguns pratos típicos de cada região, para que o leitor possa apreciar quando estiver nesses lugares. A Região Norte do Brasil tem como ‘cartão’ de visita os peixes de rio doce e o açaí. “Turistas de várias partes do mundo vêm para o Brasil atrás do açaí”, brinca Francis. Já a carne de sol, as moquecas e a tapioca são alimentos típicos da Região Nordeste, ainda que a região tenha uma gastronomia muito rica. A Região Sul, no entanto, conserva certo hábito pelo consumo de doces diversificados, como o café colonial, além, é claro, lembra a professora, do churrasco gaúcho e vinhos. “Também destacaria os frutos do mar do estado de Santa Catarina, que são excelentes”.

O Sudeste, por sua vez, explica Francis, tem forte influência africana, daí pratos como angu com quiabo e frango, típicos de Minas Gerais, o Virado à Paulista, a Moqueca Capixaba, a produção de salgadinhos típicos de camarão empanados do Rio de Janeiro, além da doçaria portuguesa, do arroz, feijão e da feijoada. “Na Região Centro-Oeste temos a riqueza do Cerrado. As frutas – como o pequi – e os doces provenientes dessas frutas são uma das marcas da região, além de peixes, feijão tropeiro e arroz carreteiro, que, segundo a docente, é conhecida como ‘a comida dos viajantes’”.

Comidas tradicionais x fast food

 Para a Diretora do Curso de Turismo, o fast food não conseguiu acabar com os pratos tradicionais, ao contrário. “Cresceu muito o slow food. E nós começamos a ter mais consciência sobre o alimento saudável, o que torna a gastronomia mais atrativa. Comer não é ‘fast’. Comer é um prazer. O ato de consumir comida requer tempo”, defende.

 

Primeiro Museu de Arte Sacra do estado de S. Paulo

Museu Arquidiocesano de Campinas inaugura sua nova sede no bairro Nova Campinas. Espaço cultural terá minicursos, pesquisa e interatividade

 

Por Amanda Cotrim

A nova sede do primeiro Museu de Arte Sacra do Estado de São Paulo é fruto de muito trabalho. Mas também é conseqüência de um desejo de preservar a memória, tanto do ponto de vista artístico, quanto histórico. O Museu, que nasceu em 1964, já teve algumas moradas em Campinas, como um edifício na Avenida Aquidabã e o consistório superior da Catedral Metropolitana de Campinas. Apesar do esforço de muitas pessoas em preservar o acervo, era preciso mais. “A iniciativa de ter um espaço apropriado para o Museu surgiu do Arcebispo Metropolitano de Campinas, Dom Airton José dos Santos. Ele resgatou o sentimento de que era preciso preservar o patrimônio”, comenta a historiadora da Arte, que participa do projeto, Paula Elizabeth de Maria Barrantes. “Dom Airton alude à necessidade de espaço físico mais adequado que abrigue e valorize o rico acervo, bem como para melhores condições de acessibilidade do público, dentro de um projeto que visa também fazer do mesmo edifício um centro de memórias da Igreja de Campinas”, explica o Doutor em História e Bens Culturais da Igreja e Coordenador do projeto de reestruturação do Museu, Monsenhor Rafael Capelato.

Padre João Augusto Pezzuto, responsável pela restauração do acervo./ Crédito: Álvaro Jr
O Historiador Gabriel Amstalden e Paula Berrante, historiadora da arte- Crédito: Álvaro Jr

Esse importante passo para a cultura do estado e da cidade começou em 2014 e tem o apoio da Arquidiocese de Campinas, desde o projeto de reestruturação, a organização e a condução do mesmo. “A PUC-Campinas, por meio da Diretora da Faculdade de História, Profa. Dra Janaina Camilo e da Reitoria da Universidade, na pessoa do Vice-Reitor, Prof. Dr. Germano Rigazzi Junior, teve participação de grande importância”, destaca o Monsenhor. A equipe que colocou em prática a ideia de resgatar o Museu contou ainda com a historiadora da arte Paula Barrantes, com os historiadores Luiz Raphael Tonon, Thiago Avansi, Gabriel Amstalden, Diego da Silva Souza; e com o Padre João Augusto Pezzuto, responsável pela restauração do acervo.

