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TOME CIÊNCIA: Cresce o número de casos de violência contra pessoas com deficiência

O número de casos de violência contra pessoas com deficiência na região de Campinas teve um aumento de 35%.  Em 2014 foram registrados 1.074 ocorrências, já em 2015 este número saltou para 1.441 registros. Os dados são da Secretária da Pessoa com Deficiência da Prefeitura de Campinas, registrados por meio do Centro de Referência da Pessoa com Deficiência (CRPD).

“Muitas vezes a violência não é só física, é também moral, ou uma discriminação, por exemplo.  O CRPD tem o papel de fazer o acolhimento primeiramente, com a dupla de profissional de psicologia e assistência social e na seqüência encaminha a pessoa para os demais serviços públicos que possam acolher o caso”, explica a Secretária da Pasta, Emanuelle Alkmin. Para ela, o aumento de 35% é preocupante. “Esta é uma violência contra a parte mais frágil da sociedade. Muitas vezes a pessoa com deficiência não tem como se defender. Sabemos ainda que muitas pessoas com deficiência ainda não têm coragem de fazer a denúncia, por que a violência muitas vezes acontece dentro de casa”.

As denúncias podem ser registradas diretamente no Centro de Referência da Pessoa com Deficiência (telefone 3231-6940), pelo telefone 156 ou no Ministério Público. Todas as denúncias são encaminhadas para a Secretaria e tem acompanhamento de uma psicóloga e assistente social.

A Secretaria da Pessoa com Deficiência informa que ainda não é possível traçar um perfil das vítimas, como as características sobre os tipos de deficiências, gênero, cor ou classe social. Segundo a Secretária, as denúncias mais freqüentes são física, moral, ou discriminação.

Nova lei fixa prisão para quem discriminar pessoa com deficiência

O Estatuto da Pessoa com Deficiência, espécie de marco legal para pessoas com algum tipo de limitação intelectual ou física, classifica o que é deficiência, prevê atendimento prioritário em órgãos públicos e fixa pena de reclusão de 1 a 3 anos para quem discriminar pessoas com esse perfil. A pena é ampliada em 1/3 se a vítima encontrar-se sob responsabilidade do agente e pode chegar a cinco anos de prisão caso a discriminação seja cometida por meios de comunicação social. Apropriar-se de bens e benefícios de pessoas com deficiência também pode render reclusão de até quatro anos. Além disso, o Estatuto prevê auxílio-inclusão para a entrada no mundo do trabalho, 10% das vagas em processos seletivos de cursos de ensino superior, técnico e tecnológico, além de prever mudanças no Estatuto da Cidade. O presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Conade), Flávio Henrique de Souza, disse que a entidade vai cobrar e fiscalizar o cumprimento do estatuto para os cerca de 45 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência.

 

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Coluna Pensando o Mundo: OSCAR ROMERO: SERVO DE DEUS, ARAUTO DA PAZ

Por Wagner Geribello

“Peço, suplico, ordeno: cessem a repressão”

Essas palavras, ditas de modo contundente e direto, endereçadas aos grupos de extermínio e ao governo salvadorenho, estavam na homilia pronunciada por Oscar Romero, em 23 de março de 1980. No dia seguinte, um atirador de elite do exército interrompia a vida e a missão humanitária do arcebispo de El Salvador, que combateu o bom combate em favor da paz, levando ao extremo a opção cristã pelos oprimidos.

El Salvador, palco da tragédia em que o assassinato de Oscar Arnulfo Romero Galdámez foi o capítulo mais traumático, mas não o único, integra a lista das nações exploradas e atormentadas pelas consequências perversas dos modelos econômicos contemporâneos: concentração de renda, pobreza extrema, violência, brutalidade e o ostracismo ao qual o mundo “evoluído” condena os desvelados.

Monsenhor Oscar Romero/ Crédito: divulgação
Monsenhor Oscar Romero/ Crédito: divulgação

Apesar do dedo no gatilho creditado a um militar da Guarda Nacional salvadorenha, o tiro que matou o arcebispo foi disparado muito antes, no final do Século XIX, quando, por decreto, o governo expropriou as “tierras comunales”, entregues à oligarquia rural, consolidando a monocultura cafeeira de exportação (principalmente para os Estados Unidos) que transformou o campesino em assalariado de baixo ingresso. Daí para frente, a história salvadorenha só fez ampliar a desigualdade, gerando uma elite abastada e poderosa, que não ultrapassa 2% da população e detém 80% da propriedade de terras, ficando, na outra ponta, o grosso da população, a serviço da oligarquia, enquanto mão de obra barata. Em dezembro e janeiro, por exemplo, as aulas são interrompidas, para concentrar o maior volume de braços na colheita do café. Quando a colheita acaba, os trabalhadores são dispensados e o pagamento de salários interrompido, até a próxima safra.

