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Jornal da PUC-Campinas inova e agora estará disponível também em aplicativo

Por Sílvia Perez

Garantir o rápido acesso à informação, ao jornalismo científico, a artigos e novidades da academia, por esses motivos, a PUC-Campinas lança no dia 7 de junho o aplicativo do Jornal da PUC-Campinas.

A publicação, que já era digital, se modernizou para garantir mais facilidade e agilidade aos leitores. Na ferramenta mobile estarão armazenadas as edições do Jornal a partir de maio de 2017, funcionando, assim, como uma espécie de “banca” ou “biblioteca” de consulta.

A cada nova edição, o usuário receberá uma notificação o convidando para a leitura. O aplicativo estará disponível para aparelhos com tecnologia Android ou IOS e pode ser baixado gratuitamente na Play Store ou na Apple Store.

De acordo com o Coordenador do Departamento de Comunicação Social da PUC-Campinas, Alcino Ricoy Júnior, a ideia do aplicativo surgiu para conquistar um público mais jovem. “O Jornal traz temas atuais, interessantes e de reflexão, muitas vezes em debate em sala de aula, por isso, oferecer o aplicativo nos aproxima ainda mais dos nossos estudantes, que poderão acompanhar e até mesmo repercutir as nossas matérias, com uma abordagem mais científica”, destaca.

 

Desafios para as Cidades Inteligentes no Brasil

Por Sílvia Perez

A Organização das Nações Unidas (ONU) tem apontado, com certa preocupação, o fato de a população mundial estar se tornando cada vez mais urbanizada. Nesse contexto, o desenvolvimento urbano passa a ser mais um desafio coletivo enfrentado no mundo todo, devido, dentre outras causas, aos processos não planejados presentes no crescimento das cidades. Esse crescimento desordenado, muitas vezes, tem gerado impactos negativos na infraestrutura urbana, com problemas nas mais diversas áreas como transporte e trânsito, poluição, saneamento, iluminação, habitação, entre outros.

Planejar a ocupação dos espaços na cidade garante a melhor organização e distribuição do território, proporciona desenvolvimento econômico já que o planejamento vai determinar quais locais serão utilizados para moradia, comércio, serviços e lazer, garantindo, assim, uma mobilidade urbana melhor. Conhecer todo ambiente urbano, seus entornos, com suas fragilidades e potenciais a serem explorados, a idiossincrasia de sua população, com suas necessidades e expectativas, se constitui no desafio deste novo século.

Dentro desse quadro, uma nova abordagem é discutida na atualidade e, inclusive, tem sido implantada em muitas cidades do mundo que buscam fazer frente a esta realidade. De acordo com o docente e pesquisador da PUC-Campinas, Prof. Dr. David Bianchini, aos poucos, um novo conceito foi se constituindo, em meio à complexidade desse desafio. “Esse conceito, nascido incialmente apenas como Cidades Digitais, avançou para Cidades Inteligentes, cresceu ainda mais como Cidades Inteligentes e Sustentáveis e, por fim, amadurece mais recentemente para Cidades Inteligentes, Sustentáveis e Humanas”, explica.

A ideia envolve a possibilidade de um planejamento territorial mais complexo ao utilizar-se da tecnologia mais recente em seus processos, gerando uma cadeia interligada e sustentável. O objetivo é conseguir oferecer ao cidadão lazer, trabalho, escolas, enfim tudo que for preciso para uma vida com qualidade. No mundo atual, organizações importantes como, por exemplo, a ISO (International Organization for Standardization), já se voltam para ajudar nessa tarefa e apontam indicadores internacionais que permitem medir os níveis de sustentabilidade, qualidade de vida e bem-estar (Os leitores que desejaram ir mais além poderão consultar a Norma ABNT NBR ISO 37120:2017).

Bianchini destaca que, aqui no Brasil, uma das primeiras iniciativas nesse campo, é o Projeto das Cidades Digitais, que foi instituído por meio da Portaria no 376, de 19 de agosto de 2011, publicada no Diário Oficial da União, em 22 de agosto de 2011. “É de significativa importância para o Brasil a existência de um projeto estruturante cuja meta busca favorecer a criação de uma cultura digital em nossa sociedade”, afirma.

O docente e pesquisador reforça que é importante salientar que a presença de infraestrutura adequada permite o início de todo esse processo. “A iniciativa governamental no Programa Nacional de Banda Larga (PNBL) busca montar uma infraestrutura que viesse a viabilizar a existência de serviços, aplicativos, dentre muitos outros projetos”, complementa.

Atualmente, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações tem o projeto Minha Cidade Inteligente, que define uma Cidade Inteligente como um território que traz sistemas inovativos e tecnologias da informação e comunicação (TICs) dentro da mesma localidade. “O projeto Minha Cidade Inteligente objetiva, além da implantação de redes e sistemas de alta capacidade, implantar serviços e infraestrutura de monitoramento e acompanhamento das condições locais, permitindo gerar dados para criação de aplicações inovadoras, bem como permitir o amplo acesso às informações. Além disso, buscará prover às localidades alta capacidade de formação e capacitação da população.”, detalha o edital do projeto.

Os projetos para a criação de Cidades Inteligentes no país vão muito além do que fornecer internet gratuita para a população, consistem em mapear o município, para garantir informações como o monitoramento do trânsito para modificar a ordem dos semáforos automaticamente se necessário. Outra característica de uma cidade inteligente e sustentável é o uso de energia “limpa”, como a solar ou a eólica, a redução dos índices de emissão de poluentes e o uso de tecnologia para otimizar serviços e melhorar a qualidade de vida da população.

No entanto, segundo especialistas são muitos os desafios para a implantação de uma Cidade Inteligente no Brasil. ‘Esses desafios passam pela busca de soluções que envolvem a sustentabilidade dos projetos. Além de implantar é preciso garantir a manutenção pelo próprio município e, aí, esbarra-se no orçamento, onde obter e manter continuadamente os recursos necessários para esse fim? Uma estrutura adequada para capacitar servidores públicos nessas cidades para que aconteça uma gestão e uso adequado da rede e dos serviços (uso e gestão de aplicativos de e-governo, por exemplo)?”, detalha Bianchini.

