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Febre Amarela e a influência no saneamento

Por Prof. Me. Thiago Amin – Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Campinas

 

A crise da Febre Amarela em Campinas, cujo ápice se deu em 1889, foi uma das muitas crises de saúde pública influenciadas pelas péssimas condições de saneamento das cidades brasileiras (e de outros países), naquele período.

O enfrentamento dessa crise foi um dos principais motores da ascensão do Urbanismo como ciência contemporânea, a partir do pensamento higienista, que entendia necessário pensar, planejar e regular a cidade do século vindouro. Só assim seria possível proteger o ar, a água e o solo, de modo a construir um ecossistema urbano mais saudável e livre de doenças.

Um exemplo de intervenção higienista foi a retificação do Córrego do Serafim, chamado de Canal do Saneamento, que hoje ocupa o canteiro central da Avenida Orosimbo Maia.

Desinfectorio Municipal 1890
Fonte: Campinas Virtual

Uma vez que as águas carregavam (e ainda hoje carregam) os dejetos e resíduos da atividade humana, que trazem consigo inúmeras doenças, e seu acúmulo em áreas urbanas pode se transformar no habitat ideal para a proliferação de outras tantas, desenvolveram-se projetos de canais de escoamento, retificação de córregos e rios, sistemas de drenagem de diferentes tipos que tinham como objetivo fazer com que as águas pluviais e residuárias se afastassem o mais rapidamente possível das áreas de ocupação humana.

As redes de coleta e afastamento de esgoto, os reservatórios e o abastecimento de água potável, entre tantos outros investimentos, também são oriundos desse mesmo objetivo, da modernização urbana que foi uma resposta, em grande parte, à epidemia de Febre Amarela que matou e deslocou milhares de pessoas na cidade de Campinas.

O resultado urbanístico e de manejo das águas urbanas, hoje, é bastante discutível, mas isso é outra história.

Para quem quiser saber mais:

“Campinas – O Voo do Saneamento”, de José Pedro Soares Martins.

“O Saneamento de Campinas e a Modernização da cidade: a Implementação dos Sistemas de Águas e Esgotos (1840-1923)”. Dissertação de Mestrado do Prof. João Manuel Verde dos Santos, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.

 

Da Campinas do café ao “Vale do Silício” brasileiro

Por Luiz Roberto Saviani Rey

“Vale do Silício Brasileiro”, “Califórnia Brasileira”, esses títulos – verdadeiros apelidos na forma de qualificação positiva e reveladora -, agregados ao perfil e à estrutura industrial-empresarial de Campinas, desde meados anos 1980, descortinam uma configuração extremamente contemporânea e universal de um município que traçou desde o princípio seus desígnios de liderança e de pujança econômica. Uma cidade que produz, com fartura, divisas ao Brasil, e gera empregos de elevada qualificação, característica que advém desde os tempos dos Caminhos de Goiazes, dos primórdios da Vila de São Carlos e das usinas de cana-de-açúcar, a partir do século XVIII, e do rico e portentoso período do Café, entre meados do século XIX e o início do século XX.

Se o desenvolvimento urbano e as grandes obras dos anos 1960 e 1970 – pautados no Plano Viário do engenheiro Prestes Maia, dos anos 1940 -, foram fundamentais para sedimentar a estrutura viária de Campinas. Se eles trouxeram modernidade e inovações urbanísticas, com a construção de longas avenidas de interligação, como os viadutos Miguel Vicente Cury e São Paulo – o “Laurão” -, as vias Suleste, Norte-Sul e Aquidabã, com a reconfiguração das Amoreiras e da John Boyd Dunlop, tornando-a “Cidade do Automóvel”, os anos 1980, menos agitados e, aparentemente pouco produtivos, proporcionaram os efeitos de expansão e vigor industrial da atualidade.

A cidade moldada para o progresso começou a experimentar os benefícios dos avanços tecnológicos a partir de 1985, com a criação da Companhia de Desenvolvimento do Polo de Alta Tecnologia de Campinas (CIATEC), fazendo emergir zonas industriais de tecnologia limpa no entorno dos campi universitários da PUC-Campinas e da Unicamp.

Com o acréscimo do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (CPqD), uma holding estatal do segmento das telecomunicações, foi possível atrair empresas high tech de porte. Mais de 50 das 500 maiores empresas do mundo nesse ramo estão presentes hoje na Região Metropolitana de Campinas.

Paralelo ao campo econômico, os anos 1980 colocam Campinas nos cenários culturais, revelando ao mundo sua Orquestra Sinfônica Municipal (OSM), já em idade madura e consagrada. Marcados pela transição política, com a saída de um longo período de ditadura militar para um processo de redemocratização, esses anos levaram o Brasil a concentrar suas forças na busca de uma autoafirmação democrática.

Campinas pode desfrutar desse momento, no plano político-cultural, oferecendo a Orquestra como um símbolo da campanha nacional pela eleição direta para a Presidência da República, chamada de “Diretas-já”, a partir de emenda do deputado Dante de Oliveira, não aprovada.

Praça Carlos Gomes em 1989- Acervo do Museu da Imagem e do Som de Campinas
Praça Carlos Gomes em 1989- Acervo do Museu da Imagem e do Som de Campinas

Nos comícios pautados pela presença de imensas plateias, em apoio à proposta das Diretas, a Sinfônica de Campinas, regida pelo maestro Benito Juarez, abria esses eventos efervescentes e ávidos por abertura democrática com a execução do Hino Nacional Brasileiro e a apresentação de peças clássicas de autores consagrados, entre eles o compositor campineiro Antônio Carlos Gomes.

