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O que você precisa saber sobre a febre amarela

Por Sílvia Perez

Diante do surto de febre amarela registrado em alguns estados brasileiros, a PUC-Campinas presta alguns esclarecimentos sobre a doença.

A febre amarela é uma zoonose e os casos confirmados no Brasil são classificados como silvestre, sendo os vetores responsáveis pela transmissão os mosquitos Haemagogus e Sabethes encontrados nas matas. Nesse ciclo, o homem participa como um hospedeiro acidental, no lugar dos macacos, ao adentrar áreas de mata. No ciclo urbano, o homem é o único hospedeiro com importância epidemiológica e a transmissão ocorre a partir de vetores urbanos (Aedes aegypti) infectados. Segundo a Organização Mundial da Saúde, pelo menos por enquanto, não há evidências de que o Aedes aegypti esteja transmitindo o vírus, causando uma expansão urbana da febre amarela.

Desde a notificação dos surtos de febre amarela no início de 2017, vem sendo observado em nosso país um aumento progressivo do número de casos suspeitos e confirmados, de óbitos e de municípios com notificação da doença. Dentre o total de casos notificados (1006), 157 evoluíram para óbito e destes 65 foram óbitos confirmados por febre amarela (letalidade 36,1%); 89 óbitos suspeitos continuam sob investigação e 03 foram descartados. De acordo com os dados oficiais divulgados pelo Ministério da Saúde, os casos notificados estão distribuídos em 109 municípios pertencentes a 05 estados (Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Tocantins, Bahia) de 03 regiões do país (Sudeste, Norte e Nordeste).

Atualmente, a reemergência do vírus no Centro-Oeste brasileiro volta a causar preocupação, com maior incidência de casos humanos em viajantes que realizavam atividades de turismo e lazer. A maior parte dos casos confirmados ocorreu em regiões turísticas de Goiás e Mato Grosso do Sul, áreas que mantêm intenso fluxo de pessoas, sobretudo durante o verão (período sazonal da doença).

De acordo com a professora da Faculdade de Medicina da PUC-Campinas, Maria Patelli, a doença pode se manifestar de diferentes formas. “A manifestação pode ser de forma assintomática, oligossintomática, moderada até forma grave e maligna. A letalidade varia de 5 a 10%, mas entre as formas graves, pode chegar a 50%”, explica.

O Ministério da Saúde informou que vai reforçar o estoque das vacinas contra a doença em 11,5 milhões de doses, mas isso não significa que todas as pessoas devam correr para os postos de saúde em busca da imunização. Devem procurar a vacina, apenas moradores das áreas onde o surto foi registrado, ou quem pretende visitar regiões silvestres, rurais ou de mata.

Vacinação

No presente, o Brasil tem 20 estados e o Distrito Federal com indicação permanente de vacinação contra febre amarela. Figura 1

Figura 1: Área com e sem recomendação para vacinação contra a febre amarela em 2016

Fonte: Ministério da Saúde

 O Estado de São Paulo tem 70% do total dos municípios com recomendação de vacina contra febre amarela, predominantemente a região noroeste e sudoeste.  (Figura 2).

Figura 2: Mapa – Área com e sem recomendação de vacinação contra a Febre Amarela. Estado de São Paulo, 2016

Fonte: CENTRO DE VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA “PROF. ALEXANDRE VRANJAC” Divisão de Imunização

O Ministério da Saúde orienta sobre a vacinação contra febre amarela para viajantes e residentes em áreas com recomendação da vacina. (20 estados e o Distrito Federal).

O professor da Faculdade de Medicina da PUC-Campinas, Adilson Micheloni, ressalta a importância do cidadão procurar um serviço de saúde antes de se deslocar para regiões que apresentam casos da doença. “É preciso buscar informação segura antes, verificar a necessidade de vacinação e, principalmente, saber mais sobre a doença”, destaca.

A vacina deve ser aplicada a partir dos 9 meses de idade com reforço aos 4 anos. Para maiores de 5 anos, o reforço único da vacinação acontece 10 anos após a primeira dose. Já os idosos (> 60 anos) precisam ir ao médico para avaliar se há algum risco em receber a imunização, assim como, as pessoas com doenças como lúpus, câncer e Aids, devido à baixa imunidade, as grávidas e os alérgicos a ovo e gelatina.

A vacina confere imunidade de 90% a 100% dos vacinados, devendo ser aplicada 10 dias antes da viagem à área de risco. A utilização da vacina febre amarela é uma das melhores formas de prevenção da doença.

