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A dignidade e a vocação da mulher: um olhar antropológico à luz da Revelação

Por Prof. Me. Lúcia Maria Quintes Ducasble Gomes – Professora das Faculdades de Teologia, Biblioteconomia, Ciências Biológicas, Medicina e Enfermagem da PUC-Campinas

O Dia Internacional da Mulher, comemorado no dia 08 de março, retoma importantes discussões sobre o lugar da mulher na sociedade contemporânea. Apesar de indiscutíveis conquistas terem sido realizadas nas últimas décadas a favor da mulher, um longo e árduo caminho terá que ser percorrido até que a mulher seja considerada a altura de sua dignidade. Do ponto de vista teológico, “a estrada do pleno respeito da identidade feminina passa pela Palavra de Deus, que identifica o fundamento antropológico da dignidade da mulher, apontando-o no desígnio de Deus sobre a humanidade” (JOÃO PAULO II. Carta às mulheres, n.6). Compreender a razão e as consequências da decisão do Criador de fazer existir o ser humano permitirá reconhecer à dignidade e a vocação da mulher, como também falar da sua presença na sociedade e na Igreja.

No livro do Gênesis 2, 18-25, a mulher (‘iššah) é criada por Deus da costela do homem (‘iš)”, porque não era bom que o homem estivesse só (cf. Gn 2,18))  e é colocada como um outro eu, sendo imediatamente reconhecida pelo homem “como carne da sua carne e osso dos seus ossos” (Gn 2, 23). Esta passagem bíblica indica que o homem existe somente como “unidade dos dois” e, enquanto imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 27), inaugura a definitiva auto revelação de Deus uno e trino, unidade viva na comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo (cf. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Mulieris dignitatis, n.7). O texto bíblico deixa claro a igualdade existente entre o homem e  a mulher. Contudo, quando a “unidade dos dois” é descumprida e de um algum modo prejudica a mulher, o ato em si impacta a dignidade do homem. “Efetivamente, em todos os casos em que o homem é responsável de quanto ofende a dignidade pessoal e a vocação da mulher, ele age contra a própria dignidade pessoal e a própria vocação” (JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Mulieris dignitatis, n.10). A reflexão teológica ainda afirma que o ser humano, tanto homem como mulher, é a única criatura na terra que Deus quis por si mesma; ao mesmo tempo, precisamente esta criatura única não pode se encontrar plenamente senão por um dom sincero de si mesma (cf. CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Pastoral Gaudium et spes, n.24).  Esta afirmação, de natureza ontológica, indica a dimensão ética da vocação de todo ser humano. Assim, a mulher não pode se encontrar a si mesma, viver a sua vocação e a sua dignidade senão na perspectiva da doação. Nesse contexto,  Maria, máxima expressão do gênio feminino, com o seu sim à Deus se torna modelo de mulher e realização do ser humano, isto porque “ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher” (Gl 4,4), manifestando a singular dignidade da mulher adquirida na elevação sobrenatural à união com Deus, em Jesus Cristo, que determina a finalidade da existência de todo homem (cf. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Mulieris dignitatis, n.4).

A dignidade da mulher testemunha o amor que ela recebe de Deus para, também, ela amar. Nesse sentido, “o paradigma bíblico da mulher revela a verdadeira ordem do amor que constitui a vocação da mesma mulher e que por fim se concretiza e se exprime nas múltiplas vocações da mulher no mundo e na Igreja” (cf. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Mulieris dignitatis, n.30).

Inédito: Curso de Extensão “Declaração de Nulidade nos Tribunais Eclesiásticos” na PUC-Campinas

 

Por Pe. Adriano Broleze

O curso de extensão “Declaração de Nulidade nos Tribunais Eclesiásticos”  acontece na Universidade, ou seja, os Tribunais Eclesiásticos são organismos de aplicação da justiça eclesiástica, isto é, resolvem questões próprias relativas a Sacramentos e outros assuntos da própria Igreja. As pessoas que trabalham e atuam nos Tribunais Eclesiásticos, necessariamente precisam estar capacitadas, isto é, preparadas como em todos os outros tribunais civis. O curso de Extensão, promovido pela PUC – Campinas,  é uma oportunidade que a Universidade oferece de aprimoramento, para todos os que queiram trabalhar nos Tribunais Eclesiásticos ou que desejam aumentar seu conhecimento Jurídico, Canônico e Teológico. É sem dúvida uma ótima oportunidade para conhecer mais sobre os organismos da Igreja.