Na década de 1990, Campinas se consolida como uma metrópole, ou mais que isso, como sede portentosa e contemporânea de uma Região Metropolitana em expansão, em que estão presentes características populacionais inéditas para a maioria dos municípios brasileiros.

Sua pujança econômica, o vigor de seu Polo de Tecnologia, de seus serviços e sua dimensão internacional formatam uma população economicamente ativa complexa e altamente qualificada, elevando o município à categoria e importância de estado, a despeito dos problemas suscitados com a conurbação urbana e as necessidades de melhoria em transportes, de resolução de problemas urbanos e de infraestrutura sanitária comuns, que resultam desse crescimento. Nesses cenários de avanços e de emancipação humana e técnica, a PUC-Campinas insere-se com maturidade e relevantes contribuições.

 

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Luiz Roberto Saviani Rey é Professor do Curso de Jornalismo da PUC-Campinas e autor dos livros: A maldição dos eternos domingos sem derby (romance de costumes); O retiro antes da Laguna – Taunay em Campinas (romance histórico); O menino herói da Guerra Paulista – O bombardeio de Campinas (romance histórico) e A crônica é jornalística e brasileira (didático). Crédito: Álvaro Jr. 

 

Pesquisa analisa a reconfiguração urbana de Campinas após febre amarela

Dissertação de mestrado considerou que a reconfiguração urbana pelo poder público se deu no intuito de melhorar o estado sanitário da cidade. Epidemia era associada à contaminação do solo e da água. Somente em 1901, a febre amarela foi associada ao mosquito Aedes aegypti

Por Amanda Cotrim

Um acontecimento histórico marcou Campinas do final do século XIX: a cidade registrou uma grande epidemia de febre amarela, entre 1889 e 1900, sendo a mais grave em 1889, quando morreram, aproximadamente, 1.200 pessoas, e em 1896, quando 800 pessoas morreram. O município, que registrava precárias condições sanitárias, não oferecia redes de infraestrutura de abastecimento domiciliar de água, canalização de esgoto sanitário e sofria com áreas alagadas; um cenário propício para a difusão de epidemias, especialmente na sua área urbana, como aponta a dissertação de mestrado de Daniela Krogh, defendida no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Urbanismo da PUC-Campinas, sob orientação da Profa. Dra. Ivone Salgado.

No período entre 1893 e 1900, visando o combate das epidemias de febre amarela, o poder público promoveu uma reconfiguração urbana na cidade. “Muitos imóveis construídos em taipa de pilão, ou taipa de mão, foram considerados insalubres, assim como as ruas sem calçamento, constantemente em contato com matérias orgânicas em putrefação, sendo necessária a impermeabilização do solo”, explica Daniela. A Comissão Sanitária da época foi chefiada pelo médico Emílio Ribas e a Comissão de Saneamento, pelo engenheiro Saturnino de Brito. As ações promovidas pelo município também se apoiavam na legislação municipal (Código de Posturas, de 1880) e estadual (Código Sanitário do Estado de São Paulo, de 1894).

Daniela agora faz seu doutorado também na PUC-Campinas / Crédito: Álvaro Jr.
Daniela agora faz seu doutorado também na PUC-Campinas / Crédito: Álvaro Jr.

Para poder compreender como a febre amarela impactou a configuração urbana de Campinas, a pesquisa se apoiou em bibliografia consagrada sobre o tema e, principalmente, em documentos do acervo do Arquivo Municipal de Campinas. Daniela explica que a maioria dos ofícios solicitava vistorias domiciliárias, desinfecções e pareceres de vistorias sobre casos de pessoas que ficaram doentes por causa da febre amarela. “As ações de combate às epidemias, naquela época, se configuraram em demolições de imóveis, desinfecções de residências e demais estabelecimentos, bem como a proibição de estábulos e cocheiras nas áreas mais adensadas da cidade”, contextualiza.

Casa construída em taipa de mão. Fonte: José Carlos Mendes. Retratos da Velha Campinas. Revista do Arquivo Municipal. São Paulo: Publicação da Divisão do Arquivo Histórico, do Departamento de Cultura, da Secretaria de Eduação e Cultura, da Prefeitura de São Paulo, 1951
Casa construída em taipa de mão. Fonte: José Carlos Mendes. Retratos da Velha Campinas. Revista do Arquivo Municipal. São Paulo: Publicação da Divisão do Arquivo Histórico, do Departamento de Cultura, da Secretaria de Eduação e Cultura, da Prefeitura de São Paulo, 1951

A pesquisa considerou que o “péssimo estado sanitário de Campinas contribuiu para a difusão da febre amarela”, porque a cidade não tinha sistemas de abastecimento domiciliar de água e coleta de esgoto, que só foram inauguradas em 1891e 1982, respectivamente. A área da cidade que sofreu maior intervenção das autoridades sanitárias municipais e estaduais foi a área central, nas proximidades da linha da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, a mais adensada no período analisado, na qual as condições sanitárias eram precárias e, portanto, consistia num local favorável ao desenvolvimento de epidemias.

