Trump será lapidado pelas instituições

Para Professor da PUC-Campinas, instituições e organizações estarão no caminho do novo presidente, dificultando que seus objetivos de campanha prossigam.

Por Amanda Cotrim

A eleição de Donald Trump para presidência dos EUA repercutiu no mundo inteiro muito mais pela postura quase caricata do então candidato do que pela exposição de suas estratégias políticas e econômicas. O mundo passou a se questionar, desde os resultados das urnas, como será a política internacional de Trump e se ele cumprirá com as promessas feitas na campanha, como fechar fronteiras, restringir a entrada de imigrantes no país, não manter relações diplomáticas, políticas e comerciais com país e regiões cujos acordos haviam sido firmados por Obama, além da própria promessa de aumentar os empregos e a qualidade de vida dos cidadãos estadunidenses.

Para poder compreender um pouco melhor quais os impactos reais da eleição de Donald Trump, o Jornal da PUC-Campinas conversou com o Professor. Me. Adauto Ribeiro, Diretor adjunto do Centro de Economia e Administração da PUC-Campinas. Segundo o especialista, dado que o Partido Republicano tem maioria nas duas casas legislativas, é de se esperar mudanças com predominância de políticas tradicionais dos republicanos mescladas com caraterísticas de personalidade do novo presidente. “Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo. Em suma, alguém de fora da política e sem programa definido para a maior nação do mundo se elegeu presidente, vamos ver se as instituições o colocam nos trilhos ou se acidentes de percurso ocorrerão, o que prejudicará muito mais outras nações do que a nação norte-americana”.

Confira a entrevista na integra:

  • Como o senhor avalia os resultados das eleições presidenciais nos EUA?

No contexto das relações internacionais, decisões emitidas pelo sistema institucionalizado de escolha política de uma nação não se questiona, se acata. Desta forma, o candidato Donald Trump primeiro se viabilizou no interior do Partido Republicano e depois ganhou as eleições no Colégio Eleitoral, dentro das regras estipuladas na constituição norte-americana. O resultado demonstrou insatisfação com o Partido Democrático e recoloca o Partido Republicano no poder.

A questão que mais chamou a atenção nesta eleição foi a postura do candidato vencedor, uma figura do show business, não proveniente do corpo político tradicional do país. No entanto, nunca é demais destacar que discurso de candidato é uma coisa e o exercício efetivo do poder é outra coisa. Desta forma, o que se espera é que as medidas a serem tomadas pelo novo Presidente sejam lapidadas pela institucionalidade que envolve a Presidência da República, bem como pelos interesses do Partido Republicano, que, cabe ressaltar, fez maioria na Câmara dos Deputados e no Senado Federal e, na campanha, não o tratou como seu candidato ideal.

Trump, na sua campanha vitoriosa, apresentou-se como um indignado cidadão norte-americano de classe média preocupado com a perda de prestigio e de poder da nação americana no ambiente mundial e que isso refletia no desemprego e na perda de qualidade de vida do americano. Assim, tornar a América forte novamente foi seu mote. E para isso não faltaram inimigos, ocultos e não tão ocultos assim, elencados; satisfazendo o desejo interno de achar responsáveis “externos” pelos problemas da Nação. Assim, Trump se apresentou nas eleições como o herói, que imbuído de uma causa justa não vê restrições em levá-la adiante, até as últimas consequências- ou inconsequências- de seus atos. Na campanha esse procedimento pode ser válido, no entanto, na política cotidiana e nas relações internacionais isso não funciona desta maneira. Instituições e organizações estarão no caminho do novo presidente e negociações terão que ser efetuadas para levar a cabo alguns de seus objetivos, o que nos leva a crer que a maioria deles será esquecida e ficará pelo caminho.

“Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo”/ Crédito: Álvaro Jr.
“Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo”/ Crédito: Álvaro Jr.
  • Qual será o efeito da vitória de Trump para a América Latina?

Com relação à América Latina, não se espera mudanças significativas, inclusive por já ser uma região com predomínio dos interesses norte-americanos devidamente assentados. Naturalmente, a questão dos imigrantes e da fronteira mexicana será destaque. O novo governo deverá impor mais restrições à entrada nos Estados Unidos, inclusive para trabalho legal, bem como ampliará o combate aos ilegais, afinal de contas essas medidas foram exploradas a exaustão na campanha e não fazê-las geraria perda de apoio em grande parte do eleitorado de Trump.