A Faculdade de Teologia e a Faculdade de Direito possuem a matéria de Direito Canônico e os alunos da PUC que frequentam esses cursos tem a possibilidade de receber esse conhecimento. Porém como Curso de Extensão é a primeira vez que está sendo oferecido.

 A razão reside justamente na necessidade de compreendermos que não basta a boa vontade ou um mero desejo de justiça para atuar nos Tribunais. É preciso, conhecimento técnico, até para evitar que a injustiça aconteça. Doutro lado a PUC-Campinas abre suas portas para que a sociedade, e nesse caso, a sociedade que se interessa por essa área do Direito, conheça e se aprimore essa temática. Pela quantidade de inscritos verificamos que foi uma ideia ótima.

Causas julgadas pelos tribunais eclesiásticos

Os Tribunais Eclesiásticos podem julgar todas as causas relacionadas aos Sacramentos e a vida própria da Igreja Católica. Em sua grande maioria as causas julgadas pelos Tribunais são de Declaração de Nulidade Matrimonial. Mais podem também acontecer causas patrimoniais e até penais. Tudo dentro da competência e da finalidade canônica.

As partes podem, depois de um casamento que não chegou a se firmar, pedir a Declaração da Nulidade Matrimonial. Pode essa Declaração ser requerida tanto pelo homem ou pela mulher, ou até mesmo por ambos. Também o chamado Promotor de Justiça do Tribunal Eclesiástico, poderá pedir a nulidade matrimonial em determinadas circunstancias, visto que o matrimonio é um Sacramento de ordem pública.

 Todos aqueles maiores de quatorze anos e que de algum modo são conhecedores dos fatos alegados pelas partes que pedem justiça, poderão participar como testemunhas. Contudo, por prática admitimos somente os maiores de idade. O fato é que não desejamos julgar a pessoa, mas se existiu ou não o matrimonio colocado em questão.

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O tempo de um processo é muito variável, pois, se a causa está clara e as testemunhas comparecem com rapidez o processo evidentemente é mais rápido. Em média geral, os processos, no Tribunal Eclesiástico duram um ano. O custo no Tribunal Eclesiástico da Província Eclesiástica de Campinas é  de um salário mínimo. Esse valor só é possível porque todas as Dioceses da Província subsidiam as despesas do Tribunal Eclesiástico.

 Se a sentença for favorável, acontece algo interessante, pois se Declarada a Nulidade do Matrimonio,  significa dizer que ele não existiu. Ocorreu um evento, uma locomoção de pessoas e até uma festa, mas não o Sacramento. Logo, a pessoa não vai se casar novamente na Igreja, mas ela vai se casar na Igreja, pois, o casamento anterior não existiu enquanto Sacramento. Resumindo sim, se ela desejar ela poderá celebrar validamente seu matrimonio, ou seja, poderá casar na Igreja.

Quem tem fé e se casa na Igreja, casa com o firme desejo de viver uma união para a vida toda. Infelizmente, nem sempre isso acontece, seja por um vício de consentimento ou por um impedimento legal canônico ou civil. Nesses casos cabe a ação nos Tribunais Eclesiásticos pedindo a Declaração de Nulidade Matrimonial.

Prof. Dr. Adriano Broleze é Doutor em Direito Canônico e Docente na PUC-Campinas

Concílio Vaticano II: seu significado e sua recepção

Prof Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves

O Concílio Vaticano II (162-1965) é um dos eventos mais importantes da Igreja Católica na era contemporânea. Anunciado em 1959 e convocado em 1961 pelo papa João XXIII, esse Concílio significou o encerramento do Concílio Vaticano I (1869-1870) que havia sido suspenso pelo papa Pio IX em função da guerra franco-prussiana e assumindo a perspectiva teológico-pastoral, recepcionou e levou a cabo um processo de renovação interna da Igreja e de seu modo de relacionar-se com o mundo contemporâneo. Abraçou uma postura de renovação interna da Igreja em suas estruturas para que se constituíssem em espaços de comunhão e de fraternidade, de diálogo com o mundo contemporâneo, sentindo “as alegrias e as esperanças, as tristezas e angústias da humanidade de hoje” (cf. Gaudium et Spes n. 1), para promover o aggiornamento, sendo a luz de Cristo para todos os povos, sacramento universal de salvação mediante o ecumenismo, o diálogo interreligioso, a contribuição profunda com a unidade dos povos e com a emergência do novo ser humano, constituído de espírito de alegria, de justiça, de bondade, de paz e de amor.