A dissertação identificou que a atuação das autoridades sanitárias se pautava pela relação da febre amarela com a contaminação da água e do solo. Somente em 1901, o médico sanitarista Emilio Ribas repetiu os testes feitos pelo médico cubano Carlos Finlay, em 1881, e as autoridades sanitárias passaram a trabalhar a epidemia em relação ao mosquito Aedes aegypti, descoberto pelo cubano como o transmissor da febre amarela. “De todo modo, foi importante o poder público eliminar a água e o solo contaminados, porque ele combateu o foco da doença, mesmo acreditando que a febre amarela era transmitida pela água contaminada”, avalia.

Desinfectório Central de Campinas: Local onde se fazia a desinfecção de roupas e objetos dos doentes. Estava localizado onde hoje é a E. E. Carlos Gomes. Fonte: Blog Pró Memória de Campinas:
Desinfectório Central de Campinas: Local onde se fazia a desinfecção de roupas e objetos dos doentes. Estava localizado onde hoje é a E. E. Carlos Gomes. Fonte: Blog Pró Memória de Campinas:

O médico sanitarista Emílio Ribas permaneceu em Campinas até 1896 e, depois, ele assumiu a chefia do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo. Entretanto, a Comissão Sanitária continuou os trabalhos em Campinas, mas isso não significa que, nessa época (1901), os trabalhos estavam exatamente focados no combate ao mosquito. Foi a partir de 1904, quando ainda era diretor do Serviço Sanitário, que Emílio Ribas passou a reforçar que o combate à febre amarela (em todo o Estado de São Paulo, e não somente em Campinas) deveria ser feito no sentido de eliminar os criadouros do mosquito, como medida profilática.

Aedes aegypti: da Febre amarela à dengue

Divulgação
Divulgação

Não é possível comparar Campinas do final do século XIX com a Campinas do século XXI, mas Daniela argumenta que se pensarmos nos números das epidemias de febre amarela, eles são “modestos, considerando o número de casos registrados nas epidemias de dengue em Campinas nos últimos anos, com 44,5 mil casos, além do fato de que hoje a população é muito maior. Nesse sentido, uma possível relação é justamente sobre o estado sanitário da cidade atualmente, pois é bem corriqueiro encontrar lixo acumulado nas ruas e, com o período das chuvas, muitos focos do mosquito são observados na cidade, devido ao descuido, tanto das autoridades municipais – é importante destacar que isso não acontece somente em Campinas – como também da população”, pontua. Contudo, Daniela destaca que isso explica somente em parte a proliferação do mosquito Aedes aegypti, uma vez que, segundo ela, “é notório o atraso em relação ao saneamento em diversas áreas da cidade, o que, certamente, impacta na proliferação do mosquito da dengue”, considera.

 

 

 

Leitura do Território

Projeto de Extensão colabora com agentes da Prefeitura de Campinas na leitura sobre o território urbano

Por Amanda Cotrim

No contexto da parceria entre a PUC-Campinas e a Prefeitura de Campinas, o Projeto de Extensão Parque Linear Ribeirão das Pedras [uma metodologia para desenvolvimento de projetos urbanos], coordenado pelo docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Prof. Me. Fábio Boretti, desenvolveu um ensaio de diretrizes urbanísticas para o Parque Linear Ribeirão das Pedras, uma área verde que se constitui no trajeto do córrego Ribeirão das Pedras, o qual nasce no bairro Alto Taquaral, passa pelo Parque Dom Pedro e chega até Barão Geraldo, percorrendo cerca de 9 km. O objetivo do Projeto de Extensão foi elaborar uma metodologia para o desenvolvimento de projeto urbanos, utilizando o Parque Linear Ribeirão das Pedras como caso de estudo, proporcionando intercâmbio entre docente,  seus alunos bolsistas de extensão  e os técnicos do poder público, fomentando, assim, autonomia dos gestores municipais para futuras demandas similares.

Ensaio projetual (equipamentos básicos de apoio ao parque) / Crédito: Material de arquivo
Ensaio projetual (equipamentos básicos de apoio ao parque) / Crédito: Material de arquivo

“Desenvolvemos uma metodologia de leitura do território para um projeto urbano, a partir de uma demanda do poder público, como foi o caso do Ribeirão das Pedras. Dessa forma, é possível aplicar a mesma metodologia para realizar a leitura de outros territórios da cidade”, explica Boretti, que já adianta que, em 2016, será a vez do Projeto de Extensão “Parque Capivari Mirim”, na região próxima ao aeroporto de Viracopos. “Esses projetos possibilitam que os alunos enxerguem o território como um todo: desde as características territoriais e ambientais, passando pelos sistemas urbanos até as relações sociais que operam no local, compreendendo as características e as demandas específicas de cada lugar. Assim, os estudantes conseguem, por exemplo, conectar áreas verdes e espaços públicos, compreendendo o território urbano como um sistema integrado” ressalta.

Oficina realizada entre alunos bolsistas e técnicos da prefeitura - secretaraia do verde. / Crédito: Material de arquivo
Oficina realizada entre alunos bolsistas e técnicos da prefeitura – secretaraia do verde. / Crédito: Material de arquivo

O trabalho desenvolvido no Projeto de Extensão “Parque Linear Ribeirão das Pedras” considerou as características da população que não só mora no entorno, mas percorre ou cruza o território de extensão do Rio das Pedras, levando em consideração a renda, a forma de ocupação do lote, o tipo de comércio, relação domicilio- trabalho e renda, mobilidade urbana, uso e apropriação de equipamentos e espaços públicos.