O cenário polarizado, com distribuição de renda próximo de zero, gerou a sucessão de levantes populares e repressão das oligarquias que fazem a história do país. O desespero da pobreza, de um lado, e o apego inegociável ao poder, de outro, formam o caldo de cultura que alimenta e faz crescer a violência. Estimativas referentes à guerra civil, por volta de 1990, apontam números como 80 mil mortos, dos quais 30 mil assassinados, além de qualquer coisa próxima de 10 mil desaparecidos, para um contingente de seis milhões de habitantes. Aliciamento e recrutamento de crianças, ação de milícias e tropas paramilitares orientadas exclusivamente pela violência, destruição de vilarejos inteiros, impunidade dos organismos repressores governamentais e total ausência da justiça são apenas algumas linhas que tecem a trama da violência salvadorenha.

Interessado na manutenção do feudo econômico e sob a desculpa da contenção do comunismo internacional, os Estados Unidos, durante os governos Carter, Reagan e Bush, injetaram cerca de sete bilhões de dólares para armar e pagar militares e paramilitares, levando alguns deles para a Escola das Américas, centro de doutrinação e treinamento de agentes da repressão, militares e policiais de nações latino-americanas, instruídos em tortura, atentados, assassinatos e outras perversidades, com direito a diploma e atestado de “bom aproveitamento”. Há indícios de que o assassino de Romero passou pela famosa e famigerada escola.

Por sua vez, a esquerda, alinhada com as classes populares, também aliciou, doutrinou e recrutou, organizando grupos armados e financiados a partir do exterior, como a Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional.

Assim polarizado, El Salvador chegou à segunda metade do Século XX mergulhado em conflitos sangrentos, que motivaram Romero, como inspirador pacifista, a erguer a voz pelo fim da violência.

A resposta foi o atentado de 24 de março de 1980, na Capela do Hospital Divina Providência, em San Salvador, durante a celebração eucarística por intenção de Sara Meardi Del Pinto, mãe do jornalista Jorge Pinto. Disparado para calar um chamado à paz, o tiro interrompeu a missa e pôs fim à vida de Oscar Romero, aos 63 anos.

Oficialmente, autoria (disparo) e responsabilidade (mandantes) pela morte do arcebispo não foram elucidadas e, portanto, os responsáveis não pagaram pelo crime. Apesar dos acordos de Chapultepec, que marcaram o fim da guerra civil, as condições sociais, políticas e econômicas em El Salvador continuam as mesmas e a violência extremada faz parte do cotidiano nacional.

A voz de Romero, entretanto, não foi calada. Da ONU ao Vaticano, passando por entidades governamentais e não governamentais, algumas religiosas, outras não, nos quatro cantos do planeta o magnicídio é constantemente relembrado e a mensagem cristã de Romero – beatificado pelo Papa Francisco no começo deste ano – volta a ecoar, pedindo, suplicando, ordenando o fim da violência, da injustiça e da desigualdade, em El Salvador, assim como em todos os lugares, entre os seres humanos, todos.

EDITORIAL: A velocidade com que a violência se impõe

O conceito do brasileiro cordial já rendeu muito “pano pra manga”, na Academia e fora dela, começando pela paternidade, que uns atribuem ao escritor santista Ribeiro Couto e outros ao historiador Sérgio Buarque de Holanda.

Entretanto, independentemente da origem, teses, propostas, ensaios e muito palpite já permeou conversas e textos exaltando ou questionando a cordialidade da gente brasileira, com sensível acréscimo das dúvidas e desconfianças nos tempos atuais, quando a violência praticamente sufoca anseios ou esperanças de relações sociais baseadas na gentileza.

Ciente e consciente da intensidade e velocidade com que a violência se impõe entre nós, a equipe do Jornal da PUC-Campinas abriu espaço para manifestações de alunos e professores sobre o tema, expresso nas reportagens, artigos e entrevistas desta edição, inteiramente voltada para a reflexão sobre a violência.

Tematizada na violência e mais precisamente na violência que existe mais próxima de todos nós, vale dizer, no Brasil de hoje, a edição traz artigos que tratam da banalização da violência, matérias sobre a agressão física e psicológica que permeia o trote universitário, passando pelo questionamento das pessoas e instituições que usam e abusam da violência, quando deveriam atuar em sentido inverso, como a polícia e profissionais do Poder Judiciário. Para embasar reflexões e questionamentos sobre essa temática, a edição também traz excelente entrevista sobre ética e moral.

Nesta edição, reportagens e artigos que abordam a temática da violência, mostram o comércio de armas, as conseqüências da imprudência no trânsito e os distúrbios de ordem emocional causados pela exposição ou convivência com a violência.

Ações antiviolência também integram o conteúdo da edição de abril/2015, incluindo matéria sobre a Pastoral Carcerária na Região de Campinas, mostrando como e porque os voluntários decidem enfrentar a questão, convivendo – e ajudando – grupos sociais envolvidos com a violência. De quebra, a matéria ainda deixa um recado esclarecedor para pessoas que atribuem à Pastoral Carcerária a questionável missão de “alisar a cabeça” de indivíduos que, de alguma forma, violentaram a sociedade.

Formas de violência dissimuladas, mas, nem por isso, menos predatórias, também integram o elenco de matérias, como o racismo e agressão contra formas de vida que não podem reclamar quando são violentadas, como as florestas, dizimadas pela sanha das motosserras à razão de muitos hectares ao dia. A resposta, mostram estudos e análises, também é violenta: por conta da falta de florestas, crises hídricas contínuas e crescentes ameaçam a geração de energia, o abastecimento dos aglomerados urbanos e a produção de alimentos.