Padre João Augusto Pezzuto, responsável pela restauração do acervo./ Crédito: Álvaro Jr
Padre João Augusto Pezzuto, responsável pela restauração do acervo. / Crédito: Álvaro Jr

A nova sede do Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas está localizada no Palácio Episcopal, antiga casa de Dom Paulo de Tarso Campos, primeiro Arcebispo de Campinas, no bairro Nova Campinas. O local, com 1300 metros quadrados e 16 salas, abrigará 1200 peças. “O acervo, dividido em salas temáticas, conta a história das primeiras freguesias do Estado de São Paulo e as transformações dessas freguesias em cidade e depois em metrópole” explica Paula. “A arte sacra é a primeira manifestação artística do estado, sendo fundamental para o ensino da religião, por se tratar de uma forma fácil e rápida de ensino”, complementa.

A Professora Janaina Camilo, Diretora do Curso de História da PUC-Campinas e Coordenadora do Museu Universitário, explica que o Museu Arquidiocesano de Arte Sacra segue as normas previstas pelo Instituto Brasileiro de Museus e pela Carta Circular providenciada pela Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja, as quais orientam para “Função Pastorial dos Museus Eclesiásticos”, ou seja, “não basta para um Museu atingir sua função de formador de informação, propagador de ideias e reflexão histórica e arquitetônica. É preciso, também, que o espaço museal dialogue com a comunidade, promovendo a valorização das identidades e da memória social e cultural”, considera. Foi sob essa orientação que o projeto expográfico foi produzido, com vistas a efetivar o uso adequado do acervo combinado ao espaço físico.

Profa Dra Janaína Camilo, Diretora do curso de História da PUC-Campinas / Crédito: Álvaro Jr
Profa Dra Janaína Camilo, Diretora do curso de História da PUC-Campinas / Crédito: Álvaro Jr

O projeto expográfico contou com o apoio da equipe do Museu Universitário da PUC-Campinas, que ficou responsável pelo estudo das peças e da logística para a transferência do acervo da Catedral Metropolitana para o Palácio Episcopal. A Professora Janaina ressalta que nesse processo foi fundamental as visitas técnicas às cidades de São João Del Rei e Tiradentes, com orientação da Profa. Dra. Adalgiza Arantes Campos, docente de História da Arte da Universidade Federal de Minas Gerais e por seu orientando de doutorado, Prof. Me. Leandro Gonçalves de Rezende.

Parte do acervo do primeiro Museu de Arte Sacra do Estado de S. Paulo/ Crédito: Álvaro Jr
Parte do acervo do primeiro Museu de Arte Sacra do Estado de S. Paulo/ Crédito: Álvaro Jr

O historiador e funcionário do Museu Arquidiocesano, Gabriel Amstalden, explica que o espaço vai funcionar, inicialmente, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, com entrada no valor de 10 reais inteira e 5 reais a meia. No futuro, aposta Amstalden, o Museu também abrirá aos sábados. Além da visitação ao acervo, o público terá acesso a minicursos – na área de história da arte – e a pesquisa, com um espaço para a biblioteca e sala de estudo. “Além disso, haverá uma cinemateca e todo o acervo do Museu estará com informações em Braile. Queremos que esse espaço seja freqüentado por todas as pessoas”, reforça.

Diante da interatividade cada vez mais presente nos museus do Brasil, Paula explica que o Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas também se valerá da tecnologia, mas com cautela: “É preciso usar a tecnologia com cuidado, porque ela passa a ser a estrela do lugar e não o acervo. A tecnologia tem que servir à informação e ao acervo”, opina. Segundo a historiadora da arte, tudo que tem de mais moderno está sendo aplicado no Museu. “Talvez, ele seja um dos primeiros museus do Brasil a ser iluminado totalmente por luz de led, material essencial para a preservação das peças, dos tecidos, e fundamental para tornar o ambiente agradável”, explica. “Ainda não conseguimos, mas estamos trabalhando para conseguir a caneta falante: qualquer criança, idoso, ou pessoa com deficiência visual, por exemplo, não precisará ler a etiqueta da obra; é só colocar a caneta na identificação da peça e o próprio áudio da caneta vai explicar todo o acervo para a pessoa: contexto histórico, informações do artista, entre outros detalhes. Essa caneta dará total autonomia para a pessoa; inclusive para o Museu poder receber estrangeiros”, comenta Paula. “Por muito tempo se pensou (e talvez ainda se pense) que o moderno importa mais do que o passado. Extinguir o passado tornou-se uma prática na nossa cultura. Com o Museu, estamos fazendo o caminho contrário”, finaliza.

SERVIÇO:

O que:  Museu Arquidiocesano de Arte Sacra

Onde: Rua Dr. José Ferreira de Camargo, 844 (Antigo Palácio Episcopal)

Confira a programação do Museu em: www.facebook.com/museudeartesacracampinas

Telefone: 3790-3950