Quando o Concílio Vaticano II foi encerrado aos 08 de dezembro de 1965, um grande entusiasmo tomou conta de cristãos e de outras pessoas de boa vontade. O desafio emergente era a recepção, compreendida como o modo de sua atualização nas diferentes realidades do mundo contemporâneo. Nesta perspectiva, os bispos fortaleceram suas estruturas de colegialidade episcopal mediante a efetividade das Conferências Episcopais, das Assembléias Gerais do Episcopado – como exemplo têm-se as Assembléias do Episcopado Latino-americano realizadas em Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007) –, a recuperação dos Sínodos e a apresentação do Papa como o bispo de Roma que, na caridade, preside o colégio episcopal. Os bispos foram fortalecidos em suas Igrejas particulares e locais, efetivando a comunhão nas instâncias de colegialidade episcopal, principalmente as Conferências Episcopais, nas instâncias diocesanas com o respectivo Presbitério e Laicato, levando a cabo a concepção da Igreja como Povo de Deus, fundamentalmente ministerial, servidor e munido da esperança escatológica. Estruturas eclesiais de comunhão e participação foram criadas tanto no âmbito mundial quanto nacional, regional, diocesano e paroquial. Assim, devem ser entendidos os conselhos pastorais e administrativos das diferentes instâncias eclesiais.

Emergiram e consolidaram-se realidades eclesiais comprometidas com a evangelização do mundo contemporâneo, tanto em termos de anúncio explícito de Jesus Cristo através da catequese, da homilia e da teologia pastoral, como em termos sociais mediante o impulso e a realização de movimentos históricos de transformação social, política, econômica e social. Neste sentido, compreende-se a concepção de “Igreja dos Pobres” proferida pelo papa João XXIII aos 11/09/1962 e levado a cabo nas formas de Comunidades Eclesiais de Base, de atividades pastorais sociais diversas e práticas pessoais comprometidas com a dignidade humana, a justiça e a paz.

No âmbito da theologia mundi, preocupada com a relação entre Deus e mundo, surgiram as teologias contextuais – teologia da libertação latino-americana, teologia asiática, teologias africanas –, teologias da cultura – pós-moderna, negra e indígena –, teologias do genitivo – teologia da mulher, teologia feminista, teologia do feminino –, teologias das religiões, teologia ecológica. Essas teologias respondem à pergunta: como falar de Deus a partir das diversas realidades – aqui se trata da concepção clássica de loci theologici – compreendidas em sua especificidade vital, sem perder a universalidade própria da revelação cristã? Para isso, a inteligência da fé, que é própria da teologia, tem na filosofia sua companheira – partner – que lhe possibilita compreender o ser humano e o mundo em sua totalidade e nas ciências os elementos constitutivos para a compreensão das realidades específicas. Todas essas teologias possuem um espírito de diálogo e de apresentação das possibilidades de eficácia da fé cristã.

É também constatável que não tem faltado tensões de diversas ordens na recepção do Concílio, porém é verdade que a Igreja está imbuída de um espírito dialógico, ecumênico e de comprometimento com a emergência do homem novo e com a nova criação, porque a Igreja tem consciência de sua missão: ser sacramento de salvação para todos os povos, zelando e cuidando da humanidade com confiança e com amor, para que esta possa resplender o rosto do Cristo, o filho do Deus, que é Amor e que ama a todos os seres humanos e a todas as criaturas desde a eternidade.