No comentário de cinema, uma proposta de reflexão sobre relações de causa e efeito entre a imagem na tela e o comportamento social. Afinal, cinema estimula a violência social, ou a sociedade estimula a crescente inserção de violência no cinema?

O tema desta edição, sabemos todos, não é bonito, nem agradável, mas o primeiro passo para recobrar e fazer valer a sociedade de homens cordiais, que ilustra o capítulo V do clássico Raízes do Brasil, é encarar a violência e agir para acabar com ela.

Vai aqui, portanto, uma edição do Jornal da PUC-Campinas que pretende deflagrar reflexões e estimular (re)ações.

Espaço Pró-Reitoria de Administração

Segura é assunto sério

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Por Pró-Reitoria de Administração

Para contribuir para a segurança nos campi, a PUC-Campinas dispõe de corpo de segurança próprio composto por Vigias e Inspetores de Alunos que atuam nos campi em postos fixos ou móveis. Em complemento às atividades, são utilizadas motocicletas e automóveis com identificação visual e luminosa.

 Todos os integrantes do serviço recebem treinamento rotineiro que tem como objetivos principais o adequado atendimento ao público, a atuação preventiva por meio da ostensividade, a orientação à Comunidade Interna e a garantia de ambientes seguros.

Como equipamentos auxiliares, a Universidade dispõe de modernos aparelhos de rádiocomunicação e de sistema de câmeras de monitoramento, controlados por uma Central de Emergência, cuja intervenção pode ser solicitada pelo telefone 3343-7387. Registre-se, também, o constante relacionamento com os órgãos de segurança pública para a atuação nos ilícitos que ocorrem na área externa da Instituição. Nesse sentido, a Universidade faz-se representar nas reuniões mensais dos Conselhos de Segurança Comunitária, Integrado de Polícia e de Trânsito e Transportes.

A Pró-Reitoria de Administração é responsável pela Segurança nos campi/ Crédito: Álvaro Jr.
A Pró-Reitoria de Administração é responsável pela Segurança nos campi/ Crédito: Álvaro Jr.

Vale lembrar que segurança é dever de todos, daí seguem algumas dicas para a Comunidade Interna:

 – mantenha os objetos pessoais sob sua guarda;

– estacione seu veículo nos bolsões internos e nas vagas demarcadas para tal;

– respeite a sinalização de trânsito interna;

– dê preferência para os pedestres;

– respeite as restrições da Lei Antifumo e das normas internas;

– utilize caixas eletrônicos em locais que tenha movimento de pessoas;

– transite em grupo na área externa da Universidade;

– não porte, ostensivamente, objetos ou valores;

– denuncie ilícitos pelo telefone 3236-3040 e utilize a opção do registro eletrônico de ocorrências pelo site da Secretaria de Segurança Pública.

Coluna Pensando o Mundo: Cultura de Paz

Campanha da Fraternidade 2015 – “Eu vim para servir” (cf. Mc 10,45)

O cartaz da Campanha da Fraternidade que, por tantas vezes, foi idealizado segundo a temática própria de cada ano pela PUC-Campinas, traz, neste ano, a conhecida imagem do Papa Francisco realizando a cerimonia do lava pés, na quinta-feira Santa. A comovedora imagem do Papa que lava os pés de menores reeducados e que nem sequer, por motivos de segurança, puderam mostrar seu rosto, nos transmite não só o memorial litúrgico da Semana Santa, mas a laboriosa observância do mandado recebido do Senhor: Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também (Jo 13, 13-15).

Curiosamente, a palavra de Jesus ainda ecoa contraditória num tempo tão marcado por violências, desencontros e eufemismos vazios. Numa massificada cultura da prosperidade sem limites, na qual cada um quer ter a resposta final em tudo, o que vale mais será o resultado financeiramente visível. Nesse contexto, é realmente desafiador se imaginar ser servidor da Paz. Até mesmo a própria “paz” deixou para muitos de ser uma atitude pessoal primária e tornou-se artigo de luxo, organizado e articulado em pautas das mais variáveis mesas de debates. Nesse sentindo, é realmente espantoso que Deus feito homem venha nos dizer: Porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos (Mc 10,45).

Ser servidor da Paz é ser anunciador convicto de uma nova humanidade que, marcada pela desordem do passado e até do presente, se lança corajosa e confiante à escuta do Evangelho. Não é ser alheio ao mundo, mas estar no meio dele com nossos esforços diários em nossas subidas e descidas e acreditar na possibilidade da existência não pautada no vazio frio do relacionar-se distante e comercial, mas na sustentada e acalentadora mão estendida de Deus, que nos direciona para a comunhão. Isso não implica uma negação da ordem existente, mas a transformação dela, na crença que nosso cotidiano, que pode ser tão monótono e terrível, seja transformado numa capacidade de entender a graça surpreendente do amor divino que se apresenta num sorriso, numa mão estendida num gesto de confiança.

