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Preconceito X Tolerância? Apontamentos para a igualdade entre homens e mulheres

Por Prof. Dra. Stela Cristina de Godoi – Professora das Faculdades de Ciências Sociais, Publicidade e Propaganda, Direito, Psicologia, Jornalismo e Administração da PUC-Campinas

A sociologia guarda uma característica singular que poderia ser definida, segundo Octavio Ianni, como uma “técnica de autoconsciência científica da realidade”. Ou seja, partimos do presente, das “incertezas vivenciais”, para compreender as principais conexões de sentido entre as estruturas sociais e a experiência social, entre a sociedade e o indivíduo, entre o passado e o presente.

Nesse sentido, tendo em vista o debate aberto no mês de março acerca da condição feminina, a sociologia tem um papel importante nos espaços de reflexão sobre as diferenças socialmente construídas entre homens e mulheres. Qual a força exercida pelas estruturas sociais sobre a vida das mulheres ao longo da história? Faz sentido pensar nas desigualdades de gênero como uma forma de preconceito contra as mulheres?

Preconceito é um julgamento sobre o outro que se manifesta em uma postura de intolerância. Seria a tolerância, o seu oposto? A igualdade entre homens e mulheres depende da tolerância dos homens? Na ideia de tolerância já está implícita a noção de que o outro seja portador de diferenças inatas que precisam ser toleradas, pela “grandeza” daquele que se pensa superior.

Do ponto de vista da sociologia, quando conjecturamos a possibilidade de enfrentamento das desigualdades entre homens e mulheres não se trata de cultuar o império moral da tolerância, mas sim de desconstruir representações que povoam o imaginário que subalternizou as mulheres ao longo da história. Ou seja, trata-se de exercitar uma forma de pensamento dialético e relacional. Precisamos pensar nas mulheres não de modo essencialista, como tais, mas como o que são as mulheres em relação aos homens como seres sexualmente identificados.

Resiste ainda no nosso imaginário social – que se manifesta sem filtros morais na linguagem informal, nos xingamentos e provérbios populares – um gabarito pelo qual medimos o indivíduo em suas práticas sociais, a sexuação binária. O critério moderno ocidental para (des)qualificar o sujeito envolve a posição que este ocupa (ou deveria ocupar) na divisão sexual do trabalho, do tempo e espaço social.

Desde quando fazer “coisa de mulher” virou xingamento? A sociologia não se coloca a tarefa de definir cronologicamente o momento histórico em que as estruturas e práticas sociais patriarcais se difundiram plenamente. Todavia, para as sociedades latino-americanas, a prerrogativa das leis ibéricas, para a qual as mulheres eram tidas como imbecilitas sexus é, certamente, uma expressão contundente dessas representações que subalternizou as mulheres.

Vale lembrar que essa mentalidade jurídica emanada pelas elites coloniais foi refratada de modos distintos entre as mulheres, dependendo de sua condição étnico-racial e econômica. Por exemplo, entre as mulheres populares, a união matrimonial e o trabalho se apresentava como meio necessário para sua sobrevivência e não como forma de preservação da propriedade. Assim, contraditoriamente, viviam, em relação às mulheres da elite branca, em outras formas de controle social que prescindiam da clausura completa no espaço doméstico.

Por outro lado, como trabalhadoras, as mulheres foram a categoria social mais ameaçada em sua integridade física, psíquica e moral pelo avanço do processo de modernização. Como mão de obra barata, mulheres e crianças serviram desde o início da Revolução Industrial para rebaixar as condições de existência de toda a classe trabalhadora. Ademais, sua inserção no mercado de trabalho formal não resultou numa menor incumbência aos trabalhos reprodutivos, intrinsicamente invisíveis dentro dos sistemas patriarcais de pensamento.

As pesquisas qualitativas e as intervenções feministas junto às mulheres mostram que elas mesmas nem sempre se dão conta de que trabalham numa jornada abusiva dentro e fora de casa. Para muitos setores da população, ainda hoje o trabalho masculino nas atividades domésticas é visto como “ajuda”, como “colaboração”. Segundo dados do IBGE, as mulheres, em sua dupla jornada, têm trabalhado cada vez mais que os homens nos últimos 10 anos. Em 2014, constatou-se que, dentro de casa, a jornada das mulheres é de aproximadamente 21 horas, mais que o dobro da dos homens.