“A convivência entre os estudantes do Projeto de Extensão e os gestores da Secretaria do Verde enriqueceu o aprendizado pela possibilidade de eles terem contato com diversos olhares sobre o mesmo “problema” de pesquisa, tendo de compreender o território estudado e a relação do mesmo com a restante da cidade de Campinas”, avalia.

Fábio Boretti considera que o estudo urbanístico tanto produzido para o Parque Linear Ribeirão das Pedras quanto o que será desenvolvido para o Capivari Mirim capacitará o poder público na proteção e recuperação do ecossistema ligado ao rio, conectando áreas verdes e espaços públicos, controlando as enchentes e proporcionando áreas verdes destinadas a atividades culturais e de lazer.

ensaio projetual para o parque linear / Crédito: Material de arquivo
ensaio projetual para o parque linear / Crédito: Material de arquivo

 

 

 

 

 

Metodologia:

O Parque Linear é um projeto urbano previsto no plano de desenvolvimento de Campinas.  A metodologia desenvolvida contemplou as etapas de coleta de dados, interpretação e análise, construção do diagnóstico urbano, elaboração de diretrizes de projeto e desenvolvimento de alguns ensaios.

O primeiro passo foi conhecer o local que seria estudado. Os alunos foram, literalmente, a campo para entenderem o lugar e as pessoas que ali moram e circulam; detectando quais eram os espaços públicos, suas especificas apropriações, linhas de ônibus, os espaços de lazer e cultura, ou seja, um mapeamento do território. Os alunos fizeram fotos do local e produziram um arquivo de foto aérea utilizando fontes e programas da internet e então elaboram uma planta do território estudado. Depois desse trabalho prático, os estudantes, junto com o docente orientador, se reuniram para debater o “objeto”, pesquisam bibliografias, artigos científicos e, assim, produziram as bases para a realização do estudo.

Por fim, tanto o processo quanto os resultados do trabalho foram compilados e sistematizados, com a finalidade de expor o desenvolvimento do projeto e criar uma referência para desafios futuros semelhantes que a Secretaria do Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável possa enfrentar.

 

 

Cidade Digital segregada

Pesquisa de mestrado desenvolvida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo aponta os desafios para a construção de um território digital

 

Por Amanda Cotrim

É possível falar em tecnologia sem falar em infraestrutura? Por acreditar que não era possível, Renato Manjaterra Loner decidiu estudar no seu mestrado esses dois espaços: o eletrônico e o físico, a fim de compreender o conceito de “Cidade Digital”, que tem como mote a inserção do município na sociedade da informação, possibilitando ferramentas digitais como a extensão do modo de vida de seus cidadãos.

Primeiro ponto de wifi do Campinas Digital, na Prefeitura, fica a 500 metros do bairro mais incluído da cidade – Crédito: Álvaro Jr.
Primeiro ponto de wifi do Campinas Digital, na Prefeitura, fica a 500 metros do bairro mais incluído da cidade – Crédito: Álvaro Jr.

“Eu entendo que cidade digital é a cidade onde o cidadão, além de ter acesso às benesses da sociedade informacional, tem condições de usufruí-las”. Sua pesquisa identificou, no entanto, que nem todos têm acesso aos serviços de uma cidade digital. O estudo considerou que a desigualdade no acesso está relacionada a outras desigualdades sociais, como saneamento básico, segurança pública, renda e escolaridade.

A dissertação trabalhou com dois exemplos opostos de inclusão: o bairro Cambuí, o mais incluído, segundo a pesquisa, e o bairro Cidade Singer, na região do Campo Belo, próximo ao aeroporto de Viracopos, como o bairro menos incluído. O critério utilizado pelo pesquisador foi a escolaridade, a quantidade de domicílios com computador conectado à internet e o rendimento familiar, segundo os micro-dados da amostra do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por setor censitário (conjunto de uma média de cem domicílios). “O primeiro ponto de wifi do Campinas Digital, na Prefeitura, fica justamente cerca de 500 metros do setor censitário mais incluído da cidade”, considera Manjaterra Loner.

O estudo criou três mapas da cidade de Campinas, a partir de três segmentos: conectividade, escolaridade e renda. “Em seguida, estabelecemos a média desses três indicadores e produzimos o quarto mapa, que distingue os setores censitários mais incluídos dos menos incluídos digitalmente e informacionalmente. A esse índice dei o nome de Índice de Segregação Digital, que foi composto por uma fórmula parecida com a do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano, da ONU)”, compara.

“A concentração de investimentos nos serviços da “cidade digital” obedece à mesma lógica de outros benefícios construídos na cidade, como áreas verdes, saneamento, iluminação, segurança, água, ou seja, são concentrados nos territórios mais ricos. Então, entendemos o motivo da Cidade Singer ser o último território incluído no Programa Campinas Digital. É porque é o bairro mais pobre, carente de outros serviços”, contextualiza.

Renato Mantejarra- Mestre em Arquitetura e Urbanismo
Renato Mantejarra- Mestre em Arquitetura e Urbanismo

O objetivo do estudo, segundo Manjaterra Loner, foi oferecer um subsídio científico para que a construção da “Cidade Digital” pelo poder público se pautasse pela universalização das benesses da informatização do território. “A falta de definição do que seja cidade digital é o que permite que a sua construção se dê ao gosto do gestor ‘da vez’. Com um índice que aponte os territórios mais carentes desse tipo de investimento; a municipalidade pode decidir onde investir”, ressalta.