O cenário, apesar de difícil, ainda poderá possibilitar que o país se aproxime do ideal, já que muitas cidades se empenham realmente em atender os requisitos que as tornem inteligentes. Vão assim se destacando em áreas determinadas, apontadas como inteligentes em categorias específicas, como por exemplo, as categorias mobilidade, meio ambiente, energia, economia, urbanismo, educação, dentre outras.

Em Campinas, por exemplo, o Portal oficial da Prefeitura (http://www.campinas.sp.gov.br), traz uma notícia que revela que o município busca destaque na área. “Campinas se preparou, nos últimos quatro anos, para se tornar uma das referências do País como cidade inteligente, feito que a colocou como a cidade (não capital) mais inovadora do Brasil, segundo ranking do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação”, relata a nota.

 

Criança, consumo e educação financeira

Por Eli Borochovicius

Muito se discute sobre educação financeira para crianças e jovens. Alguns argumentam tratar-se de um processo de adultização, outros de uma necessidade advinda de uma mudança da sociedade, transformada por questões econômicas, políticas, tecnológicas, culturais e sociais.

Quando uma menina calça os sapatos de salto alto da mãe e passa batom, pode ser considerado natural, uma brincadeira, mas quando a criança passa a ter hábitos de adultos, com o seu próprio sapato de salto alto e o seu kit de maquiagem, é que se manifesta o fenômeno de adultização, intimamente relacionado com as ofertas de produtos para o público infantil.

Em função de uma série de eventos históricos que modificaram as relações sociais, as crianças ficaram mais expostas à mídia. Os pais passaram a trabalhar em tempo integral, as mulheres ganharam espaço no mundo do trabalho, as separações ficaram mais comuns, a rua ficou mais violenta, os espaços públicos de convivência foram reduzidos e as crianças passaram a ficar mais tempo confinadas em casa, tendo como grande influenciador, a tecnologia.

O acrônimo KGOY traz como significado Kids Getting Older Younger, em tradução livre para o português, crianças ficam mais velhas mais jovens e sugere que elas estão amadurecendo mais rapidamente em função dos meios de comunicação.

Com o avanço da tecnologia, a televisão passou a receber também transmissão de canais por assinatura e acesso a serviços de streaming de vídeo, os computadores e celulares passaram a fazer parte do cotidiano infanto-juvenil e o contato mais próximo com a vida adulta foi inevitável.

A educação financeira viria então para preencher uma lacuna importante na vida moderna dessas crianças, estimuladas pelo consumismo desenfreado e pelo crédito fácil.

Visando contribuir para o fortalecimento da cidadania com ações que ajudem a população com o conhecimento do mundo das finanças é que surgiu em 2010, a Estratégia Nacional de Educação Financeira.

Sob a coordenação da Associação de Educação Financeira do Brasil foram desenvolvidos programas voltados às crianças a exemplo do Programa de Educação Financeira nas Escolas, cujo objetivo é contribuir para o desenvolvimento da cultura de planejamento, prevenção, poupança, investimento e consumo consciente nas futuras gerações de brasileiros. O programa foi pensado também para proporcionar a melhoria de desempenho dos alunos em Língua Portuguesa e Matemática.

Programas de educação financeira voltados para escolas privadas também já são oferecidos, com o diferencial de buscarem desenvolver não apenas o conhecimento financeiro, mas o senso de organização, respeito, responsabilidade, empreendedorismo, criatividade e autonomia.

A educação financeira veio para formar cidadãos conscientes, capazes de compreender e transformar a realidade, atuando na superação das desigualdades e do respeito ao ser humano. Se ainda não é contemplada nas grades curriculares das escolas, possivelmente, muito em breve, será necessário.

Prof. Me. Eli Borochovicius leciona Administração Financeira no curso de Administração da PUC-Campinas. 

Brasil é primeiro mundo em tecnologia agrícola

Por Amanda Cotrim

O brasileiro já vivenciou uma época em que a fome era um dos grandes problemas sociais. Não que ela tenha deixado de ser, mas esse problema diminuiu nos últimos anos. Não por acaso, o Brasil foi o país que mais reduziu a fome e a desnutrição, o que lhe rendeu reconhecimento internacional. Nesse aspecto, é possível afirmar que o Brasil é um dos poucos países que conquistou sua soberania alimentar e isso se deve a algumas razões, como: investimento em tecnologia e políticas públicas. Essa é a avaliação do diretor do curso de Ciências Econômicas da PUC-Campinas, Prof. Dr. Izaias de Carvalho Borges.

“O Brasil é um dos poucos países do mundo que conquistou tanto a segurança quanto a soberania alimentar. Quando uma população supera o desafio na produção de alimentos, ela passa a se preocupar com a qualidade desse alimento”. Mas ele ressalta que o alimento no Brasil poderia ser mais barato e de melhor qualidade se houvesse mais políticas públicas e, principalmente, pressão popular para a diminuição de agrotóxicos na plantação, à exemplo da Europa. O docente também destaca que a diminuição nos preços dos alimentos está relacionada ao transporte.  “O Brasil perde nas estradas 20% da produção de grãos. Além disso, o transporte por caminhão é mais caro e transporta menos, sem contar as rodovias que são sem asfalto. O valor da logística é que encarece o alimento”.

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Confira a entrevista na íntegra:

Defina, conceitualmente, o que é soberania alimentar e segurança alimentar?

Soberania alimentar é a capacidade que um país tem de alimentar sua população, em um período de tempo, sem precisar de outros países para isso; é ter uma oferta capaz de atender às necessidades básicas da população. Já a segurança alimentar, é garantir uma quantidade básica de calorias por pessoa. De forma geral, o Brasil é um dos poucos países do mundo que conquistou tanto a segurança quanto a soberania.

 Qual é a sua avaliação sobre o Brasil no cenário mundial?

 A nossa produção per capta de alimento é suficiente para atender toda a população; produzimos além do que consumimos. Eu digo, sem sombra de dúvidas, que, em produção de alimentos, o Brasil é destaque. É um dos maiores exportadores de alimentos. Se pensarmos nos próximos 50 anos e levarmos em conta o crescimento populacional, o meio ambiente e a restrição de recursos naturais no mundo, como a água e a terra, o Brasil é o país que aparece com mais potencial. Temos áreas agrícolas que não estão sendo utilizadas, ou seja, não há necessidade de desmatar a Amazônia e o Pantanal. Também temos bastante disponibilidade de água doce- apesar da crise hídrica no Estado de São Paulo-. E, por fim, temos a nossa vocação para a agricultura e avançamos em termos tecnológicos. O Brasil é primeiro mundo em tecnologia agrícola.