Prof Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves- Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião – CCHSA

 

Renomada Filósofa Italiana, Angela Ales Bello, visita a PUC-Campinas

Pesquisadora do pensamento de Edith Stein analisa o ensino em ciências da religião e o papel da mulher no mundo acadêmico

Por Eduardo Vella

A Profa. Dra. Ângela Ales Bello, docente da Pontificia Università Lateranense di Roma – Itália – esteve na PUC-Campinas, no início do mês setembro, a convite do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião.

A Profa. Angela Ales Bello é italiana, filósofa contemporânea, fundadora e diretora do Centro Italiano di Ricerche Fenomenologiche, com sede em Roma, e Professora Emérita de História da Filosofia Contemporânea da Faculdade de Filosofia da Pontifícia Università Lateranense. É especialista na Fenomenologia de Edmund Husserl (1859-1938) e uma das mais renomadas pesquisadoras do pensamento de Edith Stein (1891-1941). Editou pela Città Nuova, em língua italiana, as Obras Completas de Edith Stein.

Edith Stein reforça a igualdade, no que diz respeito a dignidade humana. Crédito: Álvaro Jr
Edith Stein reforça a igualdade, no que diz respeito a dignidade humana. Crédito: Álvaro Jr

O Jornal da PUC-Campinas conversou com a Pesquisadora que falou sobre sua visita à Universidade, a qualidade do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião da PUC-Campinas, Ensino de Ciências da Religião e Teologia no Brasil e o papel da mulher na vida acadêmica e dentro do estudo da religião.

 Jornal da PUC-Campinas: Qual a motivação de sua visita ao Brasil, especialmente à PUC-Campinas?

Profa. Dra. Ângela Ales Bello: Fui convidada pela PUC-Campinas, em especial pelo Coordenador do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião da PUC-Campinas Prof. Dr. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves e pela Pró-Reitora de Extensão e Assuntos Comunitários, Profa. Dra. Vera Engler Cury para que pudesse falar de minha experiência filosófica, em especial da Fenomenologia, dentro da disciplina “Tópicos Especiais em Ciências da Religião” e também para estabelecer um relacionamento com a PUC-Campinas, através da Pontificia Università Lateranense di Roma, instituição da qual faço parte.

 Jornal da PUC-Campinas: Qual sua impressão do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião da PUC-Campinas?

 Profa. Dra. Ângela Ales Bello: Tive uma impressão ótima. Os alunos estavam muito bem preparados e motivados para participar de minhas aulas, compreendendo e participando de forma muito ativa. Foi uma experiência muito interessante.

 Jornal da PUC-Campinas: Faça uma análise sobre o ensino e pesquisa de Ciências da Religião e Teologia no Brasil.

 Profa. Dra. Ângela Ales Bello: Essa área de Pesquisa existente no Brasil é particularmente importante, pois não é ligada somente a uma religião, como a Católica, que caracteriza, por exemplo, a nossa Pontifícia Universidade. Através de outras experiências ligadas ao ponto de vista filosófico, teológico e histórico, o ensino e pesquisa de Ciências da Religião e Teologia permite uma preparação muito ampla e adequada ao mundo contemporâneo. Talvez pudesse, ainda interiormente, aprofundar a questão histórica, não só de nossa cultura ocidental, como também de outras religiões.

Profa. Dra. Ângela Ales Bello, docente da Pontificia Università Lateranense di Roma – Itália- Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Dra. Ângela Ales Bello, docente da Pontificia Università Lateranense di Roma – Itália- Crédito: Álvaro Jr.

 Jornal da PUC-Campinas: A Senhora é uma das mais renomadas pesquisadoras do pensamento de Edith Stein. Qual sua visão sobre a participação da mulher na vida acadêmica e dentro do estudo da religião?

Profa. Dra. Ângela Ales Bello: Edith Stein nos ajuda de uma forma muito intensa a valorizar a presença da mulher nesse campo. Em todas as profissões, em qualquer trabalho que um ser humano pode fazer, sobretudo do ponto de vista intelectual, sabemos que nas décadas passadas, também em nossa cultura, não se pensava ser possível que a mulher pudesse produzir algo. Havia dúvidas de que as mulheres fossem capazes. Edith Stein mostra em seus escritos e comprova que a mulher pode fazer e tem sua maneira própria de atuar. Ela destaca as diferenças entre o homem e a mulher, porém reforça a igualdade, no que diz respeito a dignidade humana. Aqui na PUC-Campinas podemos constatar isso, já que a Reitora, Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht, e duas Pró-Reitoras são mulheres.