A promessa de defender empregos para os norte-americanos deverá recair em grande parte na restrição aos imigrantes. O problema desta estratégia é a relação extremamente produtiva da economia norte-americana com relação a estes trabalhadores, dado que a imigração aumentou significativamente de todos os continentes para os Estados Unidos. Assim, a lógica de cercear a entrada de imigrantes pode ser ruim para a competitividade da economia norte-americana visto que um de seus elementos dinâmicos é a diversidade de trabalhadores de todo o mundo que se dirigem para esta economia.

Um segundo ponto de destaque devem ser as relações com Cuba. Este país deve obter um pouco mais de atenção do novo governo, dado o momento de transição política que atravessa, o que não significa que haverá boa vontade dos EUA para com este país, ao contrário, Trump deve atender aos interesses dos cubanos radicados nos EUA bem mais do que o fez Obama.

O candidato também fez menção de rever o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), que considera prejudicial aos Estados Unidos, no entanto, não detalhou que ponto trataria nesta revisão, sendo assim, pode ser que procure impor alguma restrição a circulação de mercadorias, o que prejudicaria os mexicanos, mas também os consumidores norte-americanos. O desejo manifesto de estabelecer acordos bilaterais aponta para uma política comercial de negociação caso a caso, situação que faz pender a balança de negociações para o lado dos norte-americanos. O Brasil no seu projeto de integração regional (Mercosul) resistiu a esta estratégia comercial, desde os anos 1990, vamos ver se vai alterá-la agora.

  • Em que o mandato de Trump pode afetar o Brasil?

O Brasil se insere no contexto da América Latina como região de baixa prioridade para os EUA, no entanto, para nós trata-se de um parceiro estratégico, cerca de 13% das exportações brasileiras se dirigem para os EUA, de onde cerca de 17% de nossas importações são provenientes. O crescimento econômico norte-americano seria um fato extremamente benéfico para as exportações brasileiras. Entretanto, ao que parece, o novo governo também pretende expandir suas exportações para o mercado brasileiro, adotando uma estratégia de acordos bilaterais. Para que isso ocorra, será preciso rever o acordo do Mercosul, nosso parceiro preferencial. As cartas estão sendo colocadas na mesa e o novo governo brasileiro aponta para facilitar esta estratégia americana. Por outro lado, a necessidade de atração de capital estrangeiro da economia brasileira esta em consonância com o desejo norte-americano em ampliar estes investimentos; a questão é estratégica.

O governo brasileiro já vem desregulamentado diversos setores de interesse dos Estados Unidos, a área de petróleo é um destes setores, bem como a área de infraestrutura, transportes e serviços. Outra fonte de preocupação para o Brasil está na condução da política de juros norte-americana a ser praticada pelo novo governo, uma alta dos juros norte-americanos neste momento aumentaria as dificuldades para o financiamento da economia brasileira, o que poderia provocar alta de juros no Brasil (que já é extremamente alta). Isto seria muito prejudicial para a economia brasileira. Neste contexto, cabe ao governo brasileiro trabalhar medidas que diminuam a relação de dependência entre estas duas taxas de juros. No mais, esperar apoio dos EUA para uma maior participação do Brasil em organismos multilaterais não me parece algo que irá ocorrer em um horizonte próximo. Em suma, o governo brasileiro não deve esperar benefícios com a nova administração, mas sim, negociações duras se quiser fazer prevalecer o interesse brasileiro.

  • A Rússia não chegou a apoiar explicitamente o Trump, mas demonstrou diversas vezes sua oposição à Hillary. Qual interesse da Rússia na eleição do Republicano?

 Com relação à Rússia, a posição do futuro governo norte-americano é de maior proximidade do que os confrontos da era Obama. Trump explorou a imagem de força que o atual governo russo projeta para ressaltar ao público interno que um presidente americano precisa ser igualmente forte. Desta forma, criticou constantemente a sutileza executada por Obama em sua política externa, ressaltando a necessidade de agir com dureza e rapidez. Basicamente, uma política externa mais truculenta, como o faz o presidente russo. Trump, ao que tudo indica, deve aumentar o poderio militar norte-americano, porém, reclama dos custos da defesa que diz efetuar para países amigos no exterior. No seu discurso, diz que espera dividir os custos desta defesa com estes países. Falta combinar com eles. Não é a toa que países da Ásia e da Europa têm demonstrado preocupação com esta postura norte-americana. Com esta política, perdem os países-amigos mais distantes a proteção americana que julgavam ter, e ficam mais livres para agir a Rússia e a China, por exemplo.