A soberania alimentar passa pela saúde alimentar. Como avalia o uso de agrotóxicos na produção de alimentos, considerando que o Brasil é um dos campeões no uso do veneno?

 Quando acabou a Segunda Guerra Mundial, o grande desafio era aumentar a produção de alimentos e alimentar a população. Nesse sentido, pensando em Brasil, esse modelo foi muito bem-sucedido: o crescimento da produção de alimentos foi maior que o crescimento populacional. A quantidade de terra para a produção cresceu pouco se compararmos a década de 1960 e a década de 2000, no entanto, a produtividade cresceu muito. O que está por trás disso? A tecnologia (mecanização), agrotóxicos e o melhoramento genético de plantas. Eles são os responsáveis pelo aumento de produção de alimentos no Brasil. Mas, se por um lado, alcançamos isso, por outro, tivemos um problema sobre a qualidade dos alimentos e sobre o meio ambiente; a nossa agricultura é totalmente dependente da irrigação, gastando 40% da água que é consumida em todo o território nacional. A preocupação sobre o uso excessivo de agrotóxicos começou nos anos 1990 nos países ricos, porque a questão da produção de alimentos já tinha deixado de ser um problema. Quando a fome deixa de ser o problema, as pessoas começam a se preocupar com qualidade. Mas por que alguns agrotóxicos são proibidos na Europa e no Brasil não? Por pressão popular. O nosso desafio, hoje, é tornar a agricultura mais sustentável, almejando não só a quantidade, mas a qualidade. Eu não vejo alternativa que não seja a tecnologia. O país está investindo nisso, mas não na velocidade necessária. À medida que a agricultura se torna mais sustentável, a saúde alimentar é maior.

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As empresas têm interesse em investir nas pesquisas de inovação e tecnologia para que o dano ao meio ambiente seja o menor possível, e para que os agrotóxicos sejam extintos?

 No Brasil, o investimento em pesquisas vem do setor público, por meio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e de universidades. As grandes multinacionais estão preocupadas com os produtos de alcance mundial, como a soja, o milho e a cana de açúcar. Do ponto de vista econômico, elas não estão interessadas em pesquisa. Nesses casos, é preciso políticas ambientais. No Estado de São Paulo, por exemplo, há uma lei que proíbe as empresas de fazerem a queima na plantação de cana de açúcar. Temos muitas leis ambientais no Brasil, mas falta fiscalização. Por outro lado, a população vem mudando sua relação com a alimentação. As pessoas estão mais exigentes. E o desrespeito ao meio ambiente, com desmatamento e o uso abusivo de agrotóxico tem uma resposta rápida. Se o produtor quiser continuar no mercado, terá de se adaptar à nova realidade.

Pensando nessa gama de atores, com diferentes interesses sobre o meio ambiente, o Brasil está conseguindo respeitar as múltiplas características culturais dos povos?

Temos problemas sérios que precisam ser resolvidos e nós temos condições de resolver. Se olharmos só a produção, o Brasil é um sucesso. Mas quando você se volta para outras realidades, percebemos que temos problemas históricos que não foram resolvidos, como os conflitos agrários: camponeses, terra indígena. A questão fundiária no Brasil é distinta da questão agrícola. A questão agrária não foi resolvida: a terra, as relações de trabalho, grilagem, conflito com quilombolas e tribos indígenas. Em algumas regiões, esses conflitos são muito mais complicados, porque o Brasil tem áreas que pertencem à União, mas não consegue fiscalizar, o que facilita a grilagem; regiões em que o modelo de agricultura é atrasado.

Em minha opinião, rever demarcação de terras indígenas é o caminho mais curto para a destruição ambiental. O Brasil não precisa de mais terra para expandir a agricultura, basta investir em tecnologia. Podemos nos desenvolver sem desmatar uma única árvore. Mas as questões políticas e históricas são o nosso grande problema: muitas vezes, os políticos são os grandes proprietários de terra, o que produz um conflito de interesse e um retrocesso. Temos leis, mas precisamos de fiscalização.

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Qual é a sua avaliação sobre o modelo de agronegócio que existe no Brasil?

O agronegócio inclui a agricultura, empresas que fornecem insumos, que compram da agricultura, enfim. Agricultura é apenas a atividade dentro da fazenda. O agronegócio é o sistema, que participa de 40% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. No entanto, nós temos alguns problemas. Grande parte das produtoras de insumos (tecnologia como maquinários e agrotóxicos) não é brasileira. Quando você tem um agronegócio que exporta majoritariamente grãos, isso é uma deficiência, porque o país só ganha o preço do saco da soja. Mas se ele exportasse o óleo, ganharia o valor agregado e geraria trabalho e renda. O Brasil continua sendo o maior exportador de café do mundo; exporta para Alemanha por 400 dólares, que refina o café e vende por 700. E, muitas vezes, o Brasil compra esse café.

O Brasil, segundo dados da Embrapa, de 2014, desperdiça 40 mil toneladas de alimentos todos os dias. Com esse número, a própria Embrapa estima que 19 milhões de pessoas poderiam ser alimentadas. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) diz que o Brasil está entre os 10 países que mais desperdiçam. Qual é o motivo desse desperdício?

 A logística não é a única, mas é a principal razão. Nossa produção se dá em grande medida na Região Centro-Oeste, que está distante dos portos; e o transporte que predomina no Brasil é o rodoviário. Precisaríamos de trem. Só com o transporte por caminhões, o Brasil perde nas estradas 20% da produção de grãos. Além disso, o transporte por caminhão é mais caro e transporta menos, sem contar as rodovias que são sem asfalto. Os grandes países não entendem o motivo pelo qual o Brasil transporta grãos em caminhões. O valor da logística é que encarece o alimento. Por exemplo: a distância média, hoje, dos produtos que chegam às Centrais de Abastecimento de Campinas (Ceasa), é de 400 km.

