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Um olhar psicanalítico sobre o transtorno alimentar

Pesquisa aponta que os sofrimentos de pessoas com transtorno alimentar se refugiam nos corpos como expressão daquilo que não pode ser dito. Tese foi defendida na Pós-Graduação de Psicologia

 

Por Amanda Cotrim

Realizar uma pesquisa científica nunca é uma tarefa fácil. Há inúmeros “problemas de pesquisa” pelo caminho. No caso da doutora pelo Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia da PUC-Campinas, Maria Salete Junqueira Lucas, o desafio se ancorava em estabelecer o grau de confiabilidade de uma pesquisa qualitativa que considerasse a subjetividade e um número menor de participantes, com o objetivo de pensar a clínica psicanalítica contemporânea.

“Ainda na área da saúde, existe um viés positivista com o clássico paradigma biomédico. Mas também existe o outro lado de uma medicina que não é apenas baseada em evidências e que admite a subjetividade, os aspectos psicossociais que sustentam a pessoa”, justifica a psicóloga, que teve orientação da Profa. Dra. Tânia Mara Marques Granato.

Logo no início da sua profissão, Maria Salete se deparou com uma paciente de 15 anos que se recusava a comer e que demonstrava um grande sofrimento diante das exigências de “ter que crescer”, além do seu confronto com sentimentos de amor, ódio, inveja e ciúmes de sua mãe. “Toda essa confusão de sentimentos fez com que ela escolhesse o corpo como defesa sobre o que poderia ser nomeado e elaborado. O corpo sofria pela alma”, relata.

A pesquisa considerou a figura paterna ligado a causa do transtorno alimentar/ Reprodução
A pesquisa considerou a figura paterna ligado a causa do transtorno alimentar/ Reprodução

Sua pesquisa de doutorado considerou a figura paterna ligado a causa do transtorno alimentar, além do papel da família. Pesquisas sobre transtornos alimentares já haviam indicado a dificuldade da relação mãe e filha como aspecto originário dos transtornos alimentares. “Minha pesquisa coloca essa questão de mãe e filha, mas traz um questionamento de que a função paterna também precisa ser escutada e tratada. Há uma fome de pais e essa fome pode ter desencadeado o sintoma alimentar também”, relaciona.

Só o biológico, aponta Maria Salete, não consegue expressar a complexidade humana, por isso, a importância da psicanálise: olhar para o inconsciente, analisar as narrativas das pessoas e facilitar que pensamentos e sentimentos sejam externalizados, auxiliando na elaboração daquela dor que não havia sido falada. “O analista também vive essas narrativas. A minha pesquisa contribui para poder compreender o espaço intersubjetivo e intrasubjetivo na relação terapêutica”.

Como acessar esse sofrimento

 Para conseguir fazer o estudo, a pesquisadora se utilizou do encontro psicanalítico, um método que abarca um processo gradual e não um objetivo dado em princípio. A doutora em Psicologia explica que o “espaço psicanalítico pressupõe a participação do analista e do analisado na experiência emocional da dupla, de onde pode emergir um novo conhecimento”.

Maria Salete conta que o ambiente é fundamental para o amadurecimento do ser humano, por isso, quando nascemos, segundo ela, estamos desamparados, e, nesse aspecto, a mãe ou a pessoa que cuidará de nós, é quem nos ajudará a realizarmos diversas “tarefas psicossomáticas”. “A integração psicossomática é o objetivo final para o sentimento de existir, sendo que o transtorno alimentar representa a dificuldade para que a integração se realize, acusando que o alojamento da psique no corpo não se deu de maneira satisfatória, criando obstáculos para o processo de desenvolvimento”, contextualiza.