Foto Coluna Pensando o Mundo Cultura de Paz

Vir para Servir é justamente olhar confiante para o próximo, reclamar sua conduta coerente em meio a sua responsabilidade comum, é ser um samaritano para tantos feridos nas estradas de nosso tempo; é denunciar os erros que violam os direitos e fomentar a justiça que está atenda a todos. Tarefa evidentemente nada fácil e até insuperável se não for alicerçada pelo Evangelho. O mesmo Evangelho que fez Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce e tantas outras pessoas de boa vontade se colocar no meio da violência como semeadores da Paz. Aliás, se colocar neste caminho é se encontrar na mira da perseguição, da incompreensão é ser alvo das articuladas forças que lucram com o mal.

Não é raro encontrarmos muitos que se prostram cansados, desanimados e não compreendidos por terem, no meio desse campo de guerra, se lançado na semeadura da paz. Ser servidor do próximo, da paz do bem não é tarefa simples e nem pode ser ideológica ou de modismo é sim ser como disse o Papa Francisco aos Jovens no Rio de Janeiro “sejam revolucionários”. Revolucionários do Amor de Deus, que acolhe, perdoa e aponta o caminho da mudança da misericórdia que caminha com a justiça. Da violência que é destruída pelo perdão. Nesse sentido, mais uma vez é Jesus quem nos ensina, pois após ter sido traído, violado em todos os seus direitos e levado para a desonrosa morte na cruz ele perdoa, e ao perdoar nos abre um caminho novo, o caminho da Paz.

Assim, num tempo marcado pela violência, pela luta desumana de interesses privados, pela massificação da pessoa reencontraremos nosso verdadeiro existir quando despojados de tudo isso nos colocarmos em frente ao nosso próximo numa atitude evangelicamente fraterna. Estar a serviço não é estar em submissão, mas estar perante a grandeza de Deus que nos aceita, nos encontra e nos ama. Não obstante a violência que nos cerca é admirável a mensagem de Jesus Cristo que, ao ressuscitar, depois de ter perpassado por toda a sua vida, ser traído, injustiçado, maltratado e assassinado, deixa como mensagem aos Apóstolos: Deixo-vos a paz; a minha paz vos dou. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não permitais que vosso coração se preocupe, nem vos deixeis amedrontar (Jo 14, 27). Feliz Páscoa a todos!!!

Prof. Dr. Adriano Broleze é Doutor em Direito Canônico e Docente na PUC-Campinas

A violência contra as florestas e a crise hídrica do Sudeste Brasileiro

Por Rafael Faria

No dia 21 de março, comemorou-se o Dia Internacional das Florestas e, não por acaso, no dia 22, o Dia Mundial da Água. As florestas estão intimamente relacionadas à disponibilidade de recursos hídricos no planeta. A Terra, chamada pelo astrônomo Carl Sagan de pálido ponto azul, possui a maior parte de sua crosta coberta por água, mas apenas uma ínfima parte desta é água doce e líquida. Uma pequena porção que necessita das florestas para que se mantenha perene e conservada. As áreas florestais do globo são verdadeiras usinas de serviços ambientais: a produção e a purificação da água representam apenas dois deles. Nesse contexto, o desmatamento é uma das piores formas de violência contra o meio ambiente e contra a humanidade.

O desmatamento é uma das piores formas de violência contra o meio ambiente e contra a humanidade/  Crédito: Álvaro Jr.
O desmatamento é uma das piores formas de violência contra o meio ambiente e contra a humanidade/ Crédito: Álvaro Jr.

Desde a segunda metade de 2012, a crise hídrica no Sudeste brasileiro vem se agravando e pode ser consequência dessa interação violenta com as florestas do Brasil. A população passou por verões anomalamente secos, em especial, em 2014. É certo que as razões para a diminuição do regime de chuvas são complexas e não há uma única resposta para a pergunta: “por que não choveu?”. Muitos especialistas apontam que o desmatamento deve ter participação crucial nesse cenário.

O Sudeste brasileiro está inserido em latitudes médias, em que, normalmente, em outras porções do globo, há condições climáticas de aridez, pois os ventos vindos de latitudes baixas chegam secos. Muitos acreditam que o Sudeste brasileiro e as regiões próximas não são desérticos graças às massas de ar úmidas que aqui chegam provindas, principalmente, da Amazônia.

As árvores de uma floresta funcionam como verdadeiras bombas bióticas que, por meio da evapotranspiração, produzem vapor d’água para a atmosfera. Normalmente, os ventos úmidos vindos do litoral vão ficando cada vez mais secos à medida que adentram o continente, mas, na Amazônia, os ventos vindos do Atlântico se mantêm úmidos até o interior do continente, graças à referida bomba biótica. Parte desse vapor d’água é transportado até as latitudes médias, até o Sudeste brasileiro. Tais massas de ar úmido são conhecidas como “rios voadores”, um nome apropriado, dado que a quantidade de água bombeada, diariamente, para a atmosfera, pela Floresta Amazônica, é maior do que a quantidade de água diariamente transportada para o Oceano Atlântico pelo Rio Amazonas.

O que acontece, então, quando a usina de serviços ambientais amazônica é tratada com violência? Sem tentar responder a complexa pergunta de “por que pouco choveu nos últimos anos” com uma única resposta, é tentador e é lógico de se pensar que o desmatamento da Floresta Amazônica certamente pode ter consequências no regime hídrico da Região Sudeste.