O trabalho, segundo Manjaterra Loner, oferece à Prefeitura de Campinas um mapa detalhado de onde estão os pontos mais urgentes de investimento público em infraestrutura e tecnologia, para que a população tenha acesso à ‘nova era’. “Agora é possível enxergar onde estão os territórios segregados e formular políticas públicas de inclusão desses territórios”.

 

SERVIÇO

Para ter acesso a pesquisa completa, acesse o link

Ou encontre a pesquisa na Biblioteca da PUC-Campinas. Informações em: (19) 3343-7058

 

 

Convênio Brasil-Cuba na preservação de patrimônio

Projeto da PUC-Campinas mapeia os bairros Nova Campinas e Terrazas de Vista Alegre, nas cidades de Campinas e Santiago de Cuba, respectivamente. Pesquisa tem o financiamento da CAPES

Por Amanda Cotrim

Após vencer um edital de pesquisa da Coordenação do Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) em convênio com o Ministério da Educação de Cuba, em 2013, a PUC-Campinas realiza desde 2014 o projeto Cidade, Habitação e Patrimônio: experiências compartilhadas entre as cidades de Campinas e Santiago de Cuba, sob a coordenação geral da docente do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo, da Universidade, Profa. Dra. Cristina Schicchi. O objetivo principal é identificar e preservar patrimônios culturais em ambas as cidades, em especial, os recentes e modernos, além de discutir a preservação no âmbito do urbanismo, como os bairros propostos sob o modelo das cidades jardins, tanto no Brasil quanto em Cuba, a exemplo dos bairros jardins projetados pela Companhia City na capital paulista.

“Tanto o bairro Nova Campinas como o Terrazas de Vista Alegre surgem no século XX, num período histórico em que é possível compará-los. Os contextos em que esses bairros se desenvolvem, entretanto, são antagônicos e daí surge a curiosidade científica de compreender os processos históricos de cada um, para entender a realidade de ambos atualmente”, explica a Profa. Dra. Cristina, que também é a coordenadora da equipe de pesquisadores no Brasil, que conta com professores pesquisadores e alunos do curso de Pós-Graduação em Urbanismo da PUC-Campinas.

Terrazas de Vista Alegre/ Crédito: Arquivo da pesquisa
Terrazas de Vista Alegre/ Crédito: Arquivo da pesquisa

Além da produção científica entre Brasil e Cuba, o projeto prevê, ainda, um intercâmbio de docência, isso porque os professores de Cuba vêm ministrar aula na Universidade e os docentes da PUC-Campinas vão a Cuba lecionar, como aconteceu com o docente da Universidade de Oriente, de Santiago de Cuba, Prof. Dr. Carlos Alberto Odio Soto, que está realizando seu pós-doutorado na PUC-Campinas, sob a supervisão da Professora Cristina. “O Professor Carlos ministrou a disciplina Estudos Urbanos Latino-Americanos na pós- graduação em Urbanismo. Foi uma experiência maravilhosa e enriquecedora, porque os alunos puderem se aproximar das questões latino-americanas e compreender o processo histórico em Cuba”, considera a Coordenadora do projeto.

Bairro Terrezas de Vista Alegre pode perder característica, se novos inquilinos transformarem as casas sem um plano ou lei de preservação/  Crédito: Arquivo da pesquisa
Bairro Terrezas de Vista Alegre pode perder característica, se novos inquilinos transformarem as casas sem um plano ou lei de preservação/ Crédito: Arquivo da pesquisa

“Minha pesquisa está em andamento. Tenho, por enquanto, impressões visuais. Chamaram-me a atenção no bairro Nova Campinas os muros. Todos altos. Isso é totalmente diferente de Cuba. E tem dificultado a minha investigação científica. Não consigo fazer o trabalho de campo com facilidade, tenho que pedir permissão para entrar na casa”, revela Soto, que reconhece que a questão da segurança é um diferencial significativo entre os dois países.

Prof. Dr. Carlos Soto realiza pós-doutorado na PUC-Campinas/ Crédito: Amanda Cotrim
Prof. Dr. Carlos Soto realiza pós-doutorado na PUC-Campinas/ Crédito: Amanda Cotrim

De acordo com a Coordenadora do projeto, houve um esvaziamento do bairro Nova Campinas – de classe média alta – por causa da falta de segurança na região. “Boa parte dos moradores migraram para os condomínios fechados ou bairros mais afastados, a partir dos anos 1990. Há muitos inquilinos e muitas casas vazias. O bairro ficou congelado, porque não se pode mexer em suas construções”, explica. Segundo ela, o Nova Campinas chegou a ser indicado para tombamento como patrimônio histórico, mas o processo não foi encerrado ainda. “Esse também é um dos nossos objetivos, compreender como a dinâmica urbana interfere nos dois bairros analisados no projeto e quais os riscos para o patrimônio”.