 Tratamento interdisciplinar

 Segundo ela, os transtornos alimentares são patologias com origem multifatorial e, por isso, é importante que a psicanálise estabeleça comunicações com diversas áreas do conhecimento para um atendimento interdisciplinar. “Há uma chance maior para que o paciente seja mais bem atendido quando trabalhamos em rede. Poder trabalhar juntamente com um psiquiatra, uma nutricionista, um clínico geral, um educador físico, coloca em evidência as limitações de cada área”, ressalta.

E acrescenta: “Eu preciso de um psiquiatra para medicar o impulso incontrolável de um paciente com bulimia, que come e vomita incessantemente; ou um paciente deprimido, que pensa em se matar por se sentir aprisionado com seu sintoma”, justifica.

Cultura da magreza

 De acordo com a psicóloga, o estudo possibilitará a instrumentalização de intervenções que possam auxiliar o paciente a lidar melhor com seu psiquismo e com o seu corpo para ter uma melhor qualidade de vida. “Para isso, é fundamental que desenvolvamos programas preventivos nas escolas com o objetivo de debater as evidências de crianças e adolescentes em relações aos seus corpos, principalmente diante de uma cultura da magreza”. A pesquisadora ressalta a importância de a sociedade debater a imposição de um padrão de beleza, para que isso não seja naturalizado. “Os pacientes não mostram críticas e nem consciência de que esse padrão perverso teria um papel na eclosão de transtornos alimentares”, constata.

Ela também lembra que o tratamento de um paciente que sofre de transtorno alimentar também precisa contar com o apoio da família: “A partir do momento que a família acolhe, ela passa a entender o sofrimento do transtorno alimentar e passa a se responsabilizar pelo tratamento do paciente. Por meio da psicoterapia psicanalítica, os analistas podem auxiliar os pacientes numa verdadeira transformação psíquica”, finaliza.

 

Inclusão escolar do aluno com deficiência

Por Claudia Gomes

Abordar o tema da inclusão escolar de alunos com deficiências é assumir que especificidades existem, e que devem ser consideradas, porém, é alertar também para a necessidade de elaboração de políticas públicas de acompanhamentos preventivos e interventivos nas diferentes esferas que compõem o desenvolvimento humano.

Segundo o Ministério da Saúde – Política Nacional de Saúde das Pessoas com Deficiência (BRASIL, 2009), não podemos desconsiderar que, dentre as possíveis causas das necessidades especiais, estão presentes as questões hereditárias, mas também as decorrentes da falta e da inadequação da assistência às mulheres durante a gestação e o parto, a desnutrição, as doenças transmissíveis e as crônicas, as perturbações psiquiátricas, os traumas e lesões, eventos esses que podem e devem ser evitados por meio de políticas públicas sociais de saúde.

Já no âmbito escolar, com a promulgação do Decreto n. 6.571 (09/2008), que regulamenta a Política Nacional de Educação Especial na perspectiva Inclusiva (BRASIL, 2008), não podemos desconsiderar que os amparos legais vêm possibilitando gradativamente a inclusão de alunos com deficiências no ensino regular. Entretanto, se por um lado as estatísticas parecem animadoras, por outro, não podemos deixar de considerar que o indicador de inclusão, quando delimitado pela realização da matrícula do aluno, não garante que a permanência e desenvolvimento do aluno, como proclamado pelos diferentes documentosr, de fato está sendo efetivado.

Neste sentido, um dos grandes desafios que cercam o debate da inclusão é a análise do processo na perspectiva do próprio aluno incluído. Ainda evidenciamos que seja pelo desconhecimento das necessidades e potencialidades destes alunos, ou pela supervalorização de suas características, a discussão das ações ainda estão embasadas em uma representação focada no “estereótipo do aluno perfeito”, no qual alunos com deficiência se distanciam por suas características físicas, cognitivas, sensoriais ou relacionais.