As florestas, além de atuarem como bombas bióticas, são cruciais para a infiltração da água que chove, para a manutenção das reservas subterrâneas e perenidade das nascentes. As bacias de captação das principais represas do Sistema Cantareira estão extremamente degradadas, com pouca cobertura vegetal nativa. Se há pouca floresta, há baixo índice de infiltração da água e, portanto, as reservas subterrâneas podem não ser suficientes para evitarem que uma nascente seque em uma época de aridez.

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Dessa forma, há também de se pensar que a crise hídrica pode ser resultado da violência contra as florestas da Região Sudeste. Assim, na Amazônia, não tão próxima, ou na Mata Atlântica e no Cerrado, é urgente que a valoração do meio ambiente se torne pauta política prioritária e que a violência contra as usinas de serviços ambientais seja amenizada.

 Prof. Dr. Rafael Faria é docente na Faculdade de Engenharia Ambiental e Faculdade de Ciências Biológicas da PUC-Campinas

 

Comércio de armas não pode ser defendido economicamente

Por Izaias de Carvalho

:  Na média mundial, 41% dos assassinatos foram cometido com armas de fogo em 2012/ Crédito: Álvaro Jr.
Na média mundial, 41% dos assassinatos foram cometido com armas de fogo em 2012/ Crédito: Álvaro Jr.

Num mundo em que aproximadamente um bilhão de pessoas não conseguem atender, de acordo com a FAO (Agência das Nações Um idas para Agricultura e Alimentação), suas necessidades básicas de alimentação, o comércio de armas se destaca como um negócio lucrativo e em expansão. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisas da Paz de Estocolmo (Stockholm International Peace Research Institute, SIPRI), as vendas de armas e serviços militares das 100 maiores empresas da indústria bélica totalizaram 402 bilhões de dólares em 2013. Apesar da pequena redução observada entre 2011 e 2013, no período de 2002 à 2013 as vendas dessas empresas aumentaram 45%. Ente os maiores importadores de armas do mundo estão países pobres, com carências de infraestrutura e com sérios problemas de segurança alimentar, tais como Índia, Paquistão e alguns países da África e da América Latina.

O mercado brasileiro de armas também é crescente, a despeito do Estatuto do Desarmamento, de dezembro de 2003, que aumentou as restrições para compra e posse de armas de fogo no país. A evolução do mercado de armas no Brasil nas últimas três décadas pode ser dividida em dois períodos. No primeiro período, que vai do início dos anos 1983 à 2003, o que observamos foi uma verdadeira “corrida armamentista” em que a população tentou por vias próprias garantir a sua proteção. Nesse período ocorreram a expansão do “negócio” da segurança privada e a difusão de armas de fogo entre a população de maneira geral.  Esta expansão esteve associada com as consequências da crise econômica do período conhecido como “década perdida”. De um lado, o aumento da criminalidade, consequência das elevadas taxas de desemprego e de inflação. De outro lado, a deterioração financeira do estado, que limitou drasticamente sua capacidade de investimentos em áreas diversas, dentre elas, a segurança pública.

No segundo período, que se inicia de 2003, o mercado continuou a se expandir, mas num ritmo menor do que no período anterior. Na média nacional, o Estatuto do Desarmamento, não foi suficiente para reduzir o tamanho do mercado, no máximo ele reduziu a taxa de crescimento. Além do mais, em alguns Estados, principalmente nas Regiões Norte e Nordeste, as vendas de armas voltaram a crescer no ritmo acelerado do período anterior ao Estatuto.

A expansão do mercado de armas no Brasil é algo preocupante, porque ele está associado com uma dolorosa e vergonhosa estatística: o país com o maior número de assassinatos no mundo! De acordo com o Estudo Global sobre Homicídios (Global Study on Homicide), publicado pela UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes) em 2013, em 2012 o homicídio doloso causou a morte de 437 mil pessoas em todo o mundo. No Brasil a quantidade assassinatos no mesmo ano foi de 50,1 mil pessoas. Enquanto a população brasileira representa cerca de apenas 3% da população mundial, o número de assassinados no Brasil representa 11,5% do total de pessoas assassinadas no mundo.

De acordo o mesmo estudo, na média mundial, 41% dos assassinatos foram cometido com armas de fogo em 2012. Na América Latina, entretanto, as armas de fogo responderam por 66% do total de homicídios. No Brasil, em algumas regiões, esta taxa chegava a 90%.

Dado que há evidências de que a difusão de armas de fogo contribui para o aumento da taxa de homicídios e, ao contrário daqueles que defendem a livre comercialização de armas, não possui efeito sobre a taxa de crimes contra a propriedade – pode-se concluir que o aumento do comércio de armas no Brasil dificilmente pode ser defendido do ponto de vista econômico, uma vez que ele resulta em muitos mais custos do que benefícios para a sociedade.