Bairro Nova Campinas fica a 2 km do centro da cidade/ Crédito: Arquivo da pesquisa
Bairro Nova Campinas fica a 2 km do centro da cidade/ Crédito: Arquivo da pesquisa

No bairro Vista Alegre, em Santiago de Cuba, há uma preocupação dos pesquisadores e do governo cubano em relação a essa nova conjuntura política e econômica em Cuba. Com a venda de imóveis, as casas preservadas pela Revolução Cubana agora podem transformar-se. “Os casarões de Terrazas de Vista Alegre, por exemplo, são antigos, pertenciam a um bairro de classe média alta antes da Revolução Cubana; eram verdadeiros palacetes. Depois, os casarões foram destinados a instituições de governo e à habitação. Mas agora que os imóveis podem ser vendidos, se os novos proprietários decidem transformar as casas sem ter um plano ou lei de preservação, isso pode descaracterizar o bairro”, teme Soto. Já no bairro Nova Campinas, a pressão é para que o comércio avance na região. “Mas o comércio também pode descaracterizar o patrimônio”, pontua Cristina.

A pesquisa conjunta sobre os dois bairros deve ser encerrada em 2017. Além do projeto central de comparação entre Nova Campinas e Terrazas de Vista Alegre, há pesquisas paralelas que envolvem Brasil e Cuba, realizadas por professores pesquisadores e alunos, como é o caso do estudo da Prof. Dra. Renata Baesso, que pretende fazer um paralelo entre a formação das cidades de Campinas e Cuba, principalmente em razão do patrimônio das fazendas de café em ambos contextos. Ou como fez o também pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo, Prof. Dr. Wilson Ribeiro dos Santos Jr., que foi a Cuba ministrar um curso sobre urbanismo e realizar uma pesquisa sobre os espaços públicos no bairro de Terrazas de Vista Alegre e a aluna de mestrado Helena Vilela Santos, que também está fazendo um estudo comparativo entre as praças do centro de Santiago de Cuba e de Barra Mansa (RJ) sob a orientação da Profa. Cristina.

“Independentemente de resultados científicos, o projeto está sendo muito enriquecedor. Nos cursos de Arquitetura e Urbanismo, por exemplo, nossa discussão é muito voltada para a relação entre arquitetura e cidade. Somos muito urbanos, quase 80% da população da América Latina está nas cidades”, comenta a professora Cristina. “Já em Cuba, ao contrário, após a Revolução, se investiu num conhecimento muito mais profundo sobre planejamento e construção no campo”, completa o Prof. Soto. “No final de tudo, o intercâmbio acadêmico é que enriquece as nossas pesquisas”, resume Cristina.

 Confira os participantes das equipes no Brasil e em Cuba

Pesquisadores brasileiros: Profa. Dra. Maria Cristina da Silva Schicchi (Coordenadora), Prof. Dr. Wilson Ribeiro dos Santos Jr. e Profa. Dra. Renata Baesso, pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da PUC-Campinas.

Pesquisadores cubanos: Profa. Dra. Arq. Milene Soto Suárez (Coordenadora), Prof. Dr. Arq. Carlos Alberto Odio Soto e Profa. Dra. Arq. Maria Teresa Muñoz Castillo, pesquisadores da Universidad de Oriente, Facultad de Construcciones, Departamento de Arquitectura y Urbanismo.

SERVIÇO: 

Em setembro, nos dias 14 e 15, a PUC-Campinas realizará o evento “Jornadas em Urbanismo – Brasil e Cuba”, com palestras e oficinas entre alunos, professores do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo e os pesquisadores cubanos que virão para Campinas em missão de trabalho e estudo.

 

PUC-Campinas Informa

Colóquio “A identidade da Universidade Católica: em comemoração aos 25 anos da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae

A PUC-Campinas recebe nos dias 6 e 7 de maio de 2015 o Colóquio A identidade da Universidade Católica: em comemoração aos 25 anos da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae”, que contará com a presença do Prefeito da Congregação para a Educação Católica, sua Eminência Reverendíssima Cardeal Zenon Grocholewski. O evento é organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da Universidade e será realizado no auditório Dom Gilberto, no Campus I da PUC-Campinas.  As inscrições para o Colóquio podem ser feitas até o dia 4 de maio de 2015, pelo site da Universidade.  A emissão de certificados de participação será realizada mediante a inscrição e participação no evento.

No dia 9 do mesmo mês, o Cardeal Zenon Grocholewski celebrará uma missa na Catedral Metropolitana de Campinas

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Projeto capacita cooperativas de coleta seletiva

 O projeto de extensão da PUC-Campinas ambiciona a profissionalização das cooperativas de catadores assessoradas pelo Centro de Referência em Cooperativismo e Associativismo (CRCA)/RECICLAMP por meio da elaboração de um Plano de Negócios, com vistas a garantir a evolução do negócio e sua sustentabilidade. Atualmente, estão associadas à RECICLAMP (além da própria) as cooperativas: Antônio da Costa Santos, DiviPaz, Projeto Reciclar, Recoopera, São Bernardo e Unidos pela Vitória.  Ao todo, são cerca de 150 pessoas trabalhando nas cooperativas.Em termos socioeconômicos, as receitas líquidas geradas – deduzidos os custos e encargos – proporcionaram uma renda média mensal em torno de R$ 710.

Apesar de representar um ganho para muitos dos cooperados, havia a percepção entre o CRCA/RECICLAMP e os cooperados que essa realidade poderia ser melhorada com o desenvolvimento de um Plano de Negócios. As atividades propostas acontecem por meio de oficinas temáticas que associam os elementos do Plano de Negócios as questões e situações experimentadas pelas cooperativas. Saiba mais, clicando aqui. 