 

A primeira Universidade Católica do mundo

Por Newton Aquiles von Zuben

A humanidade conhece, periodicamente, eventos que se transformam em elementos originários e estruturantes da nossa civilização. No início da era cristã, ocorreu um fato cuja complexidade e caráter insólito o transformaram em ponto axial da nossa história ocidental e fonte perene de questionamento. Trata-se do encontro entre o cristianismo nascente e o pensamento helênico

Valendo-se de toda a arquitetônica conceitual da filosófica grega, o pensamento cristão primitivo construiu sua sistematização e consolidação até a etapa final do medievo. Daquele encontro surgiu a questão da articulação entre fé e razão. Encontramos durante esse longo período de quinze séculos diversas posições sobre essa questão que não será completamente resolvida. A questão recebeu atenção crescente na alta idade média, o período da escolástica e no século XIII com o empenho de vários teólogos. No entanto, foi, sobretudo, Tomas de Aquino que conseguiu apresentar uma síntese original entre fé e razão que permitiu uma racionalização da fé colocando de acordo o pensamento antigo e a doutrina cristã.

Nesse ambiente investigativo do medievo cristão nasceram as escolas episcopais e monacais e, posteriormente, as universidades. Não se pode compreender a carreira de um filósofo e de um teólogo medieval sem conhecer a organização do ensino durante o período da escolástica até o século XIV. O termo universitas designa comunidade. A universitas studiorum – universidade dos estudos – é uma forma de comunidade, autônoma e que se livra das amarras do direito comum. A Universitas não designava, então, como a entendemos hoje, um conjunto de faculdades, mas um conjunto de mestres e alunos que se dedicavam aos estudos das artes, do direito e da teologia. Studium generale ou também universale designava um centro de estudos no qual estudantes de origem diversa poderiam ser recebidos.

Prof. Dr. Newton Aquiles von Zuben é docente da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas.
Prof. Dr. Newton Aquiles von Zuben é docente da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas.

Foi por necessidade de independência que nasceram as primeiras universidades; independência da autoridade eclesiástica: de fato a primeira geração de universidades, as de Bolonha, de Paris e de Oxford dentre outras, se constituíram em reação contra os bispos que governavam as escolas estabelecidas sob o teto de suas catedrais. Essas universidades conseguiram sua independência graças ao apoio papal. A essas universidades seguiram outras durante o século XIII, XIV e XV. Nenhuma delas recebeu, então, a designação de universidade católica.

 Escolhi apresentar brevemente a história e as características de uma universidade que, embora tendo sido instituída no século XV, foi durante sua longa história uma instituição de prestígio. Criada como “Universidade de Louvain” conheceu uma história atribulada, viu passarem por seus muros eminentes personagens, como professores e alunos, que formaram, através dos séculos, a sociedade da região que, à época, incluía a atual Holanda e a atual Bélgica. Esteve sob domínio francês e holandês até a secessão e a formação do reinado da Bélgica, em 1830.

A Universidade de Louvain ou Studium Generale Lovaniense ou Universitas studiorum Lovaniensis, foi fundada, em 1425, por um príncipe francês, Jean de Bourgogne, Jean IV, duque de Brabante (província belga), com o consentimento do papa Martinho V. Nessa época, observava-se uma constante histórica. A fé cristã em lugar de ser individualista, sempre teve a tendência de se incorporar nas instituições, em particular aquelas dedicadas ao ensino. O ensino das artes liberais e outros saberes, como o direito e, sobretudo, a medicina não constituia um fim em si, mas  um meio de se atingir o fim último da existência, a saber a fé que conduz à salvação. Desse modo, as faculdades de teologia se desenvolveram rapidamente no seio das universidades.

Na Universidade de Louvain, em 1432, sete anos após a fundação, foi instalada a Faculdade de Teologia. Engajada nos debates da sociedade desde a origem da Reforma, a Faculdade de Teologia da Universidade de Louvain foi a primeira, em novembro de 1519, a condenar abertamente Martinho Lutero, antes mesmo da bula de excomunhão de Leão X, no ano seguinte. Claro que, atualmente, por conta do espírito ecumênico deve-se questionar o sentido dessa condenação radical. No entanto, à época, não deixava de ser um tipo ousado de engajamento.