Prof. Dr. Izaias de Carvalho é Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da PUC-Campinas

Trotes violentos e as relações de poder

Por Amanda Cotrim

*colaboração: Eduardo Vella

O ingresso de estudantes nas universidades brasileiras, no início do ano letivo, passou a ser acompanhado por um problema crônico: o trote universitário violento. A transição do ensino médio para a vida universitária é um processo tradicionalmente ritualizado, mas de acordo com o especialista em trotes violentos, Prof. Dr. Antonio Ribeiro Almeida Júnior, as intimidações, violências físicas e humilhações, por exemplo, não têm nenhuma relação com rito de passagem. Em seu livro “Anatomia do Trote Universitário”, produzido em 2007, como tese de livre-docência na Universidade de São Paulo (USP), o especialista afirma que o trote violento se estabelece em uma relação de poder. Segundo ele, um grupo político disputa o controle de uma dada situação e cria hierarquias, como o calouro que pedirá dinheiro no semáforo para o seu veterano, entre outros exemplos.

O trote é proibido na PUC-Campinas, que, há mais de 10 anos, desenvolve projetos e ações para recepcionar e integrar os recém-chegados ao espaço universitário, por meio de atividades solidárias com idosos, crianças, meio ambiente, entre outras. Além disso, a Universidade apura denúncias e fatos referentes a trotes violentos, como os que foram relatados recentemente à Comissão Processual de Inquérito (CPI) da Assembléia Legislativa de São Paulo, sobre violações de direitos humanos nas Faculdades Paulistas. Duas sindicâncias internas, abertas em 2014 pela Universidade, apuram participação e responsabilidades em ações de intimidação, ameaças e ocorrência de trotes humilhantes e violentos. As Sindicâncias estão em fase de apuração.

Trote Solidário: uma ação que beneficia quem faz e quem recebe
Trote Solidário: uma ação que beneficia quem faz e quem recebe

O Professor Dr. José Donizeti, que responde pela Coordenadoria Geral de Atenção à Comunidade Interna (CACI) e é Presidente do Comitê de Acolhida aos Calouros, explica que em 2009 a Universidade instituiu um Grupo de Trabalho para a criação de projeto orgânico de recepção aos calouros e de combate ao trote. O Grupo propôs uma série de ações, de caráter contínuo, gerenciadas pelo Comitê Permanente de Acolhida aos Calouros, incluindo material informativo contra a violência do trote, o Fone Trote ((19) 3343-7241) para denúncias, guia e site do calouro, cadastro digital de denúncias de trotes violentos, comissões de sindicâncias, acolhimento ao calouro denunciante e a realização de ações solidárias, em substituição ao trote, oportunizando e estimulando o relacionamento entre calouros e veteranos.

: Para o Prof. Dr. José Donizeti, vivemos em uma sociedade extremamente hierarquizada/ Crédito: Álvaro Jr.
Para o Prof. Dr. José Donizeti/ Crédito: Álvaro Jr.

Como educador, Donizeti coloca a questão além de um fato pontual. Segundo ele, a sociedade brasileira, marcada pela história da escravidão, tem traços de violência e hierarquização que ajudam a explicar o trote violento. “As relações sociais em nosso país são marcadas pela desigualdade, com forte hierarquização dos indivíduos entre seres superiores e subalternos, o que dificulta a construção da cidadania e da ética, que se dá a partir da igualdade de direitos”, expõe. De acordo com ele, as universidades brasileiras não estão deslocadas dessa realidade, não há separação entre universidade e sociedade. “Há relações próprias em cada uma dessas instâncias, mas o indivíduo que está na universidade também vive em espaços sociais do país”, contextualiza.

Em artigos sobre violência e educação, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa reflete sobre motivos que ajudam a explicar a violência como trote e bullying. Entre as causas está o individualismo: “Vivemos um momento em que o prazer do indivíduo está acima de tudo. Mas é preciso pensar: até que ponto minha satisfação implica a lesão ao outro?”, questiona. Em suas pesquisas, a psiquiatra relata que a busca excessiva da autossatisfação não considera o outro ser humano.

“O sentido do trote como rito de passagem, integrando veteranos e calouros, se perde quando há violência, seja ela física ou discursiva”, aponta o antropólogo e docente na Faculdade de Ciências Sociais da PUC-Campinas, Prof. Me. Caue Nunes. O docente ressalta que não é possível estabelecer, em princípio, relações entre os trotes violentos e cursos tradicionais, como, por exemplo, medicina, uma vez que casos de violência acontecem em diversos cursos. “De fato, vivemos em uma sociedade hierarquizada e violenta, que gera processos sociais violentos. Não somos cordiais. O trote violento é um reflexo disso”, afirma Nunes. “Daí, podemos pensar se a violência é inata ou uma construção sociocultural. Se for a segunda opção, entendo que o que é aprendido pode ser desaprendido”, complementa Donizeti.

Em setembro de 2014, os fatos denunciados no disque trote durante aquele ano foram comunicados ao Ministério Público de Campinas. A apuração é conduzida, sob sigilo, na Delegacia de Investigações Gerais da cidade. Quanto às sindicâncias internas da Universidade, informa o coordenador da Divisão de Logística e Serviços, Israel Barros, as penalidades serão ou não impostas, decorrente do resultado da apuração, seguindo o Regimento Interno da Universidade.