 Urbanista Raquel Rolnik na PUC-Campinas

 A filósofa e urbanista Raquel Rolnik realizou palestra sobre o tema “Direito à cidade: Porque nossas cidades continuam tão precárias?”, no dia 16 de março de 2015. O evento fez parte do Ciclo de Palestras do Programa de Educação Tutorial (PET) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Durante o evento, Raquel ressaltou ser preciso que os arquitetos e urbanistas presentes se inclinassem sobre questões como o acesso à cidade enquanto direito de todos e a visão política sobre a cidade. Raquel Rolnik graduou-se em Arquitetura e Urbanismo e Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), onde atualmente faz parte do corpo docente. Realizou o Mestrado também pela USP e o Doutorado pela New York University (NYU) e fez parte do corpo docente da FAU da PUC-Campinas entre os anos de 1985 e 2007. Foi Diretora de Planejamento da Cidade de São Paulo (1989-1991), além de relatora especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU para o Direito a Moradia Adequada (2008-2011 e 2013-2014).

O meio ambiente é onde os problemas moram

Por Amanda Cotrim

Já foi o tempo em que o Meio Ambiente estava associado à flora e à fauna. Isso mudou. Sua concepção hoje é a do lugar que é habitado. Com as cidades cada vez mais populosas, o Meio Ambiente é também urbano. É nesse lugar que o Conselho Municipal do Meio Ambiente (COMDEMA) de Campinas atua, como garantem as representantes da PUC-Campinas no COMDEMA, Profa. Dra. Nícia Barbin e Profa. Dra. Laura Bueno. O Conselho, que é deliberativo, não só aconselha como decide sobre os projetos do município.

Profa Dra Laura Bueno e Profa. Dra. Nícia Barbinb (Foto: Álvaro Jr).
Profa Dra Laura Bueno e Profa. Dra. Nícia Barbinb (Foto: Álvaro Jr).

Segundo a docente na Faculdade de Biologia e titular no Conselho Municipal do Meio Ambiente, Profa. Dra. Nícia Barbin, licenças para as concessões de obras na Rodovia Dom Pedro I, no Aeroporto de Viracopos e na continuação da Avenida Mackezine, em Campinas, foram as pautas mais discutidas pelo Conselho, em 2014. “Além dessas demandas, a revitalização do centro, a crise hídrica e a dengue foram discutidas e trabalhadas pelo Conselho”, contou.

Profa. Dra. Nícia Barbin é a titular no Conselho do Meio Ambiente (Foto: Álvaro Jr).
Profa. Dra. Nícia Barbin é a titular no Conselho do Meio Ambiente (Foto: Álvaro Jr).

Para a suplemente da PUC-Campinas no COMDEMA, a docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade, Profa. Dra. Laura Bueno, o Meio Ambiente é uma área extremamente interdisciplinar, em que moram muitos conflitos. “O estado de São Paulo tem a melhor legislação de Meio Ambiente, porque é o estado que tem mais problemas”, ressalta.

De acordo com as docentes, o COMDEMA, além de ser um conselho deliberativo, também possui diversos grupos de trabalhos, como o grupo que estuda o uso do solo, a educação ambiental, os resíduos sólidos, entre outros temas. Se uma rua precisar ser aberta e um empreendimento construído, o grupo de trabalho estuda o caso; se ele entender que não é um projeto viável para o Meio Ambiente, leva a argumentação para o plenário do COMDEMA, que vota. Universidades, como a PUC-Campinas e a Unicamp, são muito solicitadas a participar desses grupos técnicos, em razão do conhecimento científico que os representantes possuem. “É muito importante haver a participação da população, porque é a preocupação com a cidade que a gente pretende ter”, considera Nícia. “Todos os alunos da Universidade deveriam, pelo menos uma vez, assistir às reuniões. Qualquer pessoa pode participar das reuniões e opinar, não podendo, no entanto, votar; é uma experiência de cidadania contemporânea fundamental, mas poucos sabem e praticam isso”, completa a Professora Laura.

Profa Dra. Laura é suplemente no COMDEMA
Profa  Laura é suplemente no COMDEMA Foto: Álvaro Jr. 

As representantes da PUC-Campinas explicam que a participação de pesquisadores e docentes da área dá legitimidade para as discussões dos projetos, porque são respaldadas no conhecimento científico. “As nossas falas são sempre ouvidas com muita atenção”, acrescenta a docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo quanto à importância de se ter instituições de ensino e de pesquisa participando da administração pública de uma cidade.

O Conselho Municipal do Meio Ambiente foi criado em 24 de maio de 2001 e é deliberativo, isto quer dizer que o COMDEMA tem a responsabilidade de votar, aprovar ou reprovar os projetos municipais que vão ao encontro da pasta. Atualmente, o Conselho conta com 30 membros.

“Existe participação real da Universidade no debate sobre os problemas da cidade”, afirma representante da PUC-Campinas no CMDU

Mobilidade Urbana

Com as manifestações de junho de 2013, que inicialmente reivindicaram melhores condições de transporte e a redução da passagem de ônibus, o debate sobre mobilidade urbana se aflorou. Além de fenômenos sociais, como as manifestações, também é possível participar do debate político sobre questões que interessam toda a sociedade, por meio dos Conselhos Municipais. Em Campinas, são 34 Conselhos e seus Conselheiros (titular e suplente) têm atuação por dois anos, podendo ser renovados. Tanto o titular como o suplente somam um voto.