A universidade foi fechada oficialmente, em outubro de 1797, em aplicação da lei de 15 de setembro de 1793, que suprimia todos os colégios e universidades da república francesa.

Universidade de Louvain/ Crédito Divulgação
Universidade de Louvain/ Crédito Divulgação

A antiga Universidade de Louvain, que teve como professor e reitor Cornelius Jansen ou na forma latina Jansenius, o defensor da doutrina agustiniana da graça, foi até o fim do antigo regime, justamente o grande centro doutrinal do jansenismo na Europa.

Em 1819, foi reaberta com a designação de Universidade de Estado de Louvain, mas, novamente, fechada em 1883. Em 1835, os bispos belgas reinstituiram a antiga  Universidade de Louvain com a designação de Universidade Católica de Louvain pela carta pontifícia de 13 de dezembro de 1833, de Gregório XVI, no espírito das universidades gregorianas da reconquista católica empreendida por esse papa. A direção da universidade foi colocada sob a autoridade direta dos bispos belgas.

No dia 4 de agosto de 1879, no segundo ano de seu pontificado, o papa Leão XIII publicou a carta encíclica Aeternis Patris, sobre a restauração da filosofia cristã conforme a doutrina de Santo Tomás de Aquino. Na sua primeira carta encíclica, Inscrutabili Dei consilio, de 21 de abril de 1878, ele assinalou a suprema importância da filosofia tradicional para as escolas católicas, do ponto de vista social, do ponto de vista da exposição e da defesa da fé cristã, assim como da perspectiva do progresso de todas as ciências. Entretanto, sendo conveniente reatar com a grande tradição medieval, ponderava como impositivo o discernimento levando-se em conta o progresso das ciências dos tempos modernos e da necessidade de se adaptar às concepções antigas às condições do pensamento atual. Leão XIII conhecia bem a Bélgica, pois havia sido núncio apostólico em Bruxelas, de 1843 a 1846. Na época, a Universidade Católica de Louvain era a única universidade católica completa e essa é a característica que a diferenciou desde então. Leão XIII estava ciente das vantagens incomparáveis que representava, para a renovação das concepções filosóficas medievais, esse meio católico no qual todas as ciências eram ensinadas e na qual especialistas de todos os ramos do saber humano estavam em constante interação no ensino e na pesquisa; e que recebia já estudantes de inúmeros países estrangeiros.

No dia 25 de dezembro de 1880, Leão XIII envia uma carta pontifícia ao arcebispo de Malines, o cardeal Deschamps, para lhe solicitar providências no sentido de criar uma cadeira especial de filosofia de Santo Tomás de Aquino na Universidade Católica de Louvain. Em 1889, Leão XIII solicitou aos bispos belgas que criassem cadeiras de filosofia agrupadas em um «Instituto Superior de Filosofia» no seio da Universidade Católica de Louvain. O texto fundador foi a carta pontifícia de 8 de novembro de 1889. Os bispos nomearam como seu primeiro «presidente» Monsenhor Desiré Mercier, que seria mais tarde nomeado cardeal. Desiré Mercier era titular de um curso de «filosofia especial segundo Santo Tomás». Com o auxílio do papa, ele conseguiu obter a criação de um verdadeiro instituto ao qual acrescentou , com anuência  de Leão XIII, a denominação «Escola SantoTomás de Aquino» para bem notar que o novo instituto tinha como objetivo central a renovação do tomismo preconizado por Leão XIII em sua carta encíclica, acima citada. Na mente de Monsenhor Mercier o neo-tomismo deveria constituir uma filosofia original em debate com com os problemas de seu tempo, e, especialmente, com os problemas das ciências da natureza e as ciências humanas.

Desde então, o novo Instituto consolidou sua missão e ampliou sua presença, com disciplinas filosóficas para a Universidade toda. Consolidou sua reputação segundo as diretrizes da encíclica como havia solicitado o papa aos bispos belgas. Sua atuação se deu em quatro direções principais atribuídas progressivamente ao ensino e à pesquisa: o estudo histórico e crítico dos grandes filósofos, reflexão epistemológica sobre as técnicas e métodos das ciências, o questionamento sobre as relações entre a fé cristã e a razão, a interrogação sobre a interação da filosofia com a vida social.

