Trotes violentos e as relações de poder

Por Amanda Cotrim

*colaboração: Eduardo Vella

O ingresso de estudantes nas universidades brasileiras, no início do ano letivo, passou a ser acompanhado por um problema crônico: o trote universitário violento. A transição do ensino médio para a vida universitária é um processo tradicionalmente ritualizado, mas de acordo com o especialista em trotes violentos, Prof. Dr. Antonio Ribeiro Almeida Júnior, as intimidações, violências físicas e humilhações, por exemplo, não têm nenhuma relação com rito de passagem. Em seu livro “Anatomia do Trote Universitário”, produzido em 2007, como tese de livre-docência na Universidade de São Paulo (USP), o especialista afirma que o trote violento se estabelece em uma relação de poder. Segundo ele, um grupo político disputa o controle de uma dada situação e cria hierarquias, como o calouro que pedirá dinheiro no semáforo para o seu veterano, entre outros exemplos.

O trote é proibido na PUC-Campinas, que, há mais de 10 anos, desenvolve projetos e ações para recepcionar e integrar os recém-chegados ao espaço universitário, por meio de atividades solidárias com idosos, crianças, meio ambiente, entre outras. Além disso, a Universidade apura denúncias e fatos referentes a trotes violentos, como os que foram relatados recentemente à Comissão Processual de Inquérito (CPI) da Assembléia Legislativa de São Paulo, sobre violações de direitos humanos nas Faculdades Paulistas. Duas sindicâncias internas, abertas em 2014 pela Universidade, apuram participação e responsabilidades em ações de intimidação, ameaças e ocorrência de trotes humilhantes e violentos. As Sindicâncias estão em fase de apuração.

Trote Solidário: uma ação que beneficia quem faz e quem recebe
Trote Solidário: uma ação que beneficia quem faz e quem recebe

O Professor Dr. José Donizeti, que responde pela Coordenadoria Geral de Atenção à Comunidade Interna (CACI) e é Presidente do Comitê de Acolhida aos Calouros, explica que em 2009 a Universidade instituiu um Grupo de Trabalho para a criação de projeto orgânico de recepção aos calouros e de combate ao trote. O Grupo propôs uma série de ações, de caráter contínuo, gerenciadas pelo Comitê Permanente de Acolhida aos Calouros, incluindo material informativo contra a violência do trote, o Fone Trote ((19) 3343-7241) para denúncias, guia e site do calouro, cadastro digital de denúncias de trotes violentos, comissões de sindicâncias, acolhimento ao calouro denunciante e a realização de ações solidárias, em substituição ao trote, oportunizando e estimulando o relacionamento entre calouros e veteranos.

: Para o Prof. Dr. José Donizeti, vivemos em uma sociedade extremamente hierarquizada/ Crédito: Álvaro Jr.
Para o Prof. Dr. José Donizeti/ Crédito: Álvaro Jr.

Como educador, Donizeti coloca a questão além de um fato pontual. Segundo ele, a sociedade brasileira, marcada pela história da escravidão, tem traços de violência e hierarquização que ajudam a explicar o trote violento. “As relações sociais em nosso país são marcadas pela desigualdade, com forte hierarquização dos indivíduos entre seres superiores e subalternos, o que dificulta a construção da cidadania e da ética, que se dá a partir da igualdade de direitos”, expõe. De acordo com ele, as universidades brasileiras não estão deslocadas dessa realidade, não há separação entre universidade e sociedade. “Há relações próprias em cada uma dessas instâncias, mas o indivíduo que está na universidade também vive em espaços sociais do país”, contextualiza.

Em artigos sobre violência e educação, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa reflete sobre motivos que ajudam a explicar a violência como trote e bullying. Entre as causas está o individualismo: “Vivemos um momento em que o prazer do indivíduo está acima de tudo. Mas é preciso pensar: até que ponto minha satisfação implica a lesão ao outro?”, questiona. Em suas pesquisas, a psiquiatra relata que a busca excessiva da autossatisfação não considera o outro ser humano.

“O sentido do trote como rito de passagem, integrando veteranos e calouros, se perde quando há violência, seja ela física ou discursiva”, aponta o antropólogo e docente na Faculdade de Ciências Sociais da PUC-Campinas, Prof. Me. Caue Nunes. O docente ressalta que não é possível estabelecer, em princípio, relações entre os trotes violentos e cursos tradicionais, como, por exemplo, medicina, uma vez que casos de violência acontecem em diversos cursos. “De fato, vivemos em uma sociedade hierarquizada e violenta, que gera processos sociais violentos. Não somos cordiais. O trote violento é um reflexo disso”, afirma Nunes. “Daí, podemos pensar se a violência é inata ou uma construção sociocultural. Se for a segunda opção, entendo que o que é aprendido pode ser desaprendido”, complementa Donizeti.

Em setembro de 2014, os fatos denunciados no disque trote durante aquele ano foram comunicados ao Ministério Público de Campinas. A apuração é conduzida, sob sigilo, na Delegacia de Investigações Gerais da cidade. Quanto às sindicâncias internas da Universidade, informa o coordenador da Divisão de Logística e Serviços, Israel Barros, as penalidades serão ou não impostas, decorrente do resultado da apuração, seguindo o Regimento Interno da Universidade.

 Estudar para entender e mudar

Em fenômenos como o trote violento há três grupos que precisam ser assistidos: o agredido, o agressor e a plateia, representada pelas pessoas que viram a agressão. “Não adianta ser contra o trote violento, se não nos posicionamos quando o presenciamos ou sabemos que ele acontece”, explica o professor Donizetti. “Aqui na PUC-Campinas trabalhamos com o agressor e também com a prevenção. Precisamos, além disso, atender o agredido”, afirma. E continua: “É o momento das universidades se debruçarem cientificamente sobre esses fenômenos e buscar entender o que faz com que indivíduos vejam a violência e não a denunciem? O que faz com que alguém se submeta a essas situações de violência?”, questiona Donizeti.

 Novo desafio para a educação superior:

“Quando ele entra na universidade, o jovem está em formação; ele não chega pronto ao ambiente do ensino superior”, afirma o Coordenador da CACI. Segundo Donizeti, além de punir, a Universidade está trabalhando para compreender o trote violento enquanto um problema social, para oferecer, a partir daí, apoio às vitimas e às famílias, tanto de quem sofreu a violência, quanto daquele que praticou o trote violento. “É fundamental que as Instituições de Ensino Superior estudem e compreendam a cultura juvenil e a violência social, para proporem ações de enfrentamento e combate ao trote, além de entender um pouco o educando que se encontra em seus espaços educacionais. Talvez este seja um dos grandes desafios da educação brasileira, hoje.”, ressalta. Donizeti defende que o professor possa ter além de uma formação específica da sua área, uma formação pedagógica capaz de entender a cultura do jovem no momento presente. “Vivemos em uma sociedade de consumo, onde predominam os valores estéticos, em detrimento dos valores éticos. A PUC-Campinas trabalha para fortalecer a competência ética e política, como componente importante na formação científica e profissional”, resume.

Na relação entre violência e educação são detectados três aspectos:
Existe a violência na escola: a instituição sofre os impactos da violência social, que a perpassa.
Existe a violência da escola: processos violentos produzidos pela própria instituição e que ocorrem quando há uma incompreensão pela instituição do perfil de educandos e suas especificidades; quando há uma gestão autoritária da instituição.
Existe a violência contra a escola: depredação do patrimônio escolar/universitário.