Um destino pujante no Caminho de Goiazes

Por Luiz Roberto Saviani Rey

A cronologia histórica de Campinas, seus elementos de rápida progressão social, material e urbana, permite vislumbrar os cenários de sua rica evolução, os quais a conduziram ao portentoso núcleo metropolitano da atualidade, um município-sede regional com 1,2 milhão de habitantes e polo de alta tecnologia, concentrando universidades de elevado nível, como a PUC-Campinas, centros de pesquisas de excelência, além de institutos da área médica de causar inveja a países mais avançados.

Na realidade, o destino dessa Campinas pujante – uma Suíça em forma de cidade -, parece ter se desenhado desde o momento em que se rasgou a trilha de Goiazes, o caminho desde São Paulo que conduziu bandeirantes e tropeiros ao coração do Brasil, em busca de ouro e de riquezas. Desde os primórdios da Freguesia, de 1774, passando pela Vila de São Carlos, de 1797, até a elevação à categoria de cidade, em 1842, surgiu um modelo de desenvolvimento e de sociedade autônomo, progressista e voltado ao labor intenso.

Rapidamente, a região dos três campinhos – os descampados límpidos e amenos, cortados por córregos e cursos d’água, entre a vasta floresta de Mato Grosso – foi se transformando de pouso de tropeiros em um local propício ao progresso. Suas terras passam a ser exploradas intensamente, primeiramente pela cana-de-açúcar e, já a partir de 1842, pela cafeicultura.

É esse panorama de expansão rural e urbana que vai assombrar uma das figuras mais importantes do Império. Em abril de 1865, na qualidade de tenente-engenheiro e aos 22 anos, Alfredo Maria d’Escragnolle-Taunay, o Visconde de Taunay, aporta em Campinas com as tropas da Guerra do Paraguai, destinadas a lutar na Laguna. Logo, encanta-se com os progressos e proclama, entusiasmado, ante os imponentes solares, os cafés, e as vitrines de lojas da Rua Direita, ostentando rica indumentária e objetos europeus: “Mas que coisa afrancesada!”.

Prof. Me. Luiz Roberto Saviani/ Crédito Álvaro Jr.
Prof. Me. Luiz Roberto Saviani/ Crédito Álvaro Jr.

Uma exclamação qualitativa que se amplifica quando Taunay ingressa, assombrado, na Catedral em construção. Ele escreve 22 cartas ao pai, amigo de Dom Pedro II, pedindo apoio do imperador para a conclusão das obras. Na sua antevisão, o templo erigido com a fé dos campineiros, seria o mais imponente de todo Império.

Da passagem de Taunay à construção da ferrovia, em 1972, para escoar a produção cafeeira, e ao expirar do século XIX, Campinas torna-se a capital econômica do Brasil. Sob a égide do café pode influir na política nacional. Sua pujança atrai fazendeiros. Seus filhos, advogados, carregam os ideais republicanos, tornando-se figuras de destaque, como Bernardino de Campos que aqui se estabelece, Francisco Glicério e Manuel Ferraz de Campos Sales, entre outros. Campos Sales torna-se o terceiro presidente do estado de São Paulo, de 1896 a 1897 e o quarto presidente da República, entre 1898 e 1902.

A transição do século XIX para o século XX marca a ruptura com as condições coloniais ainda predominantes e estabelece novos contornos e modelos, trazendo configuração de uma cidade moderna, com novos estabelecimentos de ensino e com princípios de industrialização e de oferta de serviços do comércio. Com Orosimbo Maia na Prefeitura, de 1908 a 1910 e entre 1926 e 1932, Campinas terá o impulso que trará novas indústrias de base, cervejarias, empresas do setor imobiliário e a abertura de bairros como Botafogo, Guanabara e Castelo.

A Revolução de 1930, a tomada do Poder por Getúlio Vargas, desafia os barões do café. Em 1932, com bombardeios pelos aviões Vermelhinhos, a cidade é colocada no centro da Revolução Constitucionalista. Mais de dois mil voluntários lutam e são derrotados na Batalha de Eleutério, nas proximidades de Itapira, na divisa entre São Paulo e Minas.

Superados os traumas dos bombardeios, a cidade, retoma seu caminho de pujança e floresce, como nunca, como um importante entroncamento rodoferroviário a integrar a capital paulista ao interior do País. Nesse cenário, é fundada, em 1941, a Sociedade Campineira de Educação e Instrução, a nossa PUC-Campinas da atualidade, que tem, em 1942, a abertura solene de seus cursos, no Teatro Municipal Carlos Gomes. A implantação da PUC-Campinas é marco exponencial em um período auspicioso, em que dois novos prédios do Instituto Agronômico são inaugurados, bem como o edifício do jornal Correio Popular, além do Hospital Vera Cruz e do Cine Voga.

É uma década de acontecimentos marcantes. Em 1944, um incêndio destrói o Cine República, e, em 1946, a Biblioteca Municipal inicia suas atividades, ano em que é publicado o jornal A Defesa. Em 1948 é fundado o Coral Pio XI e a Orquestra Filarmônica de Campinas realiza seu primeiro concerto. É inaugurado o Estádio Moisés Lucarelli, o Edifício dos Correios e Telégrafos e a Via Anhanguera. Em 1949, institui-se a Semana Carlos Gomes e o Agronômico sedia a primeira reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). São efemérides que coroam a história e ajudam a solidificar uma Campinas rica e progressista.

Luiz Roberto Saviani Rey é Professor do curso de Jornalismo da PUC-Campinas e autor dos livros: A maldição dos eternos domingos sem derby (romance de costumes); O retiro antes da Laguna – Taunay em Campinas (romance histórico); O menino herói da Guerra Paulista – O bombardeio de Campinas (romance histórico) e A crônica é jornalística e brasileira (didático).