Uma boa ideia precisa ser útil?

Por Amanda Cotrim

Uma boa ideia só será comprovadamente “boa” se for útil para a sociedade? A ciência precisa, necessariamente, ter uma utilidade para as pessoas? A resposta para essas duas questões pode ser sim, se considerarmos que a utilidade é um ingrediente para que o homem expanda sua interpretação sobre o mundo e sobre si. Mas a resposta também pode ser não, se a utilidade for atrelada a um valor econômico. “A Ciência propõe soluções para os problemas da vida, do meio ambiente, da sociedade. Esses seriam os ideais nobres da Ciência. Mas sabemos que o desenvolvimento da Ciência está associado, também, a interesses econômicos, militares, estratégicos de países, de grupos políticos, etc”, reflete o Pesquisador em Filosofia da PUC-Campinas, Prof. Dr. Douglas Ferreira Barros. Que continua: “No entanto, é preciso pensar que uma parte da Ciência só tem razão de ser quando ela não se preocupa com o princípio de ‘utilidade’, o que lhe garante, em certo sentido, a liberdade de pensar e expandir o conhecimento”.

Prof. Dr. Douglas Ferreira Barros- Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Douglas Ferreira Barros- Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Arlindo Gonçalves Jr- Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Arlindo Gonçalves Jr- Crédito: Álvaro Jr.

Para o Doutor em Filosofia e docente da Universidade, Prof. Dr. Arlindo Gonçalves Jr, diferenciar o conceito de “utilidade” ajuda a compreender o papel da ciência e da tecnologia na sociedade brasileira atual. “O desenvolvimento da Ciência se dá por meio de um método rigoroso e sistemático; é nesse método que encontraremos a primeira instância da tecnologia, como um meio para o seu desenvolvimento e intervenção”, explica. O Pesquisador Barros complementa que a tecnologia tem a finalidade de aplicação em determinado fenômeno social, a exemplo das Engenharias.

“A tecnologia pode viabilizar o conhecimento científico, como aconteceu com o projeto Genoma, no qual o uso da tecnologia foi fundamental para o desenvolvimento da ciência”, exemplifica o Diretor da Faculdade de Ciências Biológicas da PUC-Campinas e Doutor em Biologia, Professor Edmilson Ricardo Gonçalves. “Dessa forma, ao mesmo tempo em que sem a tecnologia a ciência muitas vezes não consegue avançar, os conhecimentos científicos impulsionam a tecnologia para determinada direção, com o objetivo de contribuir para as necessidades da ciência”, completa. Quem também compartilha dessa relação promissora entre tecnologia e ciência é o Doutor em Engenharia Elétrica e Computação, Professor Carlos Miguel Tobar Toledo: “Não existe tecnologia sem ciência. A tecnologia é fundamental para a realização de pesquisas e para que haja produção de mais conhecimentos científicos”.

O Papel das Pesquisas Básicas

Prof. Dr. Edmilson Ricardo Gonçalves- Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Edmilson Ricardo Gonçalves- Crédito: Álvaro Jr.

Para que o conhecimento científico e tecnológico se desenvolva são fundamentais as chamadas “pesquisas básicas”, isto é, conhecimentos originais que contribuem para o desenvolvimento da ciência, seja para ampliar suas próprias possibilidades ou para a revisão dos seus fundamentos. “As pesquisas básicas geram conhecimentos que podem ser aplicados, mas não necessariamente o são. A doença precisa de um diagnóstico, mas, antes disso, é necessário entender a doença, que é básica. Só com o conhecimento básico é que é possível desenvolver uma técnica para diagnosticar a doença”, explica o Diretor da Faculdade de Ciências Biológicas. “A principal característica da pesquisa básica é que ela está interessada em ampliar os horizontes sobre determinados fatos, fenômenos e dados. Não necessariamente tem uma finalidade aplicativa. Sua razão de existir é para ampliar as fronteiras do conhecimento estabelecido”, explica o Pesquisador Douglas Barros.

Seja o conhecimento básico ou complexo, é possível aplicar o conhecimento científico na vida das pessoas, de forma concreta; essa é uma das funções das ciências aplicadas, que possuem, por sua vez, “uma relação estreita com a produção de tecnologias, sendo seus métodos mais de natureza empírico-experimental”, complementa Arlindo Gonçalves Jr. Um exemplo é o Direito, considerado uma ciência aplicada, mas fomentada por áreas como filosofia, história e política.

Para o Diretor da Faculdade de Ciências Biológicas, é compreensível que a população de modo geral ache a ciência algo abstrato. No entanto, quando a tecnologia é aplicada no dia a dia das pessoas, segundo ele, a sociedade consegue enxergá-la melhor e percebe a sua importância. “Mas isso não quer dizer que por trás não exista uma pesquisa básica e teórica que embasou aquela tecnologia. Ela só não é possível ser vista. Mas existe”, acrescenta. “O trabalho dos cientistas pode ser estar isolado, mas nunca uma pesquisa científica está isolada de um contexto maior, no qual a Ciência se insere no mundo contemporâneo”, ressalta o Filósofo Barros.

A Sociedade e o Conhecimento Científico

Os sentidos de Ciência e Tecnologia são sempre em relação a determinada sociedade. O Brasil, para Gonçalves Jr, ainda não pode ser considerado um país científico, “pois para isso precisaria investir em um modelo suficientemente crítico da própria ciência, a fim de contribuir para o seu desenvolvimento”.

O mais importante, na opinião do professor Gonçalves Jr, é pensar qual é o papel de um país mais tecnológico ou mais científico, no mundo. Países em desenvolvimento e historicamente periféricos, como é o Brasil, sem o impulso de pesquisa básica e aplicada podem contribuir para uma hegemonia de países mais industrializados, sustentada nos poderes econômico, bélico e científico e associado à pesquisas chamadas “de ponta”. “Nesse sistema de tipo “neocolonialista” em termos científicos, o papel de um país “mais tecnológico” e “menos científico” é o de atender demandas que não são as mais urgentes, criar instrumentos, ser criativo sobre os aspectos que não reflitam o aprimoramento da educação dos cidadãos, e, sobretudo, tornar-se consumidor. Caminhamos para atender a uma sociedade globalmente “tecnologizada” em todas as esferas da vida”, critica. “O problema é quando essa imposição reflete a perpetuação da desigualdade”, acrescenta.

Prof. Dr. Carlos Miguel Tobar Toledo- Crédito:
Prof. Dr. Carlos Miguel Tobar Toledo- Crédito: Álvaro Jr. 

A Ciência deve sempre se voltar para as demandas da sociedade, nesse sentido, uma boa ideia precisa ser útil. “Esse é o foco da ciência, o conhecimento dos fenômenos do universo para o benefício da sociedade. O conhecimento científico tem que ser, por natureza, público”, reitera o professor Toledo, Doutor em Engenharia Elétrica e Computação.