Por que o Brasil ainda importa alguns alimentos como o trigo, que vem da Argentina. O país não teria condições de produzir trigo?

 O Brasil é um grande importador de trigo. Isso se deve a questões climáticas. O país produz trigo, mas não conseguimos produzir o suficiente para atender à demanda. Daria para produzir, mas a um custo muito elevado. E temos um acordo de comércio comum. Não vejo problemas em importar da Argentina.

 Não é contraditório que mesmo o Brasil sendo o quinto maior território do mundo, com dimensões territoriais e situado em latitudes favoráveis, não tenha conseguido acabar com a fome?

 A fome era um tema recorrente no discurso dos candidatos à presidência da República no final dos anos 1980 e durante a década de 1990. Mas, nas ultimas três eleições (2006- 2010-2014), esse tema desapareceu do debate porque, nos últimos 15 anos, o Brasil foi o país que mais reduziu a fome e a desnutrição. Isso se deu, primeiro por causa do fim da inflação, que ocorreu com o Plano Real, em 1994; também tivemos o aumento da produtividade agrícola, fazendo com que o preço dos alimentos caísse no país, a despeito do aumento nos últimos três anos. Além disso, nós temos programas de transferência de renda e políticas específicas, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) que subsidia crédito para a agricultura familiar, a responsável pelo alimento que vai para a mesa dos brasileiros. Tanto que hoje o nosso maior problema é o sobrepeso.

O Brasil conseguiu chegar mais próximo da erradicação da fome, tanto que nosso exemplo é exportado como modelo para outros países. Para que não haja retrocesso, é fundamental que o Estado continue investindo em políticas sociais. No mundo inteiro, a agricultura depende do Estado; em alguns países, depende mais, em outros, menos. Agora, precisamos zerar a fome e trabalhar a qualidade da alimentação.

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Em que medida é possível investir e ter um modelo de agricultura familiar capaz de atender ao mercado interno? Seria possível pensar em abastecimento por cidades?

 Essa ideia de que a agricultura familiar como subsistência ainda existe não é sustentável. Antes do êxodo rural, tudo era produzido no campo e consumido pelas famílias. No mundo moderno, nem o agricultor familiar vive sem celular. Ou seja, ele precisa pensar numa produção que tenha um excedente para poder sobreviver para além do que ele produz para se alimentar. Mesmo o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) não quer esse modelo de subsistência.

Nos Estados Unidos há muitas experiências sobre uma agricultura mais perto da cidade, valorizando a produção local. A agricultura familiar perto da cidade diminui o custo de transporte e possibilita o controle e a fiscalização do estado sobre o que está sendo produzido. Em muitos países, a agricultura familiar foi adotada como prática. Em relação ao Brasil, avalio que ela nunca foi tão valorizada e nunca tivemos tantos estudos sobre a sua importância. Porém, na Região Metropolitana de Campinas estamos na contramão disso. Diminuímos nossa produção e isso se deve ao fato de empresas terem vindo para cá, as construções de condomínios. Houve uma expansão que produziu um impacto nos preços dos terrenos; a terra ficou cara. A região está longe de uma produção local, infelizmente.

O Pronaf foi criado como uma política de crédito, para que o agricultor possa comprar insumo, semente melhorada, trator. Mas ele só tem acesso ao crédito se colocar o produto no mercado, e, atualmente, a agricultura familiar é voltada para a demanda interna. Agora, se ela é capaz de alimentar uma cidade, eu não tenho dúvidas de que a agricultura familiar seria capaz disso. Para termos uma ideia: de acordo com o último censo agropecuário (que já tem 10 anos) e de estudos em outros países, atualmente, 80% da produção de alimentos no mundo é realizada por pequeno e médio agricultor. Eu acredito que é possível termos agricultura familiar e agronegócio, porque precisamos produzir cana de açúcar e precisamos de arroz. A grande e a pequena agricultura são complementares. Agricultura familiar está acontecendo, mas de modo silencioso.

As pessoas que podem pagar têm recorrido aos produtos orgânicos. Por que eles são mais caros?

 O orgânico é um alimento que a população o entende como natural: sem veneno, sem fertilizante. As técnicas são “à moda antiga”, sem melhoramento genético. Alguns países incluem no conceito orgânico à sustentabilidade ambiental e social para comprar de algumas empresas, o que inclui as relações de trabalho nesse conceito. Ele é mais caro, porque ele  custa mais para produzir. Quando o produtor pulveriza o veneno na plantação, ele reduz a taxa de perda por pragas em 5%. A forma de combater a praga é mais custosa, se não for pulverizar o veneno, há de se tirar as pragas com a mão, o que significa contratar pessoas, o que deixaria o produto mais caro. O fato de produzir orgânico, a produção cai pela metade, pois o custo é maior e a produção é menor. Se não vender mais caro, fica inviável. Mas é importante dizer que o interesse do orgânico coincide com o interesse ambiental e de mercado.  Tem um público. No Brasil, no entanto, o orgânico ainda é mercado de nicho (classe), de certo nível de renda e de instrução. Já na Alemanha e na Inglaterra, mais de 50% da produção é orgânico.

 

As fotos dessa entrevista são de Álvaro Jr. 

Editorial: Vamos falar sobre Ciência?

Na edição 164, o Jornal da PUC-Campinas dedica espaço para artigos, reportagens e entrevistas que analisam diversos aspectos da Ciência, esse lugar tão importante para o desenvolvimento da sociedade, mas também tão mitificado.

Produzir e falar sobre Ciência é fundamental para que ela se popularize e faça parte, cada vez mais, do dia a dia das pessoas. Por isso, o Jornal da PUC-Campinas preparou uma reportagem que aborda a relação entre jornalistas e cientistas, dois personagens fundamentais para que a divulgação da ciência aconteça.

O Jornal também debate a importância do ensino da Ciência e o preparo de novos cientistas desde os primeiros anos escolares: um exemplo bem-sucedido é o do Colégio de Aplicação PIO XII, da PUC-Campinas, que há oito anos mantém projetos que iniciam crianças e adolescentes na prática da pesquisa.

Há, também, nesta edição, a preocupação em abordar as diferenças entre Ciência e Tecnologia. O resultado é uma reportagem que mostra que a Tecnologia e a Ciência, quando juntas, podem e devem beneficiar toda a sociedade. Como contraponto, o Jornal também traz o artigo sobre ética e o uso político que muitas vezes é feito do conhecimento científico.