O Instituto Superior de Filosofia ocupou um lugar relevante na Universidade Católica, pela característica de sua implantação, seguindo as diretrizes diretas do papa Leão XIII, e pelos propósitos de sua vocação direcionada ao ensino da Filosofia em atenção à carta encíclica Aeterni Patris, assumindo o compromisso de trabalhar na renovação do pensamento de Tomás de Aquino e de seu pensamento erigido como modelo da formação filosófica para os futuros presbíteros. A seriedade com que tomou para si a relevância do diálogo constante entre a filosofia e as ciências foi amplamente facilitada pelo fato, acima mencionado, de que a Universidade Católica de Louvain foi, desde essa sua implantação, herdeira da antiga Universidade de Louvain, como Universidade Católica, a única universidade católica completa no mundo, abrigando todos os ramos do saber ora existentes.

A Faculdade de Teologia, Sacra Facultas Theologiae, foi erigida no dia 7 de março de 1432, pelo papa Eugênio IV. Os mestres da Faculdade se interessavam, sobretudo, por questões de moral e a faculdade permaneceu, de início, bem impermeável aos progressos do humanismo, abrindo-se, pouco a pouco, posteriormente, às pesquisas de teologia positiva. Foi em Louvain que foi redigida, ao final de 1519, a primeira censura de toda a cristandade contra os escritos de Lutero, tendo a Faculdade de Teologia redigido, à intenção dos dominicanos, um resumo das verdades religiosas atacadas pelo inovador. O teólogo alemão Hubert Jedi, em sua obra História do Concílio de Trento, tomo 1, considera esse documento como a melhor realização da teologia pretridentina.

Creio pertinente afirmar-se da Universidade Católica de Louvain que ela, nos dizeres de João Paulo II, “compartilha com todas as outras universidades aquele gaudium de veritate, tão caro a Santo Agostinho, isto é, a alegria de procurar a verdade, de descobri-la e de comunicá-la em todos os campos do conhecimento” (Ex Corde Ecclesiae  1).

 

Espaço Pró-Reitoria de Graduação

Na comemoração de 25 anos da publicação da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae, sobre as Universidades Católicas, temos a alegria de afirmar que nos esforçamos cotidianamente para realizar em nossos trabalhos as exigências expressas nessa encíclica do Papa São João Paulo II. Sabemos que a Universidade está assentada em três grandes pilares: a Pesquisa, o Ensino e a Extensão, e que essas três dimensões devem estar plenamente integradas. A Pró-Reitoria de Graduação – PROGRAD – tem cuidado para que na relação ensino/aprendizagem os conteúdos científicos, humanísticos e culturais, sejam difundidos com competência e rigor. Nessa perspectiva, se na produção do saber científico há uma preocupação constante no diálogo com a fé, não menos importante é trazer esse diálogo para a esfera do ensino.

Dada a relação íntima entre investigação e ensino, convém que as exigências da investigação, acima indicadas, influam sobre todo o ensino.

Enquanto cada disciplina é ensinada de modo sistemático e de acordo com métodos próprios, a “interdisciplinaridade”, sustentada pelo contributo da Filosofia e da Teologia, ajuda os estudantes a adquirirem uma visão orgânica da realidade e a desenvolverem um desejo incessante de progresso intelectual (Ex Corde Ecclesiae no 20).

Para alcançar esses resultados, temos constantemente empreendido ações na linha de capacitação dos nossos professores, por meio do Grupo de Trabalho (GT) PPCP, oferecendo palestras, cursos, oficinas, encontros pedagógicos, preocupados com a qualidade daquilo que se ensina e com a forma como se ensina, propiciando uma aprendizagem mais eficaz e “…que harmonize a excelência do desenvolvimento humanístico e cultural com a formação profissional especializada (Ex Corde Ecclesiae nº 23)”.

 Prof. Dr. Márcio Roberto Pereira Tangerino- Membro do Grupo de Trabalho (GT) Programa Permanente de Capacitação Pedagógica- PROGRAD