Abrir novos espaços de correspondência social para esses alunos, para que se identifiquem, é premissa para que venham a alcançar novas formas de representar seu desenvolvimento escolar, o que é ainda é desconsiderado pelas ações e práticas inclusivas nas escolas atualmente, ao focarem em suas ações metodologias conteúdistas e instrucionais, que por um lado privam e excluem a necessária relação humana que deveria caracterizar os processos educacionais e, por outro, ratificam a distinção da representação “de quem ensina e quem aprende”, “dos melhores e dos piores”; “dos eficientes e dos deficientes”.

Segundo Glatt (1991), os papéis atribuídos socialmente aos indivíduos com deficiências têm uma dupla função, servem tanto de ingresso e indicação ao local adequado onde eles devem se sentar, como também determina o script que o indivíduo terá que atuar em suas relações no “Teatro da Vida” (1991: 09).

Para tanto, de acordo com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Inclusão, o processo de inclusão deve propiciar o direito de cada aluno constituir sua própria identidade, ao mesmo tempo em que deve saber reconhecer essa identidade, os direitos de igualdade e respeito às diferenças dos outros (BRASIL, 2008). Efetivar a garantia de acesso, permanência e desenvolvimento de alunos com deficiências nas escolas regulares, possibilita a modernização das práticas pedagógicas, assim como um maior respeito à diferença e à diversidade dos alunos, para além da compreensão da escola como espaço de socialização, ou ainda, de práticas de compensação sociais.

Defender a análise do processo de inclusão na perspectiva do aluno deficiente é alertar para a necessidade de criação de interações pedagógicas, como condição central para repensarmos o processo de desenvolvimento humano, com a consideração dos sujeitos como ativos e construtores, com a devida exploração dos significados e da compreensão interpretativa acerca da alteridade.

Segundo Berger e Luckman (1976), a relação de socialização está intimamente ligada à produção emocional, no entanto, só se pode falar de interiozação, e portanto, socialização de fato, quando o indivíduo absorve os papéis e as atitudes dos outros como suas, quando há, primeiramente, um processo de identificação.

O processo de inclusão escolar deve propiciar um processo dialético entre a identificação do aluno deficiente com o outro e a auto-identificação de suas necessidades, ou seja, um processo tensional entre a identidade atribuída e a identidade apropriada. Neste caso, cabe ressaltar, que a identidade atribuída a alunos com deficiência só pode ser apropriada por este aluno atrelada ao mundo que a formaliza, ou melhor, esta identidade a ser apropriada só é possível em um meio que confirme esta auto-identificação, e a escola é o espaço pleno do desenvolvimento de tais relações humanas.

Claudia Gomes concluiu seu doutorado em Psicologia pela PUC-Campinas, onde pesquisou a posição do sujeito aluno na inclusão escolar. 

 

 

Tese analisa perfis de comunicação política nas redes sociais

O Professor do Centro de Linguagem e Comunicação da PUC-Campinas, Victor Corte Real, defendeu sua tese de doutorado no dia 21 de setembro de 2015,  na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), sob orientação da Profa. Dra. Heloiza Matos. A pesquisa teve como título: “Perfis de comunicação política nas redes sociais on-line: monitoramento e tipologia das conversações nas eleições presidenciais brasileiras de 2014 no cenário da internet”.

Real utilizou um software de monitoramento para coletar as publicações que fizeram qualquer menção aos principais candidatos à presidência: Aécio Neves, Dilma Rousseff, Eduardo Campos e Marina Silva.

A pesquisa teve como ambiente de análise o site de relacionamento Facebook, pelo fato de ser a rede social com 83% de preferência entre os internautas brasileiros. Mais de um milhão de postagens, feitas por perfis de usuários ou fanpages, foram extraídas durante o período de campanha eleitoral (06/07 a 05/10/2014).

Para interpretar os dados obtidos, o pesquisador construiu um modelo quali-quantitativo de análise dos tipos de comunicação política no ambiente das mídias sociais.

Real afirma que “dentre as principais constatações obtidas, uma das que mais chamou atenção foi o fato de não existir efetivamente conversação entre os usuários, já que mais de 90% das mensagens são manifestações isoladas, não configurando um cenário de diálogo”.