 Estudar para entender e mudar

Em fenômenos como o trote violento há três grupos que precisam ser assistidos: o agredido, o agressor e a plateia, representada pelas pessoas que viram a agressão. “Não adianta ser contra o trote violento, se não nos posicionamos quando o presenciamos ou sabemos que ele acontece”, explica o professor Donizetti. “Aqui na PUC-Campinas trabalhamos com o agressor e também com a prevenção. Precisamos, além disso, atender o agredido”, afirma. E continua: “É o momento das universidades se debruçarem cientificamente sobre esses fenômenos e buscar entender o que faz com que indivíduos vejam a violência e não a denunciem? O que faz com que alguém se submeta a essas situações de violência?”, questiona Donizeti.

 Novo desafio para a educação superior:

“Quando ele entra na universidade, o jovem está em formação; ele não chega pronto ao ambiente do ensino superior”, afirma o Coordenador da CACI. Segundo Donizeti, além de punir, a Universidade está trabalhando para compreender o trote violento enquanto um problema social, para oferecer, a partir daí, apoio às vitimas e às famílias, tanto de quem sofreu a violência, quanto daquele que praticou o trote violento. “É fundamental que as Instituições de Ensino Superior estudem e compreendam a cultura juvenil e a violência social, para proporem ações de enfrentamento e combate ao trote, além de entender um pouco o educando que se encontra em seus espaços educacionais. Talvez este seja um dos grandes desafios da educação brasileira, hoje.”, ressalta. Donizeti defende que o professor possa ter além de uma formação específica da sua área, uma formação pedagógica capaz de entender a cultura do jovem no momento presente. “Vivemos em uma sociedade de consumo, onde predominam os valores estéticos, em detrimento dos valores éticos. A PUC-Campinas trabalha para fortalecer a competência ética e política, como componente importante na formação científica e profissional”, resume.

Na relação entre violência e educação são detectados três aspectos:
Existe a violência na escola: a instituição sofre os impactos da violência social, que a perpassa.
Existe a violência da escola: processos violentos produzidos pela própria instituição e que ocorrem quando há uma incompreensão pela instituição do perfil de educandos e suas especificidades; quando há uma gestão autoritária da instituição.
Existe a violência contra a escola: depredação do patrimônio escolar/universitário.
 

Memes e a violência do discurso

Por Maria de Fátima Silva Amarante

Lipovetsky e Seroy apontam que a reconfiguração do espaço (encolhimento) e do tempo (compressão) que leva à hiperindividualização, fundada nos sentimentos de simultaneidade e de imediatismo, é consequência da instrumentalização midiático-digital das relações e que esse hiperindivíduo promove, contraditoriamente, a uniformização globalitária e a fragmentação identitária. Comentam, ainda, os autores acerca da high-tech e seus efeitos destruidores do próprio homem em suas relações com o corpo, com a experiência sensível e com os outros, apontando que a internet vem sendo encarada como um perigo para os laços sociais, por promover para os indivíduos uma vida abstrata e digitalizada em que as experiências não são coletivamente vividas, em que o encasulamento insular decorre do enclausuramento das novas tecnologias e em que o corpo já não é o ancoradouro real da vida, organizando-se em seu lugar um universo descorporificado, dessensualizado e desrealizado.

Podemos dizer que o processo de descorporificação, dessensualização e desrealização encontra nos “memes”, uma forma discursiva característica do Facebook, espaço para sua presentificação. Para ilustrar, tomemos a seguinte postagem do Facebook.

Meme

Observemos, primeiramente, a fonte: Este é alguém. Temos, então, o outro e o mesmo a que se refere Derrida, o mesmo-outro, re(ins)(es)critos como “alguém”, cujo território original é uma página no Facebook que já recebeu mais de 90 mil curtidas e de 45 mil comentários. Nessa página, as tirinhas são sempre no mesmo formato e de autoria sempre anônima. Na tirinha que reproduzimos, “encomendada” para o Dia do Professor, vemos a ilustração caricatural que descorporifica o professor, tornando-o imagem coletiva indistinta, contraposta à nomeação individualizante (Professora Suely). A imagem, tal qual natureza-morta, apresenta-nos, de uma parte, efeito de sentido de vitimização a que se contrapõe o efeito de sentido do dizer que é de denúncia, portanto, de crime. Em última análise, anunciam-se a ineficiência e obsolescência do professor, verdades que o enunciador, em sua clausura digital, pode aparentemente produzir sem estabelecimento de laço social com seu enunciatário. Contudo, sabemos que inevitavelmente o laço social se estabelece à medida que o discurso move à ação. Assim, na contraposição do dizer à imagem, constrói-se, para o leitor-professor, a dupla possibilidade de um discurso de confissão e de um discurso de resistência, como fruto do processo de descorporificação, dessensualização e desrealidade que a caricatura invoca.

Como vimos, temos uma página sem face, em que um enunciador sem face constrói, sobre o professor, um discurso que revela intolerância, e, assim, se aproxima dos chamados discursos de ódio. Esse discurso passa a operar sobre o sujeito, que é premido a identificar-se com a representação que dele se faz, e, a partir daí, faz esse discurso operar sobre si mesmo.