Produzir e falar sobre Ciência é fundamental para que ela se popularize e faça parte, cada vez mais, do dia a dia das pessoas.

Você sabia que a primeira mulher que se dedicou à Ciência data do ano 370 (depois de Cristo)? Em artigo elucidativo, professores pesquisadores da Matemática resgatam a trajetória de mulheres que transformaram o campo da Ciência.

Além dos artigos e matérias que orbitam a temática central, esta edição também abre espaço para os Projetos de Extensão da Universidade que têm impacto real na vida da população de Campinas e Região.

Informações e noticiário sobre Ciência, mais as seções fixas completam a edição 164, do mês de dezembro de 2015 do Jornal da PUC-Campinas. Aproveite o conteúdo e não deixe de encaminhar sugestões, críticas e comentários para o endereço eletrônico imprensa@puc-campinas.edu.br. Afinal, participar é o melhor caminho para fazer o jornal que você quer.

Uma boa ideia precisa ser útil?

Por Amanda Cotrim

Uma boa ideia só será comprovadamente “boa” se for útil para a sociedade? A ciência precisa, necessariamente, ter uma utilidade para as pessoas? A resposta para essas duas questões pode ser sim, se considerarmos que a utilidade é um ingrediente para que o homem expanda sua interpretação sobre o mundo e sobre si. Mas a resposta também pode ser não, se a utilidade for atrelada a um valor econômico. “A Ciência propõe soluções para os problemas da vida, do meio ambiente, da sociedade. Esses seriam os ideais nobres da Ciência. Mas sabemos que o desenvolvimento da Ciência está associado, também, a interesses econômicos, militares, estratégicos de países, de grupos políticos, etc”, reflete o Pesquisador em Filosofia da PUC-Campinas, Prof. Dr. Douglas Ferreira Barros. Que continua: “No entanto, é preciso pensar que uma parte da Ciência só tem razão de ser quando ela não se preocupa com o princípio de ‘utilidade’, o que lhe garante, em certo sentido, a liberdade de pensar e expandir o conhecimento”.

Prof. Dr. Douglas Ferreira Barros- Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Douglas Ferreira Barros- Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Arlindo Gonçalves Jr- Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Arlindo Gonçalves Jr- Crédito: Álvaro Jr.

Para o Doutor em Filosofia e docente da Universidade, Prof. Dr. Arlindo Gonçalves Jr, diferenciar o conceito de “utilidade” ajuda a compreender o papel da ciência e da tecnologia na sociedade brasileira atual. “O desenvolvimento da Ciência se dá por meio de um método rigoroso e sistemático; é nesse método que encontraremos a primeira instância da tecnologia, como um meio para o seu desenvolvimento e intervenção”, explica. O Pesquisador Barros complementa que a tecnologia tem a finalidade de aplicação em determinado fenômeno social, a exemplo das Engenharias.

“A tecnologia pode viabilizar o conhecimento científico, como aconteceu com o projeto Genoma, no qual o uso da tecnologia foi fundamental para o desenvolvimento da ciência”, exemplifica o Diretor da Faculdade de Ciências Biológicas da PUC-Campinas e Doutor em Biologia, Professor Edmilson Ricardo Gonçalves. “Dessa forma, ao mesmo tempo em que sem a tecnologia a ciência muitas vezes não consegue avançar, os conhecimentos científicos impulsionam a tecnologia para determinada direção, com o objetivo de contribuir para as necessidades da ciência”, completa. Quem também compartilha dessa relação promissora entre tecnologia e ciência é o Doutor em Engenharia Elétrica e Computação, Professor Carlos Miguel Tobar Toledo: “Não existe tecnologia sem ciência. A tecnologia é fundamental para a realização de pesquisas e para que haja produção de mais conhecimentos científicos”.

O Papel das Pesquisas Básicas

Prof. Dr. Edmilson Ricardo Gonçalves- Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Edmilson Ricardo Gonçalves- Crédito: Álvaro Jr.

Para que o conhecimento científico e tecnológico se desenvolva são fundamentais as chamadas “pesquisas básicas”, isto é, conhecimentos originais que contribuem para o desenvolvimento da ciência, seja para ampliar suas próprias possibilidades ou para a revisão dos seus fundamentos. “As pesquisas básicas geram conhecimentos que podem ser aplicados, mas não necessariamente o são. A doença precisa de um diagnóstico, mas, antes disso, é necessário entender a doença, que é básica. Só com o conhecimento básico é que é possível desenvolver uma técnica para diagnosticar a doença”, explica o Diretor da Faculdade de Ciências Biológicas. “A principal característica da pesquisa básica é que ela está interessada em ampliar os horizontes sobre determinados fatos, fenômenos e dados. Não necessariamente tem uma finalidade aplicativa. Sua razão de existir é para ampliar as fronteiras do conhecimento estabelecido”, explica o Pesquisador Douglas Barros.

Seja o conhecimento básico ou complexo, é possível aplicar o conhecimento científico na vida das pessoas, de forma concreta; essa é uma das funções das ciências aplicadas, que possuem, por sua vez, “uma relação estreita com a produção de tecnologias, sendo seus métodos mais de natureza empírico-experimental”, complementa Arlindo Gonçalves Jr. Um exemplo é o Direito, considerado uma ciência aplicada, mas fomentada por áreas como filosofia, história e política.

Para o Diretor da Faculdade de Ciências Biológicas, é compreensível que a população de modo geral ache a ciência algo abstrato. No entanto, quando a tecnologia é aplicada no dia a dia das pessoas, segundo ele, a sociedade consegue enxergá-la melhor e percebe a sua importância. “Mas isso não quer dizer que por trás não exista uma pesquisa básica e teórica que embasou aquela tecnologia. Ela só não é possível ser vista. Mas existe”, acrescenta. “O trabalho dos cientistas pode ser estar isolado, mas nunca uma pesquisa científica está isolada de um contexto maior, no qual a Ciência se insere no mundo contemporâneo”, ressalta o Filósofo Barros.

