Um olhar estrangeiro sobre Moçambique

Livro retrata o cotidiano do país africano que, em 2015, completa 40 anos de independência

Por Amanda Cotrim

Há quarenta anos (1975), Moçambique, na região sudeste da África, tornava-se independente de sua metrópole, Portugal. Mas essa recém-nascida independência oficial não é uma folha em branco; por isso, olhar para o país africano e não enxergar que ali, até pouco tempo, foi uma colônia explorada, pode perpetuar equívocos e preconceitos. A marca da exploração ainda está latente “Quando nos aproximávamos, os jovens fugiam. Por sermos brancos, eles tinham medo que fossemos sequestrá-los ou fazer-lhes algum mal. Depois que falávamos que éramos brasileiros, eles abriam um sorriso e diziam que somos irmãos”, conta o agora ex-estudante de Jornalismo da PUC-Campinas, Roberto Barreira. O jovem de 22 anos ficou um mês em Moçambique juntamente com os amigos Bruno Machado, 21, e André Montejano, 22. O objetivo: realizar um fotolivro no país africano que, segundo eles, ao mesmo tempo em que está distante, está bem próximo do Brasil.

A ideia de elaborar um trabalho sobre Moçambique surgiu durante a graduação no curso de Jornalismo da Universidade, em 2013. Depois de assistir a uma reportagem num programa esportivo, que mostrava uma instituição em Moçambique sendo ajudada pelo Palmeiras, clube de futebol paulista, Montejano não teve dúvidas: “Estava determinado em retratar a realidade e o sorriso do moçambicano”, afirmou. Como bom jornalista, o jovem conseguiu o contato da instituição e fez a proposta para os outros dois colegas de classe, que decidiram realizar o fotolivro para a disciplina de projeto experimental, no último ano da graduação- curso concluído em 2014. Bruno Machado, Roberto Barreira e André Montejano partiram para Moçambique no dia 5 de agosto e por lá ficaram durante 30 dias.

Foto: Bruno Machado
Foto: Bruno Machado

Os, agora, ex-alunos, viajaram cerca de quatro mil quilômetros entre a capital Maputo e a província de Zambézia. O fotolivro mostra o cotidiano da população das duas províncias por meio do olhar dos três estrangeiros. Ao todo, os jornalistas fizeram nove mil fotos. Desse número, 82 foram selecionadas para o trabalho acadêmico, que recebeu o nome de “Moçambique Ntiyisso”. (Ntiyisso é uma palavra do dialeto moçambicano, o changana, que possui dois significados: realidade e verdade).

Em Moçambique, os ex-alunos faziam, semanalmente, uma reunião de pauta, que definia o que seria realizado pelos jornalistas. Para conseguir “conquistar” a confiança da população, sem invadir o cotidiano dos moçambicanos que estavam sendo fotografados, os ex-alunos da PUC-Campinas tinham uma estratégia: “Brincávamos com as pessoas, quebrávamos o gelo da situação, conquistávamos a confiança para deixar o ambiente propício para a realização das fotos”, explica Barreira.

Crédito: André Montejano
Crédito: André Montejano

Método de trabalho:

Antes da viagem, os jornalistas realizaram uma breve pesquisa sobre Moçambique. Os ex-alunos puderam notar que há pouca informação sobre o país. “Como o Brasil, nesse sentido, não conhece o país africano, decidimos explorar esse caráter de novidade”, explicou Machado. “Eu preferi não pesquisar muito para não contaminar meu olhar. Fui surpreendido. Imaginava um lugar sujo, abandonado e muito pobre. Porém, pude notar que a capital Maputo é um centro urbano como outro qualquer. E os moçambicanos são muito parecidos com os brasileiros. Então, a gente se via neles”, reflete Montejano.

O trabalho de fundamentação teórica- exigência na disciplina de Projeto Experimental- dialogou com bibliografias sobre ética no fotojornalismo, memória, história oral e antropologia visual. Sob orientação do Prof. Me. Nelson Chinalia alcançou méritos na avaliação geral.

Foto: Bruno Machado
Foto: Bruno Machado

A meta, agora, é lançar uma nova edição do fotolivro, com as imagens que ficaram de fora da edição acadêmica. “Como em 2015 completam-se 40 anos da independência de Moçambique, queremos aproveitar esse gancho para fazer o lançamento. Já temos convite de uma TV moçambicana para mostrar o livro lá. Esse é o novo objetivo”, conclui Montejano.

Confira o vídeo das Crianças da tribo Macena, em Mirerene, uma vila na Província de Zambézia. O dialeto é o Cena, clicando aqui. 

 Crédito: Bruno Machado