Em Campinas, é possível conferir os dias e horários em que os Postos de Saúde aplicam a vacina contra a febre amarela no link: http://www.saude.campinas.sp.gov.br/locais_vacinacao.htm.

 

Aedes Aegypti, Dengue e Zika Vírus

Por Luciane Kern Junqueira e Maria Magali Stelato

O mosquito Aedes aegypti é um inseto doméstico, pois ocorre em domicílios, estabelecimentos comerciais e escolas, associado a presença humana. Esse mosquito é originário do Egito (aegypti significa egípcio) e a dispersão pelo mundo ocorreu a partir da África (da costa leste do continente para as Américas e da costa oeste para a Ásia). Os hábitos das fêmeas (somente a fêmea pica o homem) são  preferencialmente diurnos, alimentando–se de sangue humano ao amanhecer e ao entardecer, no entanto, essa espécie apresenta hábito oportunista, podendo também picar à noite.

O acasalamento dos indivíduos ocorre no início da vida adulta, logo após que o adulto emerge da água do criadouro. Após o acasalamento, a fêmea deposita os ovos em novos criadouros com água limpa e parada. Os ovos ficam grudados às paredes do recipiente, próximo à superfície da água, não diretamente sobre o líquido. Uma fêmea pode colocar aproximadamente 1500 ovos durante a vida e um ovo pode resistir mais de um ano no ambiente sem a presença de água, até que chuvas ou o próximo verão propiciem as condições favoráveis à eclosão. O tempo do ciclo de vida do mosquito (de ovo, larva, pupa até a fase de adulto) está relacionado com as condições climáticas e alimento disponível, sendo, geralmente de 8 a 12 dias. Se a fêmea estiver infectada pelo vírus da dengue quando realizar a postura de ovos, há a possibilidade de as larvas já se formarem com o vírus, denominada transmissão vertical

Esse mosquito transmite muitos arbovírus, entre eles os gêneros Flavivirus e Alphavirus. O gênero Flavivirus é o causador da Dengue, da Zika e da Febre Amarela. Já o gênero Alphavirus é causador da Chikungunya.

Em 1981, ocorreu a primeira epidemia de Dengue (DENV 1 e 4) em Boa Vista (Roraima) e, em 1986, o DENV 1 se disseminou pelo Brasil. Segundo boletim nº8 – 2016 do Ministério da Saúde, em 2016, foram registrados 170.103 casos prováveis de Dengue no país (3/1/2015 a 6/2/2016). A região Sudeste registrou o maior número de casos prováveis (56,8%), seguida das regiões Nordeste (15,1%), Centro-Oeste (14,8%), Sul (7,9%) e Norte (5,3%).

O período de incubação da Dengue é em média 5 a 6 dias. Os sintomas na forma clássica são frequentemente febre alta (39° a 40°C), que aparece de forma súbita ou após alguns sintomas como mal-estar, calafrios e dor de cabeça. A febre geralmente permanece por 2 a 7 dias, acompanhada de dor de cabeça, dores no corpo e articulações, prostração, fraqueza, dor no fundo dos olhos, erupção e coceira na pele que pode aparecer no terceiro ou quarto dia da doença, durando de 1 a 3 dias. Os linfonodos apresentam-se frequentemente aumentados e também podem ser observados outros sintomas como perda de peso, náuseas, vômitos e diarreia.

Luciane Kern Junqueira e Magali Stelato / Crédito: Álvaro Jr.
Luciane Kern Junqueira e Maria Magali Stelato / Crédito: Álvaro Jr.

A forma grave da doença (febre hemorrágica) pode ocorrer, com mais frequência, na segunda infecção com outro sorotipo do vírus. Os sintomas iniciais são semelhantes aos da forma clássica e, o período crítico é na transição da fase febril para a sem febre (3º dia da doença), em que ocorrem hemorragias e diminuição do número de plaquetas, podendo causar hipotensão e choque.

A Organização Mundial da Saúde (2009) classificou a Dengue em: a) Dengue sem sinais; b) Dengue com sinais de alerta (dor abdominal, vômito persistente, acúmulo de líquidos, sangramento das mucosas, letargia, hepatomegalias, e aumento de hematócrito com diminuição de plaquetas) e c) Dengue grave (com extravasamento de plasma, sangramento ou falência dos órgãos).

A ANVISA aprovou a primeira vacina contra a Dengue (publicação no Diário Oficial da União no dia 28/12/2015) e deve ser comercializada no primeiro semestre de 2016, que será aplicada em 3 doses, uma a cada 6 meses.  Essa vacina foi desenvolvida no laboratório francês Sanofi Pasteur e contém o “esqueleto” do vírus da febre amarela com fragmentos do Denguevirus. A proteção geral contra a doença é de 66%, no entanto, tem eficácia de 93% em casos graves e diminui em 80% os casos de internação.