A provável estratégia de Trump de ampliar o poder militar dos EUA resgata a política do período da Guerra Fria, enfatizando que o país, sob seu governo, se tornaria tão poderoso e ameaçador que, desta forma, não sofreria mais ameaças. Um filme que já assistimos no passado e que atende integralmente o interesse da indústria bélica mundial e o interesse das nações com grande investimento em armas.

  • O que a eleição de Trump pode influenciar na guerra na Síria?

Se formos observar pelos discursos da campanha, o presidente Trump tende a se aproximar do governo sírio em detrimento dos rebeldes que lutam para derrubar o governo estabelecido. Da mesma forma, pode se aproximar da posição russa estabelecendo um apoio ao combate conjunto ao Estado Islâmico. Assim, a guerra síria pode caminhar para uma solução, dado o reforço recebido por uma das três partes envolvidas no conflito, o que não significa uma solução para a instabilidade do Oriente Médio.

Trump, ao que parece, não possui uma estratégia consolidada de como lidar com a região, o Partido Republicano deverá guia-lo. Israel segue como prioridade política para os Estados Unidos, embora o presidente tenha escorregado em alguns discursos. Ainda com relação ao Oriente Médio, deverá fortalecer as críticas ao regime do Irã e sua oposição ao acordo nuclear pactuado por Obama, sempre tomando como base seus discursos de campanha.

  • Qual sua avaliação sobre a  Parceria do Transpacífico e a promessa de rompimento por parte dos EUA?

Este me parece um equivoco a ser cometido pelo novo governo, dado que já afirmou que não irá ratificar o acordo comercial tão demoradamente costurado pela gestão anterior e que serviria politicamente para ampliar a presença norte-americana na Ásia e Oceania, ao mesmo tempo em que buscaria gerar um freio na expansão comercial chinesa. Ao pressupor que o acordo não é benéfico aos EUA, e que em sua gestão irá se guiar por acordos bilaterais, procurando resultados específicos para os EUA no curto prazo, o governo Trump acaba beneficiando a estratégia chinesa e coloca os interesses de curto prazo acima de estratégias politicas estruturantes. Em suma, parece que cláusulas do acordo que não seriam de interesse imediato de partes importantes da economia americana, envolvendo questões ambientais e trabalhistas, seriam abandonadas. De acordo com pensamento de Trump, estas partes do acordo dificultariam a criação de empregos no EUA e restringiriam o uso de fontes antiquadas de energia, que em sua campanha o candidato prometeu resgatar. Isto pode gerar um grande problema ambiental e, principalmente, um problema para o desenvolvimento de tecnologias e energia limpa nos EUA, podendo permitir que a China se destaque nesta área na economia mundial. Em suma, ao não assinar o tratado, os EUA claramente ignorarão os seus parceiros da jornada, Japão, Austrália, Cingapura, Malásia, Nova Zelândia, Peru, Colômbia entre outros, o que irá exigir dos norte-americanos a apresentação de um acordo alternativo em substituição.

  • Há algo que eu não perguntei que o senhor gostaria de dizer?

No geral, o que podemos observar é a existência de uma grande expectativa quanto aos rumos do governo Trump.  Seu discurso “vazio” não revela estratégias, logo, o caminho está aberto. Dado que o partido republicano tem maioria nas duas casas legislativas, é de se esperar mudanças com predominância de políticas tradicionais dos republicanos mescladas com caraterísticas de personalidade do novo presidente.

O que Trump repetiu a exaustão na campanha é que os EUA estarão sempre em primeiro lugar, mesmo que para isso precise sacrificar os interesses de seus aliados mais próximos, afirmando ainda que não irá mais ceder o país à falsa cantiga da globalização.

 Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo. Em suma, alguém de fora da política e sem programa definido para a maior nação do mundo se elegeu presidente, vamos ver se as instituições o colocam nos trilhos ou se acidentes de percurso ocorrerão, o que prejudicará muito mais outras nações do que a nação norte-americana.