A Sociedade e o Conhecimento Científico

Os sentidos de Ciência e Tecnologia são sempre em relação a determinada sociedade. O Brasil, para Gonçalves Jr, ainda não pode ser considerado um país científico, “pois para isso precisaria investir em um modelo suficientemente crítico da própria ciência, a fim de contribuir para o seu desenvolvimento”.

O mais importante, na opinião do professor Gonçalves Jr, é pensar qual é o papel de um país mais tecnológico ou mais científico, no mundo. Países em desenvolvimento e historicamente periféricos, como é o Brasil, sem o impulso de pesquisa básica e aplicada podem contribuir para uma hegemonia de países mais industrializados, sustentada nos poderes econômico, bélico e científico e associado à pesquisas chamadas “de ponta”. “Nesse sistema de tipo “neocolonialista” em termos científicos, o papel de um país “mais tecnológico” e “menos científico” é o de atender demandas que não são as mais urgentes, criar instrumentos, ser criativo sobre os aspectos que não reflitam o aprimoramento da educação dos cidadãos, e, sobretudo, tornar-se consumidor. Caminhamos para atender a uma sociedade globalmente “tecnologizada” em todas as esferas da vida”, critica. “O problema é quando essa imposição reflete a perpetuação da desigualdade”, acrescenta.

Prof. Dr. Carlos Miguel Tobar Toledo- Crédito:
Prof. Dr. Carlos Miguel Tobar Toledo- Crédito: Álvaro Jr. 

A Ciência deve sempre se voltar para as demandas da sociedade, nesse sentido, uma boa ideia precisa ser útil. “Esse é o foco da ciência, o conhecimento dos fenômenos do universo para o benefício da sociedade. O conhecimento científico tem que ser, por natureza, público”, reitera o professor Toledo, Doutor em Engenharia Elétrica e Computação.

Sinalizador eletrônico promove autonomia da pessoa com deficiência visual

Soluções de engenharia elétrica para pessoas com deficiência visual fazem parte do Projeto de Extensão da PUC-Campinas em parceria com a Pró-Visão

Por Amanda Cotrim

Estimular a sensibilidade e proporcionar a autonomia da pessoa com deficiência visual são os objetivos do Projeto de Extensão da Universidade, “Soluções de Engenharia Elétrica de apoio e melhoria da qualidade de vida de deficientes visuais”, coordenado pelo Prof. Dr. Amilton da Costa Lamas em parceria com a instituição Pró-Visão, de Campinas. O Professor Lamas e o aluno bolsista Lucas P. Hubert desenvolvem soluções criativas e práticas que podem ser adaptadas no dia a dia das pessoas com deficiência visual, como o uso de sinalizador eletrônico que propicia, entre outros, o aumento do senso de localização e promove a autonomia da pessoa com deficiência. Segundo dados do senso realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 23,9% da população brasileira tem algum tipo de deficiência visual.

A Universidade oferece o conhecimento técnico e a instituição o conhecimento específico- Crédito: Arquivo
A Universidade oferece o conhecimento técnico e a instituição o conhecimento específico- Crédito: Arquivo

“Os estudantes são desafiados a pensar em soluções com tecnologia simples, o que é um imenso desafio”. 

“Desenvolvemos um artefato, no qual a pessoa com deficiência, assistida pela Pró-Visão, é desafiada a encontrar os objetos distribuídos aleatoriamente na piscina. O projeto é desenvolvido em parceria com os técnicos especializados da Instituição, que depois replicarão o artefato e trabalharão com as pessoas com deficiência visual. Esse tipo de sinalizador pode ser fabricado com qualquer outro material que a pessoa tem dentro de casa, como um pote de maionese, que pode carregar o dispositivo baseado em engenharia eletrônica”, comenta o Coordenador. O sinalizador eletrônico emite som, vibra e também emite luz, auxiliando as pessoas que têm visão subnormal (não totalmente cego).

Com o aplicativo, a pessoa com deficiência visual registra o nome do produto de sua preferência pela voz

Para Lamas, o Projeto de Extensão “é uma grande simbiose de conhecimento”. A Universidade oferece o conhecimento técnico e a instituição oferece o conhecimento específico sobre as necessidades da pessoa com deficiência visual. Por parte da PUC-Campinas, os alunos de Extensão desenvolvem o projeto baseados em conhecimentos de eletrônica básica e circuitos digitais. “Os estudantes são desafiados a pensar em soluções com tecnologia simples, o que é um imenso desafio. Além disso, têm de abrir mão do “engenheres” (uso de jargão tecnológico) e usar uma linguagem acessível”, aponta Lamas. Ao todo, o Projeto de Extensão trabalha com 10 técnicos da Pró-Visão e 30 pessoas com deficiência visual.

O aplicativo do celular detecta e identifica o produto, auxiliando a pessoa com deficiência- Crédito: Arquivo
O aplicativo do celular detecta e identifica o produto, auxiliando a pessoa com deficiência- Crédito: Arquivo

 Localizador de objetos

O Projeto de Extensão também desenvolveu um aplicativo baseado na tecnologia Near Field Communication (NFC) para celulares com Andróide. O aplicativo auxilia a pessoa com deficiência visual a se localizar e identificar objetos e suas características. O sistema desenvolvido pode auxiliar na busca por livros em bibliotecas e em produtos nos supermercados, entre outros. Com o aplicativo, a pessoa com deficiência visual registra o nome do produto de sua preferência pela voz; o aplicativo detecta e identifica o produto e auxilia o deficiente a localizá-lo no ambiente.

O Coordenador explica que o Near Field Communication (NFC) é um conjunto de padrões de comunicação de rádio entre dois dispositivos em uma distância relativamente curta, envolvido por um campo magnético que permite a troca de informações. Por meio das etiquetas dos produtos, o sistema identifica as características do mesmo e gera informação em áudio para a pessoa com deficiência visual. Para que o sistema funcione, o estabelecimento precisa utilizar etiquetas NFC nos produtos.

Semáforo especial

Outro dispositivo produzido dentro do Projeto de Extensão é o semáforo especial. “Ele foi desenvolvido para que a pessoa com deficiência, fazendo uso do seu celular, aproxime o dispositivo do semáforo e receba informação sonora sobre o estado do semáforo (aberto ou fechado para o tráfego), orientando se é possível ou não atravessar a rua”, explica Lamas. A pessoa com deficiência é sinalizada sobre o tempo que ela tem para iniciar ou finalizar a travessia por meio da variação da frequência do sinal auditivo.