O Instituto Butantan em parceria com o National Institute of Health (USA) também estão trabalhando com uma vacina tetravalente, em que os vírus foram atenuados (geneticamente modificados), que imunizará contra os quatro vírus ao mesmo tempo. A previsão é que essa vacina esteja disponível no segundo semestre deste ano.

Em 2016, foi confirmada autoctonia do vírus CHIKV em três municípios do Ceará, totalizando 14 Unidades da Federação com transmissão autóctone desde a introdução do vírus no país. De 2014 a 10/02/2016 foram registrados 26.952 casos. O Nordeste é a região com maior número de casos (24.599).

A Febre Chikungunya é uma doença transmitida pelos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus. Chikungunya significa “aqueles que se dobram” e, refere-se à aparência curvada dos pacientes que foram atendidos na primeira epidemia documentada na Tanzânia, localizada no leste da África, entre 1952 e 1953. Esse vírus foi identificado no Brasil em 2014.

O período de incubação é de 2 a 12 dias e a infecção pode ser assintomática (cerca de 30%) e raramente fatal. Os principais sintomas são febre alta (acima de 38,5ºC), que permanece por até duas semanas, de início repentino, dores intensas nas articulações dos pés e mãos, além de dedos, tornozelos e pulsos (2 a 5 dias após o início da febre). Pode ocorrer, ainda, dor de cabeça, dores nos músculos, manchas vermelhas na pele, náuseas e vômito. A doença pode ficar crônica com duração de semanas a meses. Depois de infectada, a pessoa fica imune pelo resto da vida.

Foi confirmada transmissão autóctone Zikavirus no Brasil a partir de abril de 2015. Até 10/02/2016, 22 Unidades da Federação confirmaram laboratorialmente autoctonia da doença. Também foram confirmados laboratorialmente dois óbitos pelo vírus no país: em São Luís/MA e em Benevides/PA. O chefe de doenças transmissíveis da Organização Pan-Americana de Saúde, Marcos Espinal, calcula que o Zikavirus pode infectar de 3 a 4 milhões de pessoas nas Américas, dos quais  1,5 milhão no Brasil.

O Zikavirus recebeu a denominação do local de origem de sua identificação em 1947, após detecção em macacos utilizados no monitoramento da febre amarela, na floresta Zika, em Uganda. O período de incubação é de quatro dias e, em cerca de 80% das pessoas infectadas a doença é assintomática. Os principais sintomas são dor de cabeça, febre baixa, dores leves nas articulações, manchas vermelhas na pele, coceira e vermelhidão nos olhos (conjuntivite). Outros sintomas menos frequentes são inchaço no corpo, dor de garganta, tosse e vômitos. No geral, a evolução da doença é benigna e os sintomas desaparecem espontaneamente após 3 a 7 dias. No entanto, a dor nas articulações pode persistir por aproximadamente um mês. Formas graves e atípicas são raras, mas quando ocorrem podem, excepcionalmente, evoluir para óbito, como identificado no mês de novembro de 2015.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) constatou a presença do Zikavirus ativo em amostras de saliva e de urina de pacientes, mas isso não é suficiente para afirmar que é possível transmitir o vírus pela saliva; serão necessários outros estudos para comprovar se tem capacidade de infectar as pessoas. A recomendação é de evitar compartilhar objetos de uso pessoal (escovas de dente e copos) e lavar as mãos.

A Síndrome de Guillain-Barré é uma doença rara, que pode ser provocada por vírus e bactérias, e, o Zikavirus também pode estar relacionado a essa síndrome. É uma doença do sistema nervoso, provavelmente de caráter autoimune, em que a resposta imunológica é mais intensa contra o agente infeccioso e ataca também a bainha de mielina que reveste os nervos periféricos da pessoa, causando inflamação dos nervos e fraqueza muscular. Os sintomas começam pelas pernas, podendo, em seguida, irradiar para o tronco, braços e face. A síndrome pode ser leve, com fraqueza muscular em alguns pacientes, ou grave, com paralisia total dos quatro membros. O principal risco provocado por essa síndrome é quando ocorre o acometimento dos músculos respiratórios, devido a dificuldade para respirar e, pode levar à morte, caso não sejam adotadas as medidas de suporte respiratório.