Crédito: Arquivo Pessoal
Crédito: Arquivo Pessoal

Neste sentido, a tese defende que, apesar das pessoas se expressarem com grande intensidade diante dos temas das eleições 2014, elas não estabeleceram debates e nem troca de informação baseada em argumentação e contra-argumentação.

Além disso, o conteúdo das postagens foi baseado, em sua grande maioria, em argumentos de ordem emocional, ou seja, sem mencionar quadros de referência ou construções lógico-racionais diante da visão de mundo atual e futuro dos internautas.

As considerações finais do trabalho sinalizam, portanto, um despreparo dos usuários do Facebook para tratar de questões políticas, bem como uma inconsistência em assumir postura crítica e fundamentada diante do cenário eleitoral de 2014.

Em breve a tese estará disponível para acesso online no acervo da Universidade de São Paulo.

Informações: Centro de Linguagem e Comunicação da PUC-Campinas 

Dom Helder Camara, um peregrino da justiça e da paz

Livro resgata história do arcebispo de Olinda e Recife, que lutou pela libertação da população pobre mundial

Por Amanda Cotrim

“Se ajudo um pobre, me chamam de humanista. Se questiono a pobreza, me chamam de comunista”. Essa frase é uma das marcas de Dom Helder Camara, um dos nomes mais importantes da Igreja Católica no Brasil e no Mundo, no século XX. Nem capitalista e nem comunista, Dom Helder era, acima de tudo, um homem religioso que lutou em vida pela libertação do povo pobre, explorado e marginalizado. Seu lema: “os homens fazem história”, e por isso, segundo Dom Helder, podem romper com o todo sistema de exploração e opressão. Esse e outros detalhes de sua vida são contados no livro “Dom Helder Camara – Um Profeta-peregrino da justiça e da paz”, do Diretor da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas, Professor Edvaldo Araújo, resultado de sua tese de doutorado. “A finalidade desse estudo foi compreender a vida e o pensamento de Dom Helder”. O livro tem cerca de 600 páginas e é uma realização da Editora Ideias Letras.

O livro do Professor Edvaldo Araújo é resultado de sua tese de doutorado/ Crédito: Álvaro Jr.
O livro do Professor Edvaldo Araújo é resultado de sua tese de doutorado/ Crédito: Álvaro Jr.

A trajetória de Dom Helder é reconhecida internacionalmente. No Brasil, o arcebispo emérito de Olinda e Recife recebeu o título de cidadão honorário em 30 cidades do país, 14 prêmios por sua atuação pela paz, quatro indicações ao Prêmio Nobel da Paz, além de 32 títulos de Doctor Honoris Causa, sendo 18 no exterior e 14 no Brasil. Em abril de 2015, o Vaticano autorizou a abertura do processo de canonização de Dom Helder, o pedido para que a Santa Sé, em Roma, analisasse a possibilidade de declarar o religioso santo foi enviado em 2014 pelas Arquidioceses de Olinda e do Recife.

“A notícia sobre a abertura do processo de beatificação de Dom Helder é o reconhecimento da Igreja sobre sua atuação que, a partir da perspectiva da fé, batalhou pela construção de um mundo mais justo e mais humano”, afirma Araújo. Segundo o professor, Dom Helder atuou principalmente no processo de libertação do povo latino-americano, buscando que toda a teoria e reflexão partissem de uma prática e, principalmente, que levassem a uma prática mais consciente e libertadora. “Ele acreditava que a superação do sofrimento do povo da América Latina, da África e da Ásia, regiões exploradas, pudesse se transformar em esperança capaz de mudar o sentido da história”, defende o professor Araújo.