Como bem aponta Foucault, o discurso produz verdades, estabelece regimes de verdade: quem pode dizer o que, para quem, onde e quando. No meme apresentado, o interessante é que a sátira, estratégia argumentativa presente em um número muito significativo de postagens do Facebook, constitui a violência do discurso, uma violência que, calcada no anonimato (que dificulta a resistência), dissemina-se no corpo, na alma, nos pensamentos e nas atitudes dos sujeitos-professores. Coloca, então, em funcionamento aquilo que Foucault denominou tecnologias de si, que provocam modificações na constituição identitária dos professores que passam a reconhecer-se neste ‘mesmo’ que é sempre “Outro”.

 Prof. Dra. Maria de Fátima Silva Amarante é Diretora da Faculdade de Letras da PUC-Campinas.

Documentário “Direito de Permanecer Calado”

Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo reflete sobre a relação entre a população pobre e a Polícia Militar

 

Por Amanda Cotrim

Em trabalho de pesquisa, ex-alunos de jornalismo da PUC-Campinas mostraram que moradores de ocupações urbanas, em Campinas, não se sentem seguros diante da Polícia. Por meio do estudo de campo, ouvindo moradores da região do Parque Oziel, na área sul da cidade, os estudantes detectaram o descrédito da população em relação à instituição policial, mostrado em videodocumentário realizado como projeto experimental, em 2014. “A sensação de insegurança dessa população, em relação à Polícia Militar (PM), nos impulsionou e o estudo mostra que a PM gera medo nos moradores daquela região”, afirma o estudante Douglas Moraes

Gravação do documentário no Parque Oziel, em Campinas/ Crédito: Arquivo
Gravação do documentário no Parque Oziel, em Campinas/ Crédito: Arquivo

Em 2013, o Índice de Confiança na Justiça Brasileira (ICJBrasil), realizado pela Escola de Direito de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), apontou que 70,1% da população brasileira não confia nas polícias.

Para realizar a pesquisa e o videodocumentário “Direito em permanecer calado”, os ex-estudantes participaram de uma imersão na região do Parque Oziel, localizado a seis quilômetros do centro de Campinas. O local já foi considerado a maior ocupação urbana na América Latina. Os bairros Parque Oziel, Jardim Monte Cristo e Gleba B ocupam uma área de um milhão e quinhentos mil metros quadrados, com três mil famílias, num total de 30 mil moradores. O videodocumentário entrevistou moradores dos bairros Gleba B, Parque Oziel, Jardim Monte Cristo, São José, Telesp e Jardim das Bandeiras I e II, durante quatro meses (junho a outubro de 2014), além de membros da Policia Militar de Campinas. Um dos aspectos abordados é o que os, agora, ex-alunos de Jornalismo chamaram de tolhimento à liberdade de expressão, como a desarticulação de um baile  funk na região, com o argumento de que havia a presença de menores e de drogas.

Da esquerda para direita: Orientador Prof. Me. Marcel Cheida, e os ex-alunos Douglas Moraes e Mayara Yamaguti/ Crédito: Álvaro Jr.
Da esquerda para direita: Orientador Prof. Me. Marcel Cheida, e os ex-alunos Douglas Moraes e Mayara Yamaguti/ Crédito: Álvaro Jr.

Durante o estudo, os realizadores do vídeodocumentário também se valeram de bibliografia e entrevistas com especialistas, que refletiram sobre os motivos que levam a população pobre e que mora na periferia a ter medo da polícia. “Durante o trabalho, entrevistamos especialistas em Ciência Política, Ciência Social e em Direitos Humanos, que discutem sobre os preconceitos sociais penetrados na própria PM contra determinada classe social”, explicou Moraes. Os ex-estudantes também destacaram que há um imaginário social que faz com que o policial ao ver um rapaz jovem, negro e na periferia pense que ele, necessariamente, cometeu um crime.

Para o trabalho, os estudantes entrevistaram a Doutora em Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), Thais Battibugli, que explicou que “a gestão da segurança pública ainda permanece no cunho autoritário e violento”. A causa disso, segundo o mestre em direitos humanos pela USP e Tenente Coronel da Polícia Militar de São Paulo, Adilson Paes de Souza, é que a segurança pública ainda está sob a ordem “da doutrina da segurança nacional, idealizado pelos EUA após a Segunda Guerra Mundial e difundida na América Latina”, explicou.

O outro lado:

O Tenente Coronel do 35º Batalhão da Polícia Militar de Campinas, Marci Elber Rezende, também entrevistado no documentário, não avalia que exista preconceito na abordagem policial e diz que os policiais são hostilizados e reagem.  “A polícia não age de forma violenta. Ela reage às ações violentas. A polícia é preparada para realizar abordagem a pessoas suspeitas, a partir do feeling do policial”, relatou.

O Jornalismo precisa olhar para a realidade

Para o orientador do trabalho e docente da Faculdade de Jornalismo, Prof. Me. Marcel Cheida, o trabalho dos ex-alunos reforça a necessidade de o jornalismo se voltar para as questões sociais. “É preciso que o jornalista olhe para a realidade”, ressalta. O Projeto Experimental foi uma realização dos ex-alunos Arthur Menicucci, Douglas Moraes, Gabriela Aguiar e Mayara Yamaguti. A orientação foi do Prof. Me. Marcel Cheida. O trabalho foi avaliado com nota 9,5.