Então técnica da Pró-Visão experimenta o “Semáforo inteligente”- Crédito: Arquivo
Então técnica da Pró-Visão experimenta o “Semáforo inteligente”- Crédito: Arquivo

Segundo Lamas, todos os conhecimentos adquiridos no curso de Engenharia Elétrica da PUC-Campinas são aplicáveis no desenvolvimento dos artefatos. “As tecnologias aplicadas são testadas e validadas com o público-alvo. São procedimentos simples e necessariamente baratos. Nós desenvolvemos a engenharia, juntamente com os técnicos da Pró-Visão e depois, após a apropriação das técnicas, eles replicarão esse conhecimento com as pessoas com deficiência e seus familiares. O semáforo especial é uma solução simples que pode ser viabilizada pelo poder público, por exemplo, com pouco recurso financeiro” finaliza.

 

 

Com a internet, a publicidade cada vez mais direcionada

Por Amanda Cotrim

A atenção do público sempre foi o objetivo da publicidade. Com as redes sociais, teoricamente, esse objetivo está mais ao alcance das marcas. Se bem utilizadas, dependendo do público e do segmento, as mídias sociais se tornam vital para a publicidade. O maior desafio, no entanto, é manter a atenção das pessoas diante de um “dilúvio” de informações disponíveis na rede. “Gerenciar a atenção é uma tarefa árdua, mas negociável”, considera o Professor especialista do curso de Publicidade da PUC-Campinas, Luiz Augusto Modesto, que ministra disciplinas nas aeras de novas tecnologias de comunicação e criação publicitária.

Confira o bate-papo que o Jornal da PUC-Campinas teve com ele:

As redes sociais são realidade há algum tempo. Apesar disso, as pessoas ainda tateiam muito para adentrar nesse território digital. Em sua opinião, como a Publicidade está lidando com essa nova realidade tecnológica?

A “atenção” do público sempre foi, é hoje e sempre será o objetivo da publicidade. O ponto crítico é saber onde, quando e como atingir o público-alvo.

Hoje e cada vez mais o Facebook e o Google (entre outros) detêm esta informação e tornam isso seu grande e praticamente exclusivo produto; eles ofertam sua tecnologia e serviços “gratuitamente” aos usuários, em troca, recebem informações pessoais, geográficas, interesses, costumes de compra, viagens, dentre outras. Essas informações formatadas (cruciais para um bom planejamento de marketing) compõem o produto que é negociado com as marcas/empresas em forma de B.I. (sigla em inglês para Inteligência de Negócio). Entendo que a publicidade enxerga isso como uma oportunidade de pesquisa rápida, abrangente, objetiva e eficiente para seu planejamento de marketing e até mesmo previsão de tendências de mercado.

Qual sua avaliação sobre o papel das mídias sociais para a publicidade?

Hoje, dependendo do público, é vital! Meu pai tem 65 anos e ele tem uma desenvoltura lastimável em gerenciar seu perfil em redes sociais usando seu PC e ainda pior com seu smartphone (se ele ler isso vai ficar bravo comigo, mas é verdade…).

A cada geração, cada vez mais, os gadgets vêm fazendo parte da família e do dia a dia das pessoas, ou seja, a barreira tecnológica está acabando, está deixando de ser um problema para que a publicidade seja efetivada.

O que vale mais, ser consumido ou ser visto?

 Em minha opinião, ser consumido é o resultado de ser visto!

Qual é o maior desafio da publicidade na Era da Informação?

Há dois aspectos a se considerar com “Era da Informação”:

Rapidez e quantidade: acredito que somos impactados com mais informação do que podemos consumir. Portanto, o problema da publicidade hoje está em encontrar o momento certo (o “timing” certo). Nesse ponto, destaco o MOBILE que tem ganhado cada vez mais espaço. A publicidade ganhou uma mídia de bolso, pessoal e praticamente intransferível… (risos)

Acessibilidade e interação: as pessoas interagem mais entre si usando seus gadgets (redes sociais) e assim expõem mais suas opiniões, costumes, compras, interesses, etc. Sendo assim, a “Era da Informação” passa a ser uma grande aliada da publicidade. Por meio do monitoramento somado à compra de mídia direcionada do Facebook e/ou Google a publicidade consegue estreitar e direcionar sua mídia de maneira que ela consegue “vender bicicleta para quem está procurando bicicleta”, ou seja, a eficiência da mídia é infinitamente maior com um custo mais baixo… o melhor dos mundos!

Como manter e gerenciar a atenção das pessoas?

Manter a atenção das pessoas com esse dilúvio de informação disponível é praticamente impossível… Gerenciar a atenção é uma tarefa árdua, mas negociável. Primeiro entenda qual é seu público e quais são seus costumes, gostos e predileções, depois trace uma estratégia de interação considerando esses pontos. O engajamento hoje é a melhor forma de gerenciar a atenção.

O que um artista, um projeto ou até uma empresa precisam fazer para disputar a atenção das pessoas nas mídias sociais?

Primeiramente, entender quem é seu público, onde ele está e como ele costuma consumir informação. Depois, traçar estratégias específicas e eficientes direcionadas às diversas redes sociais que temos hoje. Monitorar constantemente tendências de consumo e sempre buscar interagir e engajar seu público.

Na sua opinião, qual é a tendência nos próximos anos? Haverá um aumento ainda maior pela atenção das pessoas?

As pessoas estão, cada vez mais, fechadas em grupos de interesse: galera da bike, galera do clube, da faculdade, etc., e a publicidade está, cada vez mais, direcionada. Engajamento e monitoramento são as premissas de um bom relacionamento de consumo entre consumidor x empresa (marca).

Há pouco as empresas desenvolviam seus produtos e colocavam à disposição do consumidor. Acredito que o panorama de hoje com a Era da Informação está mudando, é o consumidor quem fala o que quer consumir, quando e como e as empresa devem correr atrás para oferecer algo que atenda essa expectativa com qualidade e eficiência.