A PUC-Campinas participa de 12 Conselhos Municipais. São eles: Proteção e Defesa dos animais, Trânsito e Transporte, Habitação, Saúde, Ciência e Tecnologia, Meio Ambiente, Alimentação Escolar, Entorpecentes, Defesa do Patrimônio Cultural, Educação, Segurança Alimentar e Desenvolvimento Urbano. O Jornal abordará, ao longo das edições, a participação dos Conselhos que representam a Universidade no debate público. Nesta edição, o tema é “Mobilidade Urbana”. Para conversar sobre esse assunto, o Jornal da PUC-Campinas convidou os representantes da Universidade no Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano (CMDU), os docentes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Prof. Me. Fábio Muzetti e o Prof. Me. João Verde, titular e suplente, respectivamente.

O que é o Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano e como ele funciona?

Prof. Me. João Verde (J.V.): De acordo com o Estatuto da Cidade, todo o município tem de ter Conselhos variados para que a sociedade possa participar das decisões sobre os problemas da cidade.

O CMDU é um Conselho Consultivo que fornece apoio à legislação urbana criada pelo executivo ou pelos vereadores. Todas as leis de âmbito urbanístico, como o plano diretor, mobilidade, habitação, entre outros, são discutidas no CMDU. Pelo Estatuto dos Conselhos Municipais, as universidades têm direito à participação, sem terem de ser escolhidas. Cada Conselho tem um número de entidades que participam.

No CMDU, além da PUC-Campinas, que tem acento permanente, participam associações de bairro, de classe, associações técnicas – como arquitetos e engenheiros.

Prof. Me. Fábio Muzetti (F.M.): O trabalho é voluntário. Nos reunimos uma vez por mês, apresentamos propostas, damos parecer sobre projetos de lei, porque, às vezes, a ideia é boa, mas inaplicável. Além disso, é importante lembrar que nem todos os Conselhos Municipais de Campinas são deliberativos, ou seja, que têm poder de decisão. A maioria é consultivo, como é o caso do CMDU. Para se tornar deliberativo é preciso alterar a lei orgânica do município. Contudo, está tramitando uma lei federal da Presidenta Dilma, que quer transformar todos os conselhos em deliberativos.

Como o tema “Mobilidade Urbana” vem sendo discutido no CMDU?

J.V.: Andar a pé é mobilidade urbana. O grande erro é não reconhecer isso. Se a cidade fosse criada para ser mais densa, com atividades de comércio e lazer perto de casa, num raio de 500 metros, estaria tudo resolvido. A pessoa se movimentaria a pé, de bicicleta e, eventualmente, pegaria ônibus. O investimento seria mais bem direcionado. Isso traria diversas facilidades. Muita gente pensa que mobilidade urbana é só ônibus. O poder público necessita ver como a cidade precisa funcionar como um todo. Se a população puder evitar o transporte, melhor ainda.

Qual é a avaliação da proposta das Ciclovias e como ela é tratada no CMDU?

F.M.: Em Chicago, a ciclovia funciona. Mas lá a cidade é plana. Em Campinas, a condição tomográfica é mais complexa. Não são todos os lugares possíveis. Muita gente não tem condicionamento físico; tem a alta temperatura, enfim, fatores que, muitas vezes, não são percebidos.

Qual é o maior desafio enquanto Conselheiros?

F.M.: Infelizmente, os assuntos são tratados em pastas distintas: transporte, urbanismo, infraestrutura. Portanto, eles aparecem separadamente, quando são questões interdisciplinares. Nosso maior desafio como Conselheiros é articular essas ações. As leis vêm “picadas”; o político, às vezes, não pensou no reflexo de determinada lei em outras áreas. Ele pensou somente na tarifa, ou somente no percurso do ônibus, por exemplo.

O que vocês destacariam de melhor no CMDU?

F.M.: A interdisciplinaridade do Conselho é importante: existem advogados, políticos, engenheiros. São, aproximadamente, 25 conselheiros no CMDU e cada entidade conta com dois conselheiros. Eu e o Professor João Verde somos um voto, representando a PUCCampinas.

J.V.: Existe a participação real da Universidade no debate sobre os problemas da cidade, pois não é somente a nossa opinião, mas questões que estão em sala de aula, no dia a dia. Levamos os debates para os alunos e vice-versa. Realizamos, recentemente, um seminário com professores da PUC-Campinas na Prefeitura para falar sobre a revitalização do centro de Campinas.

Qual é a motivação de vocês para serem conselheiros?

J.V.: Melhorar a cidade e participação social. Porque para mim, é uma questão crucial do nosso trabalho como profissional, que não se resume somente em ser professor, mas ser alguém que está trabalhando pela cidade.

F.M.: Eu destaco que uma das motivações é sair do espaço acadêmico e mostrar o conhecimento que a Universidade produz.

J.V.: Sem contar o impacto da participação da PUC-Campinas nos Conselhos Municipais refletido em sala de aula, com os alunos lendo as notícias, vindo perguntar e pesquisar. Isso gera interesse por parte deles. Algo muito importante para o desenvolvimento e a capacitação que a Universidade oferece aos alunos.

Foto: Álvaro Jr. Representante da PUC-Campinas no CMDU, Prof. Me. Fabio Muzetti
Foto: Álvaro Jr.
Representante da PUC-Campinas no CMDU, Prof. Me. Fabio Muzetti