Assim, para um combate efetivo do “preconceito” contra as mulheres é preciso fazer muito mais do que propagar princípios. É necessário um envolvimento da sociedade civil e do Estado para a construção de uma outra divisão sexual do tempo e do trabalho. Precisamos produzir uma nova conjuntura que permita duplamente, às mulheres, o tempo e espaço social necessário para o desenvolvimento de suas potencialidades (ao lado e não atrás dos homens) e, às crianças, o ambiente familiar e as condições sociais para que a próxima geração possa efetivamente saltar para fora do círculo da violência de gênero e da naturalização das desigualdades, das quais as crianças são, em geral, testemunhas e vítimas potenciais.

 

Trabalho informal, que de tão informal passa despercebido

Estudo realizado  mostra que trabalho e consumo estão indissociáveis

Por Amanda Cotrim

Elas são mulheres de todos os tipos, como já cantou Martinho da Vila. As revendedoras de produtos cosméticos têm rostos variados, estão na periferia e nos bairros de classe média alta de São Paulo. Têm curso superior ou não. Elas podem ou não estar empregadas. Não importa, pois, no fundo, todas são consumidoras dos produtos que revendem. Essa forma de trabalho traz características complexas, pois, se de um lado a revendedora não precisa “bater o ponto” diariamente numa empresa, e isso gera uma grande sensação de autonomia, por outro, ela assume todos os riscos e prejuízos que seriam da empresa de produtos cosméticos. Questões como essas são abordadas no livro “Sem Maquiagem – o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos”, da professora da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-Campinas, Ludmila Costhek Abílio, lançado recentemente pela Editora Boitempo. O livro é o resultado da sua tese de doutorado, defendida na Unicamp.

Capa do livro "Sem Maquiagem"
Capa do livro “Sem Maquiagem”

 “O trabalho informal passou a me chamar a atenção desde os tempos do mestrado, em 2005. E atividades como essas das revendedoras são muito difíceis de serem contabilizadas, pois sequer são vistas como um trabalho”, explica Ludmila. Apesar de ser um trabalho informal, são atividades que não têm “cara” de trabalho. “Diferentemente de atividades informais, como os ambulantes, ser revendedora parece um lazer” contextualiza.

 Para realizar a pesquisa, Ludmila enviou 100 pedidos de entrevistas (muitas revendedoras têm cadastro na empresa, o que facilitou a localização). Desse número, 30 retornaram. A partir daí, a pesquisadora realizou entrevistas semiestruturadas e optou pelo estudo de trajetória de vida. “Eu queria entender como essa mulher se tornou uma revendedora, de onde ela é e o que ela faz”, conta. Segundo a docente, a vida de uma pessoa é uma microanálise. “Quando eu vejo a vida de uma pessoa, estou olhando e vendo o mundo”, completou. Depois da décima quinta entrevista, explica, as respostas começaram a se repetir e as questões centrais da pesquisa, portanto, foram se reconfirmando.

Um dos aspectos tratados no livro é a relação entre o trabalho informal e a tecnologia, que, segundo Ludmila, traz uma forma moderna de flexibilização do trabalho e mostra novas formas de exploração. “Como não parece que a revendedora está trabalhando, porque ela faz isso nas ‘horas vagas’, essa nova configuração do trabalho quase não tem limites, porque a pessoa trabalha o tempo inteiro”, constata.

Para a empresa de produtos cosméticos o negócio é muito bem-sucedido. Segundo a docente, além da relação empresa x revendedora não gerar qualquer vínculo empregatício, a empresa consegue garantir a distribuição de seus produtos no Brasil inteiro. Outro ponto relevante é que nessa configuração não fica claro o que é trabalho e o que é consumo: “Se você revende, tem 30 % de comissão. Então, de 10 reais, você paga 7 reais. Muitas mulheres, portanto, viram revendedoras para ter desconto. Contudo, a questão é mais delicada. Porque não é possível ser apenas consumidora, uma vez que para ter acesso aos produtos é necessário atingir um determinado número de pontos mensais de venda; é um critério para entrar na rede”, explica.

A pesquisadora também observou que não há estoque na empresa de cosméticos e a inadimplência das revendedoras é baixíssima. “O estoque fica na casa dessas mulheres. A produção da empresa é de acordo com o pedido das revendedoras feito pelo site. Além disso, o boleto bancário é o que ‘amarra’ juridicamente essa relação. A revendedora, na verdade, é uma compradora dos produtos”, ressalta.

O livro também aborda sobre como outros formatos, sem forma de trabalho, estão adentrando a vida das pessoas, mobilizando uma relação que é social. “Pensando para além das revendedoras, quando eu mesma compro minha passagem aérea pelo site da empresa, eu estou trabalhando para a companhia, porque eu elimino um trabalho que deveria ser feito por um funcionário. Isso é um serviço. Estou consumindo, mas para a empresa é economia de trabalho”, reflete. “Hoje o mundo do trabalho e do consumo estão interligados”, resumiu.