Tecnologia e conservação da Natureza: um caminho a percorrer

Por Marcela Conceição do Nascimento

Em tempos de alta tecnologia, a conservação da natureza também vem sendo beneficiada por ferramentas tecnológicas. Tecnologias aplicadas aos estudos acadêmicos também são utilizadas para a conservação de espécies nativas, bem como para a definição e áreas prioritárias para a conservação.

Nesse sentido, tecnologias como armadilhas fotográficas, bem como telemetria, tanto de espécies terrestres como aquáticas, podem oferecer ganhos para a conservação da fauna. Armadilhas fotográficas são equipamentos dotados de sensores de movimento ou calor acoplados a uma câmera fotográfica com capacidade de gravar pequenos vídeos.

 Tais equipamentos podem ser instalados em uma área com o objetivo de registrar uma espécie ou grupo de espécies. Podem ser instalados sozinhos ou em pares, o que permite a identificação de indivíduos por padrões de manchas, por exemplo. Tal equipamento facilita a identificação das espécies que ocorrem em determinado local, bem como suas abundâncias relativas, além da identificação de predadores e dispersores, horário de atividade, comportamentos sociais, habitat, entre outros.

Os sistemas de telemetria se baseiam na fixação de um transmissor no corpo de um animal. Este transmissor recolhe e envia informação para um receptor, localizado remotamente. As informações recebidas indicam a presença de um indivíduo junto ao receptor, ou de outras variáveis associadas, como temperatura, salinidade e profundidade da água, batimentos cardíacos, pH do estômago, entre outros. Esta técnica pode ser realizada por telemetria acústica (mais utilizada em organismos marinhos), telemetria à rádio (mais utilizada em animais terrestres e aves) e a telemetria por satélite (muito útil para o registro de grandes migradores).

Essas tecnologias permitem a compreensão de padrões de movimentação, utilização de habitats, bem como respostas fisiológicas e comportamentais dos organismos no seu ambiente natural. Tais informações são fundamentais para a aplicação de medidas de gestão eficazes e para a implementação de áreas protegidas, por exemplo.

Além disso, tais ferramentas são utilizadas para monitorar espécies dentro de áreas protegidas, permitindo que os gestores avaliem se tais áreas são suficientes para as espécies que nela vivem e se tais áreas vêm cumprindo o seu papel de proteção das espécies. Esta última situação pode ser exemplificada pela recente tragédia no Zimbabwe, onde o Leão Cecil, um dos símbolos do Parque Natural de Hwange foi morto como troféu, supostamente quando saiu da área protegida. Sua morte foi identificada graças ao rádio colar que ele carregava e que registrou sua fuga desde a primeira flechada do caçador até o tiro que finalmente tirou sua vida.

Um caso trágico como este trouxe à tona a discussão sobre a importância da utilização e do desenvolvimento de tecnologias na conservação da natureza, sobretudo de tecnologias que interfiram cada vez menos na vida dos organismos e sejam mais baratas para sua maior utilização.

Professora Marcela Conceição do Nascimento é Doutora em Ecologia e docente no Centro de Ciências da Vida da PUC-Campinas

Sem infraestrutura, nada de mundo digital

Pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Infraestrutura Urbana apontam os caminhos e os desafios para um ambiente conectado

Por Amanda Cotrim

O Estatuto das Cidades determina que os municípios devam ser sustentáveis. Para atingir a sustentabilidade, os municípios necessitam se apropriar de todos os recursos tecnológicos disponíveis. O conceito de ‘cidades inteligentes’ nasce neste amplo contexto da sustentabilidade das cidades, que envolve a integração dos sistemas de infraestrutura urbanos (existentes e a construir) ao mundo digital.

Segundo o Prof. Dr. Antonio Carlos Demanboro, docente no programa de pós-graduação em Sistemas de Insfraestrutura Urbana, dada a complexidade das sociedades atuais, é necessário adquirir e processar informações sobre o esgoto coletado e tratado, a água captada e tratada, os resíduos gerados, o fluxo de veículos,  o consumo de energia, a demanda por serviços de saúde, dentre outros sistemas.

“Estas informações possibilitam a otimização dos serviços prestados, visando a sustentabilidade. Assim, por exemplo, é possível saber que, se um cidadão marcou uma consulta no sistema de saúde, ele necessitará de transporte para se deslocar até o local e isto demandará recursos como medicamentos, o uso de energia, água, esgoto, resíduos, etc”, explica Demanboro. De acordo com o Pesquisador, estes sistemas estão inter-relacionados e, com as informações disponíveis, é possível avaliar a melhor forma de atender as demandas da sociedade.

Sociedade interligada- Crédito: Reprodução
Sociedade interligada- Crédito: Reprodução

Com uma Cidade Inteligente, cresce, também, a importância da mobilidade urbana, e aí surgem os sistemas telemáticos como elementos essenciais, que possibilitam sinergias entre os diversos atores do sistema. De acordo com o Pesquisador e docente no Curso de Mestrado em Infraestrutura Urbana, Prof. Dr. Marcius Carvalhos, os sistemas telemáticos integram informação e tecnologia de comunicação. “Um exemplo é o efeito do comércio eletrônico no transporte urbano que transformou entregas consolidadas a entregas individuais. O Brasil é o maior mercado de comercio eletrônico da América Latina devendo atingir US$ 20 bilhões no ano de 2015 com aumento de 17% em relação ao ano de 2014”, avalia

Esses sistemas, segundo Carvalho, podem apoiar as atividades de planejamento de entrega, considerando o melhor trajeto que atenda o usuário do serviço e informar, em tempo real, a ocorrência de acidentes com localização, tipo e conseqüência, além de previsão de tempos para chegada aos pontos de entrega, correções de rotas e tempos de entrega, necessidades de novas coletas, registro automático de entregas realizadas, informações para o trajeto de retorno, recomendações de velocidade geo-referenciadas, variações nas condições climáticas e suas conseqüências no trajeto pré-estabelecido e disponibilidade de vagas para estacionamento.

 Apesar de todos os benefícios que a tecnologia proporcionada e que foram elencados pelos pesquisadores, eles explicam, no entanto, que a tecnologia, como todo instrumento, tem suas potencialidades e limitações, sendo uma dessas limitações o usuário se tornar dependente da tecnologia digital.  “Penso que não se trata de ter o controle de tudo, mas sim uma oportunidade de servir melhor à sociedade”, conclui Demanboro.