A microcefalia é uma malformação congênita, em que o cérebro não se desenvolve de maneira adequada, o perímetro cefálico do cérebro dos bebês é menor que 33 cm, pode ser causada por agentes químicos, infecciosos (bactérias, vírus) e também radiação). O Ministério da Saúde confirmou a relação entre o Zikavirus e a microcefalia. O Instituto Evandro Chagas, órgão do ministério em Belém (PA), encaminhou o resultado de exames realizados em um bebê, nascida no Ceará, com microcefalia e outras malformações congênitas. Foi identificada a presença desse vírus em amostras de sangue e tecidos.

Não existe tratamento específico para Dengue, Chikungunya e Zika. O tratamento é feito para aliviar os sintomas. Quando aparecerem os sintomas é importante procurar o serviço de saúde mais próximo, fazer repouso e ingerir bastante líquido.

 

Combate ao vírus Ebola e a desinformação sobre a doença

Hospital da PUC-Campinas aplica plano de  contingência para atendimento de casos


Por Amanda Cotrim

O Hospital e Maternidade Celso Pierro (HMCP), mais conhecido como Hospital da PUC-Campinas, está organizado para assistir eventuais pacientes suspeitos de doença pelo vírus do Ebola. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou todos os países para que o plano de prevenção fosse reforçado. Segundo a OMS, o atual surto do vírus se concentra nos países africanos: Libéria, Serra Leoa e Guiné, com 8.376 casos, dos quais, 4.024 são fatais. Atualmente, não há tratamento para a infecção, mas uma vacina está em elaboração pela empresa farmacêutica britânica GSK (Glaxo SmithKline), com previsão para ser disponibilizada em 2016.

De acordo com a Coordenadora da Comissão de Controle de Infecção do Hospital e Professora no curso de medicina, da PUC-Campinas, Dra. Irene Rocha Haber, o HMPC já está se organizando para qualquer eventualidade. “Preparamo-nos por meio de um processo de sensibilização das equipes que atuam nos serviços de Pronto-Socorro do Sistema Único de Saúde (SUS) e Pronto Atendimento de Convênios, para a suspeição de casos, além da criação de fluxos de encaminhamento”, explica.

A chance de ocorrência de um caso de infecção pelo vírus Ebola no Brasil, segundo a Doutora Irene, é pouco provável. “Obviamente numa sociedade globalizada como vivemos, no qual o trânsito de pessoas é extremamente fácil, mesmo sendo uma possibilidade remota, é necessário contar com um plano de contingência. A ocorrência desse caso suspeito no Paraná, depois descartado deixou isso bem claro”, expôs. Para a médica infectologista, é fundamental ter preocupação com a biossegurança, com o uso de equipamentos de uso individual, que oferecem proteção rigorosa ao profissional, além de cuidado com o resíduo ou material proveniente da assistência ao paciente.

Além da prevenção, a Doutora Irene acredita que outro combate também deve ser feito: o combate à desinformação sobre a doença. “Todo evento desconhecido, que acomete a humanidade, causa grande impacto. Contudo, outra forma de encarar o problema é fornecer sua real dimensão, não exagerando, mas também não atenuando essa grave situação de saúde que estamos vivenciando enquanto população mundial, pois a mesma não pode nem deve ser negligenciada”, afirma. Para ela, é natural se ter medo do desconhecido, ainda mais quando ele está relacionado à morte. Contudo, “o equilíbrio é sempre o objetivo e para tal é imprescindível que os órgãos de imprensa repassem com precisão as informações da OMS e, no caso do Brasil, do Ministério da Saúde e de Departamentos de Vigilância em Saúde”, ressalta.

O Vírus Ebola
O vírus Ebola não é novo. Surgiu pela primeira vez em 1976, em alguns países da África, em uma região próxima ao rio Ebola. De acordo com a Doutora Irene, o segundo grande surto ocorreu em 1995 e, novamente, em 2000, 2007 e 2012. Contudo, o número de infectados e mortos, lembra, foi inferior ao surto atual. “Só em agosto, a epidemia foi decretada como emergência de saúde pública internacional”, reforça a médica.


TRANSMISSÃO
O vírus Ebola é transmitido pelo sangue, secreções e fluidos corporais, como o suor e a saliva, inclusive na manipulação de cadáver. A mortalidade pelo vírus pode chegar a 90%. Os sintomas podem aparecer entre dois e 21 dias após a exposição ao vírus, são eles: febre, fraqueza, dores de cabeça e musculares, além de dor de garganta. Esse quadro inicial é seguido de vômitos, diarreia, além de alteração renal e hepática, podendo haver sangramento interno e externo. A confirmação da infecção é feita por exame laboratorial.

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