Segundo Dom Helder, a realidade de injustiça social que traz consigo a negação do ser humano, era uma injustiça institucionalizada, é um pecado que “se encarna nas estruturas da sociedade, que se manifesta no abismo entre ricos e pobres”, explica Araújo. Entre as consequências dessa realidade de desigualdade social estão: a marginalização da pessoa humana, a contradição, o escândalo, a indiferença, o egoísmo e a espiral da violência. Segundo Araújo, para Dom Helder, a ausência de ética possibilitava a situação para violência atuar, e por isso toda violação da pessoa humana, social, cultural, econômica e política precisa ser banida da História.

Prof. Dr. Edvaldo Araújo é diretor da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Edvaldo Araújo é diretor da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.

A tese do professor Araújo, defendida em Roma, na Faculdade Teresianum, em 2004, é dividida em três partes, que correspondem aos deslocamentos geográficos e às transformações do pensamento de Dom Helder. A primeira fase vai de 1909 a 1936, com a formação familiar e os primeiros anos de sacerdócio, período vivido em Fortaleza, no Ceará. A segunda fase é de 1936 a 1964, no Rio de Janeiro, narrando o momento em que Dom Helder se confronta com a realidade enfrentada pelos pobres. Já a última fase é de 1964 a 1999, em que ele viveu na Arquidiocese de Olinda e Recife e trabalhou na defesa dos direitos humanos, “lutando pela justiça, se fazendo voz de quem não tem voz”, explica Araújo.

“Dom Helder rompeu o silêncio da cumplicidade e foi ao cerne do problema, ao denunciar a situação de violência institucionalizada, gerada por uma estrutura de dependência colonial e neocolonial. Ele toma posição diante do futuro: assume a tarefa transformadora e libertadora”, considera Araújo. Dom Helder Câmara morreu aos 90 anos, em Recife, no dia 27 de agosto de 1999. Atuou como um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Episcopal Latino Americano (CELAM) e foi um grande defensor dos direitos humanos e atuando contra o regime civil militar no Brasil.

Saúde Psicológica em situações de desastres

Pesquisadora faz mapeamento inédito de psicólogos que trabalham em regiões de conflito; tese foi defendida em 2015

Por Amanda Cotrim

A tese de doutorado de Ticiana Paiva de Vasconcelos, psicóloga de formação, surgiu a partir de algumas indagações que, ao longo da pesquisa, foram se transformando em dados; uma delas é que cada vez mais a psicologia está sendo convocada a entrar em cenários de desastres. Além disso, aponta a Pesquisadora, isso provoca os psicólogos a compreender melhor o sofrimento humano em contextos não habituais de atendimento. “Para além das teorias, que são importantes, sem dúvida, a psicologia está aprendendo na prática a lidar com esses contextos que exigem uma intervenção apropriada e em sintonia com determinada emergência”, explica Ticiana. Como uma tese de doutorado, esta pesquisa teve como principal objetivo compreender o que leva um profissional da psicologia a trabalhar com vítimas de desastres ou de conflitos armados e qual o impacto disso para sua vida profissional. O estudo foi desenvolvido sob a orientação da docente do Programa de Pós Graduação em Psicologia da PUC-Campinas, Profa. Dra. Vera Engler Cury.

A pesquisadora entrevistou 10 psicólogos com experiência em atendimento a vítimas de grandes enchentes, terremotos, pós-guerra e conflitos civis permanentes. Para mapear os entrevistados, Ticiana utilizou a internet e publicações da Associação Brasileira de Psicologia para Atendimento de Desastres, criada em 2008.

A pesquisadora Ticiana Paiva de Vasconcelos ressalta a importância de psicólogos se confrontarem com experiências de vidas diferentes das habituais / Crédito: Álvaro Jr.
A pesquisadora Ticiana Paiva de Vasconcelos ressalta a importância de psicólogos se confrontarem com experiências de vidas diferentes das habituais / Crédito: Álvaro Jr.

As entrevistas foram conduzidas pela pesquisadora individualmente com os participantes, sob a forma de um encontro dialógico, sem um roteiro fechado de perguntas, e sem limite de tempo. A maioria dos profissionais entrevistados vivenciou essa experiência em atendimento de desastres voluntariamente, em intervenções pontuais, como no caso da enchente em Itajaí, em Santa Catarina, em 2008. Mas alguns dos participantes trabalham profissionalmente no atendimento a vítimas em situações extremas. “Esse psicólogo está hoje no Brasil, depois ele é chamado para ir até a África, em seguida, precisa estar na Ásia. Ou seja, faz parte da rotina dele se defrontar com seus limites, diariamente”, explica.

O estudo concluiu que os psicólogos que trabalham nesses contextos extremos, além de presenciarem situações dolorosas vivenciadas pelas vítimas, também convivem com riscos à sua própria integridade física e psicológica decorrentes de situações ambientais precárias e da desagregação social que se instala. “Na Palestina, um psicólogo me relatou que há ataques com bombas a qualquer momento. No Haiti, após o terremoto, ocorreram inúmeros casos de estupros e as psicólogas que estavam lá também estavam sob esse risco. Em situações ocorridas no Brasil, alguns participantes relataram admiração em relação à capacidade das pessoas que haviam perdido parentes de conseguirem retomar a sua rotina muito rapidamente”, conta Ticiana.

Confrontar-se com experiências de vida muito diferentes do habitual é, de acordo com o estudo, um desafio para os psicólogos que passam a conhecer de perto outras formas de sofrimento humano. “Daí, a necessidade de haver profissionais flexíveis. Os psicólogos precisam sair mais dos consultórios e ir além, para vivenciar outras perspectivas de mundo”, ressalta a pesquisadora.

Psicóloga da organização Médicos Sem Fronteiras durante atendimento às vitimas do Ebola, na África. / Crédito: Divulgação
Psicóloga da organização Médicos Sem Fronteiras durante atendimento às vitimas do Ebola, na África. / Crédito: Divulgação

Uma vantagem que essa nova realidade da profissão revelou, de acordo com o estudo, é que os psicólogos que trabalham nesses contextos de desastres conseguem ver o resultado do seu trabalho imediatamente. “Em campo, eles vêem as mudanças que o seu trabalho proporcionou às vítimas e isso é muito significativo para o profissional, de acordo com a fala da maioria dos psicólogos entrevistados”. O ponto positivo, ressalta Ticiana, é que os conhecimentos aprendidos em situação natural pelos profissionais da psicologia possuem grande potencial para fomentar novas hipóteses do ponto de vista teórico.

Segundo a Pesquisadora, os psicólogos que trabalham com atendimento em desastres estão sempre amparados por organizações que realizam trabalhos humanitários em regiões de conflito. O profissional é uma parte, dentro de todo o aparato social oferecido por essas organizações. “As entrevistas mostraram que esse profissional é assistido o tempo todo. Se ele não consegue lidar com a situação, ou se, de repente, chegou ao seu limite, todo o atendimento é amparado por outros profissionais que estão lá justamente para isso”, explicou. “São essas organizações que acabam dando apoio para os psicólogos enquanto formação, em que eles aprendem com treinamento e são supervisionados”, pontuou.

A maior motivação para o trabalho desses profissionais, de acordo com o estudo, tem sido a possibilidade de ajudar o outro: “A etimologia da palavra clínica, significa inclinar-se ao outro. Os profissionais afirmaram que a grande motivação é poder ser útil para alguém em algum lugar do mundo”, relatou a pesquisadora.

Entre os desafios para essa nova realidade da prática da psicologia está a formação do psicólogo, que precisa, de acordo com Ticiana, integrar essas novas demandas: “As disciplinas do curso de Psicologia precisam incluir temas como atendimentos em situações extremas de forma a flexibilizar o olhar desse novo profissional. O ensino nas universidades, de modo geral, precisa abrir-se para novas realidades. Infelizmente, os currículos caminham em ritmo mais lento do que a profissão exige.  , Mas isso vem mudando”, finalizou.