Zero no ENEM, humildade zero

Meio milhão de estudantes recebeu nota zero no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), exame que avalia, entre outras, as competências ligadas à produção de uma dissertação. O número causou respostas inflamadas na imprensa: indignação raivosa contra corretores e métodos; lamentos pessimistas quanto à situação do ensino; clamores pelo fim da redação; explicações oportunas sobre a natureza da anulação. Cada uma dessas vozes se apresentou com argumentos mais ou menos coerentes, prefiro aqui me alinhar às últimas, ou seja, comentar o que esses zeros significam de acordo com a lógica do exame e quais hipóteses poderiam explicar as causas do desempenho que causa inevitável desconforto.

Para que uma redação tenha zero, é necessário, excluindo tentativa de sabotar o exame, não seguir o que foi proposto. Na prova 2014, o aluno deveria escrever uma dissertação sobre o tema “Publicidade Infantil em questão no Brasil”, explicado em três textos simples. Portanto, anular, na maioria dos casos, significava não compreender minimamente a proposta, uma vez que há uma escala de pontuação para níveis diferentes de compreensão, e/ou não escrever um texto argumentativo. Não significava, portanto, que o aluno escreveu um texto com problemas na concatenação dos parágrafos, incorreções de grafia.

Se uma porcentagem significativa dos textos revela que alunos do Ensino Médio não conseguiram demonstrar capacidade de cumprir tarefas básicas, estamos diante de um problema nas bases de nossa educação, aliás, bastante sabido e identificado em outras avaliações internacionais de leitura e escrita. Isso é assustador, porque mostra problemas de infraestrutura que parecem não sair do lugar.

Até agora, no entanto, a questão foi abordada de maneira absoluta. Mas, em parte dos casos, pode ter ocorrido uma confusão em compreender e aceitar a delimitação da proposta. Há possivelmente alguns estudantes que consideram o ENEM uma prova autoritária e protestaram não seguindo a proposta, o que é um gesto válido numa democracia. No entanto, elaborar um texto minimamente dissertativo significa também, antes de formar uma opinião sobre um enunciado, entender o que foi afirmado nele.

O que parece uma tarefa fácil, rotineira e óbvia pode estar se tornando rara como prática. O simples gesto de entender o que o outro (a escola, o professor, o aluno, o amigo, o pai) disse ou escreveu tem sido muito difícil nas relações que envolvem o ambiente escolar. As causas podem ser várias: a desvalorização da posição social do professor; a mercantilização das relações escolares, transformando, muitas vezes, alunos e pais em consumidores, e professores e diretores, em prestadores de serviço.

Nesse caso, que pelo menos uma parte desses zeros sirvam de alerta para problemas fundamentais de nossa sociedade. Parece haver alguma proximidade, por exemplo, entre esses problemas e a grande dificuldade que a escola tem encontrado em fazer com que a nova tecnologia disponível seja aplicada numa melhora das competências e habilidades escolares. Por mais que um aluno alcance muitas informações e esteja conectado ao mundo touch, ainda assim parece faltar aprender a aprender. Nem se trata de dizer, como se faz um tanto quanto indiscriminadamente, que os alunos escrevem nas redes sociais, mas usam “vc” em vez de “você”. Talvez, às várias vozes, falte a humildade de tentar entender o básico.

Prof. Dr. Ricardo Gaiotto de Moraes (PUC-Campinas)

Comentários

  1. Apreciei bastante o seu texto, Prof. Dr. Gaiotto. O maior problema que vejo na quantidade de notas zero nas redações é o descaso que tal fato está recebendo de nossas autoridades educacionais. O número é expressivo e, por isso, deveria receber atenção e ser analisado nas suas reais causas e não somente como por ora faz, como também outros experts no assunto o fizeram, em verdadeiros ensaios, mais baseado em opiniões sem os dados mais profundos e detalhados do ocorrido. Os argumentos que surgem apenas baseados no ZERO são inconsistentes, apesar de lógicos e plausíveis. Enfim, sendo repetitivo, faltam dados para uma crítica mais sólida.

  2. Prof. Dr. Diarone, honrado por sua leitura. Sim, sem dúvida esses números são expressivos e, analisados em conjunto com os outros dados do próprio exame, poderiam radiografar os problemas de nossa educação básica que está muito além da escola. E seria necessário fazer algo com essa radiografia, traçar um plano